Por valores do jogo, UEFA atira a primeira pedra em novo vilão do futebol mundial

AFP

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Cortesia é uma virtude que parece não fazer parte do dicionário de Luiz Adriano.

As imagens do gol marcado pelo atacante do Shakhtar Donetsk (UCR) na vitória fora de casa contra os dinamarqueses do Nordsjaelland (2-5) rodaram o mundo.

Muito menos pela importância da competição, a Liga dos Campeões, do que pelo gesto incomum do ex-jogador do Internacional.

Ainda no primeiro tempo, o jogo é reiniciado depois de atendimento a jogador do time da casa. Willian (ex-Corinthians) chuta para a frente, com a intenção de devolver a bola ao time dinamarquês. Mas Luiz Adriano intercepta o passe do companheiro. Sem marcação, ele parte em direção ao gol, dribla o goleiro, abre o placar e deixa perplexos os 23.000 presentes no estádio Farum Park de Copenhagen.

Um duro golpe no fair-play, mantra absoluto da FIFA, cujas origens remontam a 1986 – ano em que Maradona usou a mano de Diós para eliminar a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo do México.

O episódio desencadeou um movimento de âmbito global em favor da lealdade no futebol. A campanha, que conta apoio da FIFA desde os tempos de João Havelange (condenado recentemente por corrupção na Suíça), é representada pelo slogan My game is fair play. Algo como “meu jogo é jogo limpo”.

Nem os comprovados escândalos relacionados à entidade máxima do futebol e seus dirigentes – histórias para outra ocasião – impediram que aquela mensagem, tão vaga quanto sedutora, estampasse por duas décadas placas publicitárias de competições FIFA.

Mas o que significa jogar limpo?

Agir conforme as regras, mas também conforme os bons costumes do jogo. Tal qual a devolução da bola ao time adversário após atendimento médico, possivelmente o mais nítido mandamento deste código de ética não escrito.

Talvez por isso o gol de Luiz Adriano tenha chocado tanto o meio esportivo, inclusive a União Européia de Futebol (UEFA). A entidade não deixou por menos e anunciou que o brasileiro será julgado nesta terça-feira 27 de novembro. Motivo: suspeita de violação aos princípios de boa conduta de uma entidade que, por sinal, desde 2007 trabalha para melhorar a imagem do futebol sob o comando do francês Michel Platini.

A denúncia tem como base o artigo 5 do código disciplinar da UEFA, que faz menção a princípios de lealdade, integridade e esportividade, e condena aqueles que não observam o fair-play para levar vantagem.

Uma regra que, analisada ao pé da letra, não deixa dúvidas: Luiz Adriano deverá ser punido.

Como contraponto, no entanto, merece registro a reflexão de Antero Greco sobre o tema (“Fair-play e hipocrisia”; O Estado de São Paulo, 23/11): deselegância à parte, é fato que o atacante não violou regra objetiva, mas princípios imprecisos.

Ainda assim, não apenas pela deselegância do ato em si considerado, mas também por sua consequência prática (o gol), a aplicação de punição exemplar ao brasileiro parece ser a solução mais indicada ao caso.

Uma punição que apenas será instrutiva, e não moralista, se não representar solução isolada; se outras condutas igualmente infames, como a simulação, não forem ignoradas no futuro; e se a UEFA lutar tanto pela implementação do tal fair-play financeiro (ajuste das contas dos clubes) quanto pela moralização do jogo dentro das quatro linhas.

Se tudo isto não ocorrer, Luiz Adriano terá sido apenas mais um bode expiatório do futebol midiatizado.

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Atualização:  De fato, Luiz Adriano foi sancionado pela UEFA. Suspenso por uma partida, o atacante desfalcará sua equipe no confronto em casa contra a Juventus (ITA), pela Liga dos Campeões da Europa – já classificado, o Shakhtar precisa de um empate para avançar às oitavas de final como primeiro colocado. Além cumprir um jogo de suspensão, o brasileiro deverá prestar serviços por um dia em instituição de caridade para purgar sua pena.



Bombas, adiamento e repressão: a luta argentina contra a violência nos estádios

Buenos Aires (Argentina) - O Independiente recebe o Belgrano em Avellaneda, Grande Buenos Aires. 18º no Torneio Inicial do Argentino, o heptacampeão continental perde por 1 a 0 no intervalo. Antes do reinício da partida, Juan Carlos Olave, o goleiro dos visitantes, é alvo de bombas, pedras e cadeiras provenientes do setor popular do estádio Libertadores de América. Um dos morteiros cai a poucos passos do arqueiro, o único a estar próximo dos torcedores – os gandulas evacuaram o local antes do incidente. Com as mãos na orelha esquerda, ele termina deitado no gramado.

Certamente, uma prova de força para a organizada do Independiente na queda de braço contra a atual direção do clube de Avellaneda – diferentemente da última gestão (e de parte da classe política argentina), o presidente Javier Cantero declarou guerra contra as chamadas barrabravas.

Se fosse no Brasil, o episódio renderia punição severa ao time da casa, que além dos pontos da partida perderia mandos de campo. No país vizinho, contudo, o Reglamento de Trasgresiones y Penas permite que o jogo seja retomado em nova data (provavelmente 28 de novembro). O clube será apenas advertido e não haverá punição esportiva.

Mas se o Rojo deve sair ileso do caso, o mesmo não ocorrerá com alguns dos responsáveis pelos atos de vandalismo.

Ao menos desta vez, as autoridades argentinas agiram imediatamente.

Resultado: com trabalho de inteligência policial (análise de vídeos e fotos), foram presos dois torcedores na última quinta-feira, menos de 24 horas após o ocorrido.

O chamado derecho de admisión, confere aos clubes argentinos poderes para barrar dos estádios presenças indesejadas. Se os dois detidos não integravam a lista do Independiente, não era por falta de currículo.

Um deles é Ricardo Pavone, o “Gordo Richard”. Até o ex-presidente Nestor Kirchner, falecido em 2010 e acusado de apoiar organizadas em troca de apoio político, repudiaria foto disponível na internet em que aparece ao lado do chefe de torcida: uma companhia nada enobrecedora, em cuja casa a polícia apreendeu arma calibre 32, além de pequena quantidade de cocaína.

Na verdade, “Richard” lidera a torcida do San Telmo (9º colocado da terceira divisão nacional), o que não lhe impede de difundir seu know-how por outras bandas: entrevistado em documentário do Canal + espanhol, entre demonstrações de como manejar armas de fogo, ele revela estratégias para impedir a continuação de uma partida. Algo como um manual de vôo.

O outro preso, cujo nome não foi divulgado, seria um jovem cadeirante. O uso da cadeira de rodas para ingressar com explosivos no estádio é apenas uma das estratégias da dupla, também acusada utilizar crianças para cometer atos ilícitos.

Por uma vez, o raro exemplo vindo da Argentina serve como lampejo de otimismo: sim, na América do Sul também é possível empreender ações efetivas não contra entidades abstratas, mas contra responsáveis diretos pela violência no futebol.

Tentativa válida, resultado previsível

Não houve surpresa. Por nove votos a zero, o pleno do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) negou provimento ao pedido de impugnação de partida feito pelo Palmeiras. O clube não conseguiu provar que o árbitro Francisco Carlos Nascimento cometeu erro de direito ao anular gol (de mão) anotado por Barcos. Como não cabe recurso, está confirmado o placar da derrota Alviverde para o Internacional (2-1).

O resultado do julgamento não invalida os legítimos esforços do clube. Não foram poucos os que se opuseram à tentativa de anular o jogo. Principalmente por interpretarem o processo menos como uma luta pelo respeito às regras do jogo do que como uma forma desesperada de permanecer na Série A do Brasileiro – segundo o matemático Tristão Garcia, as chances de rebaixamento elevam-se a 97%.

Sem entrar no mérito da real motivação palmeirense, a ampla cobertura acordada pela imprensa ao caso atribui-lhe importância que vai além da luta por três pontos no Brasileiro: o tema da discussão resvala, direta ou indiretamente, em questões estruturais tão polêmicas quanto atuais.

Primeiro porque o caso, originado por um juiz incapaz de ver nítido toque de mão, reforça a necessidade de ações para melhorar a arbitragem nacional.

E segundo porque, indiretamente, o imbróglio relançou o debate sobre o uso da tecnologia no futebol. Um tabu para a FIFA e os puristas do jogo; uma necessidade para os defensores de uma suposta modernização da modalidade.