Samba de uma nota só

Djalma Vassão/Gazeta Press

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A batalha entre os jogadores do Tigre e as forças de segurança do Morumbi não retira os méritos do São Paulo nem azeda o sabor da primeira conquista do clube após quatro anos de jejum.
Futebol à parte, o incidente responsável pelo encerramento da finalíssima da Copa Sul-Americana antes do início do segundo tempo expõe arcaísmos do futebol que fala espanhol.
Meses após o adiamento do Superclássico das Américas por falta de luz, argentinos e brasileiros protagonizaram um novo vexame futebolístico internacional. Desta vez, com o selo da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol).
Produto de qualidade, embalagem de terceiro mundo.
Dentro de campo, violência contra os são-paulinos não coibida pela arbitragem – a cotovelada que fez Lucas sangrar sequer rendeu cartão amarelo a Orban.
Fora de campo, pedradas sobre os argentinos na chegada ao Morumbi, falta de cavalheirismo (proibição de reconhecimento do campo de jogo e de aquecimento no gramado), invasão ao gramado por torcedores e… pancadaria nos vestiários do estádio.
Talvez nunca se tenha real dimensão daquilo que ocorreu ao final do primeiro tempo, eis que as versões brasileira e argentina são essencialmente divergentes.
Provavelmente ninguém explicará se o abandono do Tigre foi motivado por real temor ou por estratégia de vitimização em vista de um quadro quase irreversível – perdendo por 2 a 0, o time da grande Buenos Aires precisaria de dois gols para forçar a prorrogação.
O São Paulo, que não participou da confusão e se apresentou para o reinício de jogo, foi legitimamente declarado campeão: o árbitro, cuja decisão é soberana segundo as regras do jogo, entendeu existirem condições para o reinício da partida.
E, contrariamente ao divulgado por certos veículos de imprensa, o regulamento da
Libertadores 2012, também aplicável à Copa Sul-Americana, respalda a decisão do corpo de arbitragem.
O documento prevê que “caso uma equipe abandone o campo de jogo negando-se a finalizar a partida, perderá os pontos e será passível de multa a critério do Comitê Executivo da Confederação” (art. 15.4).
A Copa foi erguida, mas a história da conturbada final não pode ser esquecida.
Que o episódio seja tratado como divisor de águas, e provoque revolução institucional na Conmebol.
A começar pela implementação de um tribunal esportivo para a resolução de questões técnicas e disciplinares decorrentes das competições organizadas pela entidade.
Anunciado no início do ano, o projeto ainda não saiu do papel. Enquanto isso, quem julga ainda é o comitê executivo da confederação.
As decisões deste órgão politico, cujos membros não têm formação jurídica obrigatória, são pouco técnicas e uniformes. Críticas de longa data, sobretudo de brasileiros, são dirigidas à clemência habitual do comitê quando o assunto é violência dentro ou fora do campo de jogo.
Cartões amarelos que valem 100 dólares (há décadas) e não rendem suspensão aos atletas retratam bem o espírito da Conmebol.
Impunidade que convida à violência.
Uma explicação para os velhos vícios que o futebol da região ainda não eliminou.

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