Bonitinha, mas…

Foto: AFP

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Quatro dias depois da tragédia de Santa Maria, por pouco o Rio Grande do Sul não foi palco de outro incidente com vítimas fatais por responsabilidade de autoridades e entidades privadas.

Em seu primeiro jogo oficial, a Arena Grêmio explodiu aos 16 minutos do segundo tempo com o gol marcado por Elano, que levaria aos pênaltis a disputa contra a LDU (EQU) por uma vaga na fase de grupos da Libertadores (ao final, 5 a 4 para os gaúchos).

Assim como faziam no Olímpico, os torcedores situados nas populares do novo estádio comemoraram com a tradicional avalanche, correndo arquibancada abaixo em direção ao gramado. Com a pressão da massa, o alambrado do setor cedeu e feriu 11 pessoas (sem gravidade) após queda no aparentemente obsoleto fosso que separa o campo das tribunas – raros são os estádios erguidos recentemente que se valem deste artifício para reduzir o risco de invasões.

Fosso à parte, vale lembrar que o projeto original da nova Arena foi alterado por pressão de torcedores e até dirigentes gremistas, preocupados em preservar o costume, historicamente argentino, de correr em direção ao alambrado: na contramão de práticas modernas, a Grêmio Empreendimentos entrou em acordo com a Brigada Militar do Rio Grande do Sul para… evitar que se instalassem cadeiras no setor ocupado sobretudo pela organizada Geral do Grêmio. Objetivo: menos conforto, mais 5.000 lugares e, supostamente, mais emoção.

Se por si só a avalanche já não é hábito dos mais prudentes, a frágil estrutura do estádio estimado em R$ 540 milhões contribuiu com o ocorrido ao mostrar-se insuficiente para garantir minimamente a segurança do torcedor. E Brigada Militar, que antes cedeu à pressão do Grêmio e agora volta a pedir o fim da avalanche, foi nitidamente negligente.

Fosse uma competição nacional, o clube seria provavelmente punido pela justiça desportiva. O novo tribunal disciplinar da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), no entanto, dificilmente analisará o caso: ao estabelecer punições por “comportamento inadequado da torcida”, o artigo 11 do novo código disciplinar não é claro ao tratar de incidentes que não causam prejuízos diretos à equipe adversária.

Em tempo: ao final de janeiro de 2013, a entidade ainda não publicou em seu site nem o regulamento da atual edição da Copa Libertadores, nem o código que deverá reger as competições continentais. Novos tempos?

5 comentários em “Bonitinha, mas…

  1. Dr. Jean, o Grêmio cometeu um erro enorme de doutrina. O Clubeo Atlético Paranaesne, com a sua pioneira ARENA, foi muito criticado, durante a sua boa fase de 2000 a 2006, porque elevou o preço dos ingressos, preencheu todo o estádio com cadeiras e tentou restringir as cotas de ingressos dos adversários. Tudo isso, ainda que ao custo de reduzir a capacidade do estádio. Chegou-se a sugerir clássico de uma torcida só. Fomos chamados de elitistas pela crônica esportiva e não pudemos disputar a final de libertadores em casa, pelo regulamento da Libertadores. Pensamento atrasado, de quando a vida e a dignidade humanas valiam menos. Do tempo em que a folha de salários não consumia 80% das elevadas receitas dos clubes. Trocar segurança e conforto por “emoção”, num espetáculo que custa cada vez mais caro e pode ser visto pela TV, não faz o menor sentido. Sem falar nas externalidades: a cada clássico efetivos imensos da PM mobilizados em favor de um evento privado de entretenimento, em prejuízo de toda a sociedade. Ontem, mais gente no pronto-socorro público, no pior momento possível para o RS. Sem sarcasmo, não poderia ser mais oportuna a reflexão sobre deixarmos de tratar torcedores e consumidores feito boiada. Avalanche e soberba, dois péssimos costumes dos argentinos imitados do lado de cá da fronteira.

  2. Raramente respondo a comentários em blogs pela internet, já que a maioria do público não respeita a opinião alheia. Só gostaria de parabenizá-lo pelo comentário! É a mais pura verdade, infelizmente!

  3. Parabéns,Dr. Jean!!

    Fosso à parte, …..
    Reflexão, sobre os regulamentos da construção de infraestrutura dos Estádios , onde não é mais permitida a construção do fosso,como é o caso dos regulamentos da UEFA, onde este tipo de obra está proibida . Justamente neste momento em que o Brasil, se empenha a todo custo , preparar-se para a Copa 2014, assistimos torcedores, sendo tratados como animais , pois somente isto justifica ainda a presença deste tipo de obra.
    Alegar, medida de segurança , contra invasão de campo , sinceramente é atestar a incompetencia para tratar também do tema segurança dos Estádios. Cuidam de elitizar a venda de ingresssos para torcedores mais abonados. E quem disse que estes não são ,inclusive os mais violentos?

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