
A goleada do Barcelona (a maior da história em finais deste torneio) não foi apenas uma simples aula de futebol. Tomamos uma surra tática, técnica, física e psicológica – além de um chacoalhão violento para cairmos numa realidade que o brasileiro não consegue encarar: não temos mais, há tempos, o melhor futebol do mundo!
Depois do Carrossel Holandês que reiventou o futebol ao mundo, o Barça mostrou que este esporte exige profissionalismo, cultura, seriedade, administração, filosofia de trabalho, macro e micro ciclo de treinamentos (em todas as áreas) com monitoramento realizado por profissionais qualificados.
O Santos, por sua vez, poderia ter feito um pouco mais nos noventa minutos. Por outro lado, sem um departamento de Psicologia atuante e capacitado por profissionais das psico e neurociências do esporte – como no caso do Barça – a equipe de Muricy Ramalho entrou com as pernas pesadas – aliás, comum em equipes brasileiras que disputam o mundial interclubes da Fifa. Visivelmente nervosos e pouco concentrados, os jogadores do Santos perderam o rumo diante da correria mais objetiva, envolvente e impressionante que já vi num time de futebol. O que mais preocupa é que o próprio Santos figura, atualmente no cenário nacional, entre os melhores times brasileiros.
Precisamos baixar nossa bola, amigos! se não tivermos a humildade necessária neste momento, para refletirmos e mudarmos tantas coisas erradas no nosso combalido futebol, certamente perderemos ainda mais espaço para os clubes e seleções européias.
Pensem no seguinte: poucas semanas antes do Mundial, o time do Barcelona atuou com sua equipe principal nos torneios locais. O Santos, por sua vez, abandonou o Brasileirão – colocando os titulares para “descansar”. E a parte psicológica? O Santos (e a esmaagadora maioria dos times no país) não aposta numa preparação psicológica, motivacional e emocional adequada e científica. Como muitos outros clubes costumam fazer, contrata psiquiatras e leva humoristas para descontrair o ambiente dos atletas. O resultado deste “trabalho” me parece óbvio.
Outro fator que me parece relevante: 9 dos 11 jogadores titulares do Barcelona cresceram e se desenvolveram no clube catalão. Aprenderam a cultura e filosofia da instituição. E o melhor: a custo zero para o clube! Por aqui a coisa é bem diferente! Mesmo que muitos clubes tenham atletas formados em suas bases, nossa cultura ainda privilegia a formação de craques e não de equipes.
Pepe Guardiolla afirmou, após o jogo que seus pais sempre lhe diziam que o futebol ágil e rápido na posse de bola dos brasileiros deveria ser copiado. Foi tão bem xerocado que eles, hoje, nos fizeram lembrar o quão longe ficamos de nossas bases e origens futebolísticas.
Por aqui, muita gente reclama que as televisões ficam passando os jogos da Champions League . Será que preferem assistir aos jogos contra Gabão, Catar, Uzbequistão em estádios que praticamente não tem nem gramados? Pois é – planejamento é algo que foi para terceiro, quarto, quinto plano na CBF.
Mano Menezes, ao assumir a Seleção, colocou a criação de um departamento de Psicologia Esportiva como prioridade. Faltam poucos meses para a Copa das Confederações e o projeto, pelo visto, ficou para sexto plano.
A verdade, amigos, é que ainda estamos no ginásio do futebol , enquanto tem muito time e seleção por aí que já é livre-docente (pós-doutores). O que mais me assusta é que o continuismo desta filosofia ultrapassada no Brasil tende a permanecer. Ainda buscamos ídolos que nos representem nos gramados (e fora deles!) , esquecendo que, dentro de campo, o ídolo não sobrevive sem um todo, uma unidade que atua dentro de uma engrenagem que privilegia o espírito de grupo e coesão de interesses. Vejam o Messi na Argentina. Quando ele atua pela seleção, não consegue nem 40% de seu potencial. Será que é tão difícil assim encontrar a resposta sobre esta diferença de performance?
Constatar é fácil. Fazer é que são elas. Não montaremos “Barcelonas” da noite para o dia, mas é preciso começar por algum lado. A fiolosofia institucional e concepção de preparação esportiva (áreas de atuação) devem ser repensadas e alteradas com critério e bom senso. Após cair a ficha do baile que levamos na final do Mundial, é preciso reconsiderar algumas questões sumariamente ignoradas pelos nossos dirigentes que ainda vivem em períodos jurássicos e vaidosos – sonhando que ainda temos o melhor futebol do mundo.