Brasil – há tempos: “o país do vôlei”

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Enquanto o futebol consegue contar até cinco – há bastante tempo não consegue passar desse número – (PENTA – figura geométrica com cinco lados – cinco títulos mundiais) – o voleibol está revolucionando o conhecimento do brasileiro sobre essa ciência tão exata como abstrata – a se considerar a administração, conhecimento e evolução no treinamento esportivo – 10 mil anos à frente do futebol – resultado: é DECACAMPEÃ (DEZ vezes) do Grand Prix de volei feminino.

Além disso, já conquistou a medalha de ouro olímpica – tanto no feminino, como no masculino (o futebol olímpico nunca ganhou essa medalha – aliás, um novo fantasma a ser encarado nas próximas Olimpíadas).

O vôlei aposta no trabalho psicológico desde as categorias de base (nada de convocar psicólogos em caráter emergencial – por lá, essa área da preparação é valorizada como se deve : bom senso, conhecimento, tempo, promoção e prevenção de saúde em todas, eu disse, TODAS as áreas!) – formando atletas vencedores – além de priorizar metodologias extremamente atualizadas de treinamento e concepção de esporte.

Parabéns ao treinador José Roberto Guimarães – e sua equipe de atletas e profissionais que dignificam o esporte brasileiro com seriedade – profissionalismo, ética, conhecimento e valorização dos aspectos esportivos e humanos dos atletas.

Pena que o brasileiro só consegue enxergar uma bola – enquanto outras nos trazem títulos e consagram trabalhos sensacionais que deveriam servir de modelos para o futebol e dirigentes.

Valeu, meninas! Vocês nos representaram com amor – equilíbrio, dedicação – força e garra.
Podem chorar: agora é a hora e o momento de vocês.

Ensinem os meninos do Felipão: extravasem de verdade!

Guilherme Murray: atleta e ser humano de verdade

guiEstamos acostumados aos espetáculos teatrais de jogadores de futebol que adoram levar vantagem nos lances – simulam penalidades, fazem cera – brigam, ferem o espírito esportivo, se envolvem em escândalos sociais e, assim, criam um ambiente distante para serem exemplos aos mais jovens atletas.

Ainda assim, somos brindados por exemplos magníficos de garotos que dão lições de respeito, correção, ética, justiça e cidadania. E hoje, quero demais agradecer o jovem esgrimista Guilherme Murray.

Guilherme Murray tem 11 anos e está disputando o Campeonato Pan-americano de Esgrima pelo Brasil, em Aruba, no Caribe, numa categoria dois anos acima de sua idade. Portanto, um desafio ainda mais agudo para suas ambições. Pois bem, hoje ele foi eliminado nas oitavas de final. Perdeu de 10 a 9.

O detalhe é que, quando o jogo estava 9 a 9 – o árbitro apontou – equivocadamente, um ponto a favor de Guilherme, o que resultaria em sua (injusta) vitória. Após essa marcação – Guilherme foi ao árbitro e disse que havia um engano, que ele não havia tocado o adversário. Conclusão: o árbitro tirou-lhe o ponto e o menino deixou as pessoas impressionadas com seu espírito olímpico.

Um garoto, no meio dos grandes , que poderia estar entre os oito melhores da América, vai ao árbitro, comunica o erro e é eliminado da prova por sua atitude, ao recusar um ponto que não era dele.

Também fruto dos ensinamentos de ética no esporte que os Mestres Régis Trois, Ricardo Ferazzi e Carla Evangelisti professam na sala de esgrima do Club Athletico Paulistano. Afinal, antes de formarem atletas, se preocupam em formar pessoas de caráter.

Meus sinceros parabéns também aos pais de Guilherme – agentes fundamentais nos ensinamentos, formação do caráter e da identidade do jovem atleta e ser humano.

Sou testemunha desse processo por já ter trabalhado com esgrimistas do mesmo clube. A preocupação maior, sem dúvida, é com o espírito esportivo e na formação de seres humanos capacitados para interagir positivamente no universo social.

Hoje Guilherme Murray, campeão brasileiro, sul-americano, e de tantos outros torneios nacionais e internacionais, saiu de Aruba mais campeão do que nunca.

Que sirva de exemplo para muitos marmanjos – políticos, treinadores, jogadores , dirigentes de clubes, profissionais e tantos outros que estão por aí – e que adoram tirar proveito em tudo!

Especialmente quando medalhas, troféus, status, poder e dinheiro estão em jogo.

Valeu, Guilherme! Você representa, com muito talento, a concretização do desejo de muitos que lutam por um esporte de verdade e COM verdade!

(Fonte: Blog do Juca – Uol)

O escuro labirinto financeiro do futebol

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No Brasil, o futebol é – sem dúvida, a modalidade que pior trabalha com a noção de “esporte empresa”. Fico impressionado ao acompanhar a velocidade com que atletas trocam de camisas de clubes. Jogador chega no clube, atua 10 ou 12 partidas e logo é comercializado com outras equipes. Não há tempo de adaptação. Ou o sujeito arrebenta dentro de campo ou é rua. Não tem direito a fase ruim ou período de adaptação. A coisa é feita no laço: pegar ou largar.

Curioso é que esse estilo “fast food” – originalmente, vem dos Estados Unidos e é lá que, justamente, os dirigentes esportivos estão realizando projetos a longo prazo no futebol , incluindo a modernidade na preparação de atletas – periodização dos treinamentos – estabelecimento de metas – um marketing bem adequado ao crescimento e popularização do esporte. Ou seja:o investimento focado nos processos de formação de jogadores e técnicos – além da preocupação com o profissionalismo total na geração do espetáculo no mundo da bola. Aguardem os americanos nas próximas duas ou três Copas do Mundo.

Por aqui, fica difícil – de fato, pensar em trabalhar os aspectos humanos de um jogador de futebol partindo do princípio que eles quase não conseguem esquentar o uniforme de um time – além, claro, da mentalidade absolutamente retrógrada de boa parte dos dirigentes e treinadores que simplesmente desconhece (ou concebe com preconceito, senso comum e desinformação) os benefícios gerados por um programa de Psicologia do Esporte a longo prazo e com métodos científicos e modernos.

No Brasil, a política e cultura vigentes não permitem (e não concebem) a elaboração do futebol num programa de profissionalismo estratégico – em todas suas áreas. Jogadores e técnicos ganham fortunas com as multas rescisórias – jogos andam entendiantes e desinteressantes (eu mesmo não consigo mais ficar 90 minutos diante de uma televisão).

Enquanto isso, outras modalidades estão crescendo no país – com atletas altamente talentosos e comprometidos – mas que ainda necessitam de apoio financeiro para competir e brilhar no cenário internacional.

Pessoalmente, acho uma pena – e até certo ponto – patético, acompanhar esse mundo do futebol tentando, a todo custo (e com o dinheiro do povo), manter o coração cultural do brasileiro batendo – na UTI – cercado por médicos que tiraram suas licenças por correspondência.

 

Neymar é repreendido no Barça : exagerou na exposição

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*Aos fãs de Neymar e admiradores de seu futebol: muita calma! Essa é apenas uma reflexão sobre o comportamento de um jogador que pode atrapalhar sua carreira.

Muito mais que – indiscutivelmente –  um grande jogador, Neymar tem sido um ótimo visitante nas colunas sociais dos jornais de todo o mundo. E não é pra menos. O atleta, fotografado nas festas no Japão, no seu barco em Ibiza repleto de amigas e amigos, nas discussões adolescentes com a namorada e nas postagens sem fim no instagran – expõe demasiadamente sua vida pessoal e foi repreendido pela cúpula do Barcelona na reapresentação dos atletas. Lá, o pessoal zela pela imagem da instituição e o jogador é um dos ícones do mega time espanhol.

Além de tudo isso, uma coisa me chamou a atenção. Menos de 30 dias depois de sermos massacrados pela Alemanha, Neymar aparece abraçado com Bastian Schweinsteiger na festa de aniversário do meia alemão que, por sinal, também foi para Ibiza passar férias. Aqui creio que existe (mais) uma questão de bom senso – ou da falta dela (as fotos refletem melhor minha sensação de estranheza).

Com a irmã e as amigas (uma delas fazendo carinha de triste mostrando sete dedinhos em referência à goleada de 7 a 1) – Neymar poderia ter poupado sua imagem (e a nossa também). Tudo bem, jogadores podem ser amigos (e são) – fora de campo o jogo já terminou – ok! – mas poxa, não dá para esperar o defunto esfriar, não? Sair abraçando um dos algozes do maior vexame do futebol brasileiro é, no mínimo, uma falta de coerência e capacidade de raciocínio e bom senso do indivíduo.

Nessa hora, gostaria de ouvir a opinião do Sérgio Ramirez ex-jogador uruguaio – que defendeu a Celeste com raça, amor e dedicação. Protagonizou aquela cena antológica no Maracanã quando correu atrás do Rivelino – ao final da partida e após tantas provocações do brasileiro. Rivelino chegou a escorregar nas escadas de acesso ao vestiário. Trabalhei com Ramirez quando ele foi treinador do Ituano. Tenho certeza que ele reprova a atitude do Neymar e parece que até ouço o amigo uruguaio dizendo: “um absurdo! falta de patriotismo e respeito com o seu povo!”. Não precisa ir muito longe: vocês conseguem imaginar algum jogador da Argentina, por exemplo, festejando com um alemão e tirando fotos para colocar nas redes sociais ao lado de amiguinhas brincando com a derrota da Seleção? Como se diz no interior: “tem mas demora!”. O sujeito nem volta pro seu país!

Alguém precisa orientar esse garoto. Por mais genial que possa ser o seu futebol – ele será cobrado exatamente na medida (ou até além) de sua exposição. E uma hora, acreditem, o talento pode não estar a altura de tanta farra e ostentação.

Com os milhões de euros que ganha por ano – o jogador tem todo o direito de se divertir – com responsabilidade e privacidade. Certamente não lhe faltam recursos financeiros que garantam diversões com menos exposições que desgastam sua imagem e colocam em cheque sua condição de ídolo.

Por hora, ainda se garante dentro de campo – mas friso: corre o sério risco de desgastar – desnecessariamente – sua imagem e pagar um alto preço por isso.

A tenista Lepchenko e o medo do sucesso no esporte

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Serena Williams garantiu a vaga para a final do WTA/Stanford ao vencer Andrea Petkovic . Na outra semi final, a vitória foi da alemã Angelique Kerberque venceu a norte americana Varvara Lepchenko .

Na semi final entre Kerber e Lepchenko – ocorreu uma descarga emocional muito semelhante àquela vivida pelo brasileiro Thomaz Bellucci – quando estava com o jogo ganho diante de um tenista israelense, e na rodada seguinte, enfrentaria Roger Federer. Automaticamente, o brasileiro começou a enxergar o suíço do outro lado da quadra. Resultado: tomou a virada do adversário e deu adeus ao torneio.

O caso de Lepchenko foi rigorosamente o mesmo! Ela venceu o primeiro set por 6×4 – no segundo vencia – com folga, por 5×2 quando – subitamente começou a imaginar que enfrentaria Serena Williams na final do torneio.

Uma verdadeira PANE emocional e psicológica tomou conta da americana que perdeu o segundo set no tie break. No terceiro set – quando a alemã abriu 4×1 – Lepchenko desabou num choro comovente e fora de hora (parecido com os jogadores da Seleção Brasileira) com o rosto coberto pela toalha. Não teve jeito: a alemã fechou o set por 6×2 e enfrentará Serena na final do torneio.

A trajetória de Lepchenko – uma esforçada tenista de 28 anos – é marcada por diversas tentativas frustradas de conquistas de torneios. Parece que existe uma distância imensa entre seu desejo e a possibilidade de êxito nos resultados.

No tênis – e em outras modalidades – estudamos o que os cientistas norte americanos passaram a chamar de “fear of success” (medo do sucesso) – um dos fenômenos comportamentais mais comuns dos últimos tempos na história esportiva mundial. Talvez, uma perigosa autossabotagem – quase sempre imperceptível e que demanda atenção para que não transforme esse comportamento numa crença central que liga a performance às derrotas programadas por esse perverso mecanismo.

Vale ressaltar que entrar na quadra para vencer é bem diferente do que jogar para não perder. Na prática, o olhar e a atitude dos atletas são capazes de determinar o rumo de uma partida e de um torneio.

Mas, afinal, onde está esse medo que torna refém atletas com corpos de aço e a base de barro?

Felipão e o breve retorno ao futebol brasileiro

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Hoje recebi o telefonema de um grande jornalista me perguntando se o Felipão está preparado para retornar ao futebol após o vexame da Copa. Abaixo, minha resposta.

Esse é um ponto que depende demais de cada vivência e como ela é elaborada internamente. Se quem viveu a experiência traumática (?), entende que precisa de um tempo para superar, aprender com os erros, remodelar e se modernizar – é prudente dar um tempo – estudar, ver as novas tendências do futebol mundial (caso do Tite e outros treinadores que se afastam voluntariamente) para, depois, assumir um novo time.

Quando o indivíduo está convicto que o ambiente precisa mudar e não ele (treinador) – aí é comum aceitar o convite e dar continuidade ao que vinha fazendo desde o Uzbequuistão – Palmeiras e Seleção Brasileira.

No caso do Felipão, em especial, creio que seria prudente ele preservar um pouco mais a imagem – deixar as pessoas digerirem a Copa . Ao mesmo tempo, procurar novas informações e tendências no futebol mundia. Não é, infelizmente, o caso dele que sempre entendeu (e entende) que está certo – que seu modo de ver o futebol é absoluto.

Nesses casos, amigos, não há nada que a Psicologia do Esporte possa fazer – a não ser constatar – mais uma vez – a necessidade de mudança na concepção de atleta e ser humano – além do fenômeno esportivo – na lente ultrapassada desses treinadores.

Boa sorte aos torcedores do Grêmio. Emoções não irão faltar no retorno do Big Phill ao tricolor dos Pampas!

João Carvalhaes: um visionário do esporte

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Muitos atribuem, de forma totalmente equivocada, o preconceito dos dirigentes do futebol em relação à Psicologia do Esporte por conta do trabalho desenvolvido pelo Prof. João Carvalhaes nas décadas de 50 e 60 no futebol brasileiro – quando reprovou Mané Garrincha no teste psicotécnico (único instrumento que havia na época para traçar o perfil psicológico) e o jogador foi uma das grandes estrelas do Mundial do Chile, em 1962 – na conquista do bicampeonato mundial da Seleção brasileira..

O que pouco se diz (e explica) é que as informações analisadas na aplicação do teste já demonstravam as tendências comportamentais do ser humano Mané Garrincha – que, como todos sabem, morreu de cirrose hepática por conta do alcoolismo. Quantos jogadores o futebol brasileiro continua perdendo por conta dos desvios sociais de conduta – desequilíbrio emocional e sociofamiliar? Vale pensar, certo?

Os fundamentos básicos e científicos da Psicologia do Esporte passam – obrigatoriamente – pelo contexto humano e pessoal dos atletas, suas interações com o mundo interno – universo social e expressão de suas crenças e culturas do comportamentais.

É hora de atribuir ao Prof. Carvalhaes – o valor merecido por sua obra e coragem: um homem de vanguarda – pessimamente compreendido por conta das teias finas do senso comum – da ignorância insistente dos dirigentes e de boa parte dos treinadores de futebol , do pobre e superficial contexto e concepção de atleta e ser humano nesse esporte.

Sessenta anos se passaram e o panorama da Psicologia do Esporte no futebol parece ser o mesmo. Só mudaram os personagens. Certamente, onde estiver, o prof. João Carvalhaes deve estar pesaroso diante das atrocidades e desrespeitos com que essa ciência especial e fundamental na preparação esportiva tem sido tratada e concebida no futebol – tanto pelos mandatários desse esporte como, infelizmente, por alguns dos colegas que insistem no reforçamento de ideias rasas e que depõem contra a evolução e cientificidade da Psicologia Esportiva brasileira.

 

 

Qual sua lógica, CBF?

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Qual a lógica, CBF?

Ney Franco – ainda que esteja vivendo um momento complicado no Flamengo, ganhou praticamente TUDO o que disputou quando treinou a equipe sub-20 da Seleção Brasileira. Se a CBF vive o romance do “Eterno Reencontro” – não seria o caso de chamar o Ney novamente em vez de apostar no Galo que não tem um título sequer de expressão na carreira de treinador? Será que estão lembrando do tal “fantasma do ouro olímpico jamais conquistado pelo Brasil? Pois é. O Galo dará conta dessa tarefa?

O Dunga vai precisar de uma paciência que – aqui entre nós – não sei se ele terá. Até porque, em sua primeira passagem na Seleção, acumulou inimizades e bateu de frente com gente grande – que detém o poder. É preciso entender o significado de “política” – mas, pelo que vi hoje na sua primeira coletiva, acho bem difícil que ele tenha mudado tanto em 4 anos.

Fica claro que a CBF – no discurso de que “futebol retranca é também futebol arte” – chamou o Dunga – em primeiro lugar, para o Brasil parar de sofrer tantos gols. É como se – dessa forma, pretendesse estancar o sangramento do machucado aberto pelo nobre Felipão (nada que eu não estivesse dizendo há pelo menos 1 ano e meio). Dunga certamente armará uma equipe repleta de volantes e uma zaga forte. O ataque ficará em segundo, terceiro, décimo plano.

Hoje foi falado muito em “controle emocional” na coletiva do treinador. Será que, uma vez mais, a simples constatação que nossos jogadores são carentes dessa preparação encerrará o assunto, como sempre tem ocorrido no futebol brasileiro?

Sabem aquele ditado “gato que toma tijolada não dorme em olaria?”.
Pois bem. Somos, hoje, 200 milhões deles.

Dunga e os traumas do futebol brasileiro

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A nomeação do treinador Dunga para comandar a Seleção Brasileira já tem data e local: 3ª feira, dia 22 de julho, às 11 horas, na CBF. Muitos não aprovam o retorno de Dunga e entendem que pouco (ou nada) mudará com o novo mandato do capitão do Tetra. O que mais me fascina nesse processo é a evidente dificuldade sociocultural do nosso povo em virar a página e iniciar novas histórias e etapas no esporte e fora dele.

Nos Estados Unidos, ao longo de vinte anos, os americanos – através do talento cinematográfico de Oliver Stone – filmaram – em incessantes produções, a catástrofe vivida por aquele povo na guerra do Vietnã.

Apesar de não ser psicanalista – atuo com a Psicologia Esportiva e entendo que uma ciência tão jovem necessita abertura, expansão e contribuição de todas as áreas do pensamento psicológico que possam “conversar” com o esporte.

Por exemplo, no texto “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914), Freud apresenta as novas recomendações sobre a técnica da psicanálise e retrata, basicamente, a importância de acompanhar e conduzir o paciente no processo da recordação de traumas e experiências emocionais que o paciente não consegue se lembrar – procurando conhecer e interpretar as suas resistências – uma vez que há situações em que o paciente esquece ou reprime alguma(s) vivência(s), mas a(s) expressa pela atuação. Ou seja, em vez de recordar, o paciente age, sem saber o que faz ou porque faz. Reproduz não como lembrança, mas como ação, sem saber que está repetindo.

O mesmo parece acontecer com o futebol brasileiro. A cada dois ou três anos, o treinador Muricy Ramalho chega ao São Paulo – Marco Aurélio, na Ponte Preta – Renato Gaúcho, no Fluminense – Mano Menezes, no Corinthians – Dunga e Felipão, na Seleção e tantos outros personagens que deixam sinais afetivos contundentes (positivos e/ou negativos) nas instituições que atuaram: uma espécie de déjà vu frenético diante da pouca capacidade de assimilação e elaboração dos dirigentes e torcedores dessas instituições esportivas.

Na formulação da teoria psicanalítica, o método catártico (associação livre – expressão verbal) substitui o método da hipnose com o intuito de direcionar as descargas para a atividade consciente, recordar e ab-reagir (libertar-se de um conteúdo reprimido) com o auxílio do psicólogo. No futebol brasileiro, entendo que o histórico organizacional de vários clubes comportam – de forma caótica – marcas e experiências tendenciosas, incompletas e irracionais.

A Holanda é a bola da vez. Perdemos dela com o Dunga, em 2010 – após uma pane coletiva no intervalo da partida e fomos eliminados da Copa. Em 2014, o time de Felipão perdeu novamente para os holandeses na disputa do terceiro lugar. Com o retorno de Dunga, caberá ao destino colocar (ou não) a Holanda novamente diante da Seleção Brasileira. Até lá, certamente haverá muito conteúdo emocional para ser trabalhado. Afinal, o fantasma do inédito ouro olímpico já ronda a CBF e age, silenciosamente, na impossibilidade do exercício do desejo e no fortalecimento da necessidade de ser conquistada pelos jovens garotos que nos representarão nas Olimpíadas, muito provavelmente – e uma vez mais – sem o devido e efetivo trabalho psicológico esportivo.

As necessidades de repetição e elaboração de processos repletos de conteúdos afetivos e de extrema relevância e significado cultural – como no caso do futebol – dominam o bom senso, afastam a ciência e, por fim, retardam nossas possibilidades de evolução e modernização não apenas no esporte, mas em diversas áreas do cotidiano e do nosso universo social.

 

Alemanha e o exemplo do futebol moderno

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A visão e compreensão de uma modalidade esportiva de grande impacto num país, devem, necessariamente, passar por uma análise profunda e criteriosa. Especialmente ao receber o evento esportivo mais importante e esperado do planeta e protagonizar o maior vexame de sua história dentro de casa após a goleada por 7 a 1 diante dos novos tetracampeões mundiais.

Os erros começam na administração – passeiam pela falta de planejamento e conhecimento dos nossos cartolas do futebol – preconceito e desinformação diante da evolução da preparação esportiva (em todas as áreas, inclusive na psicológica, emocional e motivacional) – falta de humildade e leitura crítica diante dos erros insistentes – inexistência de lideranças efetivas dentro e fora de campo – falha na organização – e o tal “jeitinho brasileiro” que costuma ser o grande trunfo dos dirigentes às vésperas e durante os principais torneios disputados. Felizmente – e com sofrimento – a verdade se impõe através da excelência na preparação da equipe da Alemanha, legítima vencedora do Mundial. Os alemães, para darem início ao processo de atualização e modernização no futebol – precisaram assumir que muitas coisas estavam erradas e necessitavam uma revisão e reavaliação a partir de 2002 – quando perdeu a Copa para o Brasil. Será que por aqui teremos essa serenidade e tranquilidade para o início dessa reconstrução do nosso futebol?

A Alemanha ensinou que o plano das inteligência múltiplas está sendo amplamente estudado e, acima de tudo, utilizado para a melhor adequação de rendimento, comportamento e competitividade de seus atletas. Inteligência emocional, psicológica, genética, neuro/endócrina e outras variáveis que atuam diretamente na performance individual e coletiva do grupo. Tudo estudado em laboratórios de excelência esportiva naquele país.

Fico muito preocupado – já que, por aqui, os jornalistas estão comentando nos programas (de forma reduzida) que a Psicologia do esporte na Seleção foi realizada por “whatsapp” e à distância – como anunciou a própria responsável pelo trabalho em vídeo da tv CBF – de domínio público.

A partir do que foi divulgado amplamente pela imprensa, o grupo de psicólogas realizou o mapeamento de perfil psicológico e depois foi elaborado um relatório entregue ao treinador. Quando houve aquela catástrofe emocional antes das penalidades diante do Chile, o assunto voltou à tona e, mais uma vez, lamentamos a ausência de um departamento atuante e próximo ao grupo. Pior: o próprio treinador da Seleção anunciou – em rede nacional – que “a psicóloga não está recebendo um centavo por seu trabalho”. E aqui, uma vez mais, lamento pela desvalorização de uma área tão importante, moderna e fundamental para a otimização de rendimento de equipes nas mais diversas modalidades. Espero que haja tempo – e espaço suficiente – para que tudo isso que foi divulgado pela mídia possa ser explicado e revisto. Do contrário, temo, de verdade, que o futebol tenha compreendido – uma vez mais e de forma equivocada – a ideia e a fundamentação teórica e prática da Psicologia do Esporte e sua intervenção nessa modalidade.

A Copa acabou e – pelo visto, a ficha ainda não caiu para boa parte dos dirigentes da CBF, Comissão Técnica e jogadores. Diz-se que essa foi uma das piores seleções do Brasil em todos os tempos (pior que a pífia equipe que disputou a Copa de 1966 – na Inglaterra). Não tenho a menor dúvida que o fantasma da derrota na Copa de 1950 virou “Sessão da Tarde” diante do terror que foi a participação da Seleção Brasileira nessa Copa. Os traumas certamente ficarão estampados nos mais significativos processos de “Representação Social” e na história da nação que – a duras penas – construiu o título de “a pátria de chuteiras” e agora sucumbe diante da desorganização administrativa/esportiva e na soberba, teimosia, cinismo e mentalidade retrógrada daqueles que, a princípio, deveriam se esforçar para uma atualização em todos os princípios e fatores envolvidos na excelência que esse esporte exige.

Já chega de “Dona Lúcia” – instagran, redes sociais, brincos, ternos coloridos, comerciais de televisão, fones de ouvido (maiores que a cabeça dos jogadores), metodologias antiquadas e comportamento oposto àquele que uma equipe campeã do mundo deve mostrar.

Queremos nosso futebol de volta. Que o dinheiro arrecado nas infindáveis campanhas publicitárias seja minimamente investido na base do nosso futebol. Que o treinador da Seleção Brasileira apareça mais em treinamentos do que nos comerciais televisivos. Já existem dois tetracampeões do mundo (Alemanha e Itália) – e nós, pentacampeões do mundo – pelo visto, com hora marcada para ter companhia num futuro bem próximo.

O futebol precisa se reinventar – antes que seja tarde demais. Nas visões do Felipão e do Marin, tudo foi perfeito – fora um “pequeno apagão” de seis minutos.

Sim, amigos, vivemos no país do “me engana que eu gosto” – e é hora de acordar. Gambiarra pouca é bobagem no país que acumulou – certamente, mais um fiilhotinho de “vira lata” na história de suas catástrofes futebolísticas.
Barbosa – que você e os milhares de brasileiros que viveram o Maracanazzo – em 1950 – descansem livres e em paz. Temos um novo drama para elaborar. E creio que outros 64 anos serão necessários para o processo.