João Carvalhaes: um visionário do esporte

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Muitos atribuem, de forma totalmente equivocada, o preconceito dos dirigentes do futebol em relação à Psicologia do Esporte por conta do trabalho desenvolvido pelo Prof. João Carvalhaes nas décadas de 50 e 60 no futebol brasileiro – quando reprovou Mané Garrincha no teste psicotécnico (único instrumento que havia na época para traçar o perfil psicológico) e o jogador foi uma das grandes estrelas do Mundial do Chile, em 1962 – na conquista do bicampeonato mundial da Seleção brasileira..

O que pouco se diz (e explica) é que as informações analisadas na aplicação do teste já demonstravam as tendências comportamentais do ser humano Mané Garrincha – que, como todos sabem, morreu de cirrose hepática por conta do alcoolismo. Quantos jogadores o futebol brasileiro continua perdendo por conta dos desvios sociais de conduta – desequilíbrio emocional e sociofamiliar? Vale pensar, certo?

Os fundamentos básicos e científicos da Psicologia do Esporte passam – obrigatoriamente – pelo contexto humano e pessoal dos atletas, suas interações com o mundo interno – universo social e expressão de suas crenças e culturas do comportamentais.

É hora de atribuir ao Prof. Carvalhaes – o valor merecido por sua obra e coragem: um homem de vanguarda – pessimamente compreendido por conta das teias finas do senso comum – da ignorância insistente dos dirigentes e de boa parte dos treinadores de futebol , do pobre e superficial contexto e concepção de atleta e ser humano nesse esporte.

Sessenta anos se passaram e o panorama da Psicologia do Esporte no futebol parece ser o mesmo. Só mudaram os personagens. Certamente, onde estiver, o prof. João Carvalhaes deve estar pesaroso diante das atrocidades e desrespeitos com que essa ciência especial e fundamental na preparação esportiva tem sido tratada e concebida no futebol – tanto pelos mandatários desse esporte como, infelizmente, por alguns dos colegas que insistem no reforçamento de ideias rasas e que depõem contra a evolução e cientificidade da Psicologia Esportiva brasileira.

 

 

Qual sua lógica, CBF?

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Qual a lógica, CBF?

Ney Franco – ainda que esteja vivendo um momento complicado no Flamengo, ganhou praticamente TUDO o que disputou quando treinou a equipe sub-20 da Seleção Brasileira. Se a CBF vive o romance do “Eterno Reencontro” – não seria o caso de chamar o Ney novamente em vez de apostar no Galo que não tem um título sequer de expressão na carreira de treinador? Será que estão lembrando do tal “fantasma do ouro olímpico jamais conquistado pelo Brasil? Pois é. O Galo dará conta dessa tarefa?

O Dunga vai precisar de uma paciência que – aqui entre nós – não sei se ele terá. Até porque, em sua primeira passagem na Seleção, acumulou inimizades e bateu de frente com gente grande – que detém o poder. É preciso entender o significado de “política” – mas, pelo que vi hoje na sua primeira coletiva, acho bem difícil que ele tenha mudado tanto em 4 anos.

Fica claro que a CBF – no discurso de que “futebol retranca é também futebol arte” – chamou o Dunga – em primeiro lugar, para o Brasil parar de sofrer tantos gols. É como se – dessa forma, pretendesse estancar o sangramento do machucado aberto pelo nobre Felipão (nada que eu não estivesse dizendo há pelo menos 1 ano e meio). Dunga certamente armará uma equipe repleta de volantes e uma zaga forte. O ataque ficará em segundo, terceiro, décimo plano.

Hoje foi falado muito em “controle emocional” na coletiva do treinador. Será que, uma vez mais, a simples constatação que nossos jogadores são carentes dessa preparação encerrará o assunto, como sempre tem ocorrido no futebol brasileiro?

Sabem aquele ditado “gato que toma tijolada não dorme em olaria?”.
Pois bem. Somos, hoje, 200 milhões deles.

Dunga e os traumas do futebol brasileiro

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A nomeação do treinador Dunga para comandar a Seleção Brasileira já tem data e local: 3ª feira, dia 22 de julho, às 11 horas, na CBF. Muitos não aprovam o retorno de Dunga e entendem que pouco (ou nada) mudará com o novo mandato do capitão do Tetra. O que mais me fascina nesse processo é a evidente dificuldade sociocultural do nosso povo em virar a página e iniciar novas histórias e etapas no esporte e fora dele.

Nos Estados Unidos, ao longo de vinte anos, os americanos – através do talento cinematográfico de Oliver Stone – filmaram – em incessantes produções, a catástrofe vivida por aquele povo na guerra do Vietnã.

Apesar de não ser psicanalista – atuo com a Psicologia Esportiva e entendo que uma ciência tão jovem necessita abertura, expansão e contribuição de todas as áreas do pensamento psicológico que possam “conversar” com o esporte.

Por exemplo, no texto “Recordar, Repetir e Elaborar” (1914), Freud apresenta as novas recomendações sobre a técnica da psicanálise e retrata, basicamente, a importância de acompanhar e conduzir o paciente no processo da recordação de traumas e experiências emocionais que o paciente não consegue se lembrar – procurando conhecer e interpretar as suas resistências – uma vez que há situações em que o paciente esquece ou reprime alguma(s) vivência(s), mas a(s) expressa pela atuação. Ou seja, em vez de recordar, o paciente age, sem saber o que faz ou porque faz. Reproduz não como lembrança, mas como ação, sem saber que está repetindo.

O mesmo parece acontecer com o futebol brasileiro. A cada dois ou três anos, o treinador Muricy Ramalho chega ao São Paulo – Marco Aurélio, na Ponte Preta – Renato Gaúcho, no Fluminense – Mano Menezes, no Corinthians – Dunga e Felipão, na Seleção e tantos outros personagens que deixam sinais afetivos contundentes (positivos e/ou negativos) nas instituições que atuaram: uma espécie de déjà vu frenético diante da pouca capacidade de assimilação e elaboração dos dirigentes e torcedores dessas instituições esportivas.

Na formulação da teoria psicanalítica, o método catártico (associação livre – expressão verbal) substitui o método da hipnose com o intuito de direcionar as descargas para a atividade consciente, recordar e ab-reagir (libertar-se de um conteúdo reprimido) com o auxílio do psicólogo. No futebol brasileiro, entendo que o histórico organizacional de vários clubes comportam – de forma caótica – marcas e experiências tendenciosas, incompletas e irracionais.

A Holanda é a bola da vez. Perdemos dela com o Dunga, em 2010 – após uma pane coletiva no intervalo da partida e fomos eliminados da Copa. Em 2014, o time de Felipão perdeu novamente para os holandeses na disputa do terceiro lugar. Com o retorno de Dunga, caberá ao destino colocar (ou não) a Holanda novamente diante da Seleção Brasileira. Até lá, certamente haverá muito conteúdo emocional para ser trabalhado. Afinal, o fantasma do inédito ouro olímpico já ronda a CBF e age, silenciosamente, na impossibilidade do exercício do desejo e no fortalecimento da necessidade de ser conquistada pelos jovens garotos que nos representarão nas Olimpíadas, muito provavelmente – e uma vez mais – sem o devido e efetivo trabalho psicológico esportivo.

As necessidades de repetição e elaboração de processos repletos de conteúdos afetivos e de extrema relevância e significado cultural – como no caso do futebol – dominam o bom senso, afastam a ciência e, por fim, retardam nossas possibilidades de evolução e modernização não apenas no esporte, mas em diversas áreas do cotidiano e do nosso universo social.

 

Alemanha e o exemplo do futebol moderno

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A visão e compreensão de uma modalidade esportiva de grande impacto num país, devem, necessariamente, passar por uma análise profunda e criteriosa. Especialmente ao receber o evento esportivo mais importante e esperado do planeta e protagonizar o maior vexame de sua história dentro de casa após a goleada por 7 a 1 diante dos novos tetracampeões mundiais.

Os erros começam na administração – passeiam pela falta de planejamento e conhecimento dos nossos cartolas do futebol – preconceito e desinformação diante da evolução da preparação esportiva (em todas as áreas, inclusive na psicológica, emocional e motivacional) – falta de humildade e leitura crítica diante dos erros insistentes – inexistência de lideranças efetivas dentro e fora de campo – falha na organização – e o tal “jeitinho brasileiro” que costuma ser o grande trunfo dos dirigentes às vésperas e durante os principais torneios disputados. Felizmente – e com sofrimento – a verdade se impõe através da excelência na preparação da equipe da Alemanha, legítima vencedora do Mundial. Os alemães, para darem início ao processo de atualização e modernização no futebol – precisaram assumir que muitas coisas estavam erradas e necessitavam uma revisão e reavaliação a partir de 2002 – quando perdeu a Copa para o Brasil. Será que por aqui teremos essa serenidade e tranquilidade para o início dessa reconstrução do nosso futebol?

A Alemanha ensinou que o plano das inteligência múltiplas está sendo amplamente estudado e, acima de tudo, utilizado para a melhor adequação de rendimento, comportamento e competitividade de seus atletas. Inteligência emocional, psicológica, genética, neuro/endócrina e outras variáveis que atuam diretamente na performance individual e coletiva do grupo. Tudo estudado em laboratórios de excelência esportiva naquele país.

Fico muito preocupado – já que, por aqui, os jornalistas estão comentando nos programas (de forma reduzida) que a Psicologia do esporte na Seleção foi realizada por “whatsapp” e à distância – como anunciou a própria responsável pelo trabalho em vídeo da tv CBF – de domínio público.

A partir do que foi divulgado amplamente pela imprensa, o grupo de psicólogas realizou o mapeamento de perfil psicológico e depois foi elaborado um relatório entregue ao treinador. Quando houve aquela catástrofe emocional antes das penalidades diante do Chile, o assunto voltou à tona e, mais uma vez, lamentamos a ausência de um departamento atuante e próximo ao grupo. Pior: o próprio treinador da Seleção anunciou – em rede nacional – que “a psicóloga não está recebendo um centavo por seu trabalho”. E aqui, uma vez mais, lamento pela desvalorização de uma área tão importante, moderna e fundamental para a otimização de rendimento de equipes nas mais diversas modalidades. Espero que haja tempo – e espaço suficiente – para que tudo isso que foi divulgado pela mídia possa ser explicado e revisto. Do contrário, temo, de verdade, que o futebol tenha compreendido – uma vez mais e de forma equivocada – a ideia e a fundamentação teórica e prática da Psicologia do Esporte e sua intervenção nessa modalidade.

A Copa acabou e – pelo visto, a ficha ainda não caiu para boa parte dos dirigentes da CBF, Comissão Técnica e jogadores. Diz-se que essa foi uma das piores seleções do Brasil em todos os tempos (pior que a pífia equipe que disputou a Copa de 1966 – na Inglaterra). Não tenho a menor dúvida que o fantasma da derrota na Copa de 1950 virou “Sessão da Tarde” diante do terror que foi a participação da Seleção Brasileira nessa Copa. Os traumas certamente ficarão estampados nos mais significativos processos de “Representação Social” e na história da nação que – a duras penas – construiu o título de “a pátria de chuteiras” e agora sucumbe diante da desorganização administrativa/esportiva e na soberba, teimosia, cinismo e mentalidade retrógrada daqueles que, a princípio, deveriam se esforçar para uma atualização em todos os princípios e fatores envolvidos na excelência que esse esporte exige.

Já chega de “Dona Lúcia” – instagran, redes sociais, brincos, ternos coloridos, comerciais de televisão, fones de ouvido (maiores que a cabeça dos jogadores), metodologias antiquadas e comportamento oposto àquele que uma equipe campeã do mundo deve mostrar.

Queremos nosso futebol de volta. Que o dinheiro arrecado nas infindáveis campanhas publicitárias seja minimamente investido na base do nosso futebol. Que o treinador da Seleção Brasileira apareça mais em treinamentos do que nos comerciais televisivos. Já existem dois tetracampeões do mundo (Alemanha e Itália) – e nós, pentacampeões do mundo – pelo visto, com hora marcada para ter companhia num futuro bem próximo.

O futebol precisa se reinventar – antes que seja tarde demais. Nas visões do Felipão e do Marin, tudo foi perfeito – fora um “pequeno apagão” de seis minutos.

Sim, amigos, vivemos no país do “me engana que eu gosto” – e é hora de acordar. Gambiarra pouca é bobagem no país que acumulou – certamente, mais um fiilhotinho de “vira lata” na história de suas catástrofes futebolísticas.
Barbosa – que você e os milhares de brasileiros que viveram o Maracanazzo – em 1950 – descansem livres e em paz. Temos um novo drama para elaborar. E creio que outros 64 anos serão necessários para o processo.

 

O futebol brasileiro parou no tempo

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Acumulamos, nesse Mundial, os recordes mais tristes de nossa história futebolística. A Copa que mais gols levamos – a maior goleada sofrida pela Seleção – o goleiro mais vazado em Copas do Mundo (Julio César que, se já chegou para esse torneio traumatizado pela eliminação da Copa em 2010 – agora deve estar um pouco pior depois desse vexame absurdo protagonizado por todo time, comando técnico e setor administrativo).

Em relação à preparação psicológica – creio que já descrevi exaustivamente em diversos textos. O exemplo, sem dúvida, vem da Alemanha – que mantém um departamento de Psicologia do Esporte desde 2002 – atuante, presente – nos treinos, competições, jogos e na concentração da equipe. Por aqui, ainda se atribui o papel da Psicologia do Esporte de uma forma absolutamente limitada. O que não consigo entender é como os dirigentes – no momento em que fomos anunciados como país sede da Copa – não criaram um departamento de Psicologia Esportiva com tempo suficiente para trabalhar com a Comissão Técnica. Sabíamos que a emoção estaria a flor da pele – a pressão seria, de fato, grande – assim como a imensa expectativa do povo brasileiro em relação ao hexacampeonato que, uma vez mais, não veio.

Se as coisas não mudarem – e rápido, corremos o risco de nem classificar para a Copa da Rússia, em 2018. Afinal, equipes como Colômbia, Uruguai, Argentina, Chile estão em franca evolução e, certamente, complicarão o caminho da Seleção nas Eliminatórias da próxima Copa.

O futebol brasileiro agoniza a pior crise e o momento mais crítico de seus cem anos de existência. Política, publicidade, interesses financeiros e um caos na preparação esportiva são os principais temperos desse espetáculo patético e sem prazo para terminar.

Lamento por esse artigo final sobre a participação do Brasil na Copa. Da mesma forma, não há efeito sem causa. E as infindáveis causas devem ser analisadas com critério e tranquilidade. Do contrário, a cada quatro anos, perderemos um pouco mais do brilho que nos transformou na saudosa “pátria de chuteiras”.

Muitos ficaram chateados com minhas críticas – quase sempre contundentes – em relação a Seleção Brasileira nesses últimos meses. Especialmente quando, por tantas vezes, afirmei que “Copa das Confederações é sempre muito diferente de uma Copa do Mundo”. Não foi por falta de avisar e expor as barbaridades que aconteceram desde o momento em que o treinador Felipão assumiu o comando da equipe. Afinal, o seu passado recente (última década) apontou apenas uma decadência indiscutível que culminou no rebaixamento do Palmeiras no campeonato brasileiro. Como prêmio, o treinador foi convidado para dirigir a Seleção. Não conheço um país no mundo que realize tamanha proeza. Pior: até o último instante, não admitiu o fracasso dentro de campo e, dentro da conhecida e insistente teimosia, foi incapaz de manter um discurso coerente com esse vexame histórico. É sempre mais fácil colocar o fracasso num tal “apagão de seis minutos” ou até na arbitragem. E isso não é de hoje. Sim, amigos, a arbitragem na Copa foi caótica. O futebol brasileiro, no entanto, foi um pouco pior.

Confesso que essa foi a primeira Copa que não comprei a camisa da Seleção – não consegui me empolgar em nenhum jogo nem, muito menos, vibrei com os raros gols da nossa equipe. Quando li a convocação dos atletas para a Copa, tive a certeza absoluta que o fracasso seria inevitável. Era apenas uma questão de tempo. O time do Felipão não tem empatia, raça nem, muito menos, apelo de identificação com a torcida. Entendo os que batem no peito e dizem: “Ora, somos pentacampeões!”.

Por outro lado, os erros foram tantos que é quase impossível descrevê-los em apenas um texto. Pra começar, um time não pode jogar em função de apenas um jogador nem, muito menos, sob a tutela de ter conquistado cinco títulos mundiais. Esse discurso ufanista só mascara ainda mais as atrocidades do nosso futebol que – se não se modernizar com urgência – será ultrapassado muito em breve. Afinal, até mesmo os grandes museus precisam se modernizar. Do contrário, serão obras – relíquias admiradas por novas gerações que já se reinventaram em todos os planos e direções. Corremos o risco de virar um “eterno gigante adormecido” – passível de chacotas e desrespeito.

Sobre a possível continuidade do atual treinador no comando da Seleção, prefiro não comentar. Afinal, o torcedor merece respeito – assim como nosso futebol.
Por fim, falou-se tanto em fantasmas do passado nessa Copa e agora, temos outro para encarar: a crença central que jamais vencemos um ouro olímpico no futebol. E não duvido: vão esperar uma ou duas semanas antes da competição para lembrar de mais essa tatuagem emocional do nosso futebol. E aí, novamente, nada poderá ser feito com seriedade e efetividade. Assim é o futebol no Brasil. Pelo visto, continuará por muito mais tempo.

A humanidade só muda através de tragédias. E mesmo assim, com muita resistência.

 

Psicologia do Esporte é levada a sério na Alemanha

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Para os que não sabiam como funciona o trabalho psicológico esportivo na Seleção da Alemanha – aí vai (mais) uma goleada que levamos deles. Explicarei, além da matéria divulgada no Jornal Nacional de hoje, informações que recebemos sobre o trabalho de Hans Herman – psicólogo do esporte, cientista e pesquisador da área – profissional altamente qualificado que, há muito tempo, trabalha com o futebol alemão.

Herman conta com uma equipe de 12 psicólogos que atuam desde as categorias de base da Seleção da Alemanha até o time principal. São realizados trabalhos de acompanhamento psicológico – orientação familiar – mapeamento de perfil – reuniões com os departamentos médico e de preparação física – além de contar com o apoio e suporte dos dirigentes e treinadores locais.

Por lá, o psicólogo do esporte é um parceiro do time. Ele permanece – de forma permanente – com a Seleção por onde ela atua. A cada ano, inicia o trabalho na pré-temporada dos times – da mesma forma que os preparadores físicos. Na equipe alemã, mente e corpo tem a mesma importância e recebem os mesmos cuidados.

Agora, o melhor: a Alemanha conta com laboratórios de Psicologia do Esporte – com trabalhos de realidade virtual – controle e monitoramento de fenômenos psicofisiológicos (concentração e ansiedade) – utilização de técnicas relacionadas com o biofeedback e neurofeedback para o equilíbrio emocional.

Aqui no Brasil, na USP – temos o laboratório de Psicossociologia do Esporte que conta com boa parte dessa tecnologia do preparo psicológico e recebe atletas de ponta para o trabalho de acompanhamento e fortalecimento mental.

Além da Seleção principal, vários times locais contam com a presença de psicólogos do esporte nas bases dos clubes e também nos times principais. Tanto na primeira divisão como na divisão de acesso – os clubes apostam no trabalho psicológico. E não é de hoje. Desde de 2002 – houve uma verdadeira revolução no conceito de esporte e ser humano (“ser atleta” no futebol daquele país).

O treinador da Seleção da Alemanha comentou que Hans Herman é “seu braço direito” dentro do grupo e não abre mão do trabalho e da presença do psicólogo nos treinos, viagens e competições.

Em qual parte dessa verdadeira lição de modernidade científica e conceitual – nossos amados cartolas da CBF – e boa parte dos treinadores – não entenderam?

Acompanhem a matéria no link abaixo:

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/07/selecao-alema-tem-acompanhamento-psicologico-desde-base.html

Crônica de uma catástrofe anunciada

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Pane coletiva ? Naufrágio do grupo? Falta de comando e/ou preparo técnico e psicológico?

Fato é que quando o presidente da FIFA, Blatter anunciou o Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014 – imaginei – ingenuamente – que um departamento de Psicologia do Esporte pudesse ser criado imediatamente pela CBF – antes mesmo de ser anunciado o treinador da equipe. E motivos não nos faltam: sangue latino, cobranças e expectativa da torcida, atletas com pouca idade e, sobretudo, diante da evidente, clara e manifesta fragilidade emocional do jogador brasileiro.

Há 22 anos falo na mídia, nos cursos e congressos que os processos psicológicos necessitam de tempo, espaço, trabalho e dedicação. Assim como o departamento de preparação física, a esfera psicológica tem suas demandas igualmente importantes e – em alguns momentos, decisivas. A presença de um psicólogo do esporte ou de um departamento não garante a vitória – mas a ausência, quase sempre, é desastrosa.

O treinador da Seleção disse – num congresso realizado numa universidade em São Paulo – que “seria ele o psicólogo representante do trabalho dentro do time”, assim como o Renato Gaucho, quando assumiu o Atlético Paranaense, demitiu o psicólogo e disse que seria ele o “psicólogo” do time.

O conceito e método estão equivocados. A presença de psicólogos deve ser permanente e não em momentos pontuais ou mais nevrálgicos de jogos e campeonatos. Quando os dirigentes e treinadores de futebol entenderão que a base da preparação esportiva deve ser a valorização da parte mental em suas contribuições científicas e de igual valor às demais áreas do processo? Por que tanto preconceito e desinformação para encarar essa realidade de frente e com coerência?

O futebol brasileiro vive um movimento circular que parece não ter mais fim. Após o desastre da Copa de 1950, quando perdemos o Mundial para o Uruguai em pleno Maracanã, o saudoso Nelson Rodrigues descreveu nossa “síndrome de vira lata” dentro e fora de campo. Essa síndrome, hoje, parece ter recebido mais um reforço: a Copa de 2014. E ainda bem que pouca gente está falando da ausência do Neymar. Hoje, certamente, nem com ele teríamos chances de parar o excelente e pragmático futebol alemão que, aliás, lembra os bons tempos de nosso futebol: vistoso, alegre, talentoso, com raça e determinação. Os alemães, para quem não sabe, contam com equipes multi e interdisciplinares na área da saúde no futebol e não montou um departamento de psicologia para a Copa do Mundo. Esse departamento já existia e eu tive o prazer de ministrar uma palestra na USP onde estavam presentes alguns desses profissionais – entre eles, uma psicóloga especializada no trabalho com goleiros. Sim, psicólogos para todos os atletas e um exclusivo para os goleiros. Eles estão divididos em departamentos desde a base até o profissional. Por aqui, como todos sabem, os psicólogos do esporte no futebol são sempre lembrados quando o circo está no auge do incêndio e muito pouco pode ser realizado efetivamente.

A vergonha que o futebol brasileiro viveu no jogo de hoje é mais que um sinal amarelo: uma luz vermelha sinalizando que muita coisa está errada. Desde os conceitos técnicos e táticos até as concepções de atleta e ser humano – absolutamente ultrapassadas e nada produtivas.

Quem sabe, depois desse atropelamento sofrido pela equipe brasileira, os dirigentes repensem o caminho de suas administrações e os treinadores se livrem de uma vez da ideia que psicólogos são bombeiros – mapeadores de perfil ou socorristas. O psicólogo do esporte deve ser um parceiro da Comissão Técnica, observar jogos e treinos, estar na concentração da equipe, ir a vestiários, conhecer o clima do grupo – conhecer as relações dos atletas entre si e diante do treinador. É preciso tempo e conhecimento do método para se obter os resultados desejáveis.

Estou cansado de ler e ouvir durante as transmissões que “a ansiedade atrapalhou”, que “faltou concentração”, que “o emocional estava abalado” e tantas outras constatações psicológicas do senso comum, tanto no futebol, como em outros esportes. Pior: chegam a essa (óbvia) conclusão e definitivamente nada é feito para trabalhar essas emoções que tanto atrapalham nossos atletas e nossas equipes.

Acredito que os jogadores fizeram tudo aquilo que era possível e o sofrimento é legítimo. Uma pena, no entanto, que havia uma bomba relógio pronta para explodir… e explodiu! Mas não podemos e não devemos nos apegar somente ao emocional para entender a queda vergonhosa no Mundial, os atletas convocados pelo treinador e seu esquema tático me pareceram anos luz distantes de uma equipe competitiva e preparada para os desafios de encarar uma Copa do Mundo em casa. Lamento muito por nosso futebol que sofreu um novo, duro e inesquecível golpe em sua história. Fruto de uma necessidade emergente de mudanças em todos os seus níveis. Do contrário, outros vira latas chegarão para aumentar nossa matilha de emoções desgovernadas.

Hoje, o futebol morreu um pouco mais. Se é que isso seja possível. Só nos resta juntar os cacos e reconstruir através de novos conceitos, métodos e atitudes!

 

Psicologia e emoções a toda prova

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O treinador da Alemanha, Joachim Löw, afirmou na semana passada que “o Brasil tem o emocional como o grande diferencial diante dos rivais europeus”. O comandante alemão está absolutamente correto em sua afirmação. A emoção bem trabalhada é um combustível dos mais importantes na ativação mental, autocontrole e equilíbrio interno. Por outro lado, quando existe um grupo com uma emotividade evidentemente elevada, é preciso um cuidado maior para que ela não jogue contra o próprio grupo. Creio que o treinador da Seleção Brasileira já aprendeu que passar vídeos apelativos momentos antes de grandes decisões opera um efeito contrário ao desejado. Afinal, de combustível inflamável já bastam os onze jogadores em campo e a pressão e expectativa de outros duzentos milhões que estão ao redor do time.

Ainda dentro dessa questão, a ausência do Neymar certamente será importante no jogo contra a Alemanha. Esse fato pode unir a equipe e até fortalecê-la emocionalmente, desde que os jogadores se apeguem no desejo de vencer e não na necessidade imposta pela mídia e reforçada pela sociedade. É preciso ter espaço para querer – perseguir o sonho, representar o colega, o país, a equipe.

Confesso que fico preocupado com esses boatos que o Neymar – em caso de classificação da Seleção, poderá – quem sabe, atuar na final da Copa. Isso gera – de forma desnecessária – ainda mais expectativas no grupo e, de acordo com a maioria absoluta dos médicos ortopedistas, a lesão do atleta demora de 4 a 7 semanas para a total recuperação. Então, o momento é o de focar no grupo, naqueles que poderão (e deverão) tomar à frente – exercer o papel de liderança, falar mais dentro de campo, compartilhar a confiança e o espírito de grupo (muito daquilo que – apenas a presença de Neymar – era capaz de promover na equipe).

O capítulo Neymar precisa ser superado. E rápido. Obviamente que foi perdida uma referência incrível dentro de campo, embora nos dois últimos jogos da Seleção, pouco se observou em termos do rendimento esperado do atleta. Talvez pelo altíssimo acúmulo de lesões e, claro, pelas seguidas pancadas que o jogador sofreu na primeira fase do Mundial.

Psicologicamente, a baixa sofrida pela Seleção com a ausência de sua maior referência abre caminho para que o grupo possa se reorganizar de uma nova forma dentro de campo. O conjunto de forças representado pela presença de novos jogadores que atuarão na semi-final diante da Alemanha pode ser capaz de gerar um resultado surpreendente – positiva ou negativamente. É como um novo experimento laboratorial – só que realizado com humanos – durante o maior evento esportivo do universo. O resultado é uma incógnita tão indecifrável como o surpreendente comportamento de alguns atletas num momento de extrema pressão e elevação da carga emocional

Se o Brasil jogar com alegria, solto, unido dentro de campo e consciente que a equipe pode superar a ausência de Neymar, existe a chance real de um embate em igualdade de condições com os alemães. Se entrarmos com o sentimento partido – sangue latino aflorado – com choros e emoções desassociados com o momento decisivo da Copa, poderá ser o ponto final para todos nós.

Enfrentaremos um time frio, racional e obediente técnica, tática e psicologicamente. Eles atuam de forma profissional – dentro dos conceitos mais modernos de preparação psicológica. Os alemães trouxeram ao Brasil todos os equipamentos e tecnologias para a preparação física – técnica e psicológica. Essa última, inclusive, com aparelhagens de biofeedback e neurofeedback para gerenciamento da concentração, controle da ansiedade e manejo da energia de ativação interna dos atletas. Em termos de preparação esportiva, eles estão anos luz na nossa frente. Agora, o futebol se decide dentro de campo – com a cabeça e a emoção, equilibrados, na ponta da chuteira. Atleta e ser humano em ação. Vencerá aquele que mais apostou nas duas faces dessa mesma Unidade.

 

Aspectos emocionais e psicológicos da Seleção

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Agora que a pressão arterial de todos os sobreviventes já voltou ao normal, a Seleção já carimbou sua classificação para as quartas de finais – é hora de analisar com um pouco mais de racionalidade e objetividade o desempenho da Seleção.

Na parte técnica, identifico fragilidade e vulnerabilidade imensas nas laterais. Daniel Alves e Marcelo são bons apoiadores, mas falham muito na marcação. O Chile, hoje, cansou de fazer tabelinha (a famosa 1-2) na defesa brasileira. A bola que chutaram no travessão do Brasil – no último minuto de jogo – foi um ataque chileno que pegou nossa zaga absolutamente desatenta. Aliás, a trave jogou a favor da Seleção Brasileira.

Ainda não entendi porque o Paulinho não encaixou nesse time – nem, muito menos, o que se passa com o Fred que está anos luz de distância daquele atacante que conquistou a admiração dos torcedores na Copa das Confederações. Oscar, hoje, parece não ter entrado em campo – assim como Fernandinho que teve uma ótima chance com o Felipão, mas não fez valer essa oportunidade. A Seleção abusou dos erros e chutou raríssimas bolas no gol adversário. A questão é: a defesa do Chile é forte ou nosso meio de campo e ataque estão com dificuldades de interação? Nesse momento Neymar tenta resolver tudo sozinho e, sabemos, nem sempre isso será possível.

No campo psicológico, várias reações de atletas denunciam falta de estrutura emocional adequada para suportar a pressão e responsabilidade de representar o Brasil na Copa. Confesso que fiquei assustado com aquele intervalo entre o final da prorrogação e o início das penalidades. Julio César – herói da partida – e Tiago Silva, choravam e eram acalmados por Paulinho e Henrique. Naquele momento, temi pelo pior. Felizmente o goleiro se recuperou e fez duas belas defesas que garantiram a classificação da equipe colocando um ponto final nas críticas sofridas após a eliminação diante da Holanda no último Mundial.
Ainda nesse aspecto, volto a lamentar que a preparação psicológica tenha sido realizada apenas no período de 13 dias – com aplicação de um teste apenas. Na verdade, o que se divulga como “teste” POMS – Perfil dos Estados de Humor – é um inventário sem validação científica que foi originalmente criado em 1971 num hospital psiquiátrico nos Estados Unidos e adaptado para a língua portuguesa e atualmente utilizado no esporte.

Os recursos que a Psicologia do Esporte oferece vão muito além da aplicação de um simples inventário – de difícil análise (especialmente na auto-avaliação e compreensão dos elementos que ele mensura). Esse trabalho deveria ter sido iniciado um ou dois anos atrás – através de observação sistemático do comportamento dos atletas que tem sido frequentemente convocados pelo treinador – aplicação de diversos inventários e testes, além de entrevistas e acompanhamentos psicológicos para que – no momento em que os jogadores estiverem concentrados em Teresópolis, temas relacionados com as demandas motivacionais e emocionais e demais trabalhos de grupo possam ser realizados pelos profissionais da Psicologia do Esporte e não por palestrantes convidados. Vale frisar que é preciso frequentar vestiários, se juntar a Comissão Técnica – realizar intervenções multi e interdisciplinares – trocar informações com o médico, preparador físico, fisiologista e todos os que atuam na área da saúde do grupo de atletas.

Fiquei realmente preocupado com a falta de preparo psicológico desses meninos nessa “primeira decisão” da Copa. Daqui para frente, o Brasil será cada vez mais testado – em todos os níveis e campos da preparação esportiva – através de jogos difíceis e equipes bem preparadas.

O que é permitido ser realizado pelas profissionais de Psicologia do Esporte na Seleção representa, talvez, 20% de tudo aquilo que essa ciência oferece em termos de recursos, tecnologia e metodologia de intervenções.

Logo em seguida ao jogo de hoje, o telefone tocou. Ruy, meu grande amigo, foi logo falando: “não te falei, João, o Felipão tem muita sorte. Como pode fazer tantas bobagens e seguir em frente no campeonato?” Os erros na escalação da equipe e em algumas alterações ao longo dos jogos reforçam a fé e proteção religiosa de Felipão. De fato, ele é um treinador de sorte. Até quando essa sorte seguirá o grupo e protegerá o treinador não é possível prever. A única coisa que vale reafirmar é que se a Seleção for campeã, os dirigentes do futebol brasileiro entenderão que o trabalho psicológico no futebol é baseado na aplicação de um inventário, confecção de perfil e palestras motivacionais – o que será, sem dúvida, um retrocesso de 10 ou 20 anos na evolução e reconhecimento da importância dessa ciência no futebol.

Como no mundo do futebol, o que vale é ganhar – talvez esse debate – e tantos outros pontos que nosso futebol precisa desenvolver – sejam esquecidos caso o time dirigido por Felipão erga o Caneco dia 13 de julho.

 

A mordida de Suares diante do mundo

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Fico aqui imaginando o que se passa na cabeça de um jogador para morder o adversário. Confesso que nem nas mais profundas elucubrações consigo encontrar uma resposta plausível com a atitude do Soares, do Uruguai, que poderá valer sua (justa) expulsão da Copa do Mundo.

Psicologicamente há de ter algum sentido, um significado – um porque disso. Mike Tyson já provou do mesmo veneno ao arrancar a orelha de Evander Holyfield numa luta disputada em Las Vegas. Na época, ganhou as manchetes de todo o mundo e ninguém conseguiu entender – nem explicar, a reação digna de um canibal.

A mordida de Luis Soares, hoje, no italiano, colocou mais tempero nesse banquete humano do descontrole e dos absurdos que esses rapazes protagonizam diante das lentes do mundo. Soares, aliás, já se envolveu em tantas manchetes de terror que, pra falar a verdade, ninguém mais liga muito para isso.

Ali, no campo de jogo, acontece de tudo. Acreditem! Rola tanta coisa que até as câmeras mais modernas não captam – nem as tais invasivas leituras verbais são incapazes de traduzir. Agora, uma mordida deixa as marcas de um vampirismo semelhante ao que esses atletas são submetidos quando mudam o status econômico e social. A identidade que é suprimida para dar lugar às demandas dos holofotes da fama – cedo ou tarde – manda sua conta. E não adianta morder nem espernear. Aqueles que estudam o comportamento humano no esporte entendem a mensagem.

Soares faz parte daquela geração de malucos que está, aos poucos, terminando. E não é por conta de uma nova postura dos clubes diante da possível valorização das ciências humanas na preparação esportiva. Muito pelo contrário. Dirigentes e treinadores de futebol (ou boa parte deles) fazem vistas grossas para o avanço nas pesquisas e intervenções psicológicas, sociológicas ou vinculadas a Assistência Social e familiar. O que ocorre, pessoal, é, no bom “psicanalitiquês” – a velha e boa sublimação. Sim, a reversão da agressividade por carros poderosos, lindas mulheres, a fama e a tênue sensação de poder. Soares, no entanto, preferiu a atitude mais crua, basal – ontológica. Foi logo dando seu recado – e não com as palavras – mas sim, com os dentes.Enquanto Soares morde, tem sempre o senso comum para assoprar.

Alguma dúvida?