Neymar: lesão, Psicologia e expectativas nacionais

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Capitão da seleção brasileira no título da Copa de 1970, Carlos Alberto Torres está preocupado com a lesão sofrida por Neymar no pé direito durante a final da Copa do Rei, entre Barcelona e Real Madrid. Além dele, boa parte da nação está aflita com a lesão de Neymar. O atacante brasileiro sofreu um edema no metatarso – um osso do dedo do pé esquerdo – que a CBF, prontamente, tratou de colocar panos quentes e garantir a boa presença do jogador na Copa. E não seria diferente.

Na prática, a participação de Neymar no Mundial exige um olhar mais cauteloso e muito além da delicadas demandas físicas. Hoje conversei com um especialista em quiropraxia – ciência que se dedica ao diagnóstico, tratamento e prevenção das disfunções mecânicas no sistema neuromusculoesquelético e os efeitos dessas disfunções na função normal do sistema nervoso e na saúde geral. No Brasil, a profissão está em processo de regulamentação, ao contrário de diversos outros países onde já se encontra estabelecida, como EUA e Canadá. Ainda assim, existem dois cursos universitários de Quiropraxia reconhecidos pelo MEC. Há uma ênfase no tratamento manual incluindo a manipulação articular ou “ajustamento” ou outro tipo de manipulação articular e terapia de tecidos moles.

Esse mesmo profissional garantiu que, para uma total recuperação da lesão, Neymar necessitará de seis meses. Como faltam apenas sete semanas para o apito inicial, o atleta deverá realizar sessões intensas de fisioterapia e ter o máximo de cautela no início do Mundial para não lesionar ainda mais a região – o que representaria o fim de sua participação no torneio. Sabemos que existem as tais infiltrações (injeções com compostos analgésicos de grande escala) para casos emergenciais e que não podem – nem devem – ser ministrados com uma periodicidade alta.

Fico imaginando como está a cabeça do garoto. No Barcelona, Neymar dificilmente voltará a atuar antes da Copa. Por aqui, a pressão e expectativa por seu grande futebol são imensas e intensas. Pior: não há o menor acompanhamento e fortalecimento psicológico para o jogador que recém saiu da adolescência para o estrelato.

Neymar poderá, em apenas uma Copa, passar de vilão a herói (ou vice-versa). Tudo dependerá de como o jogador se sentirá física, emocional e psicologicamente nos jogos da Seleção. Acho uma temeridade depositar tantas expectativas num atleta apenas – que já demonstrou todo talento e criatividade – porém, com pouca idade e experiência internacional. Se compararmos os números de títulos conquistados (nacional e internacional) – prêmio de melhor jogador e tantos outros triunfos – diante dos alcançados por Cristiano Ronaldo e Messi, teremos uma dimensão mais exata do que esperar do atleta.

O problema maior é a falta de referência no grupo. Neymar é, sem dúvida, a grande aposta de Felipão. Eu tenho minhas dúvidas. Creio que a grande Copa de Neymar será na Rússia, em 2018. Até lá, ele terá a oportunidade de criar mais casca nas costas – aprender mais com o mundo, amadurecer, reconhecer e aprimorar os pontos a serem desenvolvidos.

Enfim, Rivaldo e Ronaldo também se lesionaram antes do Mundial de 2002 e deram um show nos jogos do Brasil – quando trouxemos o penta. Os casos, importante que se diga, eram bem diferentes do de Neymar – assim como as lesões. De toda forma, Neymar terá, sem dúvida, o maior desafio de sua vida e carreira: atender e responder positivamente às pressões e expectativas de um país que receberá o grande evento futebolístico mundial. Genial dentro de campo, Neymar será testado e exigido em várias esferas do seu treinamento e de suas capacidades esportivas.

Certamente um malabarismo para gente grande e que exige autoconhecimento e confiança plena de suas habilidades e forças de ação e superação.

É esperar para ver…

Adriano: fama ou Vila Cruzeiro?

Adriano teve seu contrato rescindido no Atlético Paranaense após faltar duas vezes nos treinamentos.
Encontrei um texto por mim escrito em 17 de março de 2010. Portanto há QUATRO anos!
Incrível como as coisas continuam as mesmas. A tal “síndrome do fracasso neurótico” – ou a interminável busca de si-mesmo – perdido em algum castelo de Milão e longe da Vila Cruzeiro.
Na ausência do sentido, acompanhem, abaixo, a reflexão de 17/03/2010 -

Que Deus perdoe estas pessoas ruins
Escrito por João Ricardo Cozac
Qua, 17 de Março de 2010
 

 

Os últimos dias na vida de Adriano não foram nada fáceis. Após brigar com sua namorada, faltar aos treinamentos, ter o nome associado ao álcool e às denúncias de comprar motos para traficantes, o atacante do Flamengo mostrou sua indignação ao comemorar o gol marcado na vitória diante do Vasco. Adriano usava uma camiseta branca por baixo do uniforme com os dizeres “Que Deus perdoe estas pessoas ruins”.
Certamente o amigo leitor tem a mesma dúvida do colunista. Afinal, a quem Adriano pede a clemência divina? Aos jornalistas, traficantes, pessoas que tentam desviá-lo do bom rendimento dentro de campo, profissionais que estão ao seu lado para ajudá-lo a interagir socialmente de forma mais positiva ou, com a maestria de Fernando Pessoa, no poema “A Prece”, o desabafo culposo de um caminho que parece não ter mais volta: “Senhor, livra-me de mim”.
O companheiro de ataque, Vagner Love, também ganhou as manchetes. Love foi flagrado em um baile funk ao lado de traficantes fortemente armados no morro da Rocinha e, ao ser abordado por repórteres, confirmou que tem muitos amigos por lá e que sente saudades de todos que fizeram parte de sua infância.
Uma outra dúvida recorrente para muitos: por que estes rapazes – que recebem rios de dinheiro e tem total possibilidade de construir novas referências de mundo – insistem em manter o elo com o passado? Na teoria, a resposta não me parece difícil. A identidade desta garotada está presa ao ambiente psicossocial da infância. Não conseguem, de forma alguma, estabelecer novos vínculos de relacionamento sem a necessidade de cultivar as antigas e pouco construtivas amizades.
Estes meninos cresceram ouvindo tiros de fuzis, corre-corre no morro, briga entre gangues de traficantes e uma realidade diametralmente oposta àquela aberta enquanto nova possibilidade de vida. A fama e o dinheiro não necessariamente obrigam a mudança de comportamento. Pelo contrário: estes dois perigosos ingredientes podem ser facas bem afiadas no (sub)mundo destes atletas constituídos por corpos de aço e fincados em bases de barro.
Numa entrevista a um programa esportivo na televisão, Adriano confessou seu amor pelos carros e relógios. Mostrando um lindo Rolex de diamantes e atestando manter três carros na Itália e outros três no Brasil, o jogador se torna alvo perfeito para os sequestradores. Será que este iminente perigo colabora para que o atleta mantenha uma boa política de relacionamento com os amigos do morro e sua imagem associada aos manos? Afinal, o poder parece ter mudado de mãos neste país. E não é de hoje.
Ao som do Rap “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar, e ter a consciência que o pobre tem seu lugar” – o abismo entre a luxúria e pobreza agoniza o coração de todos os desavisados que insistem em viver os devaneios de um mundo que, a olhos vistos, tenta afastá-los de seus elos de legitimidade presos em alguma favela do passado.
Que Deus perdoe estas pessoas ruins – mesmo!

 

Fernando Alonso e a eterna falta de espírito de equipe

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Alonso deve estar com os dias contados na Ferrari. Após iniciar – na surdina – negociação com a RBR no final do passado – o que deixou furioso os mandatários da equipe italiana – e ingressar 2014 cheio de deboche e críticas à escuderia italiana, o piloto deve dar adeus a Maranello no final desse ano.

O presidente da Ferrari, Luca Cordero di Montezemolo, já deu o ultimato a Alonso e relembrou a cartilha de comportamento para dirigir seus carros. Não me parece que o espanhol esteja disposto a continuar defendendo o time no próximo ano. Visivelmente descontente, deverá, em breve, iniciar negociações com outras equipes. Até lá, como todos, verá as Mercedes revezarem os pódios das corridas.

Dono de um talento técnico imenso, Fernando Alonso peca pela vaidade, melindre e soberba. Exige ( às vezes até de forma infantil) que todas as medidas internas favoreçam sua pilotagem. Não importa se essas decisões passem por cima de outros pilotos – desde que atendam às suas convicções e desejos. Os italianos da Ferrari sempre temeram pelas reações de Alonso e, alertas e continentes, concretizam prontamente as reivindicações do piloto.

Porém, dessa vez, o clima parece que azedou. Com um carro abaixo da média (e da crítica), o espanhol comemorou – de forma irônica – o nono lugar no GP do Bahrein e complicou ainda mais sua vida entre os funcionários da Ferrari. Aliás, não há nada que possa piorar ainda mais sua permanência na equipe que provocar o “pavão” Luca di Montezemolo – que caminha como se o mundo estivesse a seus pés e não admite brincadeiras nem ironias com a Ferrari. Parece que Luca criou uma relação de simbiose – uma espécie de fusão de identidade com a empresa. Ali ninguém mais sabe nem diferencia as ordens do presidente com a história da escuderia. Virou um bolo só – recheado de malandragem, malícia, interesses, fama e fortunas.

Ingredientes que – a olhos de muitos – sugerem uma associação direta com a personalidade e necessidades de Fernando Alonso. Quando algo não sai a contento, o espanhol se tranca no seu mundinho, ao lado da namorada russa, e só reaparece quando há uma promessa de melhora e/ou mudança. O problema é que essas promessas não estão vingando e o desejo e espírito de vitória do espanhol estão se transformando em sarcasmo e ironias – o que, certamente, encurtará sua trajetória na Ferrari.

O que mais me deixa consternado é que a imprensa espanhola defende Fernando Alonso mesmo quando ele – de forma evidente – comete erros indiscutíveis e inexplicáveis. Por aqui, Alonso é quase sempre condecorado como “grande piloto” – e, de fato o é. No entanto, não se pode fechar os olhos para atitudes que denigrem o universo e a ética esportiva como as que Fernando costuma reforçar em suas condutas fora das pistas.

Por outro lado, o senso comum (e a mídia) nesse país estão sempre apostos para achincalhar nossos atletas – ainda que eles não tenham, em absoluto, culpa em determinados episódios. Por aqui, para ser um vencedor, é preciso ter força de leão e estomago de avestruz para aguentar as bobagens que são ditas e reforçadas em vários meios de comunicação.

A trajetória de campeões em nosso esporte insiste em esbarrar nas “viúvas” do Guga, Pelé, Senna e tantos outros heróis do mundo esportivo e fora dele. Para poder viver o presente, é preciso resolver e acomodar os ídolos do passado num contexto pacífico, coerente e de bom senso.

Do contrário, seremos – contraditoriamente – vítimas e algozes de uma cultura selvagem e perversa que é pós-graduada em desmerecer o esforço e as lutas diárias de nossos atletas quando, no Velho Continente, há diversos povos especialistas em acobertar e defender seus ídolos – mesmo quando o mundo inteiro reconhece a culpa desses meninos no cartório – o que também não é correto.

Fernando Alonso, não é de hoje, precisa fazer mais (dentro das pistas) – e falar menos (fora delas). Só isso. O resto ele sabe.

Ian Thorpe e a identidade do atleta

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Após ser encontrado vagando pelas ruas de Sydney, Ian Thorpe, agora, está internado na UTI de um hospital na mesma cidade, com uma infecção forte que pode causar a perda dos movimentos do braço esquerdo.
Thorpe conquistou cinco medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, e Atenas, em 2004. Após todos esses êxitos, Thorpe se afastou dos treinamentos e, com isso, ficou fora da Olimpíada de Londres, em 2012, após não obter o tempo para se classificar.

Casos como o de Ian Thorpe são mais comuns que se imagina. Atletas que atingem o ápice da fama e das conquistas entre 19 e 23 anos de idade e não tem acompanhamento psicológico correm o risco de se perderem na continuidade da carreira. O nadador australiano vagou pelas ruas de Sydney em busca de algo perdido no seu passado recente. Os dias se passaram e as respostas não foram encontradas. Thorpe foi internado para tratar uma depressão severa que o derrubou por um longo tempo. Sem as piscinas, Ian se viu enclausurado num mundo sem sentido nem legitimidade. Afinal, a identidade é construída na ação – “sou na medida em que me reconheço naquilo que faço. Quando paro de fazer, deixo de ser”.

O ponto crucial foi exatamente quando decidiu se afastar das piscinas com 23 anos após triunfos internacionais de grande importância. A perda instantânea do sentido ocorreu no alto do pódio, com o peito cheio de medalhas e ao mesmo tempo, sem esperança nem motivação para seguir a trajetória campeã. Ainda assim, recusou-se a aceitar ajuda psicológica especializada.

Tenho acompanhado na clínica, com preocupação, o aumento de casos de depressão e alcoolismo em atletas de elite. Especialmente aqueles que atingiram a fama precocemente e não conseguem se reinventar nem lidar com o status vitorioso. O processo de construção e manutenção de uma carreira de sucesso exige habilidades pouco treinadas no meio esportivo. Por conta da falta de interesse, preconceito e desinformação de vários dirigentes esportivos, os atletas estão em busca de atendimento psicológico nas clínicas. Alguns obtêm sucesso na empreitada da resignificação de tudo aquilo que viveu – e deixou de viver. Até porque, para atingir o ponto mais alto da carreira, boa parte deles abriu mão de fases fundamentais do desenvolvimento humano. Afinal, sabemos, não é possível passar da infância para a fase adulta sem viver a adolescência – as riquezas e dificuldades típicas desse momento de vida fornecem o suporte (se vivida adequadamente) para as etapas seguintes.

Ian Thorpe corre o risco de ficar sem os movimentos do braço esquerdo por conta de uma infecção no mesmo braço. Por ironia do destino – e da falta de apoio e orientação, o australiano luta para resgatar a saúde exemplar que o credenciou como um dos maiores nadadores de todos os tempos.

Tomara que aqueles envolvidos no esporte (pais, treinadores e professores) e na formação de atletas estejam atentos a esse tipo de ocorrência para buscar trabalhos de prevenção e promoção de saúde no esporte. Nossos atletas e seres humanos que dedicam suas vidas ao esporte agradecem.

Carta aberta: o TUF e a banalização da Psicologia do Esporte

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Afinal, o que Hortência e Isabel fazem no TUF?

Após vários emails e telefonemas recebidos e na condição de presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte – nos 22 anos de pesquisas científicas, intervenções e publicações na área, venho a público explicar e esclarecer o papel desempenhado pelas ex-atletas Hortência e Isabel no programa TUF, da Rede Globo.

O Brasil ainda é um país que apresenta resistências e preconceitos socioculturais diante das demandas psicológicas, mentais e motivacionais. Não raro, presenciamos profissionais de diversas áreas desempenhando o papel de motivadores, animadores culturais, “psicólogos” e agentes da alma. No esporte esse quadro é ainda mais agudo por conta do reforço da mídia – o que, sem dúvida, aprimora e reforça a visão de treinamento psicológico que habita o senso comum – cada vez mais comum.

A Globo e as próprias protagonistas do programa, Isabel e Hortência, reforçam o papel de “consultoras psicológicas” e “motivadoras”. Para os que insistem em não compreender o papel do psicólogo do esporte, esse tipo de informação apenas reforça a tendência da banalização das demandas mentais de atletas e da população em geral. Os problemas são concebidos e trabalhados como num toque de mágica, numa gincana, dinâmica de grupo ou bate papo informal dos atletas com as consultoras técnicas/motivacionais.

Diante dessa constatação, o conceito de Psicologia do Esporte e todas suas formulações científicas ficam suspensos num perigoso segundo ou terceiro plano. Até porque, o próprio mecanismo motivacional necessita ser encarado com seriedade, estudo, pesquisa, contextualização, análise e constatações de acordo com as demandas individuais e coletivas do grupo de atletas, no caso do esporte – e de funcionários, no caso de empresas e instituições dos mais variados segmentos.

A distorção entre ciência e senso comum é antiga. Na Seleção Brasileira de futebol, profissionais de várias áreas (policiais, administradores de empresas, economistas e até humoristas)já proferiram palestras motivacionais sem, ao menos, ter o conhecimento da equipe e das necessidades do grupo de atletas. A imprensa, ingênua e oportunamente, divulga amplamente essas intervenções irresponsáveis e descabidas sem o menor embasamento técnico e científico. Pior: fazem um alarde tão intenso que gera consequências perigosas nos centros científicos de pesquisa do comportamento humano. O prejuízo é de todos aqueles que, de alguma forma, trabalham pela correta promoção e prevenção de saúde mental – dentro ou fora do universo esportivo.

O papel e o local ocupado (designados culturalmente) por Hortência e Isabel no TUF são apenas mais um reflexo da superficialidade dos conceitos de atleta e ser humano no esporte. Por mais que tenham sido líderes em suas épocas, equipes e modalidades, é inconcebível – uma vez mais, que indivíduos sem o menor conhecimento técnico psicológico continuem a ocupar o espaço designado a psicólogos do esporte – nesse caso, sem aspas e com conhecimento da ciência.

Infelizmente os conselhos regionais e federal de Psicologia não se posicionam nesse – e em tantos outros casos em que a Psicologia do Esporte é banalizada – o que dificulta ainda mais a reversão desse panorama perigoso para o reconhecimento e valorização da profissão.
Atletas, diretores, supervisores e treinadores ainda acreditam que a Psicologia do Esporte pode ser exercida por indivíduos despreparados – com retórica circense e material pirotécnico de grande impacto. Os agentes desse processo, acreditem, não são poucos. A responsabilidade pela coerência e profissionalismo na atuação psicológica no esporte está nas mãos de todos nós, psicólogos, que não podemos aceitar – passivamente – que nosso espaço de atuação e pesquisa seja invadido, denegrido e banalizado dessa forma.

A Associação Paulista da Psicologia do Esporte se posiciona totalmente contrária a quaisquer formas de abordagem, publicidade e divulgação da Psicologia Esportiva sem fundamentação e embasamento científico. Não apenas diante do processo motivacional, mas em qualquer outra esfera dinâmica do comportamento – é preciso respeito, coerência, ética e conhecimento (além de formação acadêmica) para a utilização dos recursos psicológicos e emocionais do ser humano.

Por fim – e uma vez mais, lamentamos profundamente que a mídia mantenha o posicionamento da incorreta e banalizada divulgação dos meios para se trabalhar as demandas psicológicas, sociais, emocionais e culturais de atletas e grupos esportivos, além da exposição e utilização de ícones do esporte brasileiro para o exercício desse papel.

Atletas são seres humanos

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Alô alô – jurássicos do esporte – pessoal que pensa/administra/constrói o esporte com cabeça apenas de boleiro – treinadores frustrados e ditadores de suas próprias desilusões esportivas – pais que ainda insistem que os filhos não podem ter vida por conta da escolha do esporte como carreira.
Pelo amor de Deus:
“Atleta é GENTE” – tem vontade, desejos, medos, necessidades (sociais, afetivas, psicológicas, físicas, orgânicas).
Fico impressionado aqui na clínica com casos de atletas que tem o lado pessoal bombardeado por ideias retrógradas e ultrapassadas de pais e treinadores naquelas noções e preconcepções equivocadas construídas no conservadorismo e ignorância do senso comum!
Hoje mesmo, numa sessão, ficou absolutamente clara a evolução de uma atleta diante da ampliação do espaço interno do pensar a atividade esportiva associada com as esferas sociais, afetivas e recreativas. Ainda que a opção seja enfrentar o desafio profissional do esporte como carreira, é preciso também priorizar os momentos de diversão, descanso, viagens com amigos, festas, cursos, estudos e uma mente mais aberta.
O resultado disso tudo é o mais interessante de todo imbróglio: melhora no rendimento esportivo, nas competições e treinamentos. Quando se considera o atleta como ser humano – prioriza-se muito mais o conceito e a arte que a profissão exige.
Agora, gente, pelo amor de Deus, sem essa que “atleta não bebe”, “atleta não se diverte”, “ah! você quer ser atleta agindo dessa maneira?”
Sabem o que isso me lembra? quando alguém chega pra mim e diz: “Nossa, mas você, psicólogo, não conseguiu entender ou superar essa situação”.
Não vou dizer aqui, por respeito aos amigos, o que tenho vontade de responder nessas situações. Só posso expressar meu descontentamento diante do posicionamento altamente improdutivo de pais e treinadores diante da opção de jovens – sim, eu disse “jovens”, em trilhar a carreira esportiva.
O dia que esses garotos forem considerados e apoiados em suas escolhas profissionais e esportivas como seres humanos (antes de atletas de alto rendimento), nosso hall de talentos (que não é pequeno), aumentará ainda mais!
Podem apostar!

Paulistano na NBB: excelência e superação

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É com muita alegria que tenho acompanhado, de perto, a brilhante campanha do Paulistano na NBB. Atletas talentosos e um grupo coeso, unido e motivado. Esse é o retrato do time dirigido pelo jovem e inspirado treinador Gustavinho. Um grupo formado por atletas e seres humanos dedicados ao extremo. É possível observar um ótimo nível de comunicação, respeito, amizade e interação em quadra – além de uma alegria contagiante no início dos jogos. Um time com capitão de excelência, liderança, auxílio mútuo e atletas com uma doação ímpar nos jogos.

O Paulistano ainda está longe de contar com patrocinadores fortes como, por exemplo, nos times do Pinheiros, Brasília e Flamengo. No entanto, a força de grupo, dedicação e gana de superação estão colocando a equipe paulista no topo da tabela – o que pode, sem dúvida, promover a chegada de novos e importantes parceiros.

Além da comissão técnica e atletas, é preciso ressaltar o profissionalismo dos diretores, supervisores e responsáveis pelo basquete do clube – eles são vetores fundamentais dessa campanha incrível do Paulistano. Sem dúvida, uma aula para qualquer dirigente que almeja sucesso num projeto esportivo. A torcida está se encantando cada vez mais e o ginásio do clube – com frequência – está lotando de torcedores das mais variadas faixas etárias.

Terceiro ataque mais positivo, com 84 pontos por jogo (Holloway é o oitavo cestinha, com 18 pontos por jogo e 60% de conversão em bolas de dois pontos, índice altíssimo), o Paulistano se destaca mesmo é na defesa.

Leva 78 pontos por partida, permite apenas 34% de conversão de bolas de três dos rivais (quinto melhor índice do certame) e força quase 12 desperdícios de bola dos adversários (segunda melhor marca da competição). E como Gustavo faz a equipe marcar tanto? Trocando e forçando rotações com força. São dez atletas jogando 11 ou mais minutos por jogo, e seis com média de 9 ou mais pontos por jogo.

Não há dúvida que se trata de um treinador e de um time que tentam fazer um basquete diferenciado e fora dos padrões previsíveis. Ninguém sabe até onde essa equipe pode chegar. A meta é ficar entre os quatro primeiros da NBB e isso está bem perto de acontecer. Em seguida, lutar nos play offs por uma vaga nas finais. O torneio sul americano também é mais um foco da equipe dirigida pelo treinador Gustavinho. Quero parabenizar todos os envolvidos nesse projeto. Não é fácil, na realidade do esporte brasileiro, montar uma equipe desse porte tático, técnico e físico. Um alento para os admiradores do basquete e uma ótima oportunidade para se renovar a visão administrativa do esporte brasileiro.

 

A estranha Formula 1

 

 

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A primeira prova do ano mostrou a supremacia da Mercedes, como já era de se esperar. A vitória de Rosberg com 25 segundos de vantagem também mostrou que a FIA (uma espécie de Dr. Fritz) errou mais uma vez em suas invenções escalafobéticas (sempre imaginei que aqueles senhores devem se reunir tomando suco de maracujá escocês -  e lá ficam inventando regras para o ano seguinte. Devem se divertir com isso).
Muito bem.
Quem joga video game (especialmente Gran Turismo) deve ter associado o motor dos carros V6 da F1 com um Nissan 350Z turbinado – ou outros vários carros de turismo. Fiquei impressionado e bastante incomodado com a descaracterização do barulho do motor!
A Williams certamente virá forte também. Bottas, companheiro do Felipe, largaria em décimo – foi penalizado e largou em 15. Com pouco tempo de corrida já lutava pelo oitavo lugar quando encostou num dos muros daquela pista maluca de Albert Park e furou o pneu. Voltou em último e terminou a prova em sexto. Boa notícia para a equipe inglesa.
Já, Felipe Massa, não teve uma boa surpresa. Na largada, o japa Kobayashi deixou para frear “pra lá de Deus me livre” – travou as rodas e chapou seu carro na traseira do brasileiro. Conclusão, fim de prova para ambos na primeira curva do campeonato. Ao contrário da indignação do Felipe e de todos nós, a FIA não puniu severamente o Kobayashi. Acho que a FIA anda convivendo com a FIFA. Só pode ser isso.
A Ferrari do Alonso e do Kimi não fugiram do padrão dos últimos anos. Pelo visto serão a 3a ou 4a força de 2014.
Verdade é que o motor Mercedes saiu mesmo na frente e a briga pelo título deverá ficar entre os carros que correm com esse motor que foi preparado por mais tempo.
Ah, sim, a RBR do Vettel terminou a prova feliz: não pelo Vettel, que teve de abandonar no início da prova por problemas no carro, mas por Ricciardo, que chegou ao pódio em segundo lugar. Por essa, nem os projetistas mais experientes da equipe austríaca poderiam esperar.
Felipe, levanta a cabeça e vamos para a próxima! A Williams promete vôos altos em 2014 – de preferência, sem japoneses da escola do Grosjean para atrapalhar os planos!

Esporte e Psicologia: a relação dos pais com a identidade profissional dos filhos

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Vivemos ainda numa sociedade absolutamente preconceituosa quando o assunto é esporte e/ou Psicologia. Vários atletas relatam – em sessão, que recebem pouco apoio e consideração dos pais pelo fato de dedicar a vida ao esporte ou tentar o sucesso profissional no mundo esportivo. Aquela frase quase fulminante no final do dia: “ora, filho, por que você está tão cansado – já que não estuda nem trabalha?”. Além de extremamente desmotivadora e preconceituosa, essa ideia de atleta está absolutamente ultrapassada – embora alguns pais insistam em desvalorizar a opção dos filhos.

De modo análogo está a Psicologia. Não me canso de escutar pacientes em consultório comentando: “João, quando comento que faço terapia, todo mundo fica preocupado comigo. Perguntam se estou doido(a) ou se estou deprimido(a) – ou até mesmo louco(a).” É incrível a dificuldade de considerar os trabalhos preventivos na área da saúde mental nesse país.

Esporte e Psicologia – além, claro, da Psicologia do Esporte são áreas
amplamente reconhecidas e valorizadas em diversos países. Por aqui, a falta de conhecimento e interesse – além da ausência de uma construção adequada de atleta e ser humano catalisam a banalização social diante das escolhas de jovens atletas pela carreira esportiva.

A identidade do atleta, do aluno de educação física – e também do psicólogo traz, em si, elementos pejorativos e de pouco (raro) valor. Entender o estudo científico da mente humana como acesso direto a loucura e dirigir o olhar com preconceito aos atletas em formação produz hiatos perigosos no campo da saúde. Além de afastar os jovens da prática esportiva – com todos os benefícios gerados por ela – estimula a cisão entre mente e corpo – originalmente concebida nos tempos cartesianos no auge da dicotomia associada a visão de ser humano da época.

Como psicólogo do esporte, acompanho com apreensão essa subtração de valores através da escolha do esporte como profissão por muitos jovens que buscam a concretização de seus sonhos. A sociedade, de alguma forma, fortalece essa relação entre ócio, desvalorização e trabalho físico. Por outro lado, o mundo mental sofre com as falsas ideias e demandas sobre a dinâmica psicológica e emocional do ser humano.

É preciso bom senso, apoio, respeito e informação dos pais e responsáveis – além de amigos e parentes – para entender que o esporte é uma profissão importante, difícil e desejada por muitos jovens. Além das dificuldades naturais de êxito nessa área, espera-se um pouco mais de apoio e estimulo positivo por parte do universo sociocultural e familiar diante da opção desses garotos. Ter o esporte como ofício de vida é tão importante como qualquer outra área profissional. Por que é tão difícil entender essa mensagem? Simples. As raízes inconscientes do sucesso ainda habitam as profissões tradicionais. Os caminhos percorridos fora dessas raízes costumam ser sumariamente atacados pelo preconceito comum – cada vez mais comum.

A Psicologia do Esporte exige, cada vez mais, que o atleta seja concebido e trabalhado – antes de tudo, como um ser humano. Do contrário, as relações institucionais continuarão gerando graves patologias no campo e nas quadras dos desejos e sonhos dos nossos jovens.

Machado de Assis já dizia: “o mercado dos desejos expõe seus mais tristes tesouros”. E ele estava certo, como sempre!

Psicologia do Esporte no futebol

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Após 22 anos de pesquisas, intervenções e publicações na Psicologia do Esporte, lamento ter que escrever esse texto em pleno 2014. No entanto, o preconceito e a desinformação de boa parte dos dirigentes e treinadores esportivos (especialmente do futebol) me fizeram iniciar essa reflexão que é mais que um simples artigo – um necessário alerta de saúde pública que, pelo visto, várias instituições brasileiras desconhecem ou insistem em fazer vistas grossas.

O Estatuto da Criança e do Adolescente exige que os clubes formadores de atletas, tenham – em suas comissões técnicas, ao menos um psicólogo formado para atuar com os demais profissionais. Do contrário, multas e sanções são bastante severas.

Como vivemos num país em que o “jeitinho brasileiro” costuma imperar quando o assunto é dinheiro, várias agremiações contratam psicólogos recém formados e sem conhecimento algum da área esportiva, esposas de dirigentes que são formadas em Psicologia e outros truques para que os documentos sejam assinados – as multas evitadas e, infelizmente, o trabalho não realizado de acordo com as demandas psicológicas, sociais e emocionais dos grupos de atletas. Isso sem contar o salário que é oferecido aos psicólogos do esporte – especialmente os que atuarão nas equipes de base. E aqui faço meu primeiro pedido: caro psicólogo do esporte, por favor NÃO ACEITE as condições e os salários irrisórios que os clubes de futebol oferecem à nossa classe. Aceitar essas condições é endossar a banalização de nossa área e as demandas das crianças e adolescentes em formação no esporte e na vida.

Conheço profissionais que atuavam em equipes de futebol e que – após eleições políticas, foram chamados para receber o tal bilhete azul – a demissão fruto da ignorância de vários dirigentes que assumem postos administrativos com o intuito apenas de reduzir a folha salarial do clube. Nesse processo, demitem nutricionista, psicólogo, médico e outros profissionais que – durante muito tempo – construíram atuações multi e interdisciplinares extremamente importantes e efetivas.

Quando constato os milhões de reais, euros e dólares envolvidos nas transações de jogadores de futebol e a superficialidade na concepção de treinamento esportivo dos governadores do mundo da bola – confesso que aumenta meu desprezo por essa modalidade que, historicamente, tão bem nos representou no cenário esportivo mundial.

Os clubes se esquecem (ou fingem que esquecem) que tem uma responsabilidade social na vida desses garotos. Há instituições que não contam com assistentes sociais nem psicólogos. Possivelmente acreditam que esse é um dinheiro que pode ser poupado ou investido em outras áreas do clube. A tal “economia burra” gera muito mais prejuízos do que contenção de gastos. E aqui vai meu segundo pedido: caro psicólogo do esporte, aceite apenas a oportunidade de trabalho no futebol (e em outras modalidades) se, e somente se, tiver o apoio e a valorização dos demais membros da comissão técnica e da filosofia organizacional vigente. Nesses casos, certifique-se que o discurso do tipo “estamos sem verba” ou, “no momento não há espaço” ou, “depois conversamos” não seja a desculpa pronta para os que desconhecem a importância do treinamento psicológico no clube. Até porque, guardadas as devidas proporções, os ganhos na estruturação de um departamento de Psicologia do Esporte são potencialmente superiores aos da aquisição de um novo atleta.

Portanto, caro colega, em meu nome e no da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, reforço a luta pelas novas pesquisas, contribuições e atuações psicológicas no esporte – assim como a dignidade de nosso espaço de atuação e a legitimidade da ciência que lutamos pelo reconhecimento e valorização.