Freud no Futebol – Nelson Rodrigues

… e pensar que 55 anos atrás o fabuloso jornalista e dramaturgo, Nelson Rodrigues, escreveu a pérola abaixo. Até hoje, pelo visto, muito pouca gente leu. Fica aqui o meu recado através das sábias idéias do escritor.

FREUD NO FUTEBOL

Um amigo meu que foi aos Estados Unidos informa que, lá, todo mundo tem o seu psicanalista. O psicanalista tornou-se tão necessário e tão cotidiano como uma namorada. E o sujeito que, por qualquer razão eventual, deixa de vê-lo, de ouvi-lo, de farejá-lo, fica incapacitado para os amores, os negócios e as bandalheiras. Em suma: — antes de um desses atos gravíssimos, como seja o adultério, o desfalque, o homicídio ou o simples e cordial conto-do-vigário, a mulher e o homem praticam a sua psicanálise.

O exemplo dos Estados Unidos leva-me a pensar no Brasil ou, mais exatamente, no futebol brasileiro. De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em conseqüência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise.

Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria*, que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: — antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: — fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo.

E não era uma pane individual: — era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, a delegação, o técnico, o massagista. Nessas ocasiões, falta o principal. Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Foi a nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai. E aqui pergunto: — que entende de alma um técnico de futebol? Não é um psicólogo, não é um psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: — no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que um Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Karênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: — teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.

Sim, amigos: — havia um comissário de polícia, que lia muito X-9, muito Gibi. Para tudo o homem fazia o comentário erudito: — “Freud explicaria isso!”. Se um cachorro era atropelado, se uma gata gemia mais alto no telhado, se uma galinha pulava a cerca do vizinho, ele dizia: — “Freud explicaria isso!”. Faço minhas as palavras da autoridade: — só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele.

[Manchete Esportiva, 7/4/1956]

João Cozac e Wanderley Nogueira falam sobre Psicologia do Esporte na Jovem Pan

Amigos, na 6a feira, dia 20 de Maio de 2011, tive o prazer e a imensa alegria de retornar ao programa de esportes da Jovem Pan conduzido brilhantemente pelo Wanderley Nogueira.

Convido a todos para conferir este encontro que foi bastante rico. Conversamos sobre o Neymar, a Seleção Brasileira, trabalho psicológico nas equipes de base dos clubes e muito mais.

Para acessar a entrevista na íntegra – clique aqui ou acesse

http://jovempan.uol.com.br/videos/joao-cozac-fala-sobre-a-presenca-de-psicologos-na-selecao-57104,1,0

Abraços,

Prof. João Ricardo Cozac

Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte

Briga de belas

O charme sutil da tenista Azarenka desmoronou após rompante de ódio diante da bela Sharapova pelo Torneio de Roma. Incrédulos, os amantes do tênis e da beleza clássica do leste europeu presenciaram um momento inusitado: Azarenca, após vencer um ponto, disparou, em um inglês infelizmente fluente e compreensível, a expressão “Fucking Bitch” – para nós, o famoso  “vagabunda!”

Ora, é quase um sacrilégio xingar a Maria Sharapova de forma assintosa (e de qualquer outra forma). A polaca, como costuma dizer um grande amigo de Curitiba que não perde por nada os desfiles da musa russa, incomoda as adversárias com seu tênis pragmático e difícil de ser destruído. Mas nada justifica a descida de salto de Azarenka. Não consigo me conformar!

Terá sido um ato impensado de agressividade de Azarenka por não suportar a resistência da adversária? Estariam as duas apaixonadas pelo mesmo sortudo? Talvez um vestido que Sharapova tenha mandado fazer sob medida ou, talvez, uma jóia rara que a russa comprou nos interiores chechenos.

Não é possível. Tudo corria bem até então. Os ares que ali passavam se curvaram diante do Coliseu, emblemático e poderoso, a alguns poucos quilômetros dali. As meninas que, cautelosa e meticulosamente cuidam de suas aparências, entraram na quadra romana para ecoar os gritos femininos entoados nos saques e devoluções. Quase uma guerra de orquestras – daquelas que a cittá vecchia se acostumou nos imponentes anos do Renascimento.

A câmera que captou o inacreditável instinto primitivo de Azarenka deveria ser processada, queimada, implodida – escondida! Ora, ela foi a culpada pela desastrosa decepção masculina naquela tarde charmosa do outono italiano. Aliás, “fucking bitch”, quero acreditar, é a própria câmera.

Azarenca, sentindo fortes dores, abandonou a partida e Sharapova nem comemorou a vitória. Talvez ela não tenha feito a mesma leitura labial que os outros milhões do planeta – atônitos – presenciaram. Sharapova até tentou sugerir que a fisioterapeuta entrasse em quadra para cuidar de Azarenka e, assim, continuar a partida. Cabisbaixa e visielmente envergonhada, Azarenca esticou a mão e deu adeus ao Torneio de Roma.

Vamos perdoar a atitude humana e inusitada de Azarenka – mas só desta vez. Afinal, beleza e educação, quando se separam, criam uma figura que causa uma tosca estranheza e um susto nos mais desavisados. É bom abrir o olho. Ao menos, deixar metade de um em sobreaviso!

Centroavantes – por Luís Fernando Veríssimo

Amigos, compartilho com vocês esta crônica de gala escrita pelo brilhante Luís Fernando Veríssimo. Boa leitura e um abraço a todos!

CENTROAVANTES

Eles são difíceis, os centroavantes. Reúnem-se em lugares certos, em várias partes do mundo, mas não se olham nos olhos. Trocam lamúrias e reminiscências, como em qualquer confraria de especialistas, mas é como se estivessem sozinhos. De vez em quando levantam a cabeça e olham e volta, à procura de um possível empresário ou de um fã antigo. Mas não se encaram. Sabem que a qualquer momento terão que trair o companheiro ao lado. Se lhes perguntarem: “Conhece um bom centroavante?”, terão que responder:

- Só conheço eu mesmo.

E se insistirem, “Me disseram que o Fulano ainda joga…” responderão:

- Não joga, bebe muito e arrasta uma perna. De centroavante só conheço eu mesmo.

Eles são sombrios e tristes, os centroavantes.

Você os encontrará em velhas tascas do Bairro Gótico em Barcelona depois de se acostumar com a escuridão. Em algumas esquinas de Milão, encolhidos do frio dentro das suas japonas. Em Chacarita. Na Cinelândia. Em Marselha, no restaurante de peixe do velho Renard, um centroavante que desistiu antes dos 36 porque perdeu um joelho.

- E o seu joelho, Renard?

O velho corso toma um gole de “blanc”.

- Ainda está rolando por um campo da Catalunha.

- Como é que foi, Renard?

- Um beque sem mãe.

- E onde está o beque, Renard?

- Junto da sua mãe.

Você os conhece de longe.

Centroavantes, toureadores velhos e mercenários, você os conhece de longe. São sobreviventes de profissão. Estiveram com a morte e voltaram, e têm as cicatrizes para provar. Restam poucos centroavantes no mundo. O jeito desconfiado, os gestos tensos, o cigarro nos dedos nervosos, os olhos cansados, você os conhece.

Os centroavantes só falam nos companheiros mortos ou nos que pararam, os outros são concorrentes. Centroavante bom e vivo só conheço eu mesmo. Eles fumam muito, os centroavantes. Mas cuidam para não tossir na frente do empresário.

- Com quantos anos você está?

- Vinte e sete.

- Você quer dizer trinta e sete.

- A bola não sabe a diferença.

Nos treinos tratam de brigar logo com o treinador, chutar a bola longe e sair de campo, senão não agüentariam. Eles sabem que o treinador os irá procurar depois no quarto do hotel e pedir perdão. São raros, os centroavantes.

- Você me insultou.

- Só disse que você estava muito parado.

- Meu pé conhece mais futebol do que você inteiro.

- Está certo. Volte para o treino.

- Eu não treino. Eu jogo.

- Está certo.

São difíceis, os centroavantes.

Quando se reúnem, falam dos que morreram ou dos que pararam. Sem se olharem nos olhos.

Falam de Carrara, o Italiano Louco, que uma vez comeu um bandeirinha vivo e foi retirado de campo por um batalhão de carabinieri, ainda mastigando o pano da bandeira e ofendendo a arquibancada. Nenhum bandeirinha jamais viu Carrara em impedimento, depois disso.

Falam de Bahal, o Turco de olhos vermelhos, o peito de um touro e um dedão de 10 centímetros em cada pé. Bahal, morto com uma adaga na nuca dentro da pequena área, na cobrança de um córner. Antes de morrer – mas isto já é lenda – teria feito o gol com uma lufada de sangue.

Falam de Lúcio, o Poeta, um brasileiro esguio com pomada no cabelo, outra história trágica. Lúcio tinha um chute mortal. Um dia errou a goleira, a bola subiu, venceu a cerca, venceu a arquibancada de São Januário, caiu na rua, acertou a cabeça de uma moça dentro de um Lincoln conversível – a cantora Rosa de Rose, o Rouxinol Louro – e a matou. Rosa era noiva de Lúcio, o caso emocionou o Brasil. Esperava o fim da partida para levá-lo ao Cassino da Urca. Lúcio enlouqueceu. Nunca mais jogou futebol. Hoje é funcionário do Maracanã e de vez em quando se distrai. Em vez do grande círculo, desenha com cal no gramado o nome de Rosa de Rose.

Falam de Tamul, a Gazela Africana, rápido como o raio, que jogava descalço e mordia a trave sempre que perdia um gol. Tamul tinha os dentes esculpidos. Um era o Taj Mahal. O outro, a Torre Eiffel. Um torto, bem na frente, era a Torre de Pisa. Outro, o Obelisco da Place Vendôme. O Arco de Constantino.

Falam de McMoody, o anão escocês, que batia pênalti de cabeça e tinha placas de aço em vez de canelas.

Falam do argentino Lombroso, que chutou a cabeça do goleiro para dentro do gol. Não teria sido nada se ele não tivesse saído comemorando.

Falam de goleiros com desdém e de beques centrais só antes de cuspir. Os centroavantes tendem a engordar e a emagrecer como os outros respiram. E têm pesadelos. Sonham que a grande área é um pântano, que não conseguem pular, que a bola é de ferro e que o tempo passa.

São raros, os centroavantes.

Santa Cruz é o “coxa” do Nordeste!

Amigos, uma grande pena que pouco (ou quase nada) se fala sobre os times do Nordeste aqui nas regiões Sul e Sudeste. O que o treinador Zé Teodoro tem feito à frente do Santa Cruz é quase um milagre. Com uma folha salarial baixíssima, a equipe coral está próxima de conquistar o título estadual em 2011 após vencer o Sport em plena Ilha do Retiro por 2 a 0! Muito se discutiu sobre a arbitragem e os erros ocorridos nesta última partida. Pouco se falou dos erros que prejudicaram o Santa ao longo de 2011. Como minha praça não é falar de apito, me atenho apenas ao brilhante e guerreiro grupo montado pela equipe que mandará a final do torneio no Mundão do Arruda – certamente com os tricolores animados e confiantes para a conquista do campeonato.

A performance da equipe coral é muito semelhante à do Coritiba. Poucos jogadores conhecidos ou de grande rodagem no futebol brasileiro – mas um time de muita aplicação tática, humildade, motivação e determinação. De nada adianta estruturar times com meia dúzia de astros se a composição final não for produtiva e vitoriosa. O Santa Cruz é o “coxa” do Nordeste, sim senhor! Quem acompanha o tricolor pernambucano em 2011 percebe que as coisas por lá estão mudando.

Os desafios são diferentes, mas os resultados tem sido vitoriosos em todos os sentidos. Com uma torcida fanática, o próximo final de semana – seguramente – terá milhares de fanáticos tricolores lotando o Arruda. Os ancestrais de Marlon, Tiziu, Zé do Carmo, Fumanchu, Barbosa, Givanildo e tantos outros símbolos do clube estarão presentes na decisão diante do Sport.

Além do título estadual , o Santinha sonha com a volta para a Série A e tem trabalhado para isso. O momento é o de ter cabeça tranquila para negociar seus destaques do campeonato atual e fazer um bom caixa para o Brasileiro. Saber aplicar os lucros que obterá com as novas revelações e investir de forma correta.

Apoio, devoção e torcida, os tricolores de Pernambuco não podem reclamar!

Grande abraço ao amigo Edmilton Tavares Cordeiro – dos Correios de Recife – tricolor de coração e gente finíssima! E ao Bruno Sales – legítimo representante do Santinha em plena Buenos Aires!

Verdão: a culpa é dos deuses do futebol?

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sérgio Barzaghi/Gazeta Press

Amigos, confesso que pensei bastante em tudo o que tem acontecido com o Palmeiras e o momento correto para expressar minha opinião. Hoje, navegando pela internet, encontrei uma declaração do vice-presidente do clube, Roberto Frizzo, que me atraiu – mais uma vez – até aqui para expor algumas idéias. Disse Roberto: “Não estamos em crise. Não falamos nesse termo. Vínhamos de uma boa campanha e estávamos em finais de torneios importantes. O que houve em Curitiba foi uma fatalidade. Foi um dos mistérios dos deuses do futebol

Administração coerente, treinador equilibrado, time coeso, Psicologia Esportiva desempenhada de forma correta e contínua, atletas em harmonia, comunicação, integração e motivação em níveis produtivos agora tem outro nome. Os “deuses do futebol” substituíram uma porção de fatores – difíceis de serem encarados, percebidos e transformados  – e que ajudam a promover uma catástrofe sem precedentes.

O Coxa deu uma lição não só para o Palmeiras, mas para várias outras equipes. Não é um time com jogadores maravilhosos, craques nem, muito menos, astros. Um time copeiro, que joga unido, com peças integradas e um entrosamento raríssimo de se encontrar no futebol mundial. Após viver seus piores anos na série B do Brasileiro, o Coritiba voltou pelos braços do excelente treinador Ney Franco e hoje vive, talvez, os melhores dias de seu passado recente. Os atletas, juntos, formam (de fato) uma equipe de alto desempenho e não um bando em que cada um corre para qualquer lugar.

Parabéns à colega Flávia Justus – que há bons anos desenvolve o departamento de Psicologia Esportiva no clube. Flávia, além de traçar os perfis psicológicos, atua junto à Comissão Técnica, atletas e comparece no dia a dia com atividades e acompanhamento (tudo aquilo que falta ao Palmeiras e a outros grandes clubes do Brasil).

Parabéns ao Coritiba pela determinação, humildade, alegria, garra e lições que vem dando a muito time de ponta que precisa renovar e reconstruir seus conceitos.

O Palmeiras deve repensar vários pontos da gestão (dentro e fora de campo) para que possa reconstruir o elenco e ter uma campanha digna de sua história no Brasileirão 2011. Insistir em iniciativas que já demonstraram ineficiência é provocar (ainda mais) a ira dos torcedores e postergar as intervenções que, cedo ou tarde deverão ocorrer.

E isso, acreditem, os “deuses do futebol” não são capazes de mudar!

Eliminação em massa na Libertadores

Foto: AFP

Foto: AFP

Sim, amigos, todo mundo – com exceção do Santos (com muito suor no México) – deu adeus à Libertadores. Fluminense, Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Corinthians (na fase de grupos e de uma forma inexplicável) se despediram de maneira melancólica deste que é o torneio continental mais importante e desejado pelos clubes.

Boa parte destas eliminações ocorreu pela falta de um trabalho psicológico adequado nas equipes. A postura dos jogadores em campo oscilou do total desinteresse ao mais profundo nervosismo e desequilíbrio.

Especialmente nos jogos de volta, as equipes brasileiras demonstraram fragilidade psicológica, emocional e motivacional. Grupos que não se comunicam dentro de campo, apáticos e sem a garra esperada para os que almejam o título da Libertadores.

Se analisarmos as eliminações de forma individualizada, perceberemos que o Cruzeiro – visivelmente – não acreditou que o Once Caldas poderia reverter o placar do jogo de ida na Colômbia. Sob o olhar incrédulo da esposa Debora Secco, o meia Roger foi expulso ainda no primeiro tempo e deixou a equipe mineira com dez jogadores em campo. Expulsão esta que ocorreu numa falta no meio de campo e com uma violência inconseqüente e inexplicável. Dali para frente, o Cruzeiro acreditou que o 0 a 0 garantiria a passagem para a próxima fase. Sofreu dois gols e se despediu do campeonato. O time com a melhor campanha do torneio foi eliminado pelo de pior desempenho. Dá para acreditar?

O Fluminense praticamente não entrou em campo – acreditando que os 3 a 1 conquistados no Brasil teriam aniquilado com o Libertad do Paraguai. A crença era tão forte que gerou uma pane coletiva no grupo.

Inter e Grêmio não mostraram a raça e empenho do futebol gaúcho e também – de forma melancólica e precoce – foram embora da Libertadores.

Enquanto isso, os “mind labs” (laboratórios mentais com tecnologia de ponta e profissionais extremamente capacitados) rolam soltos no Barcelona, Milan, Manchester, Chelsea. Por aqui, a Psicologia do Esporte ainda sofre preconceitos pela desinformação e falta de valorização por parte de boa parte dos dirigentes e treinadores.

Foi uma 4ª feira de lições para o futebol brasileiro. A questão é: será que os alunos prestaram atenção?

Nervosismo e ansiedade foram adversários de Corinthians e Palmeiras

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Amigos, não vou entrar dentro de campo para comentar se Liedson deveria ou não ter sido expulso junto com Danilo. Se houve ou não falta em Kléber no primeiro tempo na entrada da área adversária – nem muito menos o esquema tático ( e discussão) dos treinadores ou a escalação de Paulo César Oliveira para arbitrar o jogo.

Gostaria de chamar a atenção – mais uma vez – sobre a questão do desequilíbrio psicológico e emocional marcante nas duas equipes. O Palmeiras entrou em campo visivelmente hiperativado – com a motivação e ativação interna visivelmente exageradas e fora dos níveis seguros e saudáveis para o bom rendimento dos atletas. Já, o Corinthians, parece ter entrado em campo numa região de ativação completamente oposta. O time de Parque São Jorge estava desconcentrado, com baixo foco de atenção e, na gíria do futebol, “desligado no jogo”.

O descontrole emocional do Palmeiras – o excesso de pilha – foi, aos poucos, contagiando os jogadores do Corinthians e atuando contra os comandados de Felipão. Aliás, após o abraço amigo dos atletas antes da partida e os cartazes de paz e fraternidade mostrado pelos atletas, o que se viu no início de jogo foi uma verdadeira batalha campal – uma guerra quase sempre desleal e 45 minutos de jogo truncado, faltoso, desinteressante em que o futebol praticamente não existiu.

Do lado do Palmeiras, uma vez mais, vale ressaltar que o trabalho de análise de perfil psicológico dos atletas me parece incompleto diante das ferramentas que a Psicologia Esportiva pode oferecer para a ampliação do rendimento de grupos de diversas modalidades. Traçar os perfis, mapear as demandas e orientar o treinador é apenas a metade do caminho e, até onde acompanho, a metade seguinte (dinâmicas de grupo, acompanhamento de jogos, treinos, vestiários, palestras) simplesmente não ocorre.

No Corinthians o assunto, por hora, é proibido.

Quem perde com isso?

Os atletas, o grupo, o clube e, claro, o futebol.