São Paulo: oscilação perigosa

A derrota por 4 a 3 diante do Atlético Goianiense expôs – de forma absoluta – um perigoso padrão de oscilação de comportamento e performance que o São Paulo vem apresentando há algum tempo. E isso pode ser notado no desnível de rendimento entre os jogos e, não raro, durante a mesma partida – como foi no caso de Goiânia.

Este padrão pode ser um sinalizador importante da falta de condição emocional individual de vários atletas e da baixa  coesão de grupo experenciados pelos comandados do treinador Ney Franco. Alguns jogadores sentem mais este tipo de situação e podem agir demonstrando falta de concentração, equilíbrio emocional e baixa qualidade de reflexos e antecipação – além, claro, da necessária doação dentro de campo.

Para que se possa compreender a fundo as causas geradoras deste tipo de sintoma, é necessária uma análise criteriosa da ação, perfil psicológico, nível dos relacionamentos internos e comprometimento individual e coletivo do grupo.

O São Paulo apresenta um comportamento de risco e baixíssima previsibilidade. Pode golear o Flamengo no Morumbi nas possíveis voltas do Luís Fabiano e do Rogério Ceni – assim como pode repetir o rendimento apresentando na derrota para o Vasco no mesmo estádio. Esta falta (ou ausência) de consistência comportamental é, possivelmente, o maior problema que este grupo apresenta no momento.

O clube apostou no comando calmo, objetivo e atento do treinador Ney Franco – após ver os planos frustrados com o enérgico e pouco eficaz Émerson Leão. Ney tem uma leitura diferenciada e muito acima da média dos demais técnicos. O que está em suas mãos é uma tremenda bomba relógio que o eficiente técnico necessita desativar em pouco tempo.

A formação de um time campeão necessita – via de regra – de uma resultado positivo na soma de seus indivíduos. Eles podem ser um bando de craques ou uma equipe de jogadores medianos. O drama maior do tricolor é não saber, de fato, em qual barco ele navega.

Ética, respeito e espírito esportivo

Independente da modalidade em foco, o comportamento do atleta é sua jóia maior no complexo mundo do alto rendimento. No campo clínico, ouço relatos diários de esportistas que refletem conceitos que – quase sempre – merecem uma revisão.

Corpo mole, pena do adversário, falta de comprometimento com a performance, dificuldade em lidar com a derrota e, frequentemente, com a vitória – promovem situações que esbarram em fatores vitais que garantem a fluidez e seriedade nos treinos e nas competições.

Os valores construídos na educação esportiva – reforçados pela convivência com pais e treinadores – compõem um verdadeiro campo de possibilidades de concepção e ação na prática cotidiana de competições.

Para alguns, respeito significa não finalizar uma luta, permitir – de forma proposital – que o adversário pontue durante um set no tênis, diminuir o ritmo em uma maratona para não desmotivar o concorrente e tantas outras ações que danificam o significado, respeito e a ética inseridos nas bases filosóficas, sociais e históricas do esporte.

A educação esportiva deve compreender alguns pilares do cotidiano e ser compreendida através de seu contexto familiar, social, cultural e afetivo. A construção de um atleta não é difícil – ou assim não deveria ser. Os fatores que complicam este processo quase sempre permeiam a rotina destes jovens que estruturam a auto-imagem de acordo com as respostas promovidas por suas crenças e comportamentos.

Em tempo de Jogos Olímpicos, recomendo uma reflexão sobre onde foram parar os conceitos mais básicos e fundamentais do esporte. Desde o início primitivo na luta pela sobrevivência – atravessando o culto ao corpo – barreiras religiosas – guerras políticas – advento mercantilista e, finalmente, a roupagem institucional.

Anos de história que, seguramente, não apagaram o valor humano agregado em sua composição. Afinal, antes de mais nada, vale lembrar que “ética” significa caráter, modo de ser.

Assunção e BOPE : missão dada é missão cumprida!

No auge do choro emocionado após a conquista da Copa do Brasil no estádio Couto Pereira, Marcos Assunção desabafou: “fizemos como o comandante do BOPE costuma exigir de seus soldados: missão dada, missão cumprida”.

A cúpula do Palmeiras contratou um comandante do BOPE para dar uma palestra motivacional à equipe. O perigo deste tipo de declaração (e perigosa constatação) é reforçar o senso comum que reza ao dito comandante, poderes que são idealizados por aqueles que desconhecem totalmente os aspectos sérios e científicos da preparação psicológica no futebol.

Aí o colega palmeirense vai ficar bravo com meu texto e possivelmente indagar: “Cozac, mas o time não foi campeão? Com o comandante e tudo?”. Pois é, amigos, vocês tem razão em parte. O alviverde foi, sim, campeão com todos os méritos possíveis. O que não posso deixar em brancas nuvens é o fato de jamais um jogador ter vindo a público agradecer o trabalho psicológico realizado desde o início do ano e – em especial – nos dias que antecederam a fatídica decisão.

O desabafo de Assunção revela que ainda o futebol engatinha nas bordas do superficial quando o assunto é preparação psicológica. E não culpo o discurso efusivo do campeão. Ele, entre todos, é o que menor (ou nenhuma) culpa tem. Até porque, provavelmente ele ainda não teve a experiência de trabalhar com psicólogos do esporte que possuem método, ética, bom senso e conhecimento da ciência e sua prática adaptada aos moldes do futebol.

Felipão – que perdeu boa chance de ignorar as críticas durante sua coletiva após a conquista da Copa do Brasil – não permite a proximidade de psicólogos do esporte com seu elenco. Ele prefere que um comandante da polícia seja o interlocutor principal no campo motivacional com seus atletas. E cada vez que, acidentalmente isso gera um resultado positivo, mais distante fica a Psicologia Esportiva de seu espaço de merecimento e atuação nesta modalidade esportiva.

Para o comandante do BOPE, “missão dada é missão cumprida”.

Para os psicólogos do esporte, “missão dada é missa comprida”.

A América é alvinegra!

E o sonho da Fiel torcida se realizou. O Corinthians – com todos os méritos – é o novo campeão da Copa Libertadores da América e irá disputar o Mundial Interclubes no final do ano no Japão.

Invicto durante toda a competição, o time paulista parou os argentinos e foi superior em todos os sentidos. A raça, força de vontade, equilíbrio e até a forma que provocou os argentinos fizeram o Corinthians chegar no topo da América diante de sua torcida.

Criticado por muita gente, Tite foi o grande maestro desta conquista. Com a forma paternalista de atuar, Tite ganhou a confiança dos jogadores e atingiu o ponto mais alto de sua carreira. A entrada de Cassio, o surgimento de Romarinho, a dupla de zaga, armação, meio-campo – os gols de Emerson e, acima de tudo, a entrega de cada  um dos jogadores alvinegros temperou a taça levantada por Alessandro (outro gigante dentro de campo e que viveu todo calvário do rebaixamento até a glória!).

A imprensa argentina tentou – como sempre – tumultuar a decisão levantando dúvidas sobre a carreira de Emerson, da fé de Tite, do tamanho do Pacaembu e tantos outros fatores que não o futebol. Só esqueceram de dizer que este time do Boca é muito mais meia-boca do que qualquer outra coisa. O Corinthians literalmente calou a e o Boca e ponto final!

Parabéns a todos os corintianos que acreditaram e empurraram o time em todas as rodadas da Libertadores – de avião, ônibus, carro, e até de carona. O título foi desenhado, arquitetado e conquistado com suor, alegria, consciência e coração. O que dizer de um time elimina o Santos na semi e o Boca na final e levantar a Libertadores de forma invicta? Merecimento, espírito vencedor e competência. O resto é detalhe.

O feriado de 9 de julho começou hoje e terminará só na 2a feira à noite.

São Jorge passeia por toda a América e já prepara seu cavalo com os milhões de corintianos fanáticos que lutarão, agora, pelo Mundial!