Ganso está triste

Não é de hoje que Paulo Henrique Ganso demonstra falta de alegria e vitalidade dentro de campo. O semblante do atleta expressa tristeza e apatia. Com o futebol brilhante e inspirado, o meia santista necessita de novos ares – reciclar os desafios e resgatar aquele energia criativa que o consagrou como uma das principais estrelas do futebol brasileiro atual.

A cirurgia no joelho e, principalmente os jogos que atuou no sacrifício – utilizando injeções e todo desejo de superação – minaram a força emocional de Ganso. Muitos vão dizer: “como não ter motivação recebendo esta fortuna por mês?”. Creio que esta pergunta já foi respondida no post anterior. A questão agora, é dar um novo rumo à sua carreira. Conhecer, desvendar e conquistar novos ares e desafios.

O destaque que Ganso teve no time do Santos ocorreu simultaneamente ao de Neymar. Ouso afirmar que o crescimento e reconhecimento superiores do companheiro fez Ganso desanimar e expressar uma desatenção e desinteresse perigosos para um jogador que ocupa o local de criação de sua equipe.

Na Seleção Brasileira e com a concorrência de grandes jogadores – o estado de desânimo ficou ainda mais evidente. Onde foi parar aquele atleta que bateu no peito quando percebeu que seria substituído na final do campeonato paulista contra o Santo André? – “Eu fico aqui. Eu fico aqui” disse Ganso ao treinador Dorival Junior na intenção de tirar o atleta nos minutos finais. E ali ele ficou. Ganso padece do retorno de sua alma – da (re)visão dos pequenos espaços – dos corredores que sempre representaram convites para seus lançamentos incríveis.

Genialidade não combina com tristeza nem apatia. O que o jogador produziu até aqui não pode – nem deve – ser esquecido nem desmerecido. Todos nós temos o direito de viver períodos complicados e agudos. Especialmente os mais sensíveis – como me parece ser o caso do atleta santista. Tomara que este caso tenha um desfecho feliz para todos e que ele possa se rinventar. Até porque, me parece que é esse o desafio que a vida tem lhe proposto.

Ganhará Ganso que voltará a nos brindar com suas jogadas fabulosas e, claro, o futebol como um todo que, venhamos e convenhamos, anda muito chato e previsível!

Muricy e a motivação no futebol

O treinador do Santos, Muricy Ramalho, disse em entrevista que não acredita em trabalhos motivacionais realizados nos clubes. O comandante santista justificou que os altos salários recebidos pelos atletas deveriam, por si só, ser capazes de motivar os jogadores.

Há dois erros conceituais na declaração de Muricy. O primeiro é que, de fato, o trabalho motivacional não pode – nem deve – ser uma ação isolada dos clubes. Isso já está mais que provado que é perfumaria. Vários profissionais já tem palestras motivacionais prontas e cobram fortunas para desfilar conteúdos perigosamente desconectados com a realidade dos clubes, equipes e instituições.Isso sem dizer que não conhecem as demandas, linguagem, ambiente de vestiário e dia a dia dos atletas.

Pior: se o time ganha a partida após a palestra motivacional, o trabalho é reconhecido e elogiado. Se a equipe perde, não custa nada para que se diga que a Psicologia do Esporte não surte efeito algum. Portanto, Muricy está correto quando narra seu descontentamento diante das palestras motivacionais. Por outro lado, erra ao declarar que os atletas deveriam se motivar pelo dinheiro recebido.

Na escala motivacional, o fator financeiro é considerado como “higiênico”. Ou seja: a presença não necessariamente motiva, mas sua ausência necessariamente desmotiva. Muricy falou de acordo com o senso comum que aposta na alta e melhor performance diante dos altíssimos valores recebidos pelos profissionais da bola.

Os fatores motivacionais devem ser mais bem estudados, analisados e conhecidos. E isso não é tarefa para treinadores nem  dirigentes. Para isso, existe o psicólogo do esporte – com as ferramentas oferecidas por esta fundamental área do treinamento esportivo. O grande ponto em discussão é a equivocada concepção desta ciência já tão banalizada principalmente no futebol.

O ser humano, infelizmente, ainda é massificado diante de visões que colocam o ser atleta numa forma institucionalizada e impessoal. Quando dirigentes e treinadores descobrirem os benefícios reais que um trabalho sério, ético e científico vinculado à Psicologia do Esporte pode gerar, acreditem, muita coisa vai mudar!

Até lá, ficamos com o senso comum – cada vez mais comum!

Balanço olímpico: Brasil e a pré-história no esporte

Atrás de países como a Jamaica, Coréia do Norte, Irã e Cazaquistão, o Brasil terminou sua participação nos Jogos Olímpicos no modesto 22º lugar da classificação geral. Nada de novo para um país que investe mais de 80% de seu orçamento esportivo no futebol. Ainda assim, vários atletas, de forma heróica, conquistaram medalhas sensacionais. Até porque, chegar ao podium olímpico com os baixíssimos investimentos, ausência de mídia e apelos publicitários, falta de quadras, campos, clubes, condições favoráveis de treinamento e uma política esportiva minimamente moderna e ousada é tarefa para poucos. Muito poucos.

Apesar de todas as dificuldades, modalidades como o handebol, judô, basquete masculino, natação, pentatlo moderno, maratona e tantas outras que poderiam competir por medalhas caso houvesse um olhar e condições profissionais para o desenvolvimento e formação de novos atletas. Mas isso, vale dizer, não acontece de um ano para o outro. Nem de quatro em quatro anos. Até porque, amigos, o ciclo olímpico para a formação de atletas em condição de brigar por medalhas deve durar oito anos.

E o que dizer do trabalho psicológico? Alguns profissionais foram mobilizados pelo COB para acompanhar os atletas. O problema é que esta mobilização ocorreu muito pouco tempo antes do evento e, como sabemos, não é possível mudar padrões de pensamento e emoção em períodos curtos de treinamento mental. Os Estados Unidos, por exemplo, levaram 28 psicólogos na delegação. Cada qual com trabalhos desenvolvidos desde 2008 com os atletas e equipes de diversas modalidades. Por aqui, muitos psicólogos que atuam com atletas olímpicos não estiveram em Londres por conta da falta de apoio e valorização do COB que optou em fazer comissões de profissionais oferecendo a eles poucas oportunidades e tempo limitado para o desenvolvimento adequado das atividades.

Vivemos numa cultura com características peculiares em suas demandas afetivas, carências e fragilidades emocionais, sociais, comportamentais, políticas, econômicas e midiáticas. A expressão e exposição destes valores ocorrem em eventos internacionais de grande porte. A identidade do povo brasileiro – historicamente – é dependente de ícones, mitos e heróis. Esta projeção maciça é carregada na bagagem emocional de nossos atletas quase sempre desguarnecidos de um apoio profissional adequado para auxilia-los no enfrentamento destes imensos desafios.

O fato é que estes quatro anos que nos afastam das Olimpíadas no Brasil poderiam ser otimizados se o COB saísse um pouco mais do discurso e das intenções e partisse para uma ação conjunta com clubes, instituições esportivas, profissionais de ponta nos diversos segmentos da preparação desportiva.

Sobre o futebol, vou me ater apenas à seguinte reflexão: temos atletas envernizados pela vaidade, soberba, identidade dissipada em meio a tanto dinheiro e celebridades que são apenas jogadores de futebol. Nada mais. No feminino, confesso, não esperava grandes coisas. Uma modalidade que praticamente inexiste no país não tem a menor chance de lutar contra países que investem fortunas no desenvolvimento de atletas e equipes vencedoras.

Os Jogos Olímpicos de Londres encerraram o ciclo de vários atletas brasileiros e novas gerações deverão ser formadas. Não tenho dúvidas que o voleibol continuará forte já que conta com uma estrutura diferenciada em todos os níveis – inclusive humanos, institucionais e psicológicos.

É inconcebível que um país que conta com um povo saudável, forte, cheio de habilidades motoras, recursos naturais e paixão pelo esporte passe este tipo de vexame. Assim como em cada quatro anos – o momento é de reflexão e, logo (por favor), de mudanças!

Seleção é a própria CPI do Mensalão

Fernando Dantas / Gazeta Press

Fernando Dantas / Gazeta Press

REVOLTANTE! LAMENTÁVEL! VERGONHOSO!  …  O que mais me revolta é – conforme  comentou um grande amigo – se o dinheiro da confusão entre Oscar, São Paulo e Inter – a fortuna na transação do Lucas e a multa rescisória de Neymar fossem repassadas ao esporte brasileiro, brigaríamos por várias medalhas de ouro. No entanto, somos obrigados e engolir este papelão da pior qualidade!

Pronto, agora dá para começar a escrever!

Uma vergonha absoluta. Só assim é possível definir nossa Seleção milionária que, ao longo de todo o torneio não enfrentou nenhuma equipe com sujeito, verbo e predicado – até encarar o razoável e aplicado México na final e sofrer o gol mais rápido das Olimpíadas – 29 segundos (ao menos  um recorde) ! Daí pra frente, o time perdeu o equilíbrio psicológico e não conseguiu reverter o marcador. Jogadores discutindo, brigando em campo e, no final, sofremos o segundo gol para selar o resultado da partida. O tímido gol de Hulk foi apenas para atestar o erro de Mano ao não escalá-lo desde o início da partida.

Chegar na final vencendo Bielorussia, Coréia e Honduras (na bacia das almas) não é mérito algum. Não tivemos pela frente equipes sulamericanas nem européias com o mínimo de expressão. Se esta equipe for o nosso espelho para a próxima Copa do Mundo – estamos em péssimos lençóis!Não temos coerência técnica nem tática – atletas fracos em termos de concentração, foco, ação e reação. Sabe quando teremos outra mamata destas para conquistar o ouro sem a Argentina, Itália, Alemanha e Espanha pelo caminho? Pois é.

A falta de liderança dentro de campo – o despreparo e a fragilidade psicológica/emocional de jogadores como Pato, Marcelo, Oscar, Ganso, Rafael e tantos outros são fatores tão evidentes que me parece chover no molhado dizer – uma vez mais – que este time precisa de uma preparação psicológica adequada, séria, ética e correta! Parem com motivadores de plantão, animadores culturais – filmes ridículos, discursos imbecis e trabalhos desenvolvidos por profissionais que nada sabem de Psicologia, ética profissional e emoção humana.

Sonho dourado virou pesadelo de latão e pode piorar muito ainda se tudo o que está sendo feito for mantido até a Copa do Mundo no Brasil. Dá até medo de imaginar o que pode acontecer! Aqui a coisa pode ficar – inclusive violenta – dependendo do vexame provável que protagonizaremos se nada mudar.

O fato é que  – há muito tempo viramos o “país do volei”, certo?

Pois vamos acordar! Ainda está em tempo! Nossa Seleção é o retrato fiel da CPI do Mensalão – eles fingem que julgam – nos fingimos que jogamos! As fortunas em jogo são as mesmas. Advogados e jogadores milionários em campo e nos tribunais.

Os agradecimentos ao treinador Mano Menezes que tentou montar a equipe e que – a partir de hoje – busca um time para treinar. A torcida é por Muricy Ramalho que está pronto para assumir nossa equipe!

Parabéns ao México pelo ótimo futebol. Eles aprenderam a parar nossa Seleção. E não é de hoje!

Ps. antes que os seres antropofágicos se manifestem a favor da medalha de ouro – por favor, me poupem. Nossa situação é alarmante!

Seleção do Mano não tem identidade

Toda equipe que se preze necessita de uma identidade coletiva – um conjunto de fatores emocionais, psicológicos e comportamentais para ampliar as chances de sucesso no rendimento esportivo.

A equipe dirigida pelo treinador Mano Menezes é um remendo de jogadores valiosos (a equipe mais cara dos Jogos Olímpicos) que, casualmente, se encontram dentro de campo para jogar bola. Nada mais.

A partida contra a frágil seleção de Honduras deixou todo mundo preocupado. E não é pra menos. Tivemos de correr atrás do marcardor duas vezes e atuando com dois atletas a mais, vencemos e asseguramos a vaga na semi-final quando enfrentaremos a Coréia do Sul. E é bom abrirmos os olhos porque esta equipe asiática apresenta um futebol veloz e traiçoeiro.

Teremos pela frente – até o caminho do inédito ouro olímpico – seleções de pouca (ou nenhuma) tradição no mundo do futebol. Por outro lado, qualquer equipe que atue de forma coesa, motivada e com identidade de grupo pode complicar a vida do grupo brasileiro. A falta de consistência psicológica e emocional individual dos nossos atletas é reflexo puro da falta de um elo grupal.

A força de ação de toda equipe passa, necessariamente, por um combustível comum entre seus integrantes. E os 22 jogadores do treinador Mano Menezes não tiveram tempo para conviver, jogar juntos e desenvolver esta coesão de identidade fundamental para quem almeja o lugar mais alto no podium. A esperança vive pelo talento das arrancadas do Neymar, dos chutes do Damião e do Hulk e da habilidade da zaga. O resto é reza. E haja reza!

Se o COB e a CBF imaginassem os benefícios que um trabalho psicológico esportivo ao longo de um ciclo olímpico completo poderia gerar – certamente os choros, desesperos, desculpas e pífias apresentações diárias de nossos atletas e times seriam minimamente evitadas. Afinal, nada justifica um país com o tamanho e potencial do Brasil brigar para ficar entre as 30 melhores nações do mundo esportivo.

Com um pouco mais de organização, conhecimento, modernidade e bom senso, muita coisa boa pode ser feita, certo?

Eu ou o Brasil?

A medalha de ouro conquistada pela judoca piauiense Sarah Menezes representou uma das conquistas mais legítimas e desportivamente puras no universo olímpico brasileiro. Após a merecida vitória, Sarah negou pensar no país ou na família momentos antes ou até durante as lutas.

O ufanismo e a baixa autoestima de nosso povo são convites tentadores para o desenvolvimento de relações impessoais e pouco íntimas com o alto rendimento. Especialmente os atletas pouco preparados emocionalmente se tornam – facilmente – protagonistas coordenados por esta engrenagem que tem o fracasso como o destino mais provável.

A relação estreita com a performance talvez seja o comportamento mais importante de um atleta que almeja o lugar mais alto do podium. O apelo e desejo das massas são  potencialmente desastrosos diante da necessária integração do atleta com seu rendimento.

Raros são os atletas que conquistam a liberdade interna e associam suas respostas aos objetivos previamente traçados. O isolamento e blindagem social são processos quase impraticáveis. No entanto, o foco e as metas, quando planejadas adequadamente e acompanhadas por um fortalecimento psicológico são aliados fundamentais para combater os desvios quase imperceptíveis dos movimentos treinados à exaustão anos antes de competições de tanta exposição como no caso das Olimpíadas.

A necessária relação de intimidade exigida pelo sucesso dos rendimentos esportivos tem sido pouco compreendida e praticada pela maioria dos atletas. Boa parte é seduzida pelos holofotes da fama – num processo de dissipação da autocrítica e abertura de perigosas concessões que distorcem a compreensão educativa do sentido da vitória.

Há um momento necessariamente solitário em que atletas silenciam todas as vozes irrelevantes e focalizam seus movimentos técnicos, força, atenção e espírito competitivo a um momento único, pessoal e intransferível.

Especialmente num país como o Brasil em que vários jingles publicitários são criados com a intenção evidente de abastecer esta infindável carência sociocultural de nosso povo – o discurso de Sarah após a conquista do ouro olímpico torna este trunfo ainda mais singular.

Algumas cisões no desenvolvimento humano são esperadas. Elas finalizam fases e inauguram novas possibilidades de ação e autoconhecimento. No esporte a equação é rigorosamente a mesma: é preciso quebrar alguns conceitos que aprisionam o direito e a liberdade do pleno exercício da potência interior. Sem ela, tudo fica mais difícil. O adversário cresce e as vozes internas – e externas – se transformam em sons desafinados e potencialmente destrutivos.

As razões e fundamentos plenos da motivação esportiva devem ser cuidados e respeitados por todos aqueles que, direta ou indiretamente, estão à frente de preparações esportivas que visam o alto rendimento. O samba e o carnaval estão sempre prontos para celebrar nossas conquistas. Até lá, o saber consistente das mentes campeãs seguem o rumo ditado pelos sonhos mais íntimos estimulados por um alto grau de legitimidade e desprendimento.