Seleção Brasileira e CBF: o perigo das contradições

Tenho acompanhado, com bastante preocupação, a situação do futebol brasileiro e de nossa Seleção que, cada vez mais, demonstra fragilidade, falta de metas, comando, seriedade e planejamento. Os sucessivos escândalos financeiros de dirigentes expõem nacional e internacionalmente a credibilidade do nosso futebol às vésperas de sediar uma Copa do Mundo.

No comando técnico, é prudente começarmos a rezar. Após dois anos procurando a melhor formação – Mano Menezes foi demitido e, muito possivelmente, Felipão deverá assumir nas próximas horas. Interesses políticos e a referência do Penta colocarão o ex-treinador do Palmeiras à frente da Seleção Brasileira. Afinal, vivemos no país da repetição e falta de renovação. Ninguém quer saber se o Penta foi há 10 anos. O que importa é que ganhou e ponto final.

Continuo frisando que a queda do Palmeiras tem relação estreita com a falta de habilidade do treinador para gerenciar os conflitos internos do time. Certamente – a crise política do clube contribui (e muito) no rebaixamento pós conquista da Copa do Brasil. Porém, na minha opinião, o Felipão não se atualizou nestes dez anos – assim como o nosso futebol de uma forma geral – nos modelos científicos, psicológicos, administrativos, técnicos, táticos, publicitários etc etc etc.

O fato é que os dias vão passando e o Mundial se aproxima a passos largos enquanto – deitados em berço esplêndido, rezamos para que tenhamos o mínimo de condição para oferecermos suporte em infra-estrutura, segurança e, claro, apresentar um time razoável para o campeonato.

A parte psicológica (sumariamente ignorada na CBF – apesar dos pedidos do Mano quando de sua chegada por lá) deverá pesar bastante na próxima Copa. Ninguém se deu conta da pressão que virá de todos os lados e da fragilidade emocional de boa parte de nossos atletas. Volto a dizer: a presença de um departamento de Psicologia do Esporte não garante o sucesso – mas sua ausência pode, sim, determinar o fracasso de uma jornada esportiva. As Copas de 1950, 1986, 1990, 1998, 2006 e 2010 são mais que testemunhas deste processo. Como por aqui, alguns paradigmas insistem em se manter vivos no senso comum, a copa de 2014 bem provavelmente será uma das que mais demandará nas esferas psicológica e emocional de nossos atletas individual e coletivamente.

Fato é que os dois anos do  Mano foram jogados no lixo. Até porque, tudo o que estiver atrelado à antiga administração da CBF está sendo deletado – sem critério, profissionalismo nem metodologia.  Pep Guardiola não deve assumir a Seleção Brasileira. Ele precisaria de mais tempo para estruturar uma equipe no formato de seu trabalho. Tite e Muricy, creio, são pouco prováveis. Enfim, a CBF é o puro reflexo da falta de comando e das imensas e intermináveis contradições que ocorrem em boa parte das empresas nestes país.

A falta de investimento no lado humano dos atletas e na concepção moderna da gestão administrativa serão adversários tão difíceis de serem encarados como as seleções da Espanha, Alemanha, Itália e Argentina. A fé do povo brasileiro é imensa e será nela, tenho certeza, que o mínimo de otimismo deve permanecer para que tenhamos um evento digno e uma equipe a altura da grandeza de nosso futebol que, hoje, pelo ranking da Fifa, está em 14o. lugar.

SELEÇÃO BRASILEIRA: PEDIDO AO PAPAI DO CÉU

Papai do Céu – sei que o Natal está chegando e tenho certeza que me comportei bem durante o ano. Fui um bom filho, profissional, marido, cidadão.

Foi um ano fabuloso na minha vida – em todos os

sentidos – e sei que só tenho, como sempre, a agradecer por tudo!

Só que este ano, especialmente, gostaria de fazer um pedido especial Papai do Céu – por favor, é um pedido que faço emocionado, angustiado e tenso (na mais alta voz silenciosa):

- Por favor, meu Deus, não permita que o Felipão assuma a Seleção Brasileira. Um treinador ultrapassado, em fim de carreira, que utiliza métodos de treinamentos utilizados na Idade Antiga – como os treinos com cordinhas, que foi, SIM, um dos principais responsáveis pelo recentíssimo rebaixamento do Palmeiras e que, se ganhou o Penta para o Brasil – que fique bem armazenado no túnel do tempo. Uma década se passou e muita coisa mudou! Ele ainda acredita que o trabalho psicológico se resume a aplicação de testes, seguido de um laudo (e ponto final). Ele “perdeu a mão” de como se lidera um grupo e não é de hoje. Por favor, Papai do Céu, coloque algum juízo na cabeça do Marin (Exmo. presidente da CBF) – é hora de colocar um treinador com sangue e visão mais modernos. Por que não, Muricy ou Abel Braga? Eles pensam o futebol de uma forma mais realista e conhecem as demandas e características de nossos atletas como ninguém.

Agora, Papai do Céu, se Sua vontade for colocar o Parreira (com o Zagallo ) ou o Felipão (com suas jurássicas táticas de administração de grupo e conflitos), prometo respeitar e ser um bom menino: vou acompanhar o Rugby que será bem mais emocionante.

Agora, Papai do Céu, se o Senhor quiser nos alegrar e surpreender, confesso (e sei que em nome de muitos) – iríamos amar conhecer e conviver com o Pep Guardiola por bons anos!
Que TODOS os anjos digam Amém!

Palmeiras na segundona!

10 anos e 31 horas depois do rebaixamento, o Palmeiras caiu novamente para a segunda divisão e 2013 promete ser um ano complicadíssimo para o alviverde paulista.

Primeiro por conta da Libertadores – que é sempre um torneio difícil e que exige bastante dos clubes. Depois, claro, pela briga para retornar à elite do futebol nacional. Este desastre protagonizado pelo time é apenas o mais puro reflexo de uma administração ultrapassada, irresponsável e pouco capacitada dos cartolas.

A falta de planejamento ao longo dos últimos anos foi impressionante. O time chegou a viajar com apenas 4 jogadores para compor o banco de reservas. Com isso, até o assessor de imprensa do clube precisou compor o elenco nos treinamentos.

Felipão e vários outros treinadores tiveram parcela de culpa neste desastre. A Psicologia, no clube, sempre banalizada. O próprio Felipão permitia o acesso de uma psicóloga apenas para aplicar testes de perfil e nada mais. Tudo foi feito com muito amadorismo e irresponsabilidade.

O marketing do clube sempre muito fraco. A ação publicitária da chegada do Wesley foi um verdadeiro tiro no pé. O jogador pouco participou dos campeonatos após se lesionar gravemente no primeiro semestre.

Recordo quando o Corinthians estava para cair – eu sempre dizia (mesmo que os amigos corintianos não aceitassem): “ gente, é prudente e melhor que o time caia. Vai subir com mais força e estruturado”. Dito e feito – o Corinthians – após o retorno para a divisão principal ganhou praticamente tudo o que disputou. Inclusive a tão sonhada Libertadores.

No caso do Palmeiras, não me arrisco a dar o mesmo palpite. Até porque, não vejo uma luz no fim do túnel escuro da equipe paulista. Não há estádio, time, presidente nem diretoria. Muito difícil a vida do Palmeiras daqui para frente. A segunda divisão – a cada ano – está cada vez mais forte. Se nada for feito para mudar a visão e administração do departamento de futebol, o Palmeiras tende a ficar mais de um ano longe da elite dos clubes brasileiros.

Um trabalho psicológico esportivo – sério e científico (nada de palestras isoladas ou mapeamentos de perfis psicológicos) , me parece absolutamente necessário para o próximo ano. Enquanto os aspectos mentais e psicológicos estiverem num plano secundário – tudo ficará ainda mais sinuoso nesta estrada cercada por obstáculos que são ampliados, sem dúvida, pela pouca capacidade dos mandatários alviverdes.

De nada adianta agora a torcida ameaçar dirigentes, diretores e atletas – pichar muros e reagir com violência. Do mesmo modo, os cartolas do clube não resolverão nada brigando e dando cadeiradas uns nos outros.

A casa caiu. E a reconstrução exige liderança e critério dentro e fora de campo.

Alguém se habilita?

Ps. e o jogo de despedida do Marcão? que triste!

Pelo direito de correr

Numa manhã de Primavera, Forrest Gump resolveu dar uma volta ao mundo correndo. Conseguiu adeptos por onde passou. Muita gente admirou sua força de vontade e sensibilidade ao passar a mensagem que, desde cedo aprendeu com sua mãe: “As pessoas são como as caixas de bombons: sempre estão prontas a nos surpreender”. Forrest tinha um verdadeiro motivo para sua ação. Sabia o significado de seu ato e era abastecido pelo companheirismo e admiração de todos aqueles que tentavam acompanhar seus passos.
O leitor já se perguntou, alguma vez, quais os motivos que os leva a correr? Alguns gostam do desafio e buscam, a todo custo, superar os limites impostos pelos adversários. Em geral, são corredores que são motivados para a competição e não se contentam com uma boa colocação na linha de chegada. O que vale é apenas a vitória. Nada mais.
Já, outros, optam pelo desafio de completar uma maratona, por exemplo. Estes atletas têm o repertório motivacional orientado para a realização. Os adversários, nestes casos, estão dentro de cada um. O desejo de conseguir diminuir o tempo, finalizar a prova e sentir o prazer em colocar a medalha supera a vontade de estar no lugar mais alto do podium.
No entanto, não basta apenas uma preparação física adequada: é preciso que a mente e as emoções acompanhem a fortaleza do corpo e sejam aliadas inseparáveis no momento da corrida.
A ansiedade, em geral, é a principal vilã daqueles que buscam o desempenho favorável em uma prova. Ela é a responsável pelo surgimento daqueles pensamentos intrusos que só dificultam a manutenção da concentração nos momentos mais delicados. A equação é exata e implacável: aumenta a ansiedade, cai a concentração.
Manter a concentração focada durante uma ou duas horas é tarefa para poucos. Pude constatar, nestes últimos anos em minha clínica psicológica, o grande aumento de atletas que têm o rendimento prejudicado por conta da dificuldade de manter a atenção e os pensamentos na mesma direção e, claro, alinhados com a emoção durante o período em que estão correndo.
A técnica mais utilizada pela Psicologia do Esporte, nestes casos, é a da visualização – processo de comunicação entre a emoção, percepção e mudança corporal – importante causa tanto da saúde quanto da doença, é a maior e mais antiga fonte de cura e aperfeiçoamento do rendimento e da performance em todas as modalidades esportivas.
Os exercícios de visualização e as demais técnicas viso-motoras representam as principais formas de atuação e intervenção psicológica no esporte.
Através da imaginação é possível vivenciar uma situação sem estar presente no ambiente em que ela se desenrola. Este ensaio de vivência produz um relato bastante fiel sobre as emoções e pensamentos envolvidos durante uma maratona ou qualquer outra prova que exija concentração e foco apurados. Este tipo de exercício mental já é considerado um treinamento esportivo em vários países do mundo. Infelizmente, no Brasil, estas técnicas se confundem com práticas de curandeirismos e/ou feitiçarias. Nada contra estas duas práticas. O ser humano, ao longo da história, desenvolveu sua fé, valores, princípios e autoconhecimento através dos magos e gurus. Ressalvo, apenas, que vivemos uma nova Era e, com ela, novas tendências e necessidades evidenciam a necessidade de se revolucionar o método e a intervenção.
A postura imaginativa direciona o caminho que pretendemos trilhar ao longo da vida em todos os seus campos. Optamos pela saúde ou doença. A mente assume um caráter determinista e final no processo evolutivo de nossa espécie. No esporte, a motivação, concentração, controle de ansiedade e gerenciamento do estresse AJUDAM A FORMAR O ALICERCIE do iceberg mental que deve ser cuidado com o mesmo zelo que o físico e o técnico.
A metáfora de Forrest Gump nos relembra os mitos gregos. Ao contrário de heróis como Prometeu ou Jesus, não nos empenhamos em nossa jornada para salvar o mundo, mas para salvar a nós mesmos. Mas, ao fazer isso, você salva o mundo. Afinal, onde imaginávamos viajar para longe, iremos ao centro de nossa própria existência.
E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo.

Lance Armstrong e o assédio moral e público


Tenho acompanhado – com certa proximidade – os desdobramentos da condenação por uso de doping do ciclista Lance Armstrong – um caso esportivo com traços psicossociais dramáticos. Gostaria de adiantar, a princípio e até o final deste texto, que não estou aqui para julgar a ingestão (ou não) de substâncias ilícitas, mas para apontar o verdadeiro apedrejamento em praça pública o qual vem sofrendo o atleta nas lentes da mídia mundial e as consequências psicológicas e sociais que esta vivência poderá gerar no ser humano que agoniza diante das seguidas punições.

Outro dia soube que a Confederação Brasileira de Ciclismo anunciou a demissão do técnico da seleção Antonio Carlos Silvestre e culpou as declarações dele a uma reportagem no programa Fantástico, da TV Globo, para explicar seu desligamento do comando de nossa equipe.

Silvestre, que comandava a seleção brasileira do ciclismo de estrada, participou de uma matéria sobre doping, abordando a polêmica com o norte-americano Lance Armstrong, que recentemente perdeu seus sete títulos da Volta da França. Na reportagem, Silvestre dá a entender que o doping é uma realidade no ciclismo, e em especial no Brasil. E ele está certo. O doping é uma realidade, sim, que deve ser alertada. Muitas vidas são perdidas por conta do uso abusivo de substancias que geram doenças e mortes súbitas. O fato de Silvestre vir a público denunciar o habitual uso de doping dos ciclistas lhe valeu o cargo de treinador da seleção brasileira. Talvez seja mais prudente permanecer na hipocrisia das vistas grossas. O prejuízo pessoal é, com certeza, menor.

O que mais me preocupa, no entanto, é com o futuro de Lance diante destas penitências institucionais abusivas que, aos poucos, vão minar qualquer possibilidade de reação emocional e convivência social de Armstrong. O ser humano (sim, o atleta já morreu) busca espaço para respirar, entender e se encontrar emocional e socialmente – na possibilidade de reconstruir sua identidade. A questão principal é que as sucessivas punições e execrações impossibilitam toda e qualquer iniciativa de fazer o oxigênio chegar a seus pulmões. O desfecho desta trama pode ser trágico.

O moralismo que habita a elaboração coletiva de um fato social, segundo Durkheim, consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem poder de coerção sobre o indivíduo. O importante é a realidade objetiva dos fatos sociais, os quais têm como característica a exterioridade em relação às consciências individuais e exercem ação coercitiva sobre estas. Obviamente que o COI, Nike e todos os patrocinadores não estão minimamente interessados em estudar Durkheim nem, muito menos, pensar no lado humano e nas possíveis consequências funestas deste triste caso. Há, de fato, um efeito dominó de processos jurídicos institucionais que parece não ter mais fim.

Não me recordo, na história do esporte mundial, de um caso tão singular de perseguição moral (muito pior que a financeira) como o que vem ocorrendo com Lance Armstrong. Minha preocupação, reforço, é com o perigoso desdobramento deste fato e, acima de tudo, com a falsidade ideológica que permeia as decisões dos grandes monopólios financeiros esportivos. Em vez desta mobilização absoluta da coletividade de patrocinadores para extinguir e deletar os feitos de um atleta pelo uso de substâncias ilícitas, não seria mais prudente e indicado que estas mesmas empresas se unissem em campanhas preventivas de saúde no esporte?

Estou ao lado do ex-treinador da Seleção de Ciclismo, Silvestre – existem, sim, inúmeros casos de doping nesta e em várias outras modalidades. Não sejamos hipócritas a ponto de cegar diante de uma realidade inegável e preocupante. Por outro lado, é preciso um pouco mais de bom senso e tranquilidade na apuração e divulgação dos fatos.

Esta inundação social de condenação apenas reforça algo que todos já sabem e pior: agem como se Lance fosse o primeiro e único caso de uso de doping no esporte mundial. O que a ação deste pool de empresas poderá gerar a curto/médio prazo? No plano esportivo, uma porção de areia nos olhos de quem pensa enxergar e compreender alguma coisa. Na condição existencial de Lance, uma prova mais difícil que a vitória conseguida na luta contra vários tumores.

O fato social  (durkheimiano ou no senso comum) impõe posicionamentos que ultrapassam os limites da individualidade, do respeito e da coerência dos aspectos humanos mais legítimos e ontológicos.