Lance Armstrong e o assédio moral e público


Tenho acompanhado – com certa proximidade – os desdobramentos da condenação por uso de doping do ciclista Lance Armstrong – um caso esportivo com traços psicossociais dramáticos. Gostaria de adiantar, a princípio e até o final deste texto, que não estou aqui para julgar a ingestão (ou não) de substâncias ilícitas, mas para apontar o verdadeiro apedrejamento em praça pública o qual vem sofrendo o atleta nas lentes da mídia mundial e as consequências psicológicas e sociais que esta vivência poderá gerar no ser humano que agoniza diante das seguidas punições.

Outro dia soube que a Confederação Brasileira de Ciclismo anunciou a demissão do técnico da seleção Antonio Carlos Silvestre e culpou as declarações dele a uma reportagem no programa Fantástico, da TV Globo, para explicar seu desligamento do comando de nossa equipe.

Silvestre, que comandava a seleção brasileira do ciclismo de estrada, participou de uma matéria sobre doping, abordando a polêmica com o norte-americano Lance Armstrong, que recentemente perdeu seus sete títulos da Volta da França. Na reportagem, Silvestre dá a entender que o doping é uma realidade no ciclismo, e em especial no Brasil. E ele está certo. O doping é uma realidade, sim, que deve ser alertada. Muitas vidas são perdidas por conta do uso abusivo de substancias que geram doenças e mortes súbitas. O fato de Silvestre vir a público denunciar o habitual uso de doping dos ciclistas lhe valeu o cargo de treinador da seleção brasileira. Talvez seja mais prudente permanecer na hipocrisia das vistas grossas. O prejuízo pessoal é, com certeza, menor.

O que mais me preocupa, no entanto, é com o futuro de Lance diante destas penitências institucionais abusivas que, aos poucos, vão minar qualquer possibilidade de reação emocional e convivência social de Armstrong. O ser humano (sim, o atleta já morreu) busca espaço para respirar, entender e se encontrar emocional e socialmente – na possibilidade de reconstruir sua identidade. A questão principal é que as sucessivas punições e execrações impossibilitam toda e qualquer iniciativa de fazer o oxigênio chegar a seus pulmões. O desfecho desta trama pode ser trágico.

O moralismo que habita a elaboração coletiva de um fato social, segundo Durkheim, consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem poder de coerção sobre o indivíduo. O importante é a realidade objetiva dos fatos sociais, os quais têm como característica a exterioridade em relação às consciências individuais e exercem ação coercitiva sobre estas. Obviamente que o COI, Nike e todos os patrocinadores não estão minimamente interessados em estudar Durkheim nem, muito menos, pensar no lado humano e nas possíveis consequências funestas deste triste caso. Há, de fato, um efeito dominó de processos jurídicos institucionais que parece não ter mais fim.

Não me recordo, na história do esporte mundial, de um caso tão singular de perseguição moral (muito pior que a financeira) como o que vem ocorrendo com Lance Armstrong. Minha preocupação, reforço, é com o perigoso desdobramento deste fato e, acima de tudo, com a falsidade ideológica que permeia as decisões dos grandes monopólios financeiros esportivos. Em vez desta mobilização absoluta da coletividade de patrocinadores para extinguir e deletar os feitos de um atleta pelo uso de substâncias ilícitas, não seria mais prudente e indicado que estas mesmas empresas se unissem em campanhas preventivas de saúde no esporte?

Estou ao lado do ex-treinador da Seleção de Ciclismo, Silvestre – existem, sim, inúmeros casos de doping nesta e em várias outras modalidades. Não sejamos hipócritas a ponto de cegar diante de uma realidade inegável e preocupante. Por outro lado, é preciso um pouco mais de bom senso e tranquilidade na apuração e divulgação dos fatos.

Esta inundação social de condenação apenas reforça algo que todos já sabem e pior: agem como se Lance fosse o primeiro e único caso de uso de doping no esporte mundial. O que a ação deste pool de empresas poderá gerar a curto/médio prazo? No plano esportivo, uma porção de areia nos olhos de quem pensa enxergar e compreender alguma coisa. Na condição existencial de Lance, uma prova mais difícil que a vitória conseguida na luta contra vários tumores.

O fato social  (durkheimiano ou no senso comum) impõe posicionamentos que ultrapassam os limites da individualidade, do respeito e da coerência dos aspectos humanos mais legítimos e ontológicos.

4 comentários em “Lance Armstrong e o assédio moral e público

  1. Parabéns pela reportagem… fantástica… sou fã do Lance e vou continuar sendo… gostaria de saber qual atleta de ponta que numca usou uma substância ilícita??? Sabemos também que o doping esta anos luz na frente dos exames e sempre vai estar… Simplismente estamos vendo uma persiguição ao atleta por outros motivos. Nimguém fala da nadadora na última olímpiada (se eu não me engano Chinesa) de apenas 16 anos que em dado momento da prova teve um melhor tempo do que o masculino… Concluindo… quer ver atletas limpos vai jogar video game…

    • Perfeito, Adriano!
      Essa hipocrisia no esporte precisa terminar logo! Pegaram o Lance como “boi de piranha” e isso é um absurdo.
      Procuro fazer minha parte que é a de oferecer uma opinião psicológica mais isenta de conteúdos capitalistas e ditatoriais.
      Que bom que você gostou. Forte abraço, Cozac

  2. Também acredito em perseguição ao atleta e certamente por outros motivos!
    Em matéria da Gazeta Press, Alberto Contador defende Lance Armstrong e diz que ele está sendo humilhado e segundo o espanhol, os ataques a Lance Armstrong são realmente exagerados…
    http://www.superesportes.com.br/app/1,13/2012/10/24/noticia_maisesportes,232595/alberto-contador-defende-lance-armstrong-e-diz-que-ele-esta-sendo-humilhado.shtml

    Blog ASSÉDIO MORAL É CRIME HEDIONDO
    http://assediomoralcrimehediondo.blogspot.com.br/

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