Síndrome do pequeno poder

Professores déspotas e autoritários na escola ou na universidade – chefes de confederações desportivas que atuam como donos da verdade absoluta – guardas de trânsito que agem como generais de guerra – seguranças de empresários (até donos de padaria) que juram proteger o presidente dos Estados Unidos – gestores de empresas que usam a cadeira de trabalho para expor a inexorável fragilidade emocional.
Se você já conheceu alguém com estas características comportamentais, acredite, esteve – ou está – diante de uma figura bizarra e corriqueira do mundo atual que, na prática, existe há muito tempo.
Professores montam esquemas perversos – aterrorizadores – na elaboração de notas e provas em suas disciplinas para mobilizar a atenção dos alunos. Pior: a relação sadomasoquista ganha força na medida em que muitos alunos se hipnotizam – num ato quase patológico de fascinação – diante da atuação mascarada de aparentes leões com alma de ratos. Um rostinho fotogênico associado a uma boa roupa da moda – um chicote invisível – ou quase aparente – no diário de classe provocam gemidos de puro prazer patológico em alguns – e ódio e desprezo em outros. Gente que cresceu no ambiente acadêmico e aprendeu – precocemente – que a vaidade impera nas relações de poder. Ainda que pequenas, quase minúsculas – tanto quanto suas pobres concepções e autoimagens fálicas de autoridade.
Na clínica, ouço relatos escabrosos de atletas sobre chefes de confederações que se prevalecem da posição para humilhar publicamente – pasmem – os próprios afiliados. Sujeitos complexados que deveriam, a priori, cuidar da mente e do equilíbrio emocional, encontram no exercício do pequeno poder, a oportunidade ideal para aliviar a constatação diária e desastrosa de suas pequenezas interiores. E olha que estes indivíduos se espalham como praga e não há inseticida capaz de conter a reprodução destes seres ignóbeis. O desprezo é, ainda, a melhor arma de ataque (ou defesa). Bater de frente com eles é dar munição ao inimigo e fortalecer os contornos medíocres da hipocrisia e falsidade maquiados freneticamente nestes pobres rostos desfigurados pelo tempo e desilusões.
Amor e poder andam na contramão. Respeito poderia ser um belo substituto do poder nos relacionamentos – não só amorosos, mas familiares, profissionais, administrativos, de amizade, coleguismo, e assim por diante.
Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela! Qualquer tipo de poder – ainda que pequeno, é a fração exata e necessária para que a avalanche da insegurança e fragilidade pessoal ceda espaço ao comportamento mais destrutivo no campo simbólico e social.
“O homem guiado pela ética é o melhor dos animais; quando sem ela, é o pior de todos.”(Aristóteles, 384 – 322 a.C.)