
Hoje li uma matéria excelente divulgada pela ESPN intitulada: “A Copa 2014 já está perdida”. A força do título atraiu minha atenção e curiosidade. De fato, perdemos muita coisa até aqui – jogamos fora oportunidades de crescimento e desenvolvimento nas mais variadas áreas (administrativas, financeiras, esportivas, políticas, de infraestrutura etc.) – muitos números estão sendo contestados, obras mal acabadas ou sucateadas – além de um retrocesso político/administrativos dos mais elevados! A chance que nos foi dada – até aqui, foi pessimamente aproveitada. Mas engana-se quem acha que o atraso (ou possibilidade de progresso) ocorreu apenas fora das quatro linhas. Muito pelo contrário.
Após as cinco primeiras partidas da Seleção Brasileira no comando do Felipão, hoje resolvi fazer um exercício – daqueles simples, porém com resultado contundente: peguei uma folha de papel e uma caneta para começar a escrever 23 nomes de atletas que não poderiam ficar fora da convocação para a Copa das Confederações. Tal não foi minha surpresa com a quantidade mínima de jogadores que eu escalaria com segurança para o torneio. Creio que não chegaria nem na metade dos 23 que estarão presentes no torneio. Conversei com alguns colunistas esportivos mais experientes – que atuaram em épocas vitoriosas do nosso futebol. Alguns deles comentaram que entre a década de 60 e 70 – era possível montar – no mínimo – duas belas seleções brasileiras e que, não raro, vários atletas eram injustiçados pela não convocação justamente pela falta de espaço no plantel. Ao contrário daquela época, o esforço atual é o de conseguir um time com 11 atletas em condições plenas (física, tática, técnica e psicológica) para nos representar em torneios de grande importância que se aproximam.
Outro ponto importante a ser analisado é o fraco nível dos times brasileiros que – nem de longe – são parâmetros para avaliarmos a performance de nossos atletas. Quem está acompanhando as partidas finais da Liga dos Campeões – da Europa – já constatou – certamente, que, por aqui, os campeonatos estaduais (sem exceção) perderam a importância e valorização dos principais times. O Brasileirão sempre surge com – no mínimo – meia dúzia de grandes clubes em crise ou com futebol abaixo da crítica. Aí questiono: como avaliar um Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Leandro Damião, Jadson, Osvaldo e tantos outros atletas que tão bem atuam em suas equipes e, ao mesmo tempo, tão distantes estão da realidade do futebol internacional?
A resposta para essa e tantas outras dúvidas aparece quando jogamos, por exemplo, contra o time quase reserva do Chile e não conseguimos vencer dentro dos próprios domínios. O comprometimento e a prontidão esportiva destes garotos não são minimamente suficientes para enfrentar estruturas técnicas e táticas que – muito possivelmente – nos engolirão na Copa das Confederações e na Copa do Mundo. Para complicar este quadro, ainda contamos com um treinador que simplesmente parou no tempo – tanto na composição tática e técnica – como nas reações intempestivas e perigosamente ameaçadoras para o emocional dos atletas que, por si só, já é um fator de extremo risco. Grita com o árbitro à beira do campo, irônico nas entrevistas coletivas e muito distante daquilo que hoje se espera de um verdadeiro comandante.
Reivindicar um trabalho sério e científico de Psicologia Esportiva é quase uma blasfêmia para os chefões da CBF e para o próprio Felipão que acredita (ao menos acreditava) no papel do psicólogo do esporte apenas como elaborador de mapeamentos psicológicos esportivos. Nada mais. E isso, amigos, é muito pouco pelo que pode oferecer essa ciência fundamental no treinamento esportivo. Especialmente quando pensamos no tamanho da pressão que esses garotos sofrerão durante os próximos dois torneios em solos brasileiros. É, no mínimo, uma gigantesca irresponsabilidade daqueles que deveriam, a priori, zelar pela modernidade, administração e conceituação correta de ser humano e atleta. Ainda que dentro de uma concepção capitalista e empresarial do esporte atual – alguns paradigmas devem ser revistos para que não surjam lacunas tão profundas entre a capitalização do ser humano e suas reais possibilidades de não se afogar nas tramas da identidade distorcida diante dos olhos atônitos da irracionalidade coletiva das grandes massas. E por falar nelas, a temperatura está quente e pronta para ferver, como sempre!
Será que é tão difícil assim constatarmos que não temos, há tempos, o melhor futebol do mundo? Certamente que sim. Especialmente para um povo que tem, no futebol, as raízes e temperos de sua identidade social e cultural.