Hoje vencemos os franceses

passado presente futuro

Minha querida amiga e professora Suely Gevertz​ – outro dia na aula do curso sobre “raciocínio clínico na prática terapêutica” realizado no Instituto Sedes, disse: “o horário da sessão que passou, passou. Ele não volta mais. Não se pode repor aquilo que já passou”.

Na mesma linha, gostaria de refletir sobre a vitória do Brasil, hoje, em Paris diante da França por 3 a 1 – de virada. Muita gente  certamente – naquele peculiar sensacionalismo, está tentando afirmar que “a vingança de 98 foi feita”, quando perdemos aquele Mundial para os anfitriões por 3 a 0. Dunga e Ronaldo estavam em campo. Hoje, Dunga é o treinador e Ronaldo, comentarista. Portanto, muita coisa mudou de lá para cá.

Ora, amigos, aquela final de 98 jamais será vingada – tanto como a derrota para os uruguaios no Maracanã – em 1950 e o vexame histórico do #eterno7a1 na última Copa disputada em nosso país. As lágrimas derramadas não voltarão aos nossos olhos assim como não sumirão as dores e as lições que essas derrotas duramente nos ensinaram.

A Seleção comandada por Dunga jogou um belo e surpreendente futebol. Confesso que eu não esperava nem 10% da beleza que foi essa partida e o desempenho dos brasileiros. Sinal que é possível montar uma equipe competitiva e com belo futebol. Talvez nem o próprio Dunga poderia imaginar que isso fosse possível tão cedo.

Mesmo assim, o fantasma da convulsão de Ronaldo ainda habita o emocional de todos nós – os gols de Zidane, o baile que levamos dos franceses e todo aquele time que se desintegrou na partida final do Mundial em 1998.

Repito: nada, rigorosamente nada servirá de reposição ou moeda de troca de uma dívida esportiva que já foi feita e não há tempo para substituição, pagamento, financiamento ou descarga.

Vamos comemorar que um belo futebol foi jogado pelos nossos atletas e vencemos os franceses, hoje, dia 28 de março de 2015, na casa deles.

E é só.

São Paulo desaba na Arena do Palmeiras

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5 minutos. Esse foi o tempo que o São Paulo demorou para perder a partida de hoje. Tomou o primeiro gol da intermediária após a falha do Rogério Ceni e padeceu diante do destempero de Rafael Toloi – expulso com 7 minutos do primeiro tempo e da entrada (infantil e ao mesmo tempo reprovável) do Michel Bastos que também foi para o chuveiro mais cedo.

Para definir: baile. Sim, essa é a palavra que melhor define a derrota do São Paulo para o Palmeiras. Alguns jogadores do tricolor, visivelmente apáticos emocionalmente. Já, outros, demonstram um desequilíbrio altamente perigoso para um time que busca resgatar suas forças no futebol brasileiro. No banco, Muricy parece ter jogado a toalha.

Sei que a Psicologia do Esporte é pessimamente compreendida no futebol, concebida com preconceito e desinformação – mas deixarei – aqui, as opiniões de quem atua na área há 20 anos e percebe, através das lentes mentais, a fragilidade clara de um time de futebol.

O São Paulo desenvolveu uma crença central – nesses últimos anos – que “as coisas sempre vão melhorar no ano seguinte” e, assim, atua de forma reticente, irregular a nada consistente. Essa crença gera pensamentos automáticos diretos no grupo de atletas que, por conseguinte, promove um comportamento de insegurança, baixa autoestima e confiança. Não me parece tão complicado entender esse processo psicológico.

O ponto principal do time do Morumbi, a meu ver, é que a soma dos estilos de personalidade dos jogadores do São Paulo gera uma resultante frágil em termos de tendências de competência competitiva. O time consegue se impor apenas e tão somente diante de equipes mais frágeis tecnicamente. Quando os desafios mais fortes se apresentam, o grupo não consegue se unir positivamente em termos de comunicação, força interna e pró-atividade (tomada de iniciativa, ação e reação) nas partidas. Os jogadores demonstram uma apatia contagiante, ainda que consiga uma maior posse de bole – o resultado é bem abaixo do investimento que é realizado. Muito gente questiona se o grupo quer derrubar o Muricy. Por que faria isso?

Afinal: será que é tão difícil assim perceber que o Ganso e Pato, por exemplo, não demonstram assertividade comportamental esperada para um camisa 10 do seu porte? Especialmente depois das cirurgias, o jogador nunca mais foi o mesmo. E o que tem sido feito para mudar esse quadro de reclamações após os jogos e apatia dentro de campo? Nada. Rigorosamente nada.

O presidente Carlos Miguel Aidar já afirmou que “o clube só contrata jogadores com todos os dentes” – numa desnecessária rixa com cartolas de outros clubes. Enquanto isso, Centurion começou o clássico no banco de reservas. Aliás, o atleta é um dos raros destaques comportamentais da equipe – uma espécie de balão de oxigênio de uma raça que falta aos demais atletas. Como no futebol (e na vida) “uma andorinha só não faz Verão” – pouco ou nada irá mudar com apenas um jogador que atua com o coração na ponta da chuteira.

Outra coisa: estão querendo transformar o Luis Fabiano num anjo. Isso é claro e evidente que não funcionará. A questão é desenvolver um trabalho psicológico de adequação de comportamento e não de extinção de suas respostas agressivas que prejudicavam a si e ao grupo por conta das contínuas expulsões. Hoje, Luis Fabiano não é mais expulso, mas também esqueceu como se joga futebol.

Quando as equipes de futebol se abrirem para a ciência da Psicologia do Esporte e pararem de achar que Psicologia é sinônimo de corpo de bombeiro, clínica psicanalítica ou pronto socorro, assumindo que o psicólogo do esporte deve ser um parceiro da Comissão Técnica – certamente muitas coisas serão alteradas na compreensão do alto rendimento individual e coletivo dos times – além do conceito de atleta e ser humano que entra em campo.

Confirmo, uma vez mais, que o ‪#‎eterno7a1‬ também teve a falta de um trabalho efetivo e duradouro da Psicologia do Esporte. Algo que sobrou aos alemães – que desenvolveram, nos últimos 15 anos, diversos departamentos de Psicologia Esportiva nos clubes do país.

O São Paulo, pelo visto, ainda vai padecer muito tempo nesse limbo institucional e ideológico que se encontra. Já não tem o estádio mais moderno da cidade – nem, muito menos, a direção e a equipe com valores e princípios mais adequados diante das exigências do futebol profissional. Pior: coleciona contínuas derrotas diante dos clubes grandes e continua se enganando após as vitórias contra os menores.

Quando cairá a ficha dos dirigentes tricolores que a culpa não é do Muricy – embora, a cultura futebolística nacional sempre coloca o treinador na berlinda como principal culpado pelos desastres de um time?

O São Paulo parou no tempo. E isso é o que de mais perigoso pode acontecer numa instituição esportiva.

 

 

 

Corinthians e a identidade institucional dos atletas

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Alguns dos fatores mais importantes no sucesso de um time são a coerência e similaridade da personalidade dos atletas com o conjunto histórico e institucional de um clube. O Corinthians de hoje é a prova viva do sucesso dessa equação. Longe de ser o “time dos sonhos”, mas com atletas dedicados e um esquema tático altamente efetivo, o time acumula vitórias e promete um ano repleto de conquistas. Do treinador aos reservas é possível constatar uma unidade que atua em conjunto e em perfeita integração com os valores e características do clube.

Diversos autores da Psicologia Social reforçam o modelo que a identidade é construída nas relações do cotidiano. No caso do esporte, os dados institucionais se relacionam diretamente com os valores pessoais e traços de personalidade dos atletas.

Basta constatar que alguns jogadores atuam em alto rendimento em determinadas agremiações e, em outras, simplesmente integram o elenco – sem sucesso nem destaque. O Corinthians tem, em seu elenco, atletas com profunda identificação com o clube. Somado a isso, um treinador que catalisa essa identificação através da valorização do trabalho de equipe. O resultado está aí: um começo de 2015 avassalador.

O mérito desse sucesso é do técnico e da administração do futebol do clube que conseguiram – através da contratação de alguns poucos atletas – formar uma equipe em harmonia com os segmentos sócio institucionais e históricos do clube. Afinal, de nada adianta contratar 10 ou 12 (ou mais) atletas que chegam ao elenco apenas para somar, como uma colônia de férias – sem ao menos apresentar características de personalidade e comportamento em harmonia com o perfil da instituição.

O São Paulo é o exemplo contrário ao Corinthians. Com um emaranhado de jogadores com pouca ou rara identificação com o clube, o time do Morumbi demonstra total fragilidade diante dos grandes desafios. Nesse time, apenas o treinador Muricy, o capitão Rogério Ceni e o atacante Luis Fabiano demonstram algum tipo de vínculo sócio institucional com o clube. Os demais (ou boa parte deles) , apenas vestem a camisa da equipe distantes de um contexto de identidade e relação com as características do clube. E nessas situações, não há muito a ser feito.

Fica apenas a dica a alguns clubes que saem contratando sem critério e, em vez de formar times vencedores, criam bandos de jogadores perdidos nos gramados e dissociados das características mais básicas das instituições que tentam representar.

Será que é tão difícil assim de entender?

 

São Paulo: refém da fragilidade mental

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Oito anos sem ganhar do Corinthians em casa e, hoje, mais uma derrota no Morumbi. Antes de descrever a evidente fragilidade psicológica do São Paulo, deve-se elogiar o trabalho do Tite no Corinthians que armou uma equipe aguerrida , com atletas bem preparados física, técnica e mentalmente. A equipe de Parque São Jorge atua como um time coeso e muito bem entrosado em todos os seus setores. Certamente terá ótimos resultados em 2015.

Sei que a Psicologia do Esporte é pessimamente compreendida no futebol, concebida com preconceito e desinformação – mas deixarei – aqui, as opiniões de quem atua na área há 20 anos e percebe, através das lentes mentais, a fragilidade clara de um time de futebol.

O São Paulo desenvolveu uma crença central – nesses últimos anos – que “vencer o Corinthians, em seus domínios, é uma tarefa árdua – um desafio de extrema dificuldade” e, assim, atua de forma reticente, insegura. Essa crença gera pensamentos automáticos diretos no grupo de atletas que, por conseguinte, promove um comportamento de insegura, baixa autoestima e confiança. Não me parece tão complicado entender esse processo psicológico.

O ponto principal do time do Morumbi, a meu ver, é que a soma dos estilos de personalidade dos jogadores do São Paulo gera uma resultante frágil em termos de tendências de competência competitiva. O time consegue se impor apenas e tão somente diante de equipes mais frágeis tecnicamente. Quando os desafios mais fortes se apresentam, o grupo não consegue se unir positivamente em termos de comunicação, força interna e pró-atividade (tomada de iniciativa, ação e reação) nas partidas. Os jogadores demonstram uma apatia contagiante, ainda que consiga uma maior posse de bole – o resultado é bem abaixo do investimento que é realizado.

Afinal: será que é tão difícil assim perceber que o Ganso, por exemplo, não demonstra assertividade comportamental esperada para um camisa 10 do seu porte? Especialmente depois das cirurgias, o jogador nunca mais foi o mesmo. E o que tem sido feito para mudar esse quadro de reclamações após os jogos e apatia dentro de campo? Nada. Rigorosamente nada.

Outra coisa: estão querendo transformar o Luis Fabiano num anjo. Isso é claro e evidente que não funcionará. A questão é desenvolver um trabalho psicológico de adequação de comportamento e não de extinção de suas respostas agressivas que prejudicavam a si e ao grupo por conta das contínuas expulsões. Hoje, Luis Fabiano não é mais expulso, mas também esqueceu como se joga futebol.

Quando as equipes de futebol se abrirem para a ciência da Psicologia do Esporte e pararem de achar que Psicologia é sinônimo de corpo de bombeiro ou pronto socorro, assumindo que o psicólogo do esporte deve ser um parceiro da Comissão Técnica – certamente muitas coisas serão alteradas na compreensão do alto rendimento individual e coletivo dos times – além do conceito de atleta e ser humano que entra em campo.

 

A viagem de Dorival Jr e Mancini

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Dorival Jr. e Mancini – aproveitem que vocês estão desempregados e foram a Europa para uma reciclagem – perguntem ao Guardiola:

1. Qual o conceito de atleta que vocês tem aqui na Alemanha?
2. Como é realizado o trabalho de Psicologia do Esporte por aqui?
3. Vocês chamam comandantes da polícia para dar palestras motivacionais?
4. Quais foram os segredos do #eterno7a1 ?
5. Os clubes por aqui contratam psicólogos ou os chamam apenas na época de crise?
6. Procurem saber, com quem entende, quais os caminhos para a modernização tática, técnica, física e psicológica do futebol.
7. Em tempo: os alemães adotam a leitura e aplicação multi e interdisciplinar no futebol e em outras modalidades. Se vocês não sabem o que isso significa – é hora de saber.

Se vocês trouxerem as respostas dessas cinco perguntas ao Brasil e, em especial, aplicá-las no nosso futebol, a viagem terá valido demais!

Do contrário, continuarão sendo meros “entregadores de coletes” nos treinamentos.

Por que isso, Bellucci?

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Essa é a pergunta que ouço desde ontem. Aliás, ouvi de uma colega: “não assisto mais os jogos do Bellucci. Nunca sei qual tenista vou encontrar na quadra: se será um bravo guerreiro ou um atleta derrotado mentalmente. E isso me irrita”, completou.

Perplexo. Essa é a melhor definição para a sensação que tive após a derrota de Bellucci na estréia do Brasil Open. Creio que o tenista, hoje, esteja sentindo da mesma forma após uma sincera autocrítica de seu rendimento na partida contra Martin Klizan após desperdiçar dois match points num jogo perfeitamente ganhável e sem grandes sustos. No entanto, Bellucci transformou -novamente – uma partida tranquila num pesadelo desnecessário. Até quando?

Talentoso, rápido, ágil, forte e habilidoso – Thomaz Bellucci vem derrapando no campo emocional. Chegou muito perto daquele espaço que poucos e raros tenistas brasileiros ocuparam. Bellucci está – visivelmente, e uma vez mais, sem força mental para vencer as adversidades comuns a este esporte. Pior: ele “cria” a adversidade e acaba derrotado por ela. Uma espécie de armadilha mental absolutamente desnecessária e evitável.

Em alguns jogos e torneios , o brasileiro demonstra grande dificuldade nos momentos cruciais dos sets e das partidas. Especialmente quando a confiança precisa ser a maior aliada para derrubar o adversário.

Será que os fantasmas de enfrentar os melhores do mundo por um espaço no topo do ranking assombra a mente de Bellucci ? Ele sabe – em alguma dimensão – que se mantiver o crescimento e evolução, breve terá de encarar – frente a frente – as feras do tênis mundial e aí tudo pode acontecer. Inclusive a vitória! Isso soa estranho, mas acreditem: não é!

Pesquisas científicas e estudos da Psicologia Esportiva no tênis e em várias outras modalidades apontam para a possibilidade da criação de vastos planos de sabotagens mentais. Há medos relacionados com a derrota, fracasso e desilusão. Há temores relacionados com a possibilidade do sucesso e tudo aquilo que pode surgir caso o atleta triunfe e vire o novo herói nacional. Aliás, nosso povo carece desta figura e – a cada vez que aparece um personagem (seja no campo esportivo ou fora dele) com potencial para ocupar este espaço de carência e de baixa auto-estima que levamos na nossa bagagem, parece que alguma coisa pesa naquele instante em que tudo precisa dar certo.

É muito triste constatar um talento tão raro como o de Bellucci e, ao mesmo tempo, percebê-lo com tantas fragilidades. Seus adversários certamente já conhecem bem os pontos fracos do tenista brasileiro e sabem que – a qualquer momento – o tenista poderá sucumbir de seus obstáculos internos.

O pior é saber que, por aqui, Bellucci não é o único atleta estruturado num corpo de aço, mas a base de barro. Tomara que ele consiga superar tudo isso e tenha um pouco mais de tranquilidade e estabilidade interna para trabalhar. Talento não lhe falta.

O pedido de socorro de Nadal

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<br /> “Apertado”, Felip o deixa Thiago Silva iniciar reconhecimento de gramado | GE.Net na Copa

Não é de hoje que Rafael Nadal apresenta comportamentos – no mínimo, estranhos. Puxar a cueca e colocar as garrafas de água milimetricamente uma ao lado da outra são apenas dois dos diversos e evidentes sintomas do tenista. O custo interno e o sofrimento desse tipo manifestação comportamental são altíssimos.

Há algum tempo não assistia Nadal em quadra. No Australian Open, fiquei definitivamente preocupado com a saúde mental do espanhol. O repertório de tiques aumentou consideravelmente. Antes de cada saque, o tenista passa a mão no nariz, num lado da face, na testa, no outro lado da face e arruma o cabelo. Chega a ser angustiante acompanhar todo esse ritual. O calvário comportamental do atleta antes de suas ações nas partidas expõe dificuldades e aflições psicológicas que merecem – não é de hoje – a atenção dos especialistas.

Desde muito cedo, Rafael Nadal dedicou todos os seus esforços ao tênis e, ao lado do tio, conselheiro, treinador e empresário, Toni Nadal, trilhou os caminhos da profissionalização e dos inúmeros títulos como tenista.

O esforço, dedicação e doação de Nadal são conhecidos por aqueles que acompanham esse esporte. No dia seguinte à conquista de um título, pela manhã, lá vai Nadal para a quadra, treinar, treinar e treinar. O atleta cresceu na companhia de uma ideologia máxima do esporte praticado e pensado 24 horas por dia, 365 dias por ano em que o descanso representa uma dupla falta diante dos adversários.

Lembro-me de alguns professores que tive no cursinho que diziam: “enquanto você está sonhando, tem sempre outro estudando”. Como esquecer o terror que a gente sentia e até mesmo a culpa de não estudar a quantidade de horas que era sempre insuficiente?

Pois bem. Não quero nem vou colocar na conta do Toni Nadal, esse conjunto de sintomas estranhos que o sobrinho tem demonstrado nas quadras. Até porque, o tio foi um dos principais responsáveis pela carreira vitoriosa desse mega astro do tênis. Questiono, no entanto, essa necessidade mais que imperativa do “ter que ganhar a qualquer preço” – do “ser perfeito sempre” – ou do “ser atleta o tempo inteiro” – das caras e bocas que o tio faz quando Nadal erra ou perde uma partida que, teoricamente, teria todas as possibilidades de vitória. Há sempre uma sensação de débito no ar. Uma espécie de pendência que não tem mais fim.

Fato é que Nadal parece ter perdido muito de sua vitalidade, dos cabelos, da pele e do brilho nos olhos. O guerreiro das quadras está demonstrando dificuldades diante dos golpes do tempo. E aqui pergunto: o que será de Rafa quando abandonar o tênis? Como lidará com essa energia que, na quadra, não é mais a mesma e o aumento progressivo da sintomatologia compulsiva de tiques está aí para denunciar esse desencontro emocional?

O esporte de alto rendimento é lindo, tem o seu glamour e beleza. Por outro lado, se os cuidados no desenvolvimento dos atletas e seres humanos não forem considerados nem trabalhados, há sempre o iminente risco de se represar, perigosamente, a energia vital que necessita de campo e espaço para se manifestar.

Hoje, o cenário para esses evidentes conflitos de Nadal é a quadra – sempre repleta de fãs e admiradores de seu talento e força. Amanhã, quando os holofotes se apagarem, temo – de verdade – sobre como ele lidará com esses nítidos e crescentes sintomas comportamentais que, certamente, indicam a necessidade de apoio e auxílio.

Por hora, o guerreiro corre e luta para voltar ao topo do ranking – como sempre! E a Psicologia do Esporte, infelizmente, ainda sofre com o preconceito e desinformação de atletas e treinadores.

A aula de Maria Sharapova

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Há tempos não acompanhava uma vitória tão contundente como a da russa Maria Sharapova – em pouco mais de uma hora – nas quartas de final do Australian Open contra a canadense Eugenie Bouchard.

Costumo dizer aos tenistas que atendo que “o tênis é como um diálogo: ganha aquele que tiver mais argumentos”. No jogo de hoje, Sharapova fechou todas as portas e a canadense – que entrou visivelmente nervosa – nada conseguiu fazer para se defender dos ataques impiedosos da russa.

Quando a autoestima é somada à força, coragem e talento – acontece exatamente o que vimos nessa partida: uma tenista plena em termos de convicções e outra que não conseguiu resistir a pressão desde o primeiro ponto da partida.

Isso ficou muito evidente especialmente nos pontos em que a canadense sacou. Sharapova montou nas bolas de Bouchard – afunilando o território de ação da adversária.

A energia de ativação interna – regulada através da concentração, controle de ansiedade foco e atenção – foi crucial e decisiva nesse jogo. Enquanto Sharapova entrou na quadra no auge de sua confiança e consciência técnica do que deveria realizar para vencer Bouchard, a canadense iniciou a partida acuada e indecisa. Ou seja, virou presa fácil e perdeu por 6×3 – 6×2.

Conhecer o plano psicológico de ativação e autorregulação é fundamental para um desempenho fluente e consistente numa partida de tênis. Hoje, em Melbourne, vimos apenas um monólogo de Sharapova – contra uma Eugenie Bouchard distante daquela tenista que conhecemos e aprendemos a admirar. Enquanto as forças da russa aumentavam – a canadense sumia, assim como um fade out – até desaparecer por completo.

Uma aula de tênis de Sharapova – em todos os sentidos da preparação esportiva.

 

 

Força Tales e parabéns aos meninos do terrão!

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No mundo da bola existe um ditado – que, de vez em quando, aparece para definir uma situação: “no futebol, a posição de goleiro é tão ingrata que nem grama nasce onde ele fica”.

A Copa São Paulo de futebol juniores foi decidida num lance isolado em que o excelente goleiro Tales, do Botafogo de Ribeirão Preto, falhou ao tentar defender o chute do jogador do Corinthians .

O camisa 1 do Bota fez uma Copa SP fantástica e espero que receba força e apoio dos dirigentes do clube. Ele tem presença, personalidade e talento. Tomara que o universo superficial e quase sempre cruel do futebol não prejudique a carreira desse garoto.

Em campo, as duas melhores equipes do torneio. O Botafogo de Ribeirão (profissional) terá, certamente, vários jogadores da base no Campeonato Paulista. Espero que Tales tenha sua chance também.

O Corinthians, pra variar, sempre forte na sua fábrica do terrão. O nono título da Copinha para o sorriso e alegria do Tite que, no Pacaembu, imagino, já escolheu algumas promessas para se juntar ao profissional.

Tales, levante a cabeça! No futebol e na vida, aprendemos e nos fortalecemos com os erros. Entenda esse momento de hoje como um combustível a mais para você mostrar seu imenso talento e dedicação. Não tenho a menor dúvida que você terá uma carreira de sucesso. Continue firme no seu caminho e nas habilidades que tão bem você desenvolveu. Momentos felizes e de grande vitórias te aguardam.

Copinha revela que a ignorância vem da base

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Cusparadas, socos, provocações e ignorância foram a tônica da semi final da Copinha entre Corinthians e São Paulo.

Dento de campo, o Corinthians foi superior ao São Paulo e mereceu a classificação para a final do torneio. Fora de campo, bombas, corre-corre, policiais jogando spray de pimenta para espalhar a multidão de brigões – e que já tomaram conta dos estádios.

Os juniores começam cedo na carreira do senso comum e da violência desenfreada do futebol. Por sorte a final da Copa São Paulo não será o clássico entre o Corinthians e Palmeiras – o que poderia resultar uma nova catástrofe.

O Botafogo de Ribeirão disputará a final contra o alvinegro paulista.
Lamento, uma vez mais, pela constatação desse pequeno mundo chamado futebol e que, pelo visto, não mudará tão cedo. A falta de bons exemplos povoa essa modalidade, dentro e fora das quatro linhas.

A falta de ética, respeito e cidadania repele pessoas de bem e atrai os arruaceiros e bandidos que nada tem a somar na esfera social desse esporte.

Em campo, meninos que crescem sem psicólogos do esporte (muito por conta do preconceito dos médicos que não valorizam nem estimulam o trabalho). O ECA (estatuto da criança e do adolescente) exige que os clubes tenham psicólogos na base. Estamos no Brasil. Adivinhem o que acontece? Muitos clubes contam apenas com a assinatura de psicólogos e raríssimas visitas profissionais nas instituições para afugentar a multa que é bem grande.

Psicologia do Esporte, de fato, pouco se vê ou se encontra nas bases dos clubes. No profissional, então, nem pensar. O futebol já credenciou a ignorância e o senso comum como seus maiores representantes.

Vocês acham que os dirigentes estão preocupados com isso? Algum empresário vai orientar esses meninos? O que esperar desses garotos que – com 17 ou 18 anos já reproduzem tudo de pior que aprendem com os “profissionais”? A resposta me parece simples.

O resto, amigos, é só ligar a televisão e lamentar.
Nada mais.