Herança genética

A propósto da Corrida de Veteranos realizada no Rio de Janeiro no dia 31 de Dezembro de 1977, é preciso reconhecer que, daquela época para cá, o número de corredores de idade avançada é um fenômeno crescente no mundo inteiro.

Ainda na última semana tivemos um americano de 89 anos, Bill Tribou, disputando uma prova em Manchester, no estado de Connecticut, na distância de pouco mais de 7.600 metros, no tempo de 59:37. Bill, que completará 90 anos no dia 18 de dezembro, pretende quebrar o recorde para esta faixa etária, com 1:01:26, estabelecido por Hugh Hamilton em 2004, na próxima edição da corrida.

Tribou é atleta desde que estudava na Universidade de Connecticut, em 1942, mas há casos como o de Olga Kotelko, uma canadense com 91 anos, de pessoas que só começaram a praticar esportes em idade avançada, algumas já sexagenárias.

Olga Kotelko começou a disputar provas de atletismo depois de completar 77 anos. O que há de extraordinário em seu caso é que pesquisas científicas mostram que o corpo humano é programado para entrar em processo acelerado de perda de massa muscular a partir dos 75 anos. No caso de Olga e poucos outros, tudo indica que, por algum motivo, este “relógio biológico” não é acionado nesta idade.

É o que parece ter acontecido, por exemplo, com o inglês naturalizado canadense Ed Whitlock que, depois de completar 70 anos, correu três maratonas em menos de três horas. Aos que perguntam como ele conseguiu se preparar para tal feito, Ed respondeu sem ironia: “Costumo correr horas ao redor do cemitério da cidade onde moro”.

Há ainda a japonesa Mitsu Morita, de 88 anos, que vem quebrando os recordes que Olga Kotelko tinha na pista quando estava na faixa etária de 86 a 90. Seu melhor tempo nos 200 metros rasos é dez segundos melhor do que o de Olga Kotelko.

Mitsu Morita atribui sua excelente forma física ao hábito de comer enguias. Não sei se algum leitor gostaria de seguir tal regime, mas os médicos geriatras acham que o segredo da longevidade atlética está mais em nossa herança genética do que em nossos hábitos alimentares.

O tempo passa

A vitória do brasileiro Osvaldo Silveira na categoria de 80 anos na última Maratona de Nova York chegou a despertar algumas dúvidas, tal a excelência de seu tempo de 4:33:00, bem à frente do segundo colocado, um polonês. Mas a história das maratonas mostra que há outros episódios extraordinários e nenhum motivo para levantar acusações sem indícios fundados de suspeitas.

Há por exemplo o caso do inglês naturalizado canadense Ed Whitlock que, os 71 anos, correu a Maratona em 2:59:10, aos 73 anos correu-a em 2:54:49 e, aos 74 anos, correu-a em 2:58:40. Uma delas foi na Maratona de Rotterdã, que indubitavelmente tem seu percurso certificado pela AIMS (Associação de Maratonas Internacionais) e duas na Maratona de Toronto – que, acredito, também tem sua medição aprovada pela AIMS.

E não é um caso único. Em 6 de outubro de 1996, o britânico John Keston, aos 71 anos, correu a Maratona de Saint Paul, em Minnesota, no tempo de 3:00:58. Por muito pouco, muito pouco mesmo, deixou de ser o primeiro homem a correr uma Maratona abaixo de três horas depois de completar 70 anos. Há ainda o holandês Joop Ruter, que tem recordes mundiais em diversas distâncias mas, num desafio contra Ed Whitlock, em Rotterdã, não conseguiu derrotá-lo. Nenhum demérito para Ruter que, em idade avançada, tem seus melhores tempos em distâncias mais curtas, como a milha. A tendência é que, com o passar dos anos, o organismo humano perde em velocidade e ganha em resistência, mas tal não parece ter acontecido com Ruter.

Resta saber em que tempo Ed Whitlock estará correndo a Maratona aos chegar aos 80 anos. Seu tempo na Meia-Maratona é de 1:34:23, enquanto o de Osvaldo Silveira é de 1:55.

As corridas de rua ou corridas rústicas são o segundo esporte mais praticado no Brasil, numa tradição que começou há 86 anos com a São Silvestre – quando Osvaldo Silveira ainda nem nascera – e vem aumentando de forma notável.

Nos anos 50 eu me lembro de um personagem popular nas praias do Rio que ia do Leblon ao Leme correndo à beira d’água, com a característica de que acompanhava o contorno das ondas que lambiam a areia. Nunca soube o seu nome.

O primeiro passo para corridas mais organizadas no Rio foi sem dúvida a do Hotel Nacional ao Forte do Leme, em 12 quilômetros, no dia 31 de dezembro de 1977, de iniciativa do jornalista Yllen Kerr, ganha pelo coronel-aviador Ricardo de Mendonça entre os homens e a costureira Altina Rodrigues, entre as mulheres. Num esforço de marketing, Yllen Kerr convenceu a celebridade Danuza Leão a dizer que ia disputar a prova. Ela realmente deu a largada, pretextou uma contusão e apareceu depois na chegada para conferir os prêmios. Pode ser vista numa das fotos, entregando uma taça ao italiano Paiano Romagna, de 67 anos.

Por motivos que ignoro, Yllen Kerr admitiu apenas corredores com mais de 35 anos e lá estavam diversos nomes que depois se tornariam famosos no movimento de corridas no Rio de Janeiro, como Edgard Kniriem e Josip Landau.

Gol de craque

Lionel Messi salvou um amistoso fraco e desinteressante entre Brasil e Argentina no Qatar com um gol de craque, já nos acréscimos, num lance que me lembrou um pouco nossa eliminação diante de nossos rivais na Copa de 1990, também por 1 a 0.

Como naquela partida, o lance originou-se no meio-de-campo e a jogada ocorreu na diagonal, da direita para a esquerda. Naquela ocasião, no gol de Caniggia, o maior mérito foi de Maradona, que passou a bola. Neste, o mérito foi quase todo de Messi, que recebeu um passe, livrou-se da marcação, derivou para a esquerda e chutou de canhota entre as pernas de Thiago Silva.

Enquanto Messi mostrava como o craque ainda é importante no futebol, algumas de nossas figuras mais badaladas, como Robinho e Neymar, tiveram atuações sofríveis, especialmene o primeiro, que exibe em campo a atitude de quem se considera mais jogador do que realmente é.

Outros que nada ou quase nada fizeram foram Ramires e Elias. É mesmo difícil justificar novas convocações para esses dois homens de meio de campo, que correm bastante, mas de modo improdutivo.

Ronaldinho fez o que dele se poderia esperar. Não brilhou, mas mesmo assim quase marcou o que também seria um gol de craque, de calcanhar. Daniel Alves mostrou o ímpeto habitual pela direita e acertou um chute no travessão no primeiro tempo, numa bola em que foi um pouco enganado pelo quique, ao pegá-la de bate pronto. Mas precisa calibrar sua pontaria, em bolas paradas.

Pato, ausente por contusão, fez falta, pois o ataque brasileiro foi totalmente dispersivo. Fica mesmo a pergunta: por que Nilmar, do Villareal, não estava no time? Ele talvez tivesse aproveitado um dos diversos lances em que a bola foi passada para trás, por nossos jogadores, para um homem que teoricamente estaria se apresentando pelo centro da área, para finalizar. Só que ninguém se apresentava.