Perigo para a África

Bristol (EUA) – Está marcada para esta semana uma reunião do Comitê Executivo da FIFA para analisar o número de vagas para cada uma das confederações continentais na Copa do Mundo de 2014.

Na Copa de 2010 a África teve seis países, enquanto a América do Sul ficou com apenas cinco e mesmo assim porque o Uruguai ganhou sua vaga numa repescagem com Costa Rica.

A verdade é que os africanos não souberam aproveitar a oportunidade dada pela FIFA. Um único país africano, Gana, conseguiu se classificar para o segundo estágio da Copa. Os cinco outros rodaram, inclusive o país anfitrião, África do Sul.

Contrastem isto com a campanha dos sul-americanos, que colocaram quatro de suas seleções nas quartas-de-final.

Para 2014, o Brasil é o anfitrião. É natural, pelo retrospecto, que o continente mantenha cinco países na Copa e mais um, o anfitrião, o que daria o total de seis.

Quem sairá perdendo? Se vocês examinarem o ranking de seleções da FIFA, verão que a Europa tem 20 entre as melhores 32 seleções do mundo. É natural portanto que mantenha 13 vagas européias para a Copa. A Ásia tem três, a CONCACAF dois e a África dois. Acontece que a CONCACAF teve apenas três países na Copa de 2010 (Estados Unidos, México e Honduras) e fez melhor papel do que os africanos. Além disso, a FIFA está devendo um favor à CONCAF depois de ter dado a Copa de 2022 ao Qatar, em vez de dá-la aos Estados Unidos.

Acho que vai sobrar para os africanos. A verdade é que eles não vem fazendo por merecer. Além do mais, alguns dos dirigentes africanos estiveram enredados no escândalo de suborno para a escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022.

Mundial de Triathlon (3)

Bristol (EUA) – Hoje íamos participar de uma corrida de 7,8 milhas (pouco mais de 12,5 quilômetros) mas uma inesperada queda de neve durante a noite mudou nossos planos. A prova era ao redor de um lago, numa estrada rural, que ficou impraticável. A corrida, conhecida como The Polar Bear Run, foi transferida para o dia 20 de março.

Tais são os óbices de um treinamento, no nordeste dos Estados Unidos,  para o Mundial de Triathlon. O tempo muitas vezes conspira contra. A solução então foi corrermos nas ruas perto da casa de minha filha. A meu lado direito, pela ordem, aparecem minha filha Rebecca Charlotte Werneck Stephenson, meu neto David Werneck Stephenson, que acaba de completar 11 anos,  e minha mulher, Dawn Webb Werneck.

Apenas Dawn  e eu estamos nos preparando para o Mundial em Pequim. Minha filha Rebecca, que já disputou dois mundiais de triathlon e um de cross-country, está em recuperação de uma contusão. Nosso neto David joga futebol, basquete e faz triathlon, mas se destaca sobretudo como corredor de longa distância.

Eles hoje correram dez quilômetros. Eu corri oito. Meu problema maior agora é achar um triathlon por aqui que me permita obter minha classificação para o Mundial. Estava de olho em um no dia 12 de junho, no Long Island Sound, mas as inscrições já se encerraram (incrível, não?). Agora minha esperança é conseguir disputar um na semana anterior, 7 de junho, no vizinho estado de Massachusetts. Serão umas duas horas de carro, só para chegar lá, mas o que fazer?

Amanhã, segunda-feira, vou treinar natação.

Patrícia Amorim no New York Times

Bristol (EUA) – Hoje de manhà estive ocupado respondendo a um e-mail de O Globo para uma reportagem sobre meu velho companheiro de corridas, Yllen Kerr. Um pouco por isto e um pouco por outros motivos, não vi  no New York Times que todos os dias é fielmente depositado à minha porta uma grande matéria com a presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, numa seção chamada The Saturday Profile. Li-a agora à noite

É engraçado ler num jornal americano uma reportagem em que Adriano é chamado de Mr. Ribeiro, mas ali estão razoavelmente bem retratadas as agruras pelas quais  Patrícia Amorim passou por causa do complicado centro-avante e também dos maus momentos propiciados pelo goleiro Bruno, ora na cadeia.

Talvez a intenção do autor do perfil não tenha sido esta, mas o leitor americano forçosamente há de ter concluído que Patrícia Amorim viu na contratação de Ronaldinho Gaúcho uma excelente oportunidade  para dar ao Flamengo uma imagem mais simpática e com isto salvar sua administração, que vinha sofrendo muitas críticas.

O marketing da contratação de Ronaldinho  vem de fato atingindo seus objetivos, embora o New York Times exagere um pouco (ou Patrícia exagere um pouco) no trecho em que é anunciado que ele servirá como alavanca para fazer do Flamengo um Barcelona, com uma academia para novos jogadores.

O Flamengo no passado já teve ótimas escolinhas de futebol. Este é o melhor caminho para os clubes brasileiros. Acho porém que a presença de Ronaldinho Gaúcho não acrescenta muito a este objetivo.

Tóquio: números impressionantes

Bristol (EUA) – Trezentas mil pessoas – repito, trezentas mil pessoas – se inscreveram para disputar a Maratona de Tóquio, que acontece neste domingo, dia 27 de fevereiro. Trinta e duas mil foram escolhidas por loteria, com exceção dos atletas de elite, que tinham sua presença garantida.

Estive no Japão duas vezes, em Tóquio e Osaka, para acompanhar maratonas, na década de 80, mas elas não tinham nem de longe o número de inscritos que tem agora. O que aconteceu nos últimos anos é que os japoneses decidiram “liberar geral” na maratona, permitindo que participantes completem oficialmente a prova em até sete horas, com cobertura até o fim pela televisão.

Com isto, as corridas de longa distância, que por tradição eram  consideradas uma atividade para super-atletas (e o Japão sempre teve excelentes maratonistas, tanto entre homens quanto entre mulheres) tornaram-se um fenômeno realmente popular. Todos compreenderam que podem completar uma maratona e completá-la com um sorriso, em vez de se submeterem a uma espécie de tortura.

O resultado é que a participação em maratonas explodiu no Japão, com mais de 50 por ano no país, e os atletas de alto nível, em vez de serem prejudicados pela presença de tantos “pés-de-chumbo” nas ruas, se sentiram ainda mais estimulados. Naoko Takahashi e Muzuki Noguchi ganharam maratonas olímpicas femininas em 2000 e 2004. A primeira e a terceira edições da Maratona de Tóquio tiveram vitórias japonesas entre as mulheres e no ano passado Masakazu Fujiwara ganhou entre os homens.

As maratonas brasileiras precisam olhar também para o exemplo da Maratona de Tóquio, não apenas para as maratonas de Nova York, Londres e Berlim.

Caso estranho

Bristol (EUA) – Há realmente em “postos de sacrifício” na administração do esporte brasileiro algo de muito atraente, pois ninguém quer abandonar o lugar. Um dos mais antigos dirigentes esportivos no país – talvez o mais antigo – é o senhor Roberto Gesta de Melo, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, e ele agora surgiu com uma f’órmula curiosa para continuar no posto.

Pode ser que a f’órmula já tenha sido usada antes, pois no esporte brasileiro nada é impossível quando se trata de usar a imaginação para continuar a se “sacrificar”. Ele  marcou a eleição na CBAt para fevereiro de 2012, mas disse que o novo presidente só será empossado um ano depois, em fevereiro de 2013.

Ele afirmou que este período de transição é necessário para que o novo presidente se “familiarize” com o cargo. Com efeito, o Gesta está há tanto tempo no trono que, com exceção de seus parentes imediatos, ninguém mais no Brasil deve estar familiarizado com as atividades da CBAt.

Pênalti NÃO é loteria

Bristol (EUA) – Os amigos do lugar-comum adoram uma decisão por pênaltis, pois têm a oportunidade de irem à prateleira mais alta, de lá tirarem um dos maiores chavões do futebol, espaná-lo e de novo o exibirem à opinião pública. Afirmam que “pênalti é loteria”, orgulhosos de sua sapiência.

Será que nunca lhes ocorreu a seguinte pergunta: se pênalti é loteria, por que os jogadores de linha perdem  tempo treinando cobrança de pênalti e por que os goleiros perdem  tempo cobrando defesa de pênalti?

Se pênalti é loteria, para que treinar cobranças e defesas? Loteria era o sistema que se usava antigamente, o da cara-ou-coroa. Mesmo este tinha um elemento que eliminava, ao menos em parte, o fator sorte. O time mais esperto começava a comemorar  antes mesmo da moeda bater no chão.

Às vezes o juiz ia na conversa, o time adversário, desanimado, não verificava e a vitória estava garantida. Segundo Nílton Santos, a Encilopédia do Futebol, o time do Botafogo em que ele jogava fez isto em diversos torneios. 

Um bom goleiro tem uma envergadura, em média, entre 1,90m e 1,95m. A distância entre as traves é de 7,32m. O travessão está a 2,44m de altura. A marca do pênalti está a 11 metros do gol. Com exceção do cobrador, nenhum outro jogador pode estar a menos de 9,15m da bola. Eles só podem entrar na área depois da cobrança.

O goleiro não pode adiantar-se antes do cobrador tocar na bola. Então, muito, quase tudo, vai depender da técnica, e pouco da sorte. O jogador pode escolher entre cobrar chapado, colocado, rasteiro, à direita ou à esquerda do goleiro (onde antigamente havia os ferros que seguravam a rede),  cobrar forte, à meia-altura, ou num dos cantos superiores, dar um chutão no meio, seguindo a teoria de que o goleiro  sai para um lado ou para o outro, usar da malícia para esperar o goleiro telegrafar para onde vai e então dar um toquinho atrevido no outro lado. O goleiro pode usar sua acuidade visual e seus reflexos para só ir na bola numa boa, depois de perceber onde o jogador vai mandá-la.

Há grandes especialistas em cobranças de pênalti. Há goleiros conhecidos por serem mais eficientes do que seus colegas em defesas de pênalti.

Além do mais há os fatores psicológicos, com jogadores que impressionam pela calma, certeza e segurança do que fazem, goleiros capazes de perturbar o cobrador pela força de sua personalidade.

As cobranças de pênalti para decidir uma partida são ocasiões que merecem ser analisadas e saboreadas pelo que encerram de técnica, preparo, psicologia. Quando ela acaba, a melhor forma de descrever o ocorrido é repetir a frase de Fleitas Solich “ganó el mejor”, não atribuir tudo a uma loteria.

O Mundial de Triathlon (2)

Bristol (EUA) – Na última sexta-feira, o tempo melhorou de repente nesta pequena cidade do nordeste dos Estados Unidos, o que me permitiu fazer algo que não fazia há muito tempo: pedalar nas ruas. Pedalei 25 quilômetros, aproveitando a temperatura de 15 centígrados.

No sábado, a temperatura caiu de novo. O vento soprava do norte, com rajadas de 70 quilômetros por hora. Tive que me contentar em pedalar em minha bicicleta estacionária, no sub-solo de minha casa, e correr na esteira, ao lado da bicicleta.

Ontem, domingo, o sol estava brilhante, mas o vento ainda soprava, se bem que com menos força. A temperatura de manhã era de sete abaixo de zero e de tarde subiu para dois abaixo de zero. Aproveitei para correr 7 quilômetros na rua.

De noite, domingo para segunda, nevou, se bem que muito menos do que andou acontecendo no mês de janeiro. Mas com o piso escorregadio, meu programa hoje será nadar, cerca de 1200 metros, em piscina coberta, seguida de hidro-massagem e sauna a vapor.

Assim vou me preparando para minha tentativa de me classificar para o mundial de triathlon. A boa notícia é que o joelho esquerdo e a panturrilha esquerda vem reagindo bem. O problema ainda está lá, mas é administrável.

Espero poder aumentar minhas distâncias aos poucos e, com a chegada próxima da primavera, já comecei a consultar o calendário de corridas de rua. Meu triathlon de classificação será em junho e o Mundial de Triathlon será em setembro, em Pequim.

Estou esperançoso.

O futuro de Carmelo Anthony

Bristol (EUA) – Kobe Bryant foi de novo o MVP, o melhor jogador de uma partida All-Star, desta vez na vitória da Conferência do Oeste sobre a do Leste, em Los Angeles, por 148-143. Já assisti in loco a duas partidas All Star e sei bem que se trata  apenas de uma grande diversão, uma oportunidade para os jogadores mais espetaculares da NBA apresentarem sua coreografia. Praticamente ninguém defende, só brinca e ataca.

Um pouco por isto, a verdade é que quem roubou a show na noite no Staples Center foi Carmelo Anthony. Não por ter jogado bem. Só marcou oito pontos. Mas por ter parcipado de reuniões tanto com o New York Knicks quanto com o New Jersey Nets, para determinar seu destino.

Carmelo Anthony é do Denver Nuggets, o time de Nenê, e está escalado para o jogo do Nuggets nesta terça-feira com Memphis. Mas ninguém sabe se ele estará na quadra com a camisa do time.

O deadline é nesta quinta-feira. O milionário russo Mikhail D. Prokhorov, dono do New Jersey Nets, manteve negociações com Carmelo Anthony, durante o fim de semana, em Los Angeles, embora anteriormente tivesse dito que havia desistido de contratar o jogador. O New York Knicks é propriedade de uma empresa, a Madison Square Garden, cujo chairman, James L. Dolan, também conversou com Carmelho Anthony durante o fim de semana.

O que se sabe é que o presidente do Madison Square Garden, Donnie Walsh, não parece muito convencido da necessidade de contratar Carmelo Anthony por um preço absurdo que envolveria a troca por jogadores promissores como Raymond Felton, Danilo Gallinari e Wilson Chandler.  O técnico Mike D’Antoni considera Carmelo Anthony um jogador espetacular, mas com deficiências como defensor e com a tendência de ser egoista na quadra.

As próximas horas serão decisivas.

Chegou o mediador

Bristol (EUA) – Às 14h18m de hoje (hora de Brasília), aqui nos Estados Unidos, chegou o senhor George Cohen, que é o diretor do Federal Mediation and Conciliation Service, para uma reunião com o Comissário da National Football League e o presidente do Sindicato dos Jogadores.

O Federal Mediation and Conciliation Service é um órgão do governo encarregado de encontrar uma solução para impasses trabalhistas. E um impasse trabalhista é o que ocorre no momento entre os donos dos 32 times de Futebol Americano da NFL e seus jogadores.

São 53 jogadores por time, sem contar os chamados de “practice squad” , que podem treinar mas são ativados apenas eventualmente, no caso de contusão (contusões por sinal são comuns no Futebol Americano – e contusões sérias) no elenco oficial.

A briga é pela divisão de um bolo de mais de nove bilhões de dólares. No momento, os jogadores levam pouco mais de um bilhão do total e o resto é dividido em  60% para os jogadores e 40% para os donos. Os donos querem tirar mais um bilhão do bolo e dividir o restante ao meio: 50% para os jogadores, 50% para eles.

Se não houver acordo até o fim do dia 3 de março, os donos garantem que vão praticar o lock-out – isto é, fechar as portas. O que significa que neste ano não haveria campeonato de futebol americano.

Medição oficial

Bristol (EUA) – Não sei se vocês conhecem um blog, em inglês, www.globerunner.org, mas ele traz uma história muito interessante sobre o fundador da Maratona de Berlim, Horst Milde, que é também o fundador do Museu da AIMS, a Associação de Maratonas Internacionais.

Digo isto porque uma das peças arquivadas no Museu da AIMS é a medição da Maratona do Rio, no início da década de 80 – a primeira maratona na América do Sul a ter sua distância oficialmente certifcada pela AIMS, num trabalho que envolveu a presença, no Rio, de Allan Steinfeld, Diretor Técnico da Maratona de Nova York, de Rodolfo Eichler, da Confederação Brasileira de Atletismo, de Fernando Azeredo, Gabriel Monteiro e eu, entre outros.

Agora, neste último fim de semana, Gabriel Monteiro, que aparece na foto, esteve na Ponte Rio-Niterói para medir de novo a famosa Corrida da Ponte (“Travessia Yllen Kerr), que ressurge no cenário das provas brasileiras, depois de longa interrupção.

A prova será disputada em abril. Gabriel e Fernando Azeredo, trabalhando com o aval da Confederação Brasileira de Atletismo, acharam para a distância um total de 21.400 metros.

Quando a prova foi realizada pela primeira vez, em 1981, pela Corja, era, se não me falha a memória, uma Meia-Maratona, de 21.100 metros. Também como meia-maratona ela foi incorporada depois à Maratona do Rio. (Quer dizer, alguns inscritos correram a maratona total, outros correram a meia-maratona.)

Acho que o ideal seria que a nova Corrida da Ponte tivesse a distância oficial de 21.100  metros, porque a Meia-Maratona é uma prova clássica do atletismo mundial, uma prova de grande mística e certamente despertaria um interesse ainda maior do público e da imprensa.

Talvez o Gabriel Monteiro possa explicar porque a distância da nova Corrida da Ponte será de 21.400 metros e não de 21.100 metros.