Bristol (EUA) – Há na linguagem de futebol uma expressão que define uma atuação arrasadora de um jogador: “ele comeu a bola”. Foi o que, na sexta-feira à noite o “power forward” (para nós ala de força) do Memphies Grizzlies, Zach Randolph, fez diante do San Antonio Spurs, sobretudo no último período da partida.
Em todo o jogo, o Spurs liderou apenas duas vezes. Na última, foi em 80 a 79, mas Zach Randolp pareceu encarar o fato como uma ofensa pessoal e, daí em diante, só deu ele na quadra. De seus 31 pontos, 17 foram feitos no último quarto e, como Marc Gasol falou depois do jogo, “nos últimos quatro minutos a gente poderia ter deixado ele sózinho na quadra que ainda assim o Spurs não ganharia o jogo”.
O Grizzlies é apenas o segundo time classificado em oitavo lugar, na história da NBA, desde que os playoffs passaram a ser em melhor de sete, que elimina o time classificado em primeiro lugar. O outro time eliminado como número um por um número oito também foi do Texas: o Dalas Mavericks, para Golden State, em 2007.
Na série, o Grizzlies dominou nos rebotes, conseguiu mais pontos dentro do garrafão e, fora, marcou muito bem os arremessos de três do Spurs, um time que tem excelentes chutadores de longe. A única bobeada do Grizzlies na marcação de arremessos de três pelo Spurs na série ocorreu no último segundo do jogo de número cinco, quando deixou Gary Neal empatar apartida, levando-a à prorrogação, com vitória ao fim para o Spurs.
Mas o Grizzlies dominou de modo insofismável no jogo de número seis, impedindo o Spurs de levar a decisão para uma sétima e última partida, em San Antonio.
Na sexta-feira à noite, pelo Spurs, Tony Parker marcou 23 pontos, Ginóbili 16 e Tim Duncan 12. Para mim, é o fim do tripé e hoje ia falar sobre isto e também do fato de achar que o brasileiro Tiago Splitter, que nesta partida ficou 13:43 na quadra e marcou 4 pontos, terá oportunidade de se firmar como titular, na próxima temporada. Mas tive que sair cedo para um jogo de futebol de um de meus netos e, na volta, encontro um e-mail de Rafael Proença, velho torcedor do Spurs no Brasil, que, a meu ver, expõe muito bem o assunto. Transcrevo-o abaixo:
“Caro Werneck,
O Spurs bem que tentou, lutou muito, mas não conseguiu diante da juventude e dedicação do Memphis Grizzlies. Zach Randolph jogou como um all-star sendo o principal jogador da série. Talvez tenhamos visto ontem o último jogo do Big Three junto.
Essa inesperada queda de San Antonio poderá acarretar em muitas mudanças para o ano que vem, não sei o que irá acontecer. Ontem o narrador da ESPN Latina ventilava ao fim do jogo a possibilidade de aquele ter sido o último da carreira de Tim Duncan. Tony Parker não deverá seguir na franquia, ao contrário de Manu Ginóbili, que acho que ficará. Ginóbili é amado pela torcida por sua dedicação, mas é bom lembrarmos que tirando lampejos de genialidade, como aquela cesta do meio da quadra ontem, já não vem sendo o jogador tão regular que fora um dia.
Confesso que a possibilidade de aposentadoria de Duncan é um choque para mim, porém um dia ela terá que acontecer. Apesar da pouca expressão, Timmy é um jogador que se cobra muito e não sei se ele suportará ser apenas um complemento para o time.
Após os dois últimos fracassos em playoffs o Spurs resolveu dar uma “nova chance” a jogadores como Matt Bonner. Mais uma vez ele sumiu; está claro que não é um jogador para momentos decisivos. Richard Jefferson foi a pior das decepções e só ficará caso esbarre em seu alto salário; altamente dispensável. McDyess deverá se aposentar, não tem mais pique. DeJuan Blair, Gary Neal e Tiago Splitter podem ser o futuro da equipe, embora nenhum deles seja jogador de grande impacto. Digamos que são “o que se pode arrumar”. Desses três, de Splitter é que mais se espera.
Ontem em um fórum li críticas a Gregg Popovich, na opinião de alguns o treinador “perdeu a mão”. Minha queixa a Pop é quanto ao relaxamento defensivo do Spurs, há alguns anos o time era uma rocha e de um tempo pra cá mudou seu estilo. Hoje o Spurs é um time bonito de se ver jogar, aquela mecânica de anos atrás já era, porém será que ela não era mais prática? Contra o Grizzlies o Spurs deveria ter reduzido a velocidade do jogo; não o fez. Ainda assim, sou fã incondicional do treinador e torcerei bastante para que ele continue.
Em suma, pode ser o fim de uma era que tanto me deu emoção, essa é que é a verdade. Tanto naquelas incômodas derrotas do início da década para o Los Angeles Lakers, época em que até sugerimos que o time procurasse um psicanalista para tratá-lo, como nas belas vitórias de 2003, 2005 e 2007. É uma constatação, estou ficando velho.”


