Aniversário amargo

AFP

Bristol (EUA) – Sir Alex Ferguson, o escocês que é o mais festejado técnico na Inglaterra no momento, completou hoje, 31 de dezembro, 70 anos  e esperava uma bela festa de aniversário  e de Ano Novo depois de derrotar o lanterninha do campeonato, o Blackburn Rovers, que aparecia como visitante em Old Trafford.

Mas a história foi diferente. O Blackburn Rovers chegou a estar liderando por 2 a 0, cedeu o empate em 2 a 2, e,  quando todos esperavam o gol da vitória do Manchester United, foi o Blackburn Rovers que marcou de novo, a dez minutos do fim, depois de lamentável falha do goleiro De Gea.

A partida teve alguns fatos curiosos. O primeiro gol do Blackburn Rovers aconteceu num pênalti cometido pelo atacante Berbatov sobre o zagueirão adversário Samba. Berbatov primeiro o segurou pela camisa e depois o derrubou. Logo depois, quando o Blackburn Rovers já ganhava por 1 a 0, com o pênalti bem cobrado por Yakubu, Berbatov outra vez cometeu pénalti em Samba, outra vez agarrando-o escandalosamente pela camisa dentro da área, mas o juiz resolveu deixar passar em branco.

Há técnico  que não gosta de ver seu centro-avante dentro de sua própria área, marcando um adversário, exatamente porque o centro-avante, jogando na área adversária, está acostumado a agarrar, puxar e empurrar, sem maiores consequências. Mas,  dentro de sua própria área, é pênalti.

Outro fato interessante foi ver o brasileiro Rafael da Silva no meio-do-campo do Manhester United, no primeiro tempo. No segundo, Rafael da Silva voltou à sua posição normal de lateral direito, enquanto outro brasileiro, Anderson – que esteve machucado por longo tempo – reaparecia no meio e colocava mais ordem no time. Como lateral direito, Rafael da Silva subiu de produção e deu o passe para o primeiro gol de Berbatov.

Wayne Rooney tinha sido poupado por Alex Ferguson e o mexicano Chicharito Hernandez, totalmente inoperante, saiu ao fim do primeiro tempo.

O Manchester United perdeu a oportunidade de assusmir a liderança, mesmo que fosse por apenas 24 horas. Foi um dia em que nada deu certo para Sir Alex Fergunson, logo em seus 70 anos.

Cuidado com a hiponatremia

Bristol (EUA) – Sempre que a São Silvestre se aproxima, aparece gente aconselhando os corredores a beberem água, muita água. E não é de hoje. Quando esteve no Rio, no início dos anos 80, para disputar a Maratona Atlântica-Boavista, o corredor americano Greg Meyer disse em uma palestra que, a partir dos dois dias anteriores à prova, os inscritos deveriam beber tanta água  que sua urina saísse incolor.

Mas eu declaro: cuidado. Como dizia Teofrasto Paracelso, a diferença entre o remédio e o veneno é apenas a dose. Água demais faz mal e pessoas já morreram por seu consumo excessivo, inclusive em corridas, quando sofreram hiponatremia (concentração de sódio no sangue abaixo de 135 mmol/L), em que há um excesso de fluidos no organismo paralalemente a uma escassez de eletrólitos.

O desequilíbrio de eletrólitos leva as células a absorverem líquidos em quantidade excessiva, o que pode levar a edema cerebral, bradicardia (pulsação lenta) e pressão arterial elevada, pelo aumento do volume sanguíneo.

Portanto, beba água, amigo corredor, mas não a ponto de sua urina sair incolor. Beba uns poucos goles antes do início da prova e, durante a mesma, beba também uns poucos goles (a ênfase está  em “poucos”) nos postos de abastecimento. Uma boa ideia é jogar água na cabeça, principalmente em uma prova disputada no verão, durante o dia.

Comece com calma, para poder dar um pique no final.

Capello tem razão

Bristol (EUA) – Registro com alegria a declaração do técnico itsaliano Fabio Capello, no momento dirigindo a Seleção da Inglaterra, feita em Dubai, pedindo providências à FIFA para acabar com a drenagem de adolescentes de outros países para o futebol europeu.

Isto acontece há muitos anos, com agentes movimentando-se sobretudo pela América do Sul em busca de talentos ainda em formação.

Há um estatuto da FIFA proibindo a transferência internacional de garotos com menos de 18 anos, mas há muitas maneiras de burlá-la, como levar a família toda do jogador, alegando razões extra-futebol. No caso de Lionel Messi para o Barcelona foi  a necessidade dele fazer  tratamento para crescer.

Não haveria médicos competentes para tal na Argentina?

Capello quer novas regras e já conversou com Michel Platini, atual presidente da UEFA, a respeito. Como alguns sabem, Michel Platini é o favorito para  substituir Sepp Blatter na próxima eleição na FIFA.

Algo que pode os poucos contribuir para acabar com as transferências precoces, pelo menos no que diz respeito a jogadores brasileiros, é o crescimento de nossa economia, enquanto muitos países europeus, como a Espanha, a Itália, Portugal, Grécia, Inglaterra entram em recessão. Nosso país já é a sexta maior economia do mundo – isto é, nossa economia é maior do que a de  todos os países acima citados.

Nossos clubes precisam porém ser mais bem  administrados e negociar melhor com a televisão, para fazer frente à concorrência europeia.

Mundial de Triathlon – 33

Bristol (EUA) – Acabo de chegar de um treino de corrida de oito quilômetros. Parece que estarei em melhor forma para o Mundial de Triathlon na Nova Zelândia, em outubro de 2012, quando terei 75 anos, do que estive no Mundial de Triathlon da China, no último mês de setembro, quando tinha 74.

A diferença é que o inverno no início de 2011 foi terrível, prejudicando meus treinamentos. Agora, já na virada para 2012, quando o novo inverno já começou, a situação é bem diferente. Não tivemos até agora um único dia com neve ou gelo nas ruas. Tenho saído para correr e pedalar sem nenhum problema. Até as chuvas andam escassas.

Espero que continue assim, embora, é claro, me preocupe com o estranho comportamento das condições atmosféricas pelo mundo afora, com extremos de calor ou de frio (sobretudo de calor),  secas, tufões, inundações, o mar avançando sobre o litoral em diversos países, num sinal claro de que o clima mundial está desregulado. Ainda no dia 31 de outubro desde ano, quando o outono mal tinha começado, tivemos aqui em Connecticut uma imensa tempestade de neve que paralisou o Estado durante uma semana. Mas agora, em pleno inverno, nada.

Minha forma física está boa e meu joelho esquerdo – aproveito para avisar à fisioterapeuta Raquel Rodrigues , da Confederação Brasileira de Triathlon – se encontra 99,9% reuperado. Minha mulher, Dawn Werneck, não está treinando no momento porque se encontra na Inglaterra, mas também melhorou bastante do joelho (0 seu é o direito).

Uma de nossas filhas, Rebecca Werneck Stephenson, está também pensando em ir ao Mundial de Triathlon de 2012.

Palavras infelizes

Bristol (EUA) – Está bem que os irmãos Piquet, Alexandre e Cristiano, desejem vender apartamentos, casas e automóveis em Miami, onde tem negócios. Está bem que atraiam brasileiros interessados em investir no exterior, neste momento em que se sabe que nossos cidadãos  são os turistas que mais gastam nos Estados Unidos, com uma média de quase cinco mil dólares per capita.

Mas os Piquet não precisavam ter denegrido o Rio de Janeiro, em entrevista ao New York Times, só para exaltar as qualidades de Miami. O americano médio já tem medo de ir ao Brasil, que diria com os Piquet falando em crianças raptadas ao atravessarem a rua ou pessoas com os braços cortados para terem seus relógios arrancados.

Fui criado no Rio de Janeiro e gostaria  de ver a cidade com mais segurança, mas o diabo também não é tão feio quanto os Piquet pintam. Também há crime nos Estados Unidos. Ainda na semana passada o automóvel de minha mulher foi arrombado, no pátio de estacionamento de uma escola, por um ladrão que levou sua bolsa, dinheiro, documentos, cartões de crédito e o GPS afixado ao parabrisa.

A polícia foi chamada, mas nem deu bola. Parece que estava assoberbada de serviço, com criminosos mais perigosos a combater.

O Bey de Túnis

Bristol (EUA) – Não tenho certeza de que todos os meus leitores saberão  quem era o Bey de Túnis. Bey era um título nobiliárquico do Império Otomano, aplicado também aos monarcas da Tunísia. Consta que um dia o escritor português Eça de Queiroz, não encontrando assunto para uma crônica, e com o moço da tipografia a dar passadas impacientes na sala ao lado, pegou da pena e resolveu o problema: arrasou o Bey de Túnis.

O futebol brasileiro também tem um Bey de Túnis, que sempre socorre alguns amigos meus sem assunto nos fins de ano. É o sistema de pontos corridos no campeonato nacional, em turno e returno. Meus amigos não mais precisam de uma pena, nem  de máquina de datilografar. Sentam-se ao computador e enviam pela internet um libelo assegurando que o sistema de pontos corridos só serve para enriquecer hotéis e empresas aéreas.

Haveria algum problema em estimular a atividade econômica nacional, ajudando a pagar os salários de muita gente que está diretamente ligada a transportes, hospedagem, alimentação?

Mesmo que houvesse, não há de ser por causa disto que os clubes brasileiros estão em má situação financeira – se é que estão. Se estão, é por má gerência e pagamentos escandalosamente imerecidos a jogadores pernas-de-pau, em fim de carreira, e técnicos incompetentes. O sistema de pontos corridos não tem nada a ver com isto. Entra na história de gaiato, como o holandês que paga o mal que não fez.

Ademais, será que meus colegas (em número decrescente, felizmente) não percebem que no mundo inteiro há o campeonato por pontos corridos e as copas, em sistema mata-mata? As duas fórmulas coexistem, na Oropa, França e Bahia. Uma não atrapalha a outra.

Mas, na falta de assunto, o Bey de Túnis está aí mesmo, para ser desancado.

Calma no Brasil

DivulgaçãoBristol (EUA) – Parece que se instalou um clima de pânico no futebol brasileiro depois da derrota do Santos para o Barcelona por 4 a 0. Ora, a verdade é que os profetas da catástrofe estão tão equivocados quanto os eternos proclamadores de que o jogador brasileiro é o melhor do mundo por ser um “privilegiado pela natureza”, por causa da miscigenação racial e outras teorias furadas,

O maior porta-voz da segunda tese foi o teatrólogo e cronista Nélson Rodrigues. Para a primeira, aparece agora com destaque o deputado Romário prevendo que, do jeito como as coisas vão, o Brasil não passará “nem da primeira fase” na próxima Copa do Mundo.

O Barcelona, tenho dito, não inventou a roda. Sua filosofia de futebol não é revolucionária. Baseia-se no toque de bola que no passado distinguiu o futebol brasileiro e na movimentação de jogadores habilidosos exemplificada pela Seleção Holandesa da Copa de 1974. Não é por acaso que Johan Cruyff até hoje se encontra no Barcelona, do qual foi técnico e virou guru.

Às vezes um time é bom e dá azar, como aconteceu com a Seleção Holandesa tanto na Copa de 74 quanto na de 78 (lembrem-se da bola na trave do Fillol no último minuto do tempo normal da final contra a Argentina) e com a Seleção do Brasil contra a Itália, em 1982. Naquela partida, o destino começou a conspirar contra nós numa saída de bola em que Toninho Cerezo fez um passe ao adversário, permitindo o primeiro gol de Paolo Rossi.

Mas nada justifica que o Brasil tenha abandonado suas características a tal ponto que nossos times agora se “espantam” com o Barcelona.

Na década de 60, Elba de Pádua Lima, o ex-jogador e depois ótimo técnico Tim, já dizia: “vamos tocar a bola, enquanto ela está conosco não está com o adversário”.

Um nome inesquecível

Foto: Acervo/Gazeta Press

Foto: Acervo/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Em 2003, quando tinha apenas 25 anos, Martin Lel foi o terceiro colocado na São Silvestre. Digo apenas 25 anos porque os corredores de longa distância tendem a atingir sua melhor forma depois dos 30. O português Carlos Lopes, por exemplo, ganhou a medalha de ouro na Maratona Olímpica de Los Angeles, em 1984, quando já tinha 37 anos. Ganhou com um recorde olímpico, de 2:09:21, que só foi batido nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

Minha impressão, aqui de longe, é que Martin Lel está hoje melhor do que era em 2003, mas, é claro, o brasileiro Marílson Gomes dos Santos, com 34 anos, também está na melhor idade para uma prova como a São Silvestre.

O elenco este ano é dos melhores, com outros ótimos corredores africanos, sobretudo do Quênia, que também aparece muito bem entre as mulheres com Eunice Jepkirui Kirwa. Segundo Moacir “Coquinho” Marconi, que conheci como corredor e hoje é técnico de diversos atletas do Quênia, entre homens e mulheres, o novo percurso é muito rápido.

Entre as mulheres, creio que a maior adversária para Eunice será a etíope Yime Wude Ayalew, vencedora em 2008. As representantes da Etiópia tem dois títulos em provas anteriores. As quenianas hoje já são as maiores vencedoras da São Silvestre, com oito títulos, contra sete de Portugal.

Mas quem pode esquecer a portuguesa Rosa Mota, detentora de seis dos sete titulos portugueses – e consecutivamente?

Esportes que matam

Bristol (EUA) – Sempre entendi esporte como um meio de vida, de saúde. Por isto, há muitos anos deixei de me interessar por esportes como o boxe, depois que começaram a aparecer irrefutáveis provas médicas de que os constantes golpes na cabeça podiam matar ou inutilizar participantes. No Brasil tivemos diversos casos, como o de Fernando Barreto, e nos Estados Unidos aparece Muhammad Ali como o maior exemplo.

Por isto, não me incluo entre os seguidores do chamado Ultimate Fighting, onde há tantos brasileiros em evidência. Mas o perigo existe também em esportes coletivos como o Futebol Americano e o Hóquei no Gelo. O Futebol Americano é hoje de longe o esporte mais popular nos Estados Unidos, tendo superado amplamente o beisebol e o basquete. Infelizmente, acho que grande parte de seus atrativos para a torcida está exatamente na violência, nos entre-choques que aleijam ou matam jogadores, apesar da teórica proteção dos capacetes.

O mesmo acontece, talvez em maior grau ainda, no Hóquei no Gelo, onde há não apenas entrechoques constantes mas a tolerância com os jogadores que entram na quadra apenas para brigar e agredir adversários. O pior é que, como as fotos comprovam em qualquer partida, a torcida sorri deliciada enquanto os brutamontes se socam na quadra, sem que os juizes intervenham.

É uma tradição, dizem, mas uma tradição besta. Os chamados “enforcers” (que poderíamos traduzir como leões de chácara), machucam os adversários mas eles mesmos, depois de acumularem muitos socos recebidos, acabam “sonados”. Ficam com as funções cerebrais comprometidas, recorrem a analgésicos em excesso, tornam-se viciados em drogas, morrem. Foi o que aconteceu este ano com um dos mais conhecidos deles, um canadense chamado Derek Boogaard, foco de uma grande série de reportagens no New York Times depois de morrer com uma super dose de analgésicos misturados com bebida alcoólica. As pessoas que o conheciam diziam que Boogaard estava reduzido à condição de um “zombie”, um morto vivo, não sabia o que fazia.

Mas é imensa a popularidade do Hóquei no Gelo.

Jogadores de Futebol Americano e de Hóquei no Gelo são os modernos gladiadores, quase tão literalmente lançados às feras quanto os que tinham que atuar nos tempos romanos de “pão e circo”.

Numa coisa ele tem razão

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Numa coisa Mano Menezes está certo: a imprensa brasileira precisa acabar com a mania de definir esquemas táticos apenas pelo fato de um jogador ser atacante e outro ser zagueiro. É algo que deveria ter saído da moda desde a seleção holandesa de 1974 e seu “futebol total”.

Mas o técnico Muricy Ramalho merece ser criticado por ter alterado o esquema tático do Santos apenas para uma partida.

Há duas maneiras de enfrentar o Barcelona. A primeira é a de José Mourinho, com o Internazionale e o Real Madrid. Bem sucedido com o Internazionale, mais ou menos bem sucedido com o Real Madrid. É bom que se diga que a mais recente partida entre Barcelona e Real Madrid poderia ter acabado com um vencedor diferente se Cristiano Ronaldo não tivesse perdido dois gols incríveis em momentos cruciais. O método de Mourinho é negar espaços na defesa e usar o contra-ataque, à la Dunga.

A segunda maneira é buscar igualar a posse de bola do Barcelona.

O Santos não fez uma coisa nem outra. Deixou buracos na defesa, apesar dos três zagueiros, e foi avassaladoramente dominado no quesito de posse de bola.

Escrevi aqui outro dia, para desgosto dos torcedores do Real Madrid, que o Barcelona é um ótimo time e o Real Madrid é mais ou menos. Não se trata de reativar a discussão, mas o Barcelona não chega a ser tão “out of this world” quanto insistem em dizer, tanto que recentemente perdeu do modesto Getafe, no Campeonato Espanhol, que, todos sabem, é um campeonato de duas notas só: ou dá Barcelona ou dá Real Madrid.

Nossos técnicos é que estão atrasados. Quase sempre fracassam quando trabalham em países estrangeiros.