Bristol (EUA) – É difícil, muito difíicil, meus amigos, não desconfiar – e desconfiar muito – que o senhor Ricardo Teixeira venha a ser a “pessoa H” que o relatório do Conselho Europeu está oficialmente acusando de ter recebido “pelo menos 13 milhões e setecentos mil dólares” no caso da ISL, a International Sports and Leisure, empresa de marketing.
O relatório é baseado em um depoimento do “prosecuting magistrate” (em outras palavras, membro do Ministério Público da Suíça), encarregado de investigar o caso, senhor Thomas Hildbrand. E o que o senhor Thomas Hildbrand disse, com todas as letras, é o seguinte: “Os pagamentos, feitos ao longo de um período de anos, eram destinados a usar sua influência dentro da FIFA e a Sports Holding AG, para garantir que ele subsequentemente influenciasse a conclusão dos contratos de sub-licenciamento, como presidente da Federação de Futebol de um país sul-americano”. (Os contratos de sub-licenciamente mencionados acima são os de direito de televisão).
Pronto, pela primeira vez aí está, com todas as letras, por uma autoridade oficial: o homem que recebeu o dinheiro era o presidente da Federação de Futebol de um país sul-americano. Não é um país africano, ou europeu, ou asiático, ou norte-americano. É um país sul-americano.
Que presidente de Federação é este: da Argentina, do Chile, do Uruguai? Do Brasil?
O “prosecuting magistrate” deixa mal o presidente da FIFA, senhor Sepp Blatter, e suas palavras mais uma vez têm uma ressonância especial. Senão, vejamos: “O senhor Blatter era diretor-técnico da FIFA de 1975 a 1981, Secretário-Geral de 1981 a 1998 e tem sido seu presidente desde então. Como a FIFA estava ciente de que quantias significativas eram pagas a alguns de seus dirigentes, é dif’ícil imaginar que o senhor Blatter nada soubesse a respeito”.
Ora, amigos, quando senhor João Havelange foi eleito para a presidência da FIFA? 1974. Quando ele nomeou o senhor Sepp Blatter para o cargo de diretor-técnico? 1975.
É difíicil, muito dif’ícil, deixar de imaginar que em 1974 instalou-se dentro da FIFA um sistema de corrupção que, como diz o senhor Thomas Hildbrand, acabou prejudicando a própria entidade. Senão, vejamos outra vez, ainda em suas palavras: “De acordo com a lei suíça, a FIFA aparece no processo como ré, mas também é vítima, porque o dinheiro pago a certos dirigentes inescrupulosos deveria ter sido pago à FIFA”.
Dirigentes inescrupulosos, no plural. Segundo Thomas Hildbrand, um deles (o presidente de uma Federação de um país sul-americano) recebeu “pelo menos 13 milhões e setecentos mil dólares”. O outro recebeu “um milhão e 650 mil dólares”.
Segundo leio na imprensa brasileira, o senhor Ricardo Teixeira, tão logo a Justiça Suíça resolva enfim liberar toda a sórdida historia ao conhecimento público, está pronto a jogar seu ex-sogro, João Havelange, debaixo do ônibus, dizendo que de fato recebeu os US$ 13,7 milhões, mas como ”laranja”.
Mas e o um milhão e seiscentos e cinquenta mil dólares? Teria tal pagamento sido uma comissão para desempenhar o papel de laranja?
São suposições, mas suposições cercadas de uma montanha de sérias evidências circunstanciais. O que se torna cada vez mais claro é que este processo tem que vir em sua inteireza ao conhecimento público e, quando vier, dificilmente o senhor Blatter poderá continuar na presidência da FIFA, já que foi, no mínimo, negligente na defesa dos direitos da entidade.
Outras palavras do depoimento do senhor Hildbrand: “A acusada pessoa H enriqueceu-se com os pagamentos recebidos que não foram repassados, como era de sua obrigação, enquanto a FIFA foi prejudicada no mesmo montante”.