Mulheres em perigo

Fernando Dantas/Gazeta Press

Fernando Dantas/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Peço perdão aos leitores pelo tempo exagerado em que me ausentei do blog, mas fui apanhado em um gigantesco congestionamento de trânsito. Não pude ver muito do jogo entre brasileiras e inglesas, no futebol, mas acho nossa derrota surpreendente, pois o futebol feminino  ainda engatinha na terra da rainha.

Fato que, em si, condena o nosso time. Ficamos em segundo lugar no grupo e vamos pegar nas quartas-de-final a Seleção Japonesa, que é simplesmente a atual campeã do mundo. Minha impressão, até agora, é que nosso futebol feminino involuiu. No jogo contra a Nova Zelândia lamentei a inoperância do meio-de-campo, e nesta terça-feira, a impressão que tive é que o time não tem senso de conjunto.

Temos que melhorar – e muito. Senão, adeus.

É cedo para falar

AFP

AFP

Bristol (EUA) – Até agora a informação que se tem em relação à chinesa Ye Shiwen, ganhadora dos 400 metros medley, feminino, na Olimpíada de Londres, é que ela foi aprovada no exame anti-doping a que todos os atletas são submetidos.

Parece prematura a reclamação de alguns membros da equipe de natação dos Estados Unidos de que  Ye Shiwen nadou os últimos 50 metros em estilo livre em tempo melhor do que o de Ryan Lochte, ganhador entre os homens. “Tal coisa é impossível, ela tem  que estar dopada”, asseguram os americanos.

Devagar com o andor. Ye Shiwen não nadou a prova em tempo melhor do que Ryan Lochte. Ele teve o tempo de 4:05:18 e ela teve o tempo de 4:28:43. Ye Shiwen portanto muito mais tempo dentro d’água, nadando. Seu tempo nos últimos 50 metros do nado livre foi fração de segundo melhor do que o de Ryan Lochte, mas Lochte estava com a prova ganha, com boa vantagem sobre o brasileiro Thiago Pereira (medalha de prata) e pôde diminuir o ritmo. Ye Shiwen, ao contrário, veio de trás para ganhar.

É bom a gente esperar mais um pouco, antes de conclusões precipitadas.

Surpresa? Nenhuma.

Foto: Gaspar Nóbrega/Gazeta Press

Foto: Gaspar Nóbrega/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Nossa seleção feminina de basquete é fraca e dispensou sua melhor jogadora, Iziane, num episódio que eu e diversos leitores já comentamos. Um deles sugeriu, e creio que está com a razão, que a justificava de que Iziane foi cortada porque passou a noite com o namorado é tão ridícula que deve apenas encobrir algo de bem mais grave, provavelmente no relacionamento da jogadora com a diretora da CBB, Hortência.

Qualquer que seja a razão, o que estamos vendo na quadra é o que já esperávamos. Dois jogos, duas derrotas.

Vingança francesa

Foto: AFP

Foto: AFP

Bristol (EUA) – Os franceses tiveram que esperar quatro anos, mas devolveram aos americanos a derrota na China, no revezamento 4×100 metros nado livre, homens, agora em Londres.

Em Pequim, Alain Bernard, o homem que fechava o revezamento para a França, havia garantido que sua equipe conseguiria a medalha de ouro, mas foi ultrapassado por Jason Lezak nos metros finais – o que deu a Michael Phelps a segunda  de suas oito medalhas  de ouro.

Neste domingo, Phelps teve que ficar com uma de prata, pois na última perna do revezamento aconteceu o contrário: o francês Yannick Agnel pulou na água meio segundo atrás de Ryan Lochte, que fechava o revezamento para os americanos, mas derrotou-o nos metros finais. Seu tempo foi de 46,74, contra 47,74 de Lochte. Descontou meio segundo e ainda botou outro meio segundo em cima.

Phelps, é bem verdade, cumpriu seu papel, nadando bem a segunda perna, em 47,15 – o melhor tempo entre os quatro americanos.

Mas quem estava rindo, depois da prova, eram os franceses. A Austrália, a favorita, fracassou e ficou apenas em quarto, atrás da Rússia.

Ao contrário

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Foi o oposto do que aconteceu contra o Egito. O Brasil começou mal diante da Bielo-Rússia, mais uma vez levando um gol bobo, em que falharam tanto o lateral Rafael quanto o goleiro Neto, mas se recuperou, ganhou por 3 a 1 e dominou totalmente a partida no segundo tempo.

Ninguém pode negar que Neymar foi a grande figura em campo, com um gol e duas assistências. Sua cobrança de falta foi perfeita, como foram perfeitos seus passes para Pato e para Oscar em nossos outros dois gols.

Se alguma coisa pode ser dita como crítica ao Brasil, ocorreu sobretudo no primeiro tempo e não estou falando apenas da defesa, mas do fato de que nossos jogadores se mexiam pouco em campo (com exceção de Neymar), procurando dar a bola no pé do companheiro. Ora, já escrevia o inglês Eric Batty, há muitos anos, num livro que o técnico Cláudio Coutinho usou para basear suas teorias sobre futebol, que você tem  que passar no “ponto futuro” – isto é, não onde seu companheiro está, mas onde ele deve ir.

Voltamos bem melhores no segundo tempo, conseguimos a classificação para as quartas de final com um jogo de antecedência e agora é esperar que o time continue a subir de produção. Esperamos também que agora Neto ganhe um pouco de confiança.

Gostei da energia

Foto: Gaspar Nóbrega/Gazeta Press

Foto: Gaspar Nóbrega/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Levamos alguns sustos, sobretudo porque Leandrinho, que jogava bem no segundo tempo, depois de um primeiro sofrível, incorreu em dois erros primários, procurando driblar em baixo de nossa cesta e cometendo uma desnecessária falta de ataque.

Mas gostei da energia com  que o time voltou no segundo tempo e do espírito coletivo. Mais uma vez, nosso melhor jogador foi Marcelinho Huertas que, acredito, poderia facilmente ser um jogador na NBA. Seu estilo de jogo lembra o de Steve Nash, é em geral certeiro nos lances livres, tem visão de quadra, habilidade com a bola nas mãos e, sobretudo, boa cabeça para controlar o ritmo da partida.

Sem ele na quadra, a equipe cai de produção. Foi também muito bom o trabalho de nossos três grandalhões: Nenê, Splitter e Varejão.

Por falar em erros, como nos referimos a uma pessoa nascida no Cazaquistão? Ontem estava pensando nisto quando falava do ciclista Alexandr Vinokourov, ganhador da prova de estrada de 250 quilômetros, e, perdido em minhas divagações, acabei escrevendo que ele era do Afeganistão. Deve ser o efeito daquela guerra interminável. Ainda bem que, na Internet, a gente pode retroceder e editar o “post”. Foi o que fiz.

De volta ao nosso basquete: gostei da energia.

Cadê nosso meio de campo?

Foto: AFPBristol (EUA) – Nossas mulheres ganharam da Nova Zelândia no futebol, mas não foi um bom espetáculo. As neo-zelandesas são apenas gandes, bem-nutridas, esforçadas. Chutam para onde estão viradas.

Mesmo assim, quase fazem um gol lá pelos 30 minutos do segundo tempo quando Formiga falhou bisonhamente para controlar com o pé uma bola que passara sobre sua cabeça e não conseguiu. Felizmente, a adversária chutou exatamente onde estava Andreia. É como eu dizia: ela estava exatamente virada naquela direção e chutou reto.

Acabamos ganhando depois de um lance de bola parada, bem aproveitado no rebote por Cristiane, que teve a inteligência para dar um balãozinho sobre a cabeça das zagueiras adversárias.

Mas a boa quase não chegava ao nosso ataque, pois o meio de campo errava passes e lançamentos. Dependendo do resultado do jogo da Brã-Bretanha contra Camnarões, já estamos nas quartas-de-final.

Mas nosso meio-de-campo precisa aparecer.

Festival de erros

Foto: AFPBristol (EUA) – O que há de mais irritante na cobertura americana dos Jogos Olímpicos é sua insistência em usar milhas, jardas, polegadas, libras, enfim toda aquela parafernália de distâncias, pesos e volumes que o resto do mundo abandonou há muito tempo – inclusive o Reino Unido, pátria-mãe de tal sistema e que serve como anfitriã de Londres-2012.

Lá estava eu, tendo  que fazer cálculos mentais, mas mesmo assim acho que concluí bem antes dos locutores americanos que não havia nenhuma chance para Mark Cavendish, a grande esperança britânica na prova de 250 quilômetros (veja bem, quilômetros, televisão americana), conquistar o primeiro ouro para seiu país na atual Olimpíada.

O que aconteceu? Passou-se simplesmente que australianos e alemães ficaram marcando o grupo britânico, liderado por Bradley Wiggins, recente ganhador do Tour de France, que procurava revezar-se para, ao fim, beneficiar Mark Cavendish, considerado o maior sprinter do mundo no momento. O ciclista com mais chegada na hora do esforço final.

Foi assim que um grupo de 32 ciclistas escapou e a diferença vinha se mantendo ali pelos 54, 55 segundos, sem sinal de diminuir, até alemães e australianos se convencerem de que o grupo britânico já tinha dado o que podia. Coletivamente, faltou entendimento entre os competidores do pelotão.

A esperança poderia ter renascido  quando ocorreu um outro erro, este técnico: o suíço Fabian Cancellara,  no grupo que escapara, entrou mal numa curva para a direita e esborrachou-se nas grades de metal. O grupo de escapada poderia ter se confundido ali, mas se recuperou rapidamente e o pelotão, ao que parece, não percebeu direito o que se passara. A diferença de 54 segundos continuou.

Veio o momento decisivo, quando aconteceu uma escapada dentro da escapada. O colombiano Rigoberto Uran, conhecido como excelente em subidas de montanha (claro, treina nos Andres) escapou e apenas um outro ciclista teve a clarividência para ir junto: Alexandr Vinokourov, um veterano representante do Cazaquistão que andou algum tempo afastado das competições por ter sido apanhado com doping. Não doping de drogas, mas doping de sangue, aquele em que você usa transfusões para se beneficiar de seus próprios glóbulos vermelhos. Mesmo assim, doping.

Foi quando eles entraram no Mall, a larga avenida que conduz ao Palácio de Buckingham, onde estava a fita de chegada. Aí, bobeira tremenda de Uran. Ele estava ansioso para deixar Vinokourov assumir a liderança, o que permitiria a ele, Uran, entrar em seu vácuo e beneficiar-se nos 200 metros finais. Só que levou um autêntico drible de corpo: olhou para sua esquerda e Vinoukorov entrou à sua direita. Quando Uran percebeu, adiós amigo.

De todos os desastres, o pior foi o de Cancellara, que não sabe agora se poderá defender sua medalha de ouro em “time-trial” durante a semana. Mas Uran deve estar  dando pontapés em si mesmo neste momento. Se não estiver levando ponta-pés de seu técnico.

Resta porém uma esperança: a de que Vinoukorov não passe no exame anti-doping. Afinal, não seria a primeira vez.

O tempo de Alexandr Vinokourov foi de 5:45:57.

Excentricidade britânica

AFP

AFP

Bristol (EUA) – Foi diferente, sem dúvida, a cerimônia de abertura da Olimpíada de 2012, mas bastante apropriada para um povo tão famoso pela excentricidade quanto o inglês. Excentricidade que começa por ter uma rainha muito conservadora mas com senso de humor suficiente para concordar com o “sketch” em que supostamente saltou de paraquedas sobre o Estádio Olímpico ao som da abertura dos filmes de James Bond. Custou-me convencer meu neto de 12 anos que aquela realmente não era a soberana Elizabeth II.

David Beckham foi visto conduzindo velozmente a chama olímpica pelo rio Tâmisa, às margens do qual cresceu como um garoto do East End, o bairro dos “cockneys”. Hoje ele é um multi-milionário e a mais conhecida face inglesa do planeta, mas mesmo assim nem ao menos foi convidado para integrar o time de futebol da Grã-Bretanha ou para acender a pira olímpica em que o fogo supostamente sagrado vai arder por duas semanas.

Até nisto a excentricidade britânica falou mais alto. Para driblar os bookmakers londrinos,  que vinham aceitando apostas desde Beckham a Roger Bannister (o homem que primeiro correu a milha em menos de quatro minutos) passando por ninguém mais ninguém menos do que ela, a rainha Elizabeth, e Paul McCartney. Os organizadores driblaram os bookmakers com com sete atletas do futuro e o futuro dirá se eles mereceram mesmo a honra.

A excentricidade do país começa pelo nome, pois Grâ-Bretanha compreende a Inglaterra, Escócia e o País de Gales, enquanto Reino Unido, homenageado na abertura,  inclui a Irlanda do Norte. Mas o único deles que concordou em ceder jogadores para a “Seleção Britânica de Futebol” foi o País de Gales. Cinco galeses fazendo companhia a 13 ingleses e os galeses, para não deixar barato, se recusaram o cantar o hino nacional, aquele que diz “God Save the Queen” – Deus salve a rainha.

Afinal, como é que os irlandeses do norte poderiam fazer parte de uma seleção que era britânica mas não era, digamos, reinounidense?

Antes que nos esqueçamos, a Olimpíada, afinal de contas, é apenas da cidade de Londres e não de nenhum dos países das ilhas. Mas talvez não haja hoje nenhuma cidade  no mundo tão cosmopolita quanto Londres – o que pôde ser visto com muita clareza nos rostos das crianças que apareceram cantando. Londres, capital da excentricidade e da diversidade mundial.