Bristol (EUA) – O que há de mais irritante na cobertura americana dos Jogos Olímpicos é sua insistência em usar milhas, jardas, polegadas, libras, enfim toda aquela parafernália de distâncias, pesos e volumes que o resto do mundo abandonou há muito tempo – inclusive o Reino Unido, pátria-mãe de tal sistema e que serve como anfitriã de Londres-2012.
Lá estava eu, tendo que fazer cálculos mentais, mas mesmo assim acho que concluí bem antes dos locutores americanos que não havia nenhuma chance para Mark Cavendish, a grande esperança britânica na prova de 250 quilômetros (veja bem, quilômetros, televisão americana), conquistar o primeiro ouro para seiu país na atual Olimpíada.
O que aconteceu? Passou-se simplesmente que australianos e alemães ficaram marcando o grupo britânico, liderado por Bradley Wiggins, recente ganhador do Tour de France, que procurava revezar-se para, ao fim, beneficiar Mark Cavendish, considerado o maior sprinter do mundo no momento. O ciclista com mais chegada na hora do esforço final.
Foi assim que um grupo de 32 ciclistas escapou e a diferença vinha se mantendo ali pelos 54, 55 segundos, sem sinal de diminuir, até alemães e australianos se convencerem de que o grupo britânico já tinha dado o que podia. Coletivamente, faltou entendimento entre os competidores do pelotão.
A esperança poderia ter renascido quando ocorreu um outro erro, este técnico: o suíço Fabian Cancellara, no grupo que escapara, entrou mal numa curva para a direita e esborrachou-se nas grades de metal. O grupo de escapada poderia ter se confundido ali, mas se recuperou rapidamente e o pelotão, ao que parece, não percebeu direito o que se passara. A diferença de 54 segundos continuou.
Veio o momento decisivo, quando aconteceu uma escapada dentro da escapada. O colombiano Rigoberto Uran, conhecido como excelente em subidas de montanha (claro, treina nos Andres) escapou e apenas um outro ciclista teve a clarividência para ir junto: Alexandr Vinokourov, um veterano representante do Cazaquistão que andou algum tempo afastado das competições por ter sido apanhado com doping. Não doping de drogas, mas doping de sangue, aquele em que você usa transfusões para se beneficiar de seus próprios glóbulos vermelhos. Mesmo assim, doping.
Foi quando eles entraram no Mall, a larga avenida que conduz ao Palácio de Buckingham, onde estava a fita de chegada. Aí, bobeira tremenda de Uran. Ele estava ansioso para deixar Vinokourov assumir a liderança, o que permitiria a ele, Uran, entrar em seu vácuo e beneficiar-se nos 200 metros finais. Só que levou um autêntico drible de corpo: olhou para sua esquerda e Vinoukorov entrou à sua direita. Quando Uran percebeu, adiós amigo.
De todos os desastres, o pior foi o de Cancellara, que não sabe agora se poderá defender sua medalha de ouro em “time-trial” durante a semana. Mas Uran deve estar dando pontapés em si mesmo neste momento. Se não estiver levando ponta-pés de seu técnico.
Resta porém uma esperança: a de que Vinoukorov não passe no exame anti-doping. Afinal, não seria a primeira vez.
O tempo de Alexandr Vinokourov foi de 5:45:57.