“Vai haver Maratona”

Foto: AFP

Apesar dos estragos que o furacão Sandy fez em Manhattan, a Maratona de Nova York será realizada neste domingo

Chicago (EUA) – A declaração acima foi feita por um cidadão chamado Norman Golunski, um dos diretores do New York Road Runners Club, a organização responsável pela realização da Maratona de Nova York. Vocês podem ler no “post” abaixo um comentário de um leitor  favorável à realização da prova, alegando que seria uma demonstração positiva diante de uma catástrofe da natureza.

A verdade é que já se formou um debate em Nova York quanto a realizar ou não a Maratona. Na última vez em que li, havia 102 comentários no jornal New York Times e a maioria era contra a realização da Maratona. Tais leitores pensam que é “indecente” que o prefeito da cidade, Michael Bloomberg, esteja pensando em empregar recursos  como policiais, bombeiros, sistemas de transporte e serviços de energia para um evento como a Maratona, em vez, por exemplo, de doar a alimentação que será usada pelos corredores para socorrer as pessoas que foram afetadas pelo furacão Sandy.

A verdade é que o prefeito se encontra em uma posição delicada, pois a Maratona de Nova York gera centenas de milhões de dólares para a cidade. O New York Road Runners Club está fazendo uma avaliação das ruas onde os corredores vão passar, para resolver se há necessidade de alguma mudança no percurso. Um problema sério é que uma grande parte dos corredores usam sistemas públicos de transporte para chegar até Staten Island, o local de partida da prova, e eles estão seriamente prejudicados até agora.

O aeroporto internacional de Kennedy está sendo reaberto nesta quarta-feira. Mais de 40% dos corredores que disputam a Maratona de Nova York vem de fora da cidade, sendo que quase vinte mil deles vem  do exterior. Para piorar a situação, os funcionários do New York Road Runners Club até o momento vem sendo obrigados a utilizar instalações improvisadas, pois a rua onde funciona o clube, a 56 Oeste, foi evacuada por causa de um guindaste que ameaçava desabar em um prédio. Pelo mesmo motivo, foram evacuados os hóspedes do Park Meridien Hotel. Tal hotel tem 726 quartos, dos quais 80% são ocupados por corredores da Maratona e suas famílias.

O debate continua. Eu continuo ilhado em Chicago, de onde espero sair amanhã, quinta-feira.

Isto é que é maratona

Chicago (EUA) – Desde o fim de agosto, estivemos no Brasil, onde disputei um triathlon e onde minha mulher, Dawn, disputou os 14 quilômetros como parte da Adidas Pro Maratona. De lá fomou ao Pantanal, regressamos a Bristol, em Connecticut, fomos a Kona, na Big Island do Havaí, para o Ironman que nossa filha Rebecca Werneck Stephenson disputou, voltamos a Bristol, viajamos para Auckland, na Nova Zelândia, onde disputamos ambos o Campeonato Mundial de Triathlon e visitamos Rotorua, para conhecer o local onde o técnico Arthur Lydiard treinava alguns dos mais conhecidos corredores de rua e de pista do mundo.

Nosso próximo destino será ou seria a Maratona de Nova York, neste domingo, mas estamos bloqueados em Chicago,no estado de Illinois, por artes do furacão Sandy, que levou o caos aos sistema aéreo norte-americano. (Cá entre nós, não é difícil levar o caos ao sistema aéreo americano.)

Nossa possibilidade mais próxima de sair de Chicago é quinta-feira pela manhã.

Mas não somos apenas nós. Como me informei hoje há corredores ilhados em todos os cantos nos Estados Unidos. A organização da Maratona está percorrendo as ruas de Nova York para se certificar de que a prova será realmente realizada.

Creio que será. Acho até que a Maratona de Nova York deu sorte. Se Sandy tivesse chegado quatro ou cinco dias depois, não haveria a Maratona. Seria o primeiro cancelamento de sua história, até agora atrapalhada apenas por ondas de calor e de frio.

O triathlon no Brasil

Whitianga (Nova Zelândia) – Trinta anos depois de sua implantação no Brasil, por que o nosso  triathlon não produz campeões  em nível internacional? No Rio de Janeiro, berço do triathon em nosso país, o crescimento da cidade tirou locais naturais de treinamento, como a Avenida Sernambetiba, Vargem Grande, a subida da Grota Funda e a estrada até Guaratiba, onde gerações anteriores treinavam.

O ideal seria  que aparecessem centros de treinamento de triathlon em cidades menores, para natação, ciclismo e corrida, embora o Rio continue com condições naturais para ótimas provas de triathlon, sobretudo se as autoridades levarem mesmo a cabo o projeto de despoluição da Baía de Guanarabara.

Quanto a formação de novos triatletas, posso falar um pouco dos Estados Unidos, onde moro. Há, antes de mais nada, um grande número de triathlons infantis, onde começam a aparecer garotos e garotas com dez anos de idade e até menos.

Muitos vem da natação, Outros  começam a praticar atletismo, como cross-country, já nas Upper Elemantay Schools, Middle Shools e High Schools. Há muita atividade ciclística ainda de maneira informal, como mountain-biking e e bmx (creio que no Brasil dizem bici-cross).

A base de todo esporte nos Estados Unidos é o sistema escolar, com campeonatos de futebol (soccer), basquete, atletismo, cross-country, natação, voleibol, hóquei, lacrosse  e outros, prolongando-se pelas faculdades, onde já existem equipes de triathlon. A Universidade de Connecticutl, por exemplo, famosa por suas equipes de basquete masculina e feminina, tem também uma equipe de triathlon, com treinadores e todo o apoio necessário.

O triathlon no Brasil cresceu, mas está longe de acompanhar o desenvolvimento de centros como os Estados Unidos, Austrália, países europeus e até a pequena Nova Zelândia, palco do recente Campeonato Mundial e que já no início da temporada do próximo ano estará com uma prova no Circuito da Federação Internacional.

Minha mulher, Dawn Werneck, ganhou uma das duas únicas medalhas de ouro para o Brasil no Campeonato Mundial de Beijing, no ano passado, e a única medalha de ouro no Campeonato Mundial de Auckland, este ano. Mas nosso triathlon precisa descobrir e criar as novas gerações

A média no Ironman

FotoWhitianga (Nova Zelândia) – Estatísticas compiladas em  25 triathlons Ironman disputados de 1987 até hoje na Big Island, no Havaí, mostram que o tempo médio dos finalistas foi de 12h35m. Apesar da natural melhoria dos resultados, à medida que o treinamento dos triatletas é aperfeiçoado e os equipamentos ficam mais sofisticados (é notável, por exemplo, a diferença de peso das bicicletas daquela época para hoje), o último Ironman, neste outubro de 2012, foi um dos que teve tempos mais lentos.

A explicação esteve não apenas no calor, que  é habitual, mas nos ventos de frente especialmente fortes no retorno de Hawi para Kona, este ano, ao longo da estrada que passa pelo aeroporto.

Na foto, minha filha, Rebecca Werneck Stephenson, cruzando a linha de chegada em 12h19min, tempo melhor do que o da média dos competidores, com 12h35min, e muito melhor do que o da média de mulheres em sua faixa etária, de 40 anos para cima, que é de 13h20min, ambos no último quarto de século. Como foi seu primeiro Ironman, ela está de parabéns, especialmente porque teve problemas no ciclismo (leiam “post” mais abaixo). Rebecca está pensando em competir de novo no ano que vem e conseguir tempo ainda mais baixo.

Eu particularmente não aconselho, pois o Ironman de fato é brutal. Rebecca aparece na foto com a bandeira do Brasil, cruzando a linha de chegada, mas não com o uniforme da CBTri (Confederação Brasileira de Triathlon), que foi levado do Rio para Kona por especial gentileza de Rodrigo Eichler, da revista Tri Sport. Explica-se: o uniforme era bem maior do que a triatleta…

EM TEMPO: Por problemas técnicos que passei a enfrentar no local onde estou hospedado em Whitianga, a foto que ilustra o texto demorou quase 24 horas para ser enviada. Talvez eu só possa colocar novos “posts” depois de regressar aos Estados Unidos, quarta-feira.

Cidade perigosa

AFP

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Tairua (Nova Zelândia) – O Rio de Janeiro continua sendo o Rio de janeiro, fevereiro e março e também uma cidade infelizmente muito perigosa. Posso mesmo dizer, como quem cresceu e foi criado no Rio, que o perigo tem sempre aumentado, apesar dos esforços maiores ou menores das diversas administrações.

Não é só o perigo do crime organizado, a requerer autênticas operações militares para ser combatido. A sociedade brasileira em geral e a carioca em particular enfrentam problemas de longa duração, que só serão resolvidos com mais desenvolvimento econômico e uma estrutura social mais justa. O resultado é que há uma multidão de pessoas desamparadas e desassistidas, muitas com distúrbios mentais, a perambular pelas ruas da Cidade Maravilhosa.

Você sai para o trabalho, para um passeio ou um pequeno treino de corrida e nunca sabe se voltará para casa. Foi o que sucedeu com a pastora Renée Murdoch, que deixou os quatro filhos no colégio, resolveu fazer um “jogging”  no calçadão da Avenida Sernambetiba e foi agredida por um louco com um pedaço de pau. Está agora internada, em coma.

A razão para a agressão? Nenhuma. A não ser que o caos da vida cotidiana no Rio de Janeiro seja razão para tanto. Em janeiro, fevereiro e março.

Makau quer novo recorde

Tairua (Nova Zelândia) – Nova York se prepara para mais uma Mega-Maratona no domingo da próxima semana, com 45 mil a 50 mil corredores nas ruas, mas neste domingo, em Frankfurt, uma maratona com menos gente poderá conhecer um novo recorde mundial.

Nova York tem suas atrações peculiares,  como o número de nada menos do que 36 competidores com 80 anos ou mais que estarão competindo. Um deles, Otto Mand, novaiorquino, de exatos 80 anos, já completou 18 maratonas em Nova York e dezenas de outras em outras cidades americanas. Ele se considera um privilegiado, dizendo  ”não tenho problemas nos joelhos”.

Já o queniano Patrick Makau tem um problema. Ele é o atual recordista mundial da Maratona, com 2:03:38, em Berlim, no ano passado, mas seu problema é o de frustração, por não ter sido escolhido para representar seu país na Olimpíada de Londres. Makau desconfia que foi esnobado pelo Comitê Olímpico de Quênia por ter parado na Maratona de Londres (não confundir com a Maratona Olímpica) em abril. Diz porém que nunca recebeu uma explicação oficial e considera sua preterição injusta.

- Eu parei porque estava sentindo uma pequena lesão e queria me poupar para a Maratona Olímpica. Os dirigentes tinham me dito que eu seria escolhido, mesmo que não ganhasse Londres, e acho que não me trataram de uma forma correta.

Agora, Patrck Makau quer vencer a Maratona de Frankfurt com tempo melhor do que o de seu conterrâneo Wilson Kipsang, ganhador no ano passado com 2:03:42, apenas quatro segundos mais lento do que o recorde mundial do próprio Makau. Mais: se possível, Makau quer quebrar seu  recorde. As condições em Frankfurt serão boas para tanto, sem chuva e com temperatura de quatro centígrados na hora da largada, às dez da manhã.

Entre as mulheres, a favorita é a etíope Mamitu Daska, que conseguiu sua melhor marca pessoal, com 2:21:59, exatamente em Frankfurt,  no ano passado. Ela acredita que este ano poderá correr em 2:18 ou 2:19.

Seria um ótimo tempo, é claro, mas ainda sem ameaçar o recorde mundial da inglesa Paula Radcliffe, com 2:15:25. Quando alguém conseguirá melhorar a marca de Paula?

Demolindo o atletismo

Divulgação

Divulgação

Tairua (Nova Zelândia) – Recebo aqui longe a notícia de que as autoridades municipais e estaduais do Rio de Janeiro vão demolir ou já começaram a demolir o estádio de atletismo Célio de Barros, no complexo esportivo do Maracanã. A Federação de Atletismo do Rio de Janeiro vem fazendo circular um abaixo-assinado para impedir (ou tentar impedir) que tal aonteça e programou uma reunão de protesto por parte das pessoas interessadas, a ser realizada no Balcão da Cidadania, na rua Barão de Teffé, na Gamboa, às 18 horas do dia oito de novembro.

Parece-me claro que a demolição do Célio de Barros faz parte das obras de reeestruturação do Maracanã para a Copa de 2014. Sei também, como carioca, que o Célio de Barros na verdade nunca atingiu os objetivos para os quais foi construído. Enquanto morei no Rio havia pouquíssimas competições de atletismo ali e, quando havia, passavam praticamente despercebidas.

Mas daí a demolir o estádio sem ao menos conversar com a Federação interessada vai uma grande diferença. Por que as coisas no Brasil precisam acontecer desta maneira? Minha esperança é que, como a Olimpíada no Rio acontecerá dois anos depois  da Copa do Mundo, algo de muito bom terá que substituir o Célio de Barros. Afinal, o atletismo ainda é a grande atração de uma Olimpíada.

Usain Bolt e seus companheiros precisarão de um palco digno onde se exibir. É óbvio também que as lantejoulas e fotos de artifício de uma Olimpíada não bastarão para reviver o morinbundo atletismo brasileiro. Quais são os planos para a pós-Olimpíada?

Enterrando mais embaixo

Rotorua (Nova Zelândia) – Recebo aqui bem longe a notícia de que Geno  Auriemma, técnico de basquete feminino da Universidade de Connecticut, propôs abaixar a cesta para os jogos femininos em sete polegadas (algo em torno de 17,5 cm). Sua intencão é tornar o jogo mais interessante com enterradas e bandejas, que acontecm com menos frequência entre as mulheres.

Para os homens, a cesta tem dez pés de altura (três metros e fração, num cálculo meu de cabeça). Auriemma argumenta que, se as cestas ficarem mais baixa para as mulheres, haverá um aumento no aproveitamento ofensivo das equipes. Sua teoria obedece a teoria geral dos esportes americanos: quanto mais pontos, melhor.

Auriemma nasceu na Itália mas foi em criança para os Estados Unidos e pensa como um ameriano típico. Ele conta com ao menos um precedente válido para sua tese. No vôlei feminino, a rede é mais baixa para as mulheres.

Mesmo assim, há treinadores   que fazem restrições à ideia. Eles argumentam que as mulheres teriam condições de fazer um jogo mais rápido e até mais técnico dos que o dos homens, sem necessidade de exibições de potência física, caso típico das enterradas.

Nas trilhas de Rotorua

Rotorua (Nova Zelândia) – Dois ou três leitores já postaram comentários em meu blog afirmando que pretendem emigrar para a Nova Zelândia, depois de acompanharem o que tenho escrito a respeito do país.

Bem, se o que desejam é uma vida tranquila, num lugar seguro, limpo, com esplêndida natureza e um grande amor pelo esporte, não poderiam escolher melhor do que dar com os costados nesta pequena cidade no planalto. Desde a década de 80 eu e minha mulher, Dawn Werneck, que competia no Brasil como Dawn Webb, temos pensado em dar um pulo a Rotorua, depois de conversar com o famoso técnico neo-zelandês de atletismo Arthur Lydiard (morto em 2004) e a maratonista Lorraine Moller, hoje residente nos Estados Unidos.

Arthur Lydiard e Lorraine estiveram no Brasil durante uma das primeiras maratonas que a cidade conheceu, no início dos anos 80. Não sei exatamente em que ano Lydiard apareceu no Rio, mas tenho na memória que Lorraine esteve em nossa cidade mais de uma vez e inclusive foi a vencedora de uma das maratonas Atlântica-Boavista, das quais eu era o Diretor.

Talvez os leitores mais afeitos a pesquisas possam dizer em que ano ou anos exatamente Lydiard e Lorraine passaram pelo Rio. É um assunto que provavelmente interessa de perto a um deles, Adelton Araujo, mestre em Historia da Imprensa no Brasil e que no momento está recolhendo dados para uma tese de Doutorado em História do Esporte.

(Faço uma pequena pausa porque o maldito computador apagou metade que eu  escrevi. Não há de ser nada, combateremos à sombra).

O fato é que estou devendo um e-mail de resposta ao Adelton, mas peço-lhe vênia, porque não tenho tido muita facilidade de acesso à Internet. Prometo uma resposta quando voltar para os Estados Unidos, na semana que vem.

Uma das coisas que Lydiard fez no Rio foi mostrar um filme com treinamento nas montanhas de Rotorua, especialmente no Redwoods, na floresta Whakerewarewa, nas cercanias da cidade. Era lá que Lorraine Moller, vencedora em pista e maratonas não apenas em Jogos Olímpicos mas em provas imporantes como Boston e outras pelo mundo afora, treinava. E lá também muitas vezes Lydiard levava seus atletas, entre eles Peter Snell, Rod Dixon, John Walker. Lydiard criou um método de treinamento totalmente revolucionário, enfatizando a necessidade de uma base de 160 quilômetros por semana e treinos anaeróbicos durante no máximo quatro semanas. Treinou atletas nas mais diversas distâncias. Mesmo Peter Snell, que corria os 800 metros em pista, tinha que fazer os 160 q uilômetros de Arthur Lydiard, em ruas, estradas e trilhas. Outro famoso atleta que Lydiard treinou foi o finlandês Lasse Virén.

O parque Redwoods ocupa uma área de seis mil hectares, com uma imensa quantidade de trilhas para corridas, mountain-biking e equestrianismo. Quanto estivemos lá nesta quinta-feira (horário da Nova Zelândia, quando ainda era quarta-feira no Brasil), a temperatura era agradabilíssima. Desde que aqui chegamos, neste meio de primavera,  tivemos uma noite com zero grau e geada, mas durante o dia a temperatura vinha alcançando os 11 graus. Na noite passada, a temperatura mímina ficou em quatro centígrados e, durante o dia, a máxima chegou aos 18. Como o tempo é muito seco, você pedala subindo trilha atrás de trilha (nem sei como aguentei, depois do esforço no Mundial de Triathlon, em Auckland) e não chega a suar, apesar de vestido com duas camisas, uma de manga comprida.

Não corremos, mas vimos muita gente correndo. Minha mulher já havia corrido pela manhã em Rotorua, que se vê ao fundo, com um de seus “geysers” de água quente. Enquanto ela corria eu fazia “elliptical” (que poupa os joelhos) e peso, no ginásio do hotel. Depois nadamos.

Nada melhor para completar o dia do que o mountain-biking neste imenso parque cujo nome Redwoods vem do fato de que há neles muitas sequóias (aquelas gigantescas e milenares árvores) vindas da Califórnia. Gosto muito de correr nas Paineiras, mas, se vocês não levam a mal, a floresta Wharewareka é melhor.

Mundial de Triathlon – 55

Rotorua (Nova Zelândia) – Estou na encantadora cidade de Rotorua, situada na margem sul do lago do mesmo nome, cerca de três horas de carro a sudeste de Auckland. Estou me recuperando da gripe que peguei nas águas geladas de Auckland, quando estava treinando para o Mundial de Triathlon. Eu já vinha meio bombardeado porque não usei um casaco no longo vôo (quase 13 horas), que nos trouxe – a mim e minha mulher – desde San Francisco. Mas isto é outra história.

Rotorua, num planalto a 290 metros de altitude, é um excelente local para recuperação, com fantásticas trilhas (atenção, Rodolfo Eichler) em um bosque que um dia serviu de local de treinamento favorito para Arthur Luydiard, um guru das maratonas, que esteve no Brasil e tinha me deixado com água na bola para conhecer sua cidade. lnfelizmente, ele já morreu. Outra habitante ilustre daquela época em que tínhamos criado a Maratona Atlântica-Boavista era a maratonista Lorraine Moller, doce figura, que hoje vive em Boulder, Colorado, Estados Unidos. Lorraine Moller correu a maratona Atlântica Boavista, creio que duas vezes e, se a memória não me falha de todo, ganhou uma delas. Os historiadores daqueles dias poderão falar melhor.

A Nova Zelândia, já escrevi antes, é um país encantador, com um povo muito hospitaleiro. O que surpreende contudo é que a Nova Zelândia é muito menos europeia (em outras palavras, branca) do que eu supunha. Além de ter uma população de 15% de Maoris, que conservam sua língua e sua cultura, a Nova Zelândia tem um crescente número de imigrantes asiáticos, sobretudo da China.

Nem sempre foi assim. A Nova Zelândia, inicialmente povoada pelos maoris (leiam o post “Kia Ora”, um pouco mais abaixo), tornou-se uma colônia britânica em 1840 e o governo de Sua Majestade passou a restringir o número de imigrantes para o país aos habitantes do Reino Unido, sobretudo escoceses e ingleses  (A forte descendência de escoceses explica o bom número de ruivos e ruivas ainda hoje encontrados na Nova Zelândia).

Tais restrições duraram longo tempo. Basta dizer que até 1944 asiáticos que, por um motivo ou outro, conseguissem emigrar para a Nova Zelândia, tinham que pagar um imposto per capita e não podiam se naturalizar. Enquanto isto, o governo dava passagens de graça e subvenções aos imigrantes europeus, aí incluídos refiugiados da Segunda Guerra.

Por causa disto, até 1960 o país era fortemente branco. Só a partir de meados da década de 60, por motivos de necessidade econômica, a Nova Zelândia deixou de restringir tanto a imigração de asiáticos. Em 1987 foi promulgada uma lei estabelecendo critérios de imigração baseados na capacidade profissional dos candidatos, não em sua etnia. Mas agora há no parlamento uma lei favorecendo imigrantes que já falem inglês e/ou estejam dispostos a investir US$ 2,5 milhões de dólares no país.

O fato porém é que hoje a população de maoris é de 15% do total da Nova Zelândia, a de asiáticos em geral 9,5%, outros polinésios (os maoris são polinésios) 7%. Os chineses são um forte grupo entre os asiáticos, contribuindo com 3% da população total da Nova Zelândia.

Creio que em Roturua, com uma população de 56.200 pessoas, a presença asiática chama ainda mais a atenção do que em Auckland, com chineses, coreanos e indianos por todas as partes, o que se reflete no número de restaurantes de comida típica. Entre os chineses, há uma presença maior de imigrantes originários das cercanias de Hong-Kong, o que faz com que o cantonés seja mais falado por eles do que o mandarim.

O salário médio na Nova Zelândia é de US$ 25 mil anuais, um bom poder aquisitivo. Rotorua, como disse, é encantadora. Já vimos aqui até um restaurante mexicano. Quem sabe ainda descobriremos uma churrascaria brasleira, como vimos em Auckland? Mas se vocês não gostarem de emanações sulfúricas, não venham para cá. Elas podem ser sentidas em muitos lugares, por causa do grande número de ventarolas, num terreno vulcânico. Há também geysers e fontes de banho de lama quente.