Mudança agradou

Djalma Vassão/Gazeta Press

Djalma Vassão/Gazeta Press

Bristol (EUA) – O relatório inicial de um de meus observadores na São Silvestre foi positivo. A mudança de horário permitiu que a prova fosse iniciada com uma temperatura agradável de 20 centígrados (em boa parte porque choveu à noite) e havia mais público do que nos anos anteriores.

A vitória dos quenianos, com as  três primeiras colocações, não foi surpresa. Giovani dos Santos correspondeu ao que se podia esperar, com um quarto lugar e o tempo de 44:51. Os dez primeiros quilômetros, com  descidas, foram bastante rápidos. Sou informado agora de que houve a morte de um cadeirante, mas não sei ainda se foi  por ter perdido o controle  ladeira abaixo.

Entre as mulheres também se verificou o que virou rotina mundial nas provas de rua: as africanas passaram a dominar, na esteira dos muitos anos em  que já tínhamos a supremacia do continente entre os homens. Quênia, Tanzania e Etiópia ficaram com os cinco primeiros lugares e a brasileira Tatiele Roberta de Carvalho entrou em sexto, com o tempo de 54:10.

Quando vai terminar o domínio africano, sobretudo dos países do leste do continente? Acho que o tema já começa a preocupar os diretores de provas.

O primeiro homem e a primeira mulher receberam 50 mil reais de prêmio, com direito ainda a bonificações não especificadas.

A boa organização deveu-se, em grande parte, ao “evento teste”, que foi realizado na véspera. Graças a ele, hoje, dia 31, toda a equipe que trabalhou, inclusive o policiamento, sabia exatamente o que fazer e quando fazer.

Voltarei ao assunto São Silvestre, pois tenho certeza de que os comentários aparecerão. Além disso, espero ainda o relatório de meu outro observador.

É muito dinheiro

Bristol (EUA) – Eu estava com a impressão de que o sueco Zlatan Ibrahimovic, do PSG, era o jogador mais bem pago do mundo atualmente, com um salário de 21 milhões de dólares por ano. Mas há um jogador  que recebe ainda mais dinheiro: o camaronês Samuel Eto’o, do Anzhil Makhachkala, da Rússia. Ele ganha dois milhões e  quatrocentos mil dólares por mês.

Eu um ano, Samuel Eto’o ganha quase 29 milhões de dólares. O Anzhil fica na cidade de Makhachkala, capital da República do Dagestão, no litoral do Mar Cáspio, na Rússia. Como é que um  time destes, totalmente desconhecido e sem importância no cenário mundial, pode pagar tanto a um jogador?

Ele pertence a um bilionário de nome Suleiman Kerimov. Sua vida, que teve um início modesto, faz lembrar a de Roman Abramovich, dono do Chelsea. Suleiman enriqueceu com as privatizações de estatais da antiga União Soviética, meteu-se em negócios de petróleo, ouro e prata, hoje literalmente nada em dinheiro.

Mas faz sentido pagar tanto a um jogador? Por melhor que ele seja, alguém acredita que Samuel Eto’o mereça ganhar algo próximo de 30 milhões de dólares por ano, para fazer gols por um time de futebol na Rússia?

Eto’o é pago por Suleiman Kerimov, Ibrahimovic é pago pelos xeques de Qatar. O futebol mundial vive uma bolha de total irrealidade. Ou há muito dinheiro necessitando de lavagem.

Tempos que não voltam mais

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Leitores me perguntam sobre a disputa da São Silvestre na parte da manhã. Corri a prova na década de 80, quando seu grande charme era ser realizada na passagem de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Mas, como diz a velha canção americana, “let’s face the music and dance”. Você dança conforme a música e aquelas décadas em que São Paulo era uma cidade muito menor e a São Silvestre podia ocupar a Avenida Paulista á noite não  voltarão mais.

A disputa à tarde sempre foi controvertida. Estive lá no primeiro ano em que se realizou, 1989, não para correr, mas para assistir à minha filha Rebecca, que corria. A São Silvestre à tarde  nunca alcançou o charme da prova noturna, nem poderia. Mas mesmo assim o crescimento do réveillon na Paulista acabou alijando a São Silvestre até daquele horário vespertino.

A questão então era a seguinte: mudar outra vez o horário ou mudar o percurso? No ano passado, mudaram o percurso. Não deu certo. Então, a realidade é a que temos agora: a prova precisava mudar de horário.

Terei dois observadores meus na São Silvestre deste ano e  aguardarei o relatório que, independentemente, vão me fornecer. Em termos técnicos, acho que os resultados serão melhores do que na disputa à tarde.

Não tão bons, é certo, quanto os da São Silvestre à meia-noite, quando a temperatura realmente era agradável. Mas são tempos que não voltam mais.

Desinfetando o futebol

AFP

AFP

Bristol (EUA) – Uma boa notícia deste fim de ano é que a UEFA, através de seu presidente Michel Platini,  vai pressionar a FIFA para  impedir que terceiros (pessoas físicas ou grupos de investidores) tenham participação nos direitos econômicos de jogadores.

Mesmo que a FIFA se abstenha de agir, a UEFA vai impor a medida em países europeus, já que é a Federação que controla o futebol no continente. Haverá um período de transição e espero que seja o mais breve possível.

Embora muitos ignorem ou  finjam ignorar, há  empresários ou grupos de investidores por trás de manipulações de resultados, para favorecer apostadores – que muitas vezes são eles mesmos.

Há duas outras razões para a medida advogada pela UEFA. Uma é  que tais empresários (alguns deles não apenas donos de jogadores, mas donos de clubes) usam o futebol para lavar dinheiro ganho em atividades ilegais. Alguma surpresa quanto a isto?

A outra é que podem também usar o atual modelo para fraudar o Fair Play Financeiro, agora em vigor, que proibe os clubes de gastar mais do que arrecadam. Por desrespeitar o Fair-Play Financeiro o Málaga, cujos proprietários são de Qatar, já foi proibido de participar da próxima temporada de competições continentais na Europa.

Mas por que tantos clubes na Europa agora são de proprietários? Proprietários não apenas estrangeiros, como Rússia, mas de fora do continente europeu, como Ásia,  Oriente Médio, América do Norte?

Digo clubes europeus e logo abro uma importante exceção, a da Alemanha. Lá, como escrevi outro dia, há apenas dois clubes em mãos de empresas, mas empresas alemãs, como a Bayer  e a Vokswagen. Todos os outros na Primeira Divisão da Bundesliga são grêmios associativos, com sócios que votam ns eleições para a diretoria.

Talvez seja por isto que todos os sete times  alemães que entraram na atual temporada em competições europeias tenham passado adiante, para a fase do mata-mata. Os três times que entraram na Champions League – Bayern de Munique, Schalke e Borussia Dortmund – foram os primeiros colocados em seus grupos.

Enquanto clubes ingleses, franceses, italianos e espanhois continuam a comprar jogadores estrangeiros (na Espanha há times na bancarrota e o italiano Mílan também anda mal das finanças), os times alemães procuram investir em escolinhas, para formar uma nova geração.

Estão no caminho certo, como a UEFA trambém está no caminho certo. Esperemos pela FIFA.

A distinção de Neymar

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Já escrevi aqui, creio que dois ou três “posts” abaixo, sobre a relação dos cem melhores jogadores do mundo, organizada pelo jornal inglês Guardian. Àquela altura estávamos, creio, com os 41 melhores.

Agora sai a relação completa e é logo notável  uma distinção a Neymar, pois, entre os primeiros 48 melhores jogadores do mundo, apenas ele não joga em um clube europeu. Neymar é o número 13 da lista. Na 49a. posição aparece Didier Drogba, jogando agora pelo Shanghai Shenshua, na China, mas para todos os efeitos (pelo menos para a imprensa europeia)  é como se ele estivesse ainda no Chelsea. Entre outras coisas, Drogba esteve lá treinando recentemente, ofereceu  um banquete e falou-se até que poderia ser emprestado ao clube durante as férias do Campeonato Chinês.

Já que citei o  Chelsea, o eurocentrismo da lista organizada pelo Guardian é evidente pelo fato de que há oito jogadores do time londrino listados entre os cem melhores do mundo, enquanto do Corinthians, que derrotou o Chelsea na final do Mundial de Clubes, aparece apenas um, Paulinho, e mesmo assim na última colocação. (Eu originalmente contei seis jogadores do Chelsea, mas na verdade são oito, quase um time completo, um absurdo.)

Há quatro clubes de fora da Europa que dão jogadores para a lista dos cem melhores e três são brasileiros: o Santos, com Neymar, o Internacional, com Diego Forlán, e o Corinthians, com Paulinho. O  outro clube, como escrevi  acima, é chinês.

Como Robinho e Pato se preparam para voltar ao Brasil, Neymar permanece no Santos e Clarence Seedorf está no Botafogo, enquanto Luís Fabiano, Ronaldinho Gaúcho e Deco também regressaram à nossa terra (será que esqueci de alguém?), é possível que nossos times comecem afinal a merecer um pouco mais de atenção da imprensa europeia, sobretudo por causa da aproximação da Copa do Mundo.

A situação econômica na Europa, como já alertei mais de uma vez, não é lá essas coisas. O crescimento de nossa economia desacelerou, é verdade, mas pelo menos ela ainda anda para a frente.

Os sábios idiotas

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Bristol (EUA) – Amigos, todos concordamos que a atual Seleção Brasileira não nos encanta mas, movido pela curiosidade e pela informação de que caímos para a 18a colcação no ranking da FIFA, resolvi dar uma olhada no mesmo. Afinal, é fim de ano e não há muitas outras coisas a fazer.

Colhi a informação de que a colocação de uma seleção no tal ranking depende de uma fórmula a que a  entidade de Zurique chegou depois de muitos estudos. A fórmula é a seguinte: P=MxIxTxC. M é “match”, isto é, jogo. I é a importância do jogo, T a força do adversário e C a força da Confederação a que o adversário está filiado.

A conclusão a que chego? Chego na verdade a duas. A primeira, já alinhavada acima, é que nossa Seleção precisa melhorar. Já estava dando sinais de uma reação, mas a CBF escolheu exatamente o momento em que as coisas pareciam melhorar para demitir Mano Menezes e contratar Felipão, com a explicação de que ele é “motivador”.

A segunda conclusão, para parafrasear aquela antiga frase de Mark Twain sobre as estatísticas, é que números aparentemente lógicos podem levar a conclusões absurdas e ridículas. Pois, amigos, em sã consciência, ninguém pode dizer que as Seleções da Inglaterra, da Colômbia e de Portugal são melhores do que a brasileira. Falando em Portugal, basta lembrar  que jogadores brasileiros que não conseguem ser convocados para nossa Seleção se naturalizam portugueses para jogarem pela “terrinha”, como Deco e Pepe.

Pior porém está na lista, em que Croácia, Grécia e Suíça, já para não falar na Costa do Marfim, Rússia, Equador e México, aparecem na frente do Brasil.

Confrontada com um resultado evidentemente absurdo, em decorrência da tal fórmula “sábia”, a FIFA deveria seguir um conselho que até um idiota poderia dar: arranje outra fórmula.

Os cheques dos xeques

Bristol (EUA) – Os xeques de Dubai não descansam e se preparam para fazer disputar mais uma maratona milionária. Será no dia 25 de janeiro,  mas já sabemos de antemão quem está inscrito e quais são os favoritos na disputa por uma premiação que no total chega a um milhão de dólares.

Serão 250 mil dólares para o primeiro homem e 250 mil dólares para a primeira mulher. Pelo menos em matéria de maratonas o Dubai é uma cidade  islâmica (parte dos Emirados Árabes Unidos)  em que as mulheres tem direitos iguais aos dos homens.

O ganhador em janeiro de 2012 foi Ayele Abshero, da Etiópia, derrotando seu compatriota Haile Gebrselassie e quebrando seu recorde de percurso, com 2:04:23, com o que estabeleceu o quarto tempo mais rápido da história. Infelizmente, Ayele Abshero está macnudado este ano e não poderá correr.

O mesmo, por incrível coincidência, se passa com a etíope Aselefech Mergia, vencedora entre as mulheres na edição do início deste ano, mas igualmente fora da disputa agora.

Entre os homens, o favorito este ano é o queniano Moses Mosop, que tem 2:03:06, o segundo tempo mais rápido da história. Seu maior rival será o etíope Yemane Tsegay, detentor de oito maratonas abaixo de 2:10.

A prova em Dubai no dia 25 de janeiro terá nada menos de 13 homens com tempos abaixo de 2:08.

Entre as mulheres, as favoritas são as etíopes Tirfi Tsegaye, Mamitu Daska, e Karen Jelela.

Daska foi a vencedora em Dubai em 2010. Jelela ganhou a Maratona de Toronto em 2011. Tsegay venceu em Paris em abril deste ano, com 2:21:40.

Querem saber para quem eu torço? Para ninguém mencionado acima. São todos de Quênia ou da Etiópia e o mundo das corridas de rua está precisando de um pouco de variedade entre os ganhadores, para manter o interesse nos demais países.

Futebol total

AFP

AFP

Bristol (EUA) – Não há melhor exemplo da globalização do futebol do que a lista que o jornal inglês Guardian vem divulgando sobre os cem melhores jogadores, depois de consultar técnicos e jornalistas. Países que nunca antes foram conhecidos como celeiros de jogadores de futebol, como Quênia, que historicamente se destacou sempre como terra de maratonistas, aparecem com seus representantes. Temos ainda Zâmbia, Gabão e Japão – e olhem que até o momento o jornal divulgou pouco mais de metade da lista.

Como não podia deixar de ser, um bom número de argentinos e brasileiros, salpicados aqui e ali por um uruguaio (Diego Forlán), italianos, espanhois, ingleses, franceses, alemães. Até aí, nenhuma surpresa. Crescentemente, porém, vem aparecendo no cenário internacional jogadores provenientes dos Bálcãs e outros regiões da antiga Europa Oriental.

A lista no momento vai do número 41 ao  cem. Creio que poucas dúvidas existem – talvez nenhuma dúvida – de que o número um será Lionel Messi, mas é interessante ver que brasileiros são agraciados até o momento.

Aparecemos com Daniel Alves (43), Marcelo (51), Ramires (61), Hernanes 71, David Luiz (79), Hulk 83, Pepe (96) e Paulinho (cem). O jornal apresenta Pepe como português e de fato ele joga pela Seleção Portuguesa, mas nasceu no Brasil e não perdeu a nacionalidade brasileira, assim como se passou com Deco.

Tanto Pepe quanto Deco, afinal, só se naturalizaram portugueses por saberem que não seriam convocados para a Seleção Brasileira.

Outro fato notável é o número de jogadores europeus com nomes totalmente exóticos, sem nada a ver com o Velho Continente. O fenômeno diz respeito sobretudo a jogadores franceses, mas quando alguém pensou que um jogador italiano seria chamado El Shaarawy?

A Maratona de NY reembolsa

Foto: AFP

Foto: AFP

Bristol (EUA) – A Maratona de Nova York acaba de anunciar hoje, quinta-feira, que vai reembolsar os corredores que não puderam disputar a prova no último dia 4 de novembro, por causa da devastação causada na cidade pelo furacão Sandy.

O comunicado será feito oficialmente por e-mail aos corredores no dia 10 de janeiro e eles terão um prazo até o dia 25 do mesmo mês para escolher entre as seguintes alternativas: receber um reembolso  completo, ganhar uma inscrição garantida em uma das próximas três maratonas de Nova York ou ter uma inscrição garantida para disputar a próxima Meia-Maratona de Nova York, em março. Há um número limitado de vagas para esta última opção.

O New York Road Runners Club,  que organiza a prova, acredita que a maioria dos corredores vai preferir receber o reembolso. Por causa disto, estava adiando um anúncio da decisão, pois queria saber primeiro quanto iria receber de sua companhia seguradora pelo cancelamento da prova.

Quem preferir a inscrição garantida para uma das três próximas maratonas, terá que pagar a inscrição, mas a preços de 2012. Este ano a inscrição da Maratona para corredores estrangeiros esteve por volta de 300 dólares.

Havia cerca de 47 mil pessoas inscritas na última Maratona de Nova York e 40% delas eram estrangeiras.

A prova, que seria corrida domingo, foi cancelada apenas na tarde de sexta-feira, embora estivesse evidente, desde o início da semana, que não haveria condições para disputá-la. O cancelamento só foi anunciado quando ficou claro que os corredores seriam alvo da hostilidade dos moradores da cidade, pois estariam utilizando recursos que deveriam ser destinados ao socorro às vítimas.

O Road Runners Club ainda tem pela frente dois assuntos a resolver. O primeiro é um acordo com as redes ABC e ESPN, que transmitiriam pela televisão. Como o clube alega não ter fundos para pagar uma indenização, o mais provável é que haja um acordo para prorrogar os contratos com as emissoras por um ano.

O segundo assunto é quanto ao patrocínio da prova. O New York Road Runners Club tem patrocínio com o banco holandês ING até 2013 e, antes do cancelamento, já havia iniciado entendimentos para um novo contrato a partir de 2014. Agora há dúvida se o ING estará interessado em um novo contrato.

A morte de um triatleta

Bristol (EUA) – Nos últimos dias tenho visto e ouvido uma infinidade de políticos americanos falando sobre a tragédia na escola primária de Newton, no estado de Connecticut. É uma cidade pela qual passo quase diariamente, quando a caminho de meu trabalho como Intérprete Judicial.

Hoje, ao chegar em casa, recebi uma notícia que me atingiu como um murro. Uma das pequenas vítimas era Chase Kowalski. Não o conheci pessoalmente. Mas minha filha Rebecca Charlotte o conheceu. Chase, na verdade, foi o ganhador da faixa etária de 4 a 6 anos no triathlon Kids Who Tri Succeed. Um triathlon que minha filha  organiza anualmente. O nome da competição é uma espécie de trocadilho com o esporte, significando que as crianças que tentam tem êxito.

Todos os anos trabalho como voluntário na prova, mas não o fiz agora em 2012 porque, no sábado em que ela se realizou, 25 de agosto,  eu estava chegando ao Rio de Janeiro, onde participaria do Triathlon “Legends”, no dia seguinte.

O pai do pequeno Chase havia dito à minha filha, ao inscrevê-lo, que o garoto havia descoberto por iniciativa própria, na Internet, que haveria uma prova de triathlon para crianças e queria disputá-la.

Disputou e ganhou.

Imagino a alegria de Chase e de sua famíia depois da prova. Imagino – imagino não, estou seguro –  que seu presente de Natal já havia sido comprado  este ano e esperava  apenas que um velho de barbas brancas descesse pela chaminé, na próxima semana, para depositá-lo ao pé da árvore, onde Chase o descobriria na manhã seguinte.

Talvez, quem sabe?, fosse uma pequena bicicleta, ou um par de óculos de natação, ou um calçado de corrida.

Eu não conheci o pequeno Chase este ano porque estava no Rio. Mas minha mulher e minha filha, que fizeram a entrega das medalhas, o conheceram.

Chase encerrou sua carreira em triathlons. Aposentou-se invicto.

Esta última tragédia nos Estados Unidos ganhou ressonância especial porque suas vítimas tinham seis e sete anos. Enquanto os políticos falam, mas não agem, tenho certeza de que algum outro desequilibrado, não apenas nos Estados Unidos mas no Brasil ou qualquer outro país, está planejando uma mortandade ainda maior e mais sinistra, para alcançar aquilo que tais sociopatas mais almejam : a glória da fama instantânea, ainda que à custa de uma infâmia permanente.

Não há forma mais garantida de assegurá-la do que alvejando pequenas vítimas numa escola primária onde, supõe-se, estão longe da maldade do mundo.

Há nos Estados Unidos entre 270 milhões e 300 milhões de armas de fogo. Não sabemos ao certo, só sabemos que é um número assustador. Como assustador, aterrador, deve ter sido o fim da vida do pequeno mas vitorioso triatleta Chase Kowalski.