André, um pioneiro

Bristol (EUA) – Uma das vozes marcantes da televisão brasileira, André José Adler era uma pessoa suficientemente inteligente para, já próximo dos 50 anos, ter se  transformado em locutor esportivo, embora em sua vida na verdade até então nunca tivesse convivido com esportes ou praticado esporte.

Acompanhei de perto sua  transformação porque, junto com ele, Ivan Zimmermann e Marco Túlio Reis, fiz parte daquele núcleo que, em uma espécie de barraca armada em um canto de corredor da ESPN International, em Bristol, começou a transmitir em português para o Brasil. Eram dias heróicos, aqueles no início de 1992, nascidos da mais completa improvisação. Um noite, me colocaram no ar para fazer, ao vivo, um show sobre automobilismo. O cidadão ia falando em inglês e eu ia traduzindo em português, com algumas precárias anotações rabiscadas em papéis à minha frente.

O assim chamado “estúdio” era tão apertado que o Ivan, um sujeito grandalhão, não cabia direito nele. Ele ia fazer o programa seguinte e, no intervalo comercial, enfiou a cabeça na abertura de nossa cortina de plástico para me pedir que trocasse de lado: passasse da direita para a esquerda. Explicou que sua perna só cabia no lado direito.

Na confusão, troquei de lado e de microfone, mas os papéis  sumiram. Dali para frente o que era, na melhor das hipóteses, um vôo em forte neblina, passou a ser um mergulho no desconhecido.

Dentro de um ou dois meses,  juntou-se à equipe  o Lívio Reis que, de todos nós, era talvez o de maior talento mas que, com uma personalidade imatura, acabou jogando fora uma promissora carreira.

Com o correr do tempo passei a supervisionar a equipe e minha primeira providência foi trazer de Nova York o Roby Porto que, imaginem, estava gerenciando um restaurante. O Roby fez um teste e a direção da casa queria que ele fizesse outro. Eu sabia  que o Roby,  que encarava com relutância a ideia de trabalhar em Bristol, não ia topar e disse lá aos poderosos chefões: “Podem contratar que eu garanto”. Roby hoje brilha na SportTV, no Rio.

André era homem de teatro, cinema e televisão. Começou sua carreira nesta última, aos 13 anos, como Pedrinho no “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Tinha uma espantosa facilidade de expressão e falava fluentemente pelo menos seis línguas, desde seu húngaro nativo até seu português adotivo, passando pelo inglês, o francês, o italiano e o espanhol. Enganava bem em alemão. Neste sentido, lembrava-me muito outro amigo que tive, também nascido na Hungria e também naturalizado brasileiro: o jornalista Janos Lengyel. Suspeito  que quem começa a vida falando húngaro é capaz depois de dominar  qualquer outro idioma.

André chegou a ensaiar umas tentativas na transmissão de nosso futebol, o da bola redonda, mas eu fui franco: “André, você não sabe a diferença entre um cruzamento e um passe em profundidade”. Ele concordou em desistir do “soccer”, mesmo porque, àquela altura, começava a descobrir suas grandes paixões em narração: o Hóquei no Gelo e o Futebol Americano, o da bola oval, capacete e armadura. Em nossa língua, foi um pioneiro em ambos. Embora pessoa extremamente civilizada, André gostava da aspereza e, até por que não dizer?, da violência destes dois esportes.

Sua paixão pelo Futebol Americano o levou de Bristol a Budapest e, de Budapest, de volta ao Rio, cidade onde tinha sua família e com a qual mais profundamente se identificava. Era um carioca completo, mestre no domínio de todas as gírias e neologismos.

Quis o destino porém que, neste último fim de semana, André estivesse num hotel em São Paulo, tratando da organização da final de seu campeonato, o campeonato que deve tudo a ele. Morreu dormindo e, desconfio, sonhando com o Futebol Americano.

Torço para que estivesse gritando: TOUCHDOWN!!!!!

5 comentários em “André, um pioneiro

  1. Alô Werneck!

    Belíssimas palavras. Me fizeram voltar no tempo e lembrar desse scratch maravilhoso que a ESPN conseguiu montar. Não me recordo de outra equipe tão qualificada em matéria de televisão. Lá se vão alguns anos já…

    Ainda tens contato com o Ivan Zimmerman? Lembro das suas transmissões da NBA e da Liga dos Campeões com ele, sempre excelentes. Também faziam parte da equipe Régis Nestrovski, Fábio Malavazzi, Marco Antônio Rodrigues e um rapaz que comentava futebol e que não me recordo o nome agora. O Régis era um sujeito sério, cheguei a trocar alguns e-mails com ele à época. Sempre respondia de maneira solícita e cordial. Grandes memórias…

    Abs.,
    Rafael.

  2. Fiquei super triste coma noticia do falecimento do Andre. Conheci o Andre nos anos 60 num estudio de cinema no Rio Refefe do Roberto Farias. Enquanto eu produzia os filmes do Roberto Carlos e o Andre trabalhava na producao de um super sucesso Os Paqueras do Reginaldo Farias. Hoje com a noticia vindo de CT do horrendo crime em Newtown eu acho que o Andre deve estar sentado numa nuvem no infinito com muita raiva. Como dizem por aqui Bad Things Happens to Good People. O nome do Andre esta no meu book de enderecos do meu e-mail touchdown@touchdown.net Nao vou remover nunca.

    David Havt

  3. Que saudade que eu tenho desta equipe Sr. Werneck, o senhor não faz ideia.Um pessoal maravilhoso, com transmissões maravilhosas,cheias de informação e cultura.Lembro ainda do Marco Faro e o senhor no Tour de France.Bons tempos aqueles…… vida longa aos que ficaram.

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