A morte de um triatleta

Bristol (EUA) – Nos últimos dias tenho visto e ouvido uma infinidade de políticos americanos falando sobre a tragédia na escola primária de Newton, no estado de Connecticut. É uma cidade pela qual passo quase diariamente, quando a caminho de meu trabalho como Intérprete Judicial.

Hoje, ao chegar em casa, recebi uma notícia que me atingiu como um murro. Uma das pequenas vítimas era Chase Kowalski. Não o conheci pessoalmente. Mas minha filha Rebecca Charlotte o conheceu. Chase, na verdade, foi o ganhador da faixa etária de 4 a 6 anos no triathlon Kids Who Tri Succeed. Um triathlon que minha filha  organiza anualmente. O nome da competição é uma espécie de trocadilho com o esporte, significando que as crianças que tentam tem êxito.

Todos os anos trabalho como voluntário na prova, mas não o fiz agora em 2012 porque, no sábado em que ela se realizou, 25 de agosto,  eu estava chegando ao Rio de Janeiro, onde participaria do Triathlon “Legends”, no dia seguinte.

O pai do pequeno Chase havia dito à minha filha, ao inscrevê-lo, que o garoto havia descoberto por iniciativa própria, na Internet, que haveria uma prova de triathlon para crianças e queria disputá-la.

Disputou e ganhou.

Imagino a alegria de Chase e de sua famíia depois da prova. Imagino – imagino não, estou seguro –  que seu presente de Natal já havia sido comprado  este ano e esperava  apenas que um velho de barbas brancas descesse pela chaminé, na próxima semana, para depositá-lo ao pé da árvore, onde Chase o descobriria na manhã seguinte.

Talvez, quem sabe?, fosse uma pequena bicicleta, ou um par de óculos de natação, ou um calçado de corrida.

Eu não conheci o pequeno Chase este ano porque estava no Rio. Mas minha mulher e minha filha, que fizeram a entrega das medalhas, o conheceram.

Chase encerrou sua carreira em triathlons. Aposentou-se invicto.

Esta última tragédia nos Estados Unidos ganhou ressonância especial porque suas vítimas tinham seis e sete anos. Enquanto os políticos falam, mas não agem, tenho certeza de que algum outro desequilibrado, não apenas nos Estados Unidos mas no Brasil ou qualquer outro país, está planejando uma mortandade ainda maior e mais sinistra, para alcançar aquilo que tais sociopatas mais almejam : a glória da fama instantânea, ainda que à custa de uma infâmia permanente.

Não há forma mais garantida de assegurá-la do que alvejando pequenas vítimas numa escola primária onde, supõe-se, estão longe da maldade do mundo.

Há nos Estados Unidos entre 270 milhões e 300 milhões de armas de fogo. Não sabemos ao certo, só sabemos que é um número assustador. Como assustador, aterrador, deve ter sido o fim da vida do pequeno mas vitorioso triatleta Chase Kowalski.

3 comentários em “A morte de um triatleta

  1. Tristeza, muita tristeza. Não tiveram a chance de viver suas vidas. Que suas famílias tenham forças para superar esse momento terrível. E que esses meninos e meninas estejam ao lado de Deus. Certamente, estão. Eram anjos.

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