
AFP
Bristol (EUA) – “Não há nada de novo sob o sol”, podemos ler em Eclesiastes 1:9. Tal constatação me ocorreu depois de ler uma entrevista do coordenador técnico de nossa Seleção, Carlos Alberto Parreira, sobre o que aconteceu na Copa de 2006, na qual ele era o técnico.
Parreira cita a palestra de um cavalheiro – quem foi, não sei – em seu Footcom, um fórum sobre futebol que, ele, Parreira, organiza todos os anos no Rio de Janeiro. (Parreira, é claro, aproveitou a entrevista para divulgar o seu produto.) Mas o tal palestrante disse que, para a próxima Copa do Mundo, o Brasil vai precisar de jogadores PhD e, ante o pasmo geral, explicou: são jogadores que precisam ser “poor” (pobres), estarem “hungry” (com fome) e terem “desire” (desejo, vontade, que poderíamos traduzir melhor como motivação).
Ora, acontece que há muitos anos um filósofo do futebol brasleiro, Neném Prancha, já tinha dito a mesma coisa num dia em que, assistindo a uma partida do time do qual era técnico, gritou para um jogador: “vai na bola, meu filho, vai na bola como quem vai num prato de comida”.
Parreira, a partir da palestra do pedante em seu Footcom, aproveitou para dizer que em 2006 o que nos faltou foi exatamente o tal PhD. Nossos jogadores, segundo ele, eram super-astros, como Ronaldão, Ronaldinho e Adriano (eu poderia citar outros) que não estavam motivados. E pontificou: “nenhum técnico dá motivação a um jogador, o jogador precisa se automotivar”.
Bem, tenho algumas considerações a fazer. Os tais super-astros desmotivados foram convocados pelo próprio Parreira. Era sabido, por exemplo, que Ronaldão estava mal no Real Madrid. Quando ele voltou para o segundo tempo de nossa primeira partida, contra a Croácia, a passo de cágado (eu escrevi cágado), ficou evidente que dali para a frente Ronaldão não iria mais na bola como quem vai num prato de comida, como de fato não foi. De quem a culpa de sua desinteressada presença na Seleção (lembram-se de sua frase sobre os mais de 80 milhões de dólares que tinha em investimentros?), senão do próprio Parreira?
Eu e muitos outros condenamos a falta de entusiasmo de nossos super-astros na ocasião e, antes mesmo do início do Mundial, cheguei a escrever uma coluna com o título “Les Héros sont Fatigués”, aproveitando o nome de um famoso filme francês.
Acontece também que o novo presidente da CBF afirmou ter nomeado Felipão para a Seleção que disputará a Copa de 2014 por ser um “motivador”. Parreira, braço direito de Felipão, acaba de dizer que não acredita em técnicos motivadores.
Já escrevi aqui no passado que minhas críticas não significam que não vá torcer pela Seleção. Parreira diz que o país todo tem que apoiar a Seleção. Muito bem, apoiarei. Mas não acredito que o entusiasmo popular por nossa Seleção vá ser tão grande quanto Parreira espera. Afinal, nossos torcedores há já algum tempo acham que nossos jogadores são os tais super-astros nadando em dinheiro de que Parreira fala. Muita gente no Brasil está farta de seus excessos, de seu estrelismo, das confusões em que se metem.
Falta a eles o tal PhD de que fala o pedante. Ou a disposição para ir na bola como quem vai num prato de comida, na frase muito mais saborosa de Neném Prancha.