O esporte está doente

Bristol (EUA) – Nos Estados Unidos no momento faz grande sucesso o seriado britânico de televisão Downton Abbey, sobre as peripécias de uma família de aristocratas nas décadas iniciais do século XX. Mas desconfio que tal obra de ficção vai acabar perdendo em popularidade para um  drama da vida real, que se desenrola nos dias atuais.

Downton Abbey é o que se chama por aqui um “costume drama”, em que o vestuário de atores e atrizes, obedecendo com rigor à moda da época, é tão analisado e dissecado quanto as virtudes ou defeitos do enredo. A novela que ameaça a popularidade de Downton Abbey também vai oferecer com destaque vestimentas interessantes e coloridas.

Refiro-me às idas e vindas do caso de Lance Armstrong, o ciclista super-campeão do Tour de France, despojado de todos os seus títulos e glórias depois que se tornou evidente que ele é uma espécie de cientista do mal, especializado em dopar-se com tal esperteza que só agora foi finalmente desmascarado, depois da publicação de um relatório de 202 páginas da USADA, a Agência Anti-Doping dos Estados Unidos.

Não vou cansar meus leitores com detalhes  da investigação. Tenho escrito fartamente sobre o assunto, não apenas em “posts” que podem ser encontrados abaixo (ao longo de vários anos) como em colunas no site da ESPN Brasil. Lembro que quando inicialmente abordei as fraudes de Lance Armstrong no site da ESPN Brasil alguns competidores de ciclismo no Brasil queriam caçar-me a pauladas, como a uma ratazana. Talvez por acreditarem na inocência de Lance, talvez por se alinharem com a mentalidade do  ”leve vantagem você também”  que acabou por contaminar  o ciclismo mundial.

Agora anuncia-se que Lance Armstrong vai “dizer tudo” numa entrevista com Oprah Winfrey, veterana apresentadora de televisão que se tornou milionária com sua especialidade em entrevistas lacrimosas e sacarídeas.

Vai ser na semana que vem. Aguardemos, mas não com a expectativa de um trabalho realmente jornalístico. Há algum tempo esta mesma Oprah Winfrey fez um programa procurando apresentar da forma mais simpática possível a atleta olímpica Marion Jones, que foi privada de suas cinco medalhas por uso de doping e acabou cumprindo pena de prisão por mentir em juízo (o que se chama perjúrio) a respeito.

Não será a primeira vez que Oprah Winfrey entrevista Armstrong. Há fotos dos dois em programa anterior, com Armstrong paramentado a rigor como ciclista (o “costume drama”) e Oprah com a cabeça docemente pousada em seu ombro. O fato de que o canal de Oprah é controlado pela rede Discovery, antigo patrocinador de Armstrong e de sua equipe (a US Postal Service Cycling), tampouco nos incentiva a esperar o que vem por aí com otimismo.

De mais a mais, Armstrong enfrenta um problema legal. Se reconhecer agora que mentiu ao se declarar inocente do uso de doping, estará admitindo o mesmo crime de perjúrio que levou Marion Jones à cadeia. Afinal, ele  também garantiu, em juízo, que jamais  tomou doping na vida, levantando a mão direita e respondendo “Yes” à interrogação  ritual : “Do you solemnly swear and solemnly affirm, etc.. etc..”

A novela vai continuar. Mas com doping, racismo, máfia das apostas, suborno (vejam agora o caso com o futebol na Coréia do Sul), corrupção de cartolas de toda espécie, o grande prejudicado é o esporte. Ele está doente.

2 comentários em “O esporte está doente

  1. os americanos gostam disso, né? lance vai ao confessionário junto à santa Oprah… e tudo termina bem. igual ao caso Monica lewinski, basta confessar e pedir desculpa. afinal de conta os estados unidos são uma sociedade profundamente cristão!

  2. Lembre que a encefalopatia traumatica no nosso futebol também ocorre muito e não dúvido que se fizerem uma pesquisa mais profunda em times completos nao teremos resultados parecidos. Uma pesquisa com 445 jogadores mostrou que 25% dos jogadores de futebol já sofria com esse mal http://www.isaudebahia.com.br/noticias/detalhe/noticia/entenda-o-que-e-a-encefalopatia-traumatica-cronica/ e tambem tem uma excelente materia no psychiatry online brasil sobre futebol e concussão http://www.polbr.med.br/ano11/art1111.php

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