Fale conosco Receba o boletim  

Prata que vale ouro
Com um salto de 8,17m, Yago Lamela é vice-campeão europeu e ressurge como um dos grandes atletas da atualidade

Da corresponde Leila Araújo
Foto: Divulgação
Foto divulgação
Lamela: "Ganhar essa medalha de prata foi como surgir outra vez".

Valencia (Espanha) - O resultado obtido pela Espanha no último Campeonato Europeu de Atletismo em pista coberta, ocorrido em Viena no começo deste mês, elevou o país à categoria de potência européia do atletismo. Foram 11 medalhas, das quais cinco de ouro, três de prata e três de bronze, números que fizeram a Espanha ultrapassar países tradicionais neste esporte como Alemanha, Rússia e França.

Um dos responsáveis pelo êxito espanhol é o asturiano Yago Lamela, 24 anos, vice-campeão mundial em Sevilha 99. Dono do recorde espanhol no salto em distância com 8,56m, Lamela fez uma campanha frustrante em Sydney e sequer passou pelas eliminatórias, pois não alcançou os 8,00m estipulados. Depois de Sevilha, sofreu uma série de lesões e, sem resultados, praticamente caiu no esquecimento.

No início deste ano, Lamela resolveu mudar tudo: deixou a residência Joaquim Blume, em Madrid, onde treinava, e trocou de técnico. Veio para Valencia e nas mãos do experiente treinador Rafael Blanquer, o mesmo da cubana nacionalizada espanhola Niurka Montalvo, começou a ressurgir. Apenas dois meses depois da mudança, veio a medalha de prata em Viena. "O resultado me dá muita confiança, porque mesmo sem estar no melhor da minha forma física, sou o segundo melhor de toda Europa", diz Lamela, que perdeu o ouro para seu compatriota Raúl Fernandez (8,22m).

Mesmo tendo deixado a residência Joaquim Blume, mantida pelo governo espanhol para os atletas de elite, Lamela continua recebendo a beca do programa "Associación Deportes Olímpicos". Tem patrocinador e, diferentemente do que ocorre com a maioria dos atletas brasileiros, não tem problemas econômicos e pode se dedicar exclusivamente ao esporte. Agora, só falta colher os resultados. Depois de um dia de treinos na pista de atletismo de Valencia, Yago Lamela falou com exclusividade à Gazeta Esportiva Net. Leia a entrevista:

GE Net: Depois do resultado de Sydney, qual o significado desta medalha de prata?
Yago Lamela: É algo especial. Foi muito importante, sobretudo porque eu não pensava participar desta competição. Decidi competir poucos dias antes do Europeu, quando estava em outra competição e foi só porque meu treinador me estimulou. A medalha foi mais importante porque 99 foi um ano muito bom, quando conquistei o vice-campeonato mundial, mas logo depois tive um monte de lesões e as coisas não davam certo. Agora, é como surgir outra vez.


GE Net: Em algum momento você pensou que não voltaria a estar entre os grandes?
YL: Claro que tive maus momentos, principalmente quando não via os resultados, mas nunca pensei que não voltaria a saltar minhas marcas, que nunca voltaria a ser medalhista, isso nunca. Acho que foi o que me fez sair do poço. Sempre tive fé em mim, apesar dos maus resultados. Ter fé é o que faz as pessoas seguirem adiante.

GE Net: Porque você trocou Madrid por Valencia?
YL: Vim porque eu não estava bem. Fazia 100% a minha parte e via que não saia resultado. Eu acho que o ambiente ali não era o adequado, com o treinador e tudo. Ouvia falar muito bem deste lugar (a pista de atletismo de Valencia) e sabia que o Rafael Blanquer era um excelente treinador. Ele foi muito importante neste resultado de Viena e nos próximos que terei. Todas as pessoas que conheciam este lugar falavam bem. A pista de Valencia tem muito boa fama.

GE Net: Como foi conquistar sua medalha com 8,17m sendo que sua melhor marca é 8,56m?
YL: Acho que saltar 8,17 m no Europeu é uma marca muito boa. Eu não estava ainda no meu melhor momento. Havia pouco tempo que eu estava aqui e conseguir uma medalha de prata sem estar fisicamente 100% me dá confiança porque quando estiver totalmente bem poderei alcançar uma marca mais alta. Estou convencido que superarei os 8,56m, que saltei ao ar livre.

GE Net: Você mencionou que em Madrid os resultados não apareciam. Será que tem a ver com a fórmula de viver e treinar no mesmo local?
YL: É difícil treinar um atleta de elite. Para saltar 8 metros, bom, mas para chegar a uma marca que esteja entre as melhores de todos os tempos, aí já é necessário outra coisa, que é o que tem o Rafa Blanquer, um dos melhores treinadores do salto em distância.

GE Net: E o que tem Rafa Blanquer?
YL: Ele sabe muito de salto em distância, possui um vasto conhecimento técnico e, além disso, sabe transmitir muito bem aos seus atletas. E isso é o importante.

GE Net: Quais são seus planos depois da conquista desta medalha? Vai continuar em Valencia?
YL: Sem dúvida nenhuma vou continuar aqui. Mudei para cá e na temporada de verão, vou disputar o campeonato europeu ao ar livre, e depois vem a Copa do Mundo e não sei se vou conseguir bater meu recorde espanhol de 8,56m, mas quero ao menos ficar perto e ser mais regular nas marcas acima de 8 metros.

GE Net: Treinar com atletas de nível como Niurka Montalvo e Glory Alozie deve ser um estímulo...
YL: O melhor de tudo é que aqui há um ambiento muito bom. Entre nós nos damos muito bem e isso é importante porque estamos juntos todos os dias. Também se pode aprender porque a Niurka é muito boa, foi campeã do mundo, sempre se aprende alguma coisa.

GE Net: A que você atribui o êxito da Espanha no atletismo depois de um certo ceticismo com as despedidas de Martín Fiz e Abel Antón?
YL: Acho que houve uma mudança de geração porque quase todas as medalhas conquistadas no Europeu é de atletas com idades entre 22 e 25 anos. Quando eu era mais jovem, a Espanha fez um bom trabalho de captação de novos valores e continua fazendo. Todos os que foram "captados" da minha idade nos últimos dois anos estão trazendo bons resultados. É um trabalho muito importante porque um campeão não se faz do nada, tem de buscar os talentos entre as crianças.


GE Net: Qual é sua crítica ao atletismo espanhol?
YL: O esporte profissional na Espanha está cada vez melhor, mas há gente de bom nível, não é o meu caso, que não encontra patrocinadores, como Moncho Miranda, do salto com vara, ou Manuel Martínez, que foi campeão europeu no lançamento de peso, e não têm patrocinadores. Eu diria às empresas que apostem um pouco pelos atletas.

GE Net: Hoje você tem tudo o que necessita para continuar evoluindo como atleta?
YL: Sim, sou um afortunado, sobretudo aqui em Valencia, com um treinador tão fantástico. Com um grupo tão bom, acho que meu futuro é muito promissor.

Gazeta Esportiva.Net © Todos os direitos reservados à Gazeta Esportiva.Net Voltar            Topo da página