Fale conosco Receba o boletim  

"Sou como um carro com 200 mil quilômetros. Estou velho e cansado"

Campeões mundiais da maratona se aposentam

Da correspondente Leila Araújo

Foto Gazeta PressO tempo não poupa nem mesmo os atletas. Com exceção de alguns poucos, como Michael Jordan e o brasileiro Oscar, que a todo custo driblam as consequências da idade, os ídolos envelhecem, perdem a agilidade e a força que um dia os transformaram em atletas quase perfeitos. O bicampeão mundial da maratona, o espanhol Abel Antón, participou de sua última prova no dia 28 de outubro, a Maratona do Milênio, realizada em Madrid para homenagear os seus 20 anos dedicados ao atletismo. Ao seu lado, outro maratonista, Martin Fíz, campeão mundial em Gotemburgo, em 1995, também encerrou sua carreira.
Contemporâneos, Antón, com 39 anos, e Fíz, 38, colocaram o nome da Espanha definitivamente entre os países com os melhores maratonistas do mundo. Na segunda metade dos anos 90, só eles puderam vencer a conhecida supremacia dos africanos. Foram rivais em campeonatos da Europa, disputaram muitos quilômetros em mundiais, mas ironicamente ambos ficaram sem uma medalha olímpica. Apesar da falta da medalha, Antón afirma que não está frustrado. "Fiz tudo o que podia, mas não consegui", diz.
Tirando as Olimpíadas, Antón conquistou todos os títulos que disputou: foi campeão mundial em Atenas/97 e bi em Sevilha/99, tricampeão espanhol nos 5.000m, bicampeão europeu nos 10.000m, ouro nas maratonas de Berlim (96), Londres (98), onde alcançou sua melhor marca, 2h07min57s; Fukuoka (97) e Coréa do Sul (97).
Em Sydney, sua quarta participação em Olimpíadas, ele sonhava conquistar uma medalha, mas em vez de um prêmio, ganhou uma grave lesão. Já recuperado, não conseguiu mais voltar à antiga forma física e decidiu parar. Antes de disputar a Maratona do Milênio, Abel Antón falou à Gazeta Esportiva Net sobre sua carreira. Leia a entrevista:


A Gazeta Esportiva Net: Qual é a sensação da despedida?
Abel Antón: A verdade é que me sinto contente pela minha carreira, mas ao mesmo tempo sinto uma melancolia porque chegou o dia de parar.

GE Net: Em 20 anos de carreira, você alcançou todos os seus objetivos?
AA:
Todos, não. Faltou ser campeão olímpico, o único título que não tenho. Não é que seja frustrante porque tentei e não consegui. Fiz tudo o que podia, mas não deu.

GE Net: O resultado em Sydney, a 53ª posição, foi desastroso?
AA:
Foi muito ruim. Além de terminar a prova nesta posição, saí com uma lesão no joelho. Minha expectativa era conquistar uma medalha, mas já no oitavo quilômetro percebi que não estava bem fisicamente e então apenas lutei para concluir a prova.

GE Net: Qual foi o seu pior momento no esporte?
AA:
Sydney, sem dúvida.

GE Net: E o melhor?
AA:
Ah, foi em Sevilha, quando me tornei bicampeão mundial da maratona. Ganhar em casa é o melhor que pode acontecer a um atleta.

GE Net: Porque você decidiu encerrar sua carreira agora?
AA:
Completei 39 anos, estou numa idade avançada para o esporte. Não tenho como estar em 100% da minha forma física. É como se eu fosse um carro velho, com uns 200 mil quilômetros rodados. Até treinar já está ficando difícil para mim, então acho que é o momento ideal para dizer adeus.

GE Net: O que você fará depois da aposentadoria?
AA:
Primeiro, ficarei dois meses descansando porque as últimas semanas foram puxadas. No ano que vem, vou trabalhar nas lojas de materiais esportivos que tenho em Sória, junto com o Fermín Cacho. Também vou começar um trabalho no Centro de Treinamento que há na minha cidade. Vou trabalhar com atletas de 17 anos porque quero transmitir a eles o que aprendi, como têm de fazer para chegarem à elite. No começo, serei colaborador, mas quero mesmo ser técnico de atletismo.

GE Net: E como é despedir-se ao lado do seu maior rival nas pistas espanholas, o Martin Fíz?
AA:
Foi muito difícil juntar nós dois na mesma competição. A gente só se encontrava em campeonatos do mundo e, ao final, conseguiram fazer a nossa despedida na Maratona do Milênio.

GE Net: Como foi a briga de vocês?
AA:
Não foi uma briga, mas tivemos nossas diferenças. Em 1997, em Atenas, ele era o então campeão do mundo e eu ganhei dele. Acho que o Fíz não assimilou bem a derrota e ficamos uns dois anos sem nos falar. Tivemos muita rivalidade, mas com o passar do tempo as coisas foram se suavizando. Agora, somos bons amigos.

GE Net: O início da sua carreira se parece muito com o que acontece com atletas de fundo e meio fundo no Brasil. Como você superou a falta de dinheiro?
AA:
O começo foi muito difícil. Com 13 anos, eu tive de trabalhar para ajudar minha família. Com 14, eu trabalhava numa fábrica da minha cidade, em Sória, e depois de um dia inteiro de trabalho, mais ou menos oito, dez horas, trocava de roupa e saía para treinar. Começava mais ou menos às 22 horas e terminava depois da meia-noite. Segui com esta vida até os 20 anos, quando me descobriram.

GE Net: Nestes anos duros, você imaginava que um dia chegaria a ser um dos maiores atletas da Espanha?
AA:
Eu tinha muita ilusão e gostava muito de correr, mas não sonhava chegar onde eu cheguei, fazer parte da elite.

GE Net: Você se lembra de alguma injustiça?
AA:
Na vida, sempre há de tudo. Acho que as injustiças aconteceram no início da minha carreira. Eu pedia ajuda aos políticos da minha cidade, ao prefeito, aos deputados, mas eles nunca me atenderam. O tempo mostrou que eles estavam errados.

GE Net: E as recompensas, valeram os sacrifícios?
AA:
O esporte implica muitos sacrifícios: não se pode sair quando quer, divertir-se, mas estas coisas não me afetaram muito porque sempre estive contente com o meu trabalho. Financeiramente, tive minhas recompensas, já que fiz parte da elite por muitos anos, quase 17, e venci cinco maratonas. A melhor época foi quando me tornei bicampeão, em Sevilha/99.

GE Net: Com as aposentadorias sua e do Martin Fíz, como ficará o atletismo na Espanha?
AA:
Acho que há um ciclo em tudo: alguns bons, outros maus. A Espanha tem feito um trabalho de base sólido porque há quantidade de bons atletas que conseguem chegar às finais das principais competições, embora falte ganhadores. Em dois ou três anos, vamos conseguir fazer medalhistas.

GE Net: Do Brasil, quem são os bons atletas hoje?
AA:
O Vanderlei Cordeiro de Lima é muito bom de chegada, mas sempre vou me lembrar do Joaquim Cruz, o melhor atleta brasileiro de todos os tempos. Fora ele, vocês não tiveram outros campeões olímpicos.

GE Net: Já esteve no Brasil?
AA:
Não. Nunca. Jamais me convidaram para ir a São Silvestre, mesmo no ano em que eu fui campeão do mundo. Sempre tive muita vontade de conhecer o Brasil porque nós espanhóis nos identificamos muito com a América do Sul. Quem sabe eu ainda vá...
Gazeta Esportiva.Net © Todos os direitos reservados à Gazeta Esportiva.Net Voltar            Topo da página