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04/06/2004

Por Claudia Andrade

Foi no Troféu Brasil 2003 que Maurren Higa Maggi foi pega em exame antidoping que apontou a presença da substância proibida clostebol. Um ano depois, ela volta à competição como torcedora, já sem receios em falar sobre o caso. O tabu agora é outro. Seu relacionamento com Antonio Pizzonia, piloto de testes da Williams, que segue morando em Mônaco, enquanto ela resolveu fazer pré-natal no Brasil.

A saltadora, que era a maior esperança de medalha para o país nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, no Mundial de Paris, e agora, nas Olimpíadas de Atenas, estava credenciada pela melhor marca do mundo na temporada, 7,06m, e os bons resultados que vinha alcançando regularmente, com destaque para o bronze no Mundial de pista coberta de Birmingham.

Nesta entrevista a Gazeta Esportiva.Net, ela confessa que pensou em abandonar a carreira para se dedicar à família, mas mudou de idéia e agora conversa com diretores de equipes para conseguir um novo emprego e voltar às pistas no ano que vem. Em fevereiro, seu contrato com a BM&F Atletismo não foi renovado. O clube pretendia apoiar a saltadora mesmo durante o período de suspensão, mas com a mudança de Maurren para o exterior, a situação mudou.

Como está o bebê?
Tá bem. Olha minha barriga, tem três meses já! (Mostra uma pequena saliência na região abdominal).

Você vai ficar aqui no Brasil até quando?
Vou fazer o pré-natal aqui. Não penso em voltar para lá agora. E vou voltar a treinar no ano que vem. Já estou conversando com a BM&F e com o Pão de Açúcar.

Como foi esse período em Mônaco?
Não quero falar disso.

Mas como foi morar no Principado?
Ah, aquilo não é pra mim, não. É muito glamour. Eu sou mais povão.

Quanto tempo você ficou lá no total?
Eu ia e voltava direto, até por causa da reforma da casa dos meus pais.

Você disse que vai voltar a treinar, retomar a carreira. Muita gente apostou, e até ficou surpreso com isso, achando que você ia jogar tudo fora, virar dona de casa...
Eu pensei mesmo em parar. Pensei em estudar inglês, francês lá fora, mas não dá. Quero mesmo voltar. Eu já estou de volta com o Nélio, nunca deixei de treinar com ele. Quando eu estava lá ele me mandava as orientações. Agora vou correr na esteira lá em casa, porque não posso facilitar com esse frio, minha garganta não está boa.

Por acaso você planejou a gravidez para esse período de suspensão?
Desde janeiro do ano passado que nada na minha vida é planejado. Aconteceu muita coisa que eu não tinha planejado.

E depois de tudo o que aconteceu, você é uma mulher, uma atleta diferente, com outra cabeça?
Não, não acho que mudei.

Aprendeu alguma coisa?
A gente sempre aprende e eu quero passar o que aprendi para as pessoas. A gente já tá planejando dar palestras para alertar todo mundo. Falar para tomar cuidado com o que toma, com o que usa. Eu tinha horror de falar de doping porque sempre fui contra. Não falava dos outros, mas também não colocava minha mão no fogo por ninguém. Eu falo dos atletas estrangeiros. Mas a gente nunca pensou que isso pudesse acontecer no nosso grupo, que é restrito, e acabou acontecendo comigo.

Você ficou muito tempo reclusa, por conta desta confusão. Agora já está pronta para se aparecer de novo, se mostrar ao público?
Provar minha inocência sempre foi uma questão de honra, como fiz aqui, mas agora não posso te dizer como vai ficar minha situação lá porque não posso ficar gastando muito com isso. Perdi meu emprego e o que tenho vou investir no meu filho, neste ano e no ano que vem.

Como vai ser assistir às Olimpíadas pela televisão?
Tranqüilo. Eu vou torcer bastante. Já estou mandando vários recados. Encontrei o secretário aqui, o Lars (Grael, secretário de Estado da Juventude, Esporte e Lazer) e já disse pra ele avisar que eu vou ficar aqui, rezando, dando força pra todo mundo. A Daiane, o pessoal da ginástica que eu conheço, as meninas do vôlei e o Bernardinho, as meninas do judô que treinaram aqui e moraram aqui comigo. Vou morrer de saudade, mas vou vibrar como vibrei no Pan.

Mas também vai dar aquele aperto no coração por saber que poderia estar lá, não?
Vai, claro. Eu fiquei muito emocionada durante o Pan. Mas em Sydney eu estava na minha melhor forma e me machuquei. Agora, estava na minha melhor forma e não vou. O ano passado não era pra ter sido como foi. Era para eu estar na minha melhor forma agora e fico imaginando o estrago que eu faria.
Quando eu vi que a menina ganhou o Pan (a canadense Alice Falaiye) com 6,43m fiquei louca. Meu pior resultado na temporada tinha sido 6,70m. Mas tudo bem. Outras Olimpíadas virão.

Dá pra tirar alguma motivação disso?
Eu tenho que tirar motivação de tudo de ruim que me aconteceu. Não quero voltar só por voltar. Quero ficar de novo entre as melhores.

E depois de todo esse problema com o doping, como está sua vaidade? (Maurren diz que o clostebol era componente de uma pomada cicatrizante usada durante uma sessão de depilação permanente a laser)
Eu continuo muito vaidosa, como você pode ver. Mas teve uma época que eu ia ao cabeleireiro e ele dizia: 'Posso passar isso, posso passar essa química?' Aí eu ligava pro meu técnico pra perguntar. Fiquei neurótica.

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