Fale conosco Receba o boletim  
20/12/2005

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Famosa por fechar o calendário esportivo brasileiro, a Corrida Internacional de São Silvestre também exerce influência em outros aspectos de São Paulo, como a economia e o turismo. Quem garante é o secretário da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo, Lars Grael, que classifica a prova como vital para o Estado, ao lado do GP Brasil de Fórmula 1.

Entre outros elogios à disputa, Grael acredita que na corrida paulista jamais teria acontecido um incidente como na maratona das Olimpíadas de Atenas, quando o ex-padre irlandês Cornelius Horan ignorou a área de segurança e atrapalhou o desempenho do brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima. "O esquema de segurança da São Silvestre me parece muito mais correto, seguro e infalível do que o demonstrado nas últimas edições dos Jogos Olímpicos", acredita.

Além de destacar a importância da São Silvestre, Grael também fala de outros assuntos em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, como seus planos para incentivar o esporte em São Paulo nos próximos anos, o atual cenário olímpico e paraolímpico brasileiro e a pioneira participação brasileira na Volvo Ocean Race, principal regata de volta ao mundo. Confira:

São Silvestre

GE.Net - Qual a importância da São Silvestre para São Paulo?
Secretário -
A São Silvestre é vital para o esporte paulista e para o atletismo brasileiro. É a principal competição internacional da passagem de ano, tem tradição e seu título é extremamente cobiçado. Juntamente com o GP Brasil de Fórmula 1 é a principal competição esportiva do Estado de São Paulo. É uma corrida que incrementa muito o conceito de pedestrianismo, das corridas de rua, de saúde preventiva e o calendário esportivo de São Paulo. Além disso, promove o Réveillon da Cidade, tendo um impacto econômico e turístico considerável. A São Silvestre também projeta a imagem de São Paulo de forma saudável para vários países e para todo o Brasil porque é um evento de ampla divulgação.

GE.Net - Como você avalia a organização da São Silvestre?
Secretário -
A organização da São Silvestre é de extrema complexidade e também muito bem-sucedida. Como a corrida tem transmissão por televisão ao vivo, está sempre vulnerável a qualquer incidente, mas a organização é um dos pontos que mantém a solidez da credibilidade da prova. Com o esquema de policiamento que a São Silvestre demonstra, jamais teria acontecido o que houve com o nosso maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos de Atenas. Ou seja, nosso esquema de segurança me parece muito mais correto, seguro e infalível do que o demonstrado nas últimas edições dos Jogos Olímpicos.

GE.Net - Como a Secretaria Estadual da Juventude, Esporte e Lazer participa da organização da São Silvestre?
Secretário -
A Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo historicamente nunca teve uma participação direta na São Silvestre, uma vez que esse papel era mais ligado à Secretaria Municipal de Esportes. O papel do Governo do Estado de São Paulo sempre foi no suporte ao evento, sobretudo no apoio exemplar que é dado pela Polícia Militar, garantindo a segurança dos participantes e dos organizadores. A prova conta com um esquema de segurança extremamente metódico e planejado, envolvendo policiais fardados, à paisana, corredores, policiais em bicicletas, em motocicletas, no monitoramento de trânsito e no monitoramento aéreo. É um trabalho espetacular. A participação direta da Secretaria Estadual deu-se a partir da prova da passagem de 2004 para 2005, quando fomos acionados pela Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação da Cidade de São Paulo, pela Fundação Cásper Líbero e pela Federação Paulista de Atletismo (FPA). Passamos a dar um suporte de recursos, através da FPA, e desde então nós passamos a ter um papel de co-promoção da prova. Para a edição deste ano estamos apoiando novamente não só a São Silvestre, mas também a 'Gonzaguinha', prova seletiva, e a 'São Silvestrinha' em espécie e cedendo as instalações do ginásio 'Mauro Pinheiro'e a pista de atletismo 'Ícaro de Castro Mello', no Ibirapuera.

GE.Net - Qual momento da São Silvestre mais te marcou?
Secretário -
Foram vários momentos, como as vitórias do José João da Silva, interrompendo um ciclo de vitórias estrangeiras (em 1980, José João da Silva colocou o Brasil no lugar mais alto do pódio após 34 anos). Outra vitória que foi marcante foi a do Émerson Iser Bem, em 1997. Também me marcou aquilo que já é registro histórico, como campeões olímpicos que participaram da São Silvestre com êxito, como o Emil Zatopek, o Carlos Lopes e a Rosa Mota. São vitórias épicas de verdadeiros ídolos, deuses do Mercúrio do atletismo internacional.

GE.Net - Como a São Silvestre contribui na valorização do esporte para portadores de deficiência física?
Secretário -
A São Silvestre contribui muito na divulgação do esporte paraolímpico. No início, a participação de deficientes parecia uma coisa radical, mas depois passou a ser com admiração. Eu presenciei uma coisa no ano passado: quando esses atletas passam pelas avenidas, o público se levanta e aplaude até mais efusivamente que os próprios corredores de elite. Hoje acho que até já superou a admiração, porque a São Silvestre tornou-se uma competição de alto nível, onde os melhores corredores de rua paraolímpicos do Brasil participam.

Esporte no Estado de São Paulo

GE.Net - Quais são os planos da Secretaria para incentivar o esporte em São Paulo em 2006?
Secretário -
Vamos ter um calendário extenso, amplo, organizado e planejado, com destaque para a organização do Mundial de Basquete feminino, que volta a São Paulo após quatro décadas, e para o Campeonato Mundial de Bicicross. Além disso, vamos celebrar os 70 anos dos Jogos Abertos do Interior, principal competição multiesportiva nacional, no mês de setembro em São Bernardo do Campo. Há também os 50 anos dos Jogos Regionais, seletivos para os Jogos Abertos.

GE.Net - O que será feito em termos de infra-estrutura?
Secretário -
Um volume grande de convênios com prefeituras municipais foi assinado este ano e muitas obras serão entregues à sociedade, com mais núcleos do programa 'Esporte Social' funcionando. Nós temos mais de 130 obras de infra-estrutura de esporte e lazer em todo o interior de São Paulo, tais como construção de pista de skate, quadras poliesportivas, cobertura de quadras, ginásios e piscinas. O Estado também vai terminar a terceira fase do Parque da Juventude e avançará no processo de concessão de uso parcial do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães.

GE.Net - Uma reclamação constante da pessoas é a falta de espaços para lazer. Como a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer está agindo para solucionar este problema?
Secretário -
Um dos quatro programas do plano plurianual da Secretaria é o programa de infra-estrutura esporte e lazer. Através dele, celebramos convênios com diversos municípios para a realização deste tipo de obra. Fazer isso é bom, porém, na minha opinião, mais importante que a construção de novos espaços é que se garanta a manutenção dos espaços já existentes, gerando uma ação social ou algum projeto de esporte de alto rendimento dentro dele. Nesses três anos que eu estou à frente da Secretaria, defini, junto com o governador Geraldo Alckmin, que deveríamos priorizar recursos para a recuperação de espaços abandonados e o término de obras inacabadas. Acho que deve haver uma responsabilidade com o recurso público utilizados em obras que foram iniciadas em todo o Estado e acabaram abandonadas.

GE.Net - Você vê uma relação entre a existência de áreas esportivas e a diminuição da violência?
Secretário -
Diretamente. Isso hoje já é medido, avaliado, além de ser um retorno que nós recebemos muito claramente dos prefeitos, de entidades esportivas e de ONGs que atuam conosco. O esporte é um combate muito eficaz para a ociosidade e a falta de opção de lazer. Desta forma, é oferecido um outro caminho ao jovem, onde ele pode extravasar energia, através de uma atividade produtiva, lúdica, participativa e saudável. O esporte também traz uma bagagem de informação como disciplina, respeito às regras e respeito ao adversário, sendo um meio de extrema eficácia no combate à violência.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
A ex-jogadora de basquete Marta, o governador Geraldo Alckmin e o secretário Lars Grael na inauguração do projeto 'Noite Esportiva'

GE.Net - Esta é a função de projetos como o 'Noite Esportiva'?
Secretário - Exatamente. O projeto 'Noite Esportiva', assim como o 'Pintando a Liberdade', o 'Navega São Paulo'e o 'Viva Vôlei' são ações dentro do programa 'Esporte Social' da Secretaria. Nesta gestão, a gente começou a fazer uma coisa que não era feita antes: trazer a Secretaria para a agenda do Comitê de Políticas Sociais do Governo do Estado de São Paulo. Há também de registrar-se a aprovação da Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer no Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (Condeca), que reconheceu o esporte como o meio de ação social. Assim, criamos uma comissão de chancela técnica para avaliar os projetos sociais esportivos e, a partir disso, passamos a incentivar os projeto sociais de ONGs vinculadas à iniciativa privada, que através do abatimento do Imposto de Renda podem usufruir deste mecanismo.

GE.Net - Como funciona o Projeto 'Navega São Paulo'?
Secretário -
O 'Navega São Paulo' é conseqüência de uma ação que eu, o Torben, o Axel e o Marcelo Ferreira desenvolvemos para tentar democratizar o esporte da vela, o Projeto 'Grael'. A idéia surgiu em Niterói com uma pequena ONG que nós desenvolvemos a partir de 1996. O projeto entrou em funcionamento em 1998. Um ano depois, eu já era como diretor de Programas Especiais do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp), aproveitei o aprendizado do primeiro projeto, que já tinha núcleos em Niterói, Rio de Janeiro e Vitória, para implantar o Projeto 'Navegar' no Governo Federal. Lá, consegui fazer 39 núcleos em 15 Estados, sendo dois em São Paulo, nos municípios de Piraju e Ilhabela. Quando assumi a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer, continuei com este conceito de aproveitar estes espaços lacustres, ribeirinhos e marítimos para o desenvolvimento de atividades náuticas, tão vinculadas a um conceito de esporte de elite, em benefício de uma população que vive na beira da água, mas que nunca teve acesso à prática de esportes náuticos. O 'Navega São Paulo' é um projeto de inclusão social, que também possui uma preocupação muito grande com o ambiente, formando jovens para serem fiscais da natureza. Além disso, os participantes recebem uma capacitação profissional ao fazerem curso para a carteira de veleiro amador da Capitania dos Portos da sua área. Em São Paulo, nós implantamos núcleos em Presidente Epitácio (Rio Paraná), Praia Grande, Cubatão, dois em Santos, São Vicente e São Bernardo do Campo (Represa Billings). Estamos prestes a implantar o projeto no município de Mairiporã no sistema da Cantareira e temos em vista a implantação de um núcleo em Barra Bonita (Rio Tietê). Infelizmente, temos uma demanda muito grande ainda não atendida, pois sofremos com restrições de ordem orçamentária.

GE.Net - Podemos esperar grandes atletas saindo deste projeto?
Secretário -
Podemos. Basta ver que hoje o campeão brasileiro da classe Optimist sub-15, enfrentando todos os filhos de campeões vindos de clubes de elite, é um jovem chamado Ronyon Silva, de Ilhabela, cujo pai é motorista da prefeitura. Ele teve acesso à vela no Projeto 'Navegar', nasceu com um raro talento, tem muita determinação e hoje é campeão nacional. Ele inclusive superou o meu sobrinho, Marco Grael. Este projeto tem um talento muito grande para revelar talentos, embora este não seja o seu principal objetivo.

GE.Net - Como a Secretaria está agindo na preparação de atletas para o futuro?
Secretário -
Através do calendário esportivo de São Paulo. O futebol, por exemplo: apesar de a atividade profissional estar na jurisdição da Federação Paulista de Futebol (FPF), o trabalho de base é a Secretaria que promove, como a realização dos Campeonatos Estaduais sub-12, sub-14 e sub-16. Também promovemos o Campeonato Paulista de Futebol Feminino, que ainda tem um caráter semi-amador, assim como a Copa Metropolitana de Futebol Amador e Campeonato Amador de Futsal. Além disso, há o financiamento do calendário das Federações Estaduais, que muitas vezes estão sediadas em propriedades da Secretaria. Nós também bancamos boa parte do calendário destas entidades. Enfim, há toda uma capilaridade junto às Secretarias de Esporte Municipais e Federações Esportivas.

GE.Net - O que São Paulo faz pelo esporte paraolímpico?
Secretário -
São Paulo vem dando uma contribuição grande neste sentido, pois nós somos bons organizadores de eventos do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB). Basta ver que em 2003, nós fizemos aqui o Campeonato Brasileiro de Atletismo e Natação para Deficientes, em 2004 os 1º Jogos Paraolímpicos do Brasil, em 2005 o Pan-americano de Cegos e vamos fazer os Jogos Mundiais de Cegos em 2007. Ousamos também inserir nos Jogos Abertos do Interior a participação de modalidades paraolímpicas (atletismo e natação), fato que trouxe um pouco de preconceito no início, mas já foi absorvido. Existe também a perspectiva de inserirmos o basquete em cadeiras de rodas e o judô nos próximos Jogos Abertos.

Esporte olímpico e paraolímpico

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Lars diz que o esporte olímpico brasileiro passa por uma fase importante e demonstra todo seu otimismo

GE.Net - Como o senhor vê o esporte olímpico no Brasil?
Secretário -
O esporte olímpico no Brasil passa por uma fase importante. Houve um desenvolvimento notável a partir de 2001, com a implantação da Lei Agnelo/Piva, quando eu era secretário Nacional de Esportes. Em 2002, eu também consegui aprovar a Lei que permite o não-pagamento de IPI para material olímpico e paraolímpico sem similar nacional, o que permitiu que nós déssemos novos equipamentos de alta tecnologia com um custo mais baixo para diversas modalidades. Eu vejo esta o esporte olímpico brasileiro com otimismo, embora nós tenhamos sofrido um decréscimo no número de medalhas conquistadas em Atenas, que eu acho que tecnicamente é um número melhor para avaliar o desempenho de um país que o número de ouros. No esporte olímpico, não há imediatismo e o retorno costuma vir 16, 20 anos depois dos investimentos. O Brasil está começando este processo. Porém, já espero que em Pequim nós tenhamos um desempenho superior que em Atenas, mas eu acredito que somente em 2012 e 2016, devemos ocupar um papel de maior relevância. O Pan de 2007 também vai ser importante neste processo.

GE.Net - Abrigar eventos de grande porte é um caminho para incentivar a prática esportiva?
Secretário -
É um dos caminhos. Não basta organizar eventos se você não deixar um forte legado para a formação esportiva do país. A infra-estrutura que estes eventos deixam é importante porque é definitiva: grande parte do acervo de equipamentos esportivos da cidade de São Paulo ainda advém do Pan de 63. A promoção do evento também é importante, porque mexe com a motivação nacional em um despertar cada vez maior para o esporte. Juntamente a isso tem que haver um investimento em favor do atleta e da capacitação de profissionais de Educação Física e treinadores.

GE.Net - O que ainda precisa ser feito para o esporte paraolímpico crescer no Brasil?
Secretário -
Essa é uma área que tem que investir muito na capacitação de profissionais, seja na arbitragem, preparação física, treinamento esportivo, que estejam motivados para atuarem neste cenário. O paradesporto é muito importante porque possui uma conotação social, mexendo com a valorização da pessoa com deficiência, parcela grande da população. O esporte é uma forma de promover a auto-estima deles, mostrando também que eles podem estar aptos ao trabalho em um setor produtivo da sociedade.

GE.Net - Como o senhor vê a atual condução do COB e do CPB?
Secretário -
A condução do COB é muito competente, pois há uma união muito grande em torno da imagem do presidente Carlos Arthur Nuzman. Já no CPB há um questionamento e um desgaste junto à atual gestão. É importante resolver o impasse gerado nesta briga autofágica pelo poder no CPB, que eu lamento que exista e espero que venha a ser solucionada.

GE.Net - A participação do Brasil 1 na Volvo Ocean Race é um passo no estabelecimento do Brasil como potência do esporte?
Secretário -
No caso da vela é um passo histórico. Provavelmente, a vela brasileira vai dividir-se em antes e depois da participação na Volvo Ocean Race, dada a complexidade, o custo, a tecnologia necessária e a preparação e a formação de nossos velejadores para um tipo de regata que nós não estamos acostumados. Acho que isso vai abrir todo um caminho para o Brasil conquistar novos mares e desafios no campo da navegação de grandes regatas internacionais. Isso também vai ajudar a profissionalizar o nosso velejador, que de certa forma sempre viveu no acostamento do sucesso, porque acumulou medalhas no cenário olímpico, mas com um reconhecimento não tão grande assim.

GE.Net - Como o senhor avalia a participação nacional nesta primeira etapa?
Secretário -
O Brasil foi muito bem. O Brasil não teve uma preparação tão longa quanto os times holandeses. O barco foi totalmente feito aqui e não teve muito tempo para ser testado. Com isso, os tripulantes estão aprendendo na prática, mas a tendência é crescer. O Torben está muito motivado com este projeto. Eu também fico acompanhando toda hora, sempre estou no site oficial esperando a atualização das posições. Se eu pudesse, com certeza estaria com eles, mas como eu já tenho um compromisso assumido com o governador de São Paulo, fiquei por aqui.

Gazeta Esportiva.Net © Todos os direitos reservados à Gazeta Esportiva.Net Voltar            Topo da página