|
Por
Carolina Canossa, especial para a GE.Net
Famosa por fechar o calendário esportivo brasileiro,
a Corrida Internacional de São Silvestre também
exerce influência em outros aspectos de São Paulo,
como a economia e o turismo. Quem garante é o secretário
da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo,
Lars Grael, que classifica a prova como vital para o Estado,
ao lado do GP Brasil de Fórmula 1.
Entre outros elogios à disputa, Grael acredita que
na corrida paulista jamais teria acontecido um incidente como
na maratona das Olimpíadas de Atenas, quando o ex-padre
irlandês Cornelius Horan ignorou a área de segurança
e atrapalhou o desempenho do brasileiro Vanderlei Cordeiro
de Lima. "O esquema de segurança da São
Silvestre me parece muito mais correto, seguro e infalível
do que o demonstrado nas últimas edições
dos Jogos Olímpicos", acredita.
Além de destacar a importância da São
Silvestre, Grael também fala de outros assuntos em
entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net,
como seus planos para incentivar o esporte em São Paulo
nos próximos anos, o atual cenário olímpico
e paraolímpico brasileiro e a pioneira participação
brasileira na Volvo Ocean Race, principal regata de volta
ao mundo. Confira:
São
Silvestre
GE.Net - Qual a importância da São Silvestre
para São Paulo?
Secretário - A São Silvestre é
vital para o esporte paulista e para o atletismo brasileiro.
É a principal competição internacional
da passagem de ano, tem tradição e seu título
é extremamente cobiçado. Juntamente com o GP
Brasil de Fórmula 1 é a principal competição
esportiva do Estado de São Paulo. É uma corrida
que incrementa muito o conceito de pedestrianismo, das corridas
de rua, de saúde preventiva e o calendário esportivo
de São Paulo. Além disso, promove o Réveillon
da Cidade, tendo um impacto econômico e turístico
considerável. A São Silvestre também
projeta a imagem de São Paulo de forma saudável
para vários países e para todo o Brasil porque
é um evento de ampla divulgação.
GE.Net - Como você avalia a organização
da São Silvestre?
Secretário - A organização da
São Silvestre é de extrema complexidade e também
muito bem-sucedida. Como a corrida tem transmissão
por televisão ao vivo, está sempre vulnerável
a qualquer incidente, mas a organização é
um dos pontos que mantém a solidez da credibilidade
da prova. Com o esquema de policiamento que a São Silvestre
demonstra, jamais teria acontecido o que houve com o nosso
maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos
de Atenas. Ou seja, nosso esquema de segurança me parece
muito mais correto, seguro e infalível do que o demonstrado
nas últimas edições dos Jogos Olímpicos.
GE.Net - Como a Secretaria Estadual da Juventude,
Esporte e Lazer participa da organização da
São Silvestre?
Secretário - A Secretaria da Juventude, Esporte
e Lazer do Estado de São Paulo historicamente nunca
teve uma participação direta na São Silvestre,
uma vez que esse papel era mais ligado à Secretaria
Municipal de Esportes. O papel do Governo do Estado de São
Paulo sempre foi no suporte ao evento, sobretudo no apoio
exemplar que é dado pela Polícia Militar, garantindo
a segurança dos participantes e dos organizadores.
A prova conta com um esquema de segurança extremamente
metódico e planejado, envolvendo policiais fardados,
à paisana, corredores, policiais em bicicletas, em
motocicletas, no monitoramento de trânsito e no monitoramento
aéreo. É um trabalho espetacular. A participação
direta da Secretaria Estadual deu-se a partir da prova da
passagem de 2004 para 2005, quando fomos acionados pela Secretaria
de Esportes, Lazer e Recreação da Cidade de
São Paulo, pela Fundação Cásper
Líbero e pela Federação Paulista de Atletismo
(FPA). Passamos a dar um suporte de recursos, através
da FPA, e desde então nós passamos a ter um
papel de co-promoção da prova. Para a edição
deste ano estamos apoiando novamente não só
a São Silvestre, mas também a 'Gonzaguinha',
prova seletiva, e a 'São Silvestrinha' em espécie
e cedendo as instalações do ginásio 'Mauro
Pinheiro'e a pista de atletismo 'Ícaro de Castro Mello',
no Ibirapuera.
GE.Net - Qual momento da São Silvestre mais
te marcou?
Secretário - Foram vários momentos,
como as vitórias do José João da Silva,
interrompendo um ciclo de vitórias estrangeiras (em
1980, José João da Silva colocou o Brasil no
lugar mais alto do pódio após 34 anos). Outra
vitória que foi marcante foi a do Émerson Iser
Bem, em 1997. Também me marcou aquilo que já
é registro histórico, como campeões olímpicos
que participaram da São Silvestre com êxito,
como o Emil Zatopek, o Carlos Lopes e a Rosa Mota. São
vitórias épicas de verdadeiros ídolos,
deuses do Mercúrio do atletismo internacional.
GE.Net - Como a São Silvestre contribui na
valorização do esporte para portadores de deficiência
física?
Secretário - A São Silvestre contribui
muito na divulgação do esporte paraolímpico.
No início, a participação de deficientes
parecia uma coisa radical, mas depois passou a ser com admiração.
Eu presenciei uma coisa no ano passado: quando esses atletas
passam pelas avenidas, o público se levanta e aplaude
até mais efusivamente que os próprios corredores
de elite. Hoje acho que até já superou a admiração,
porque a São Silvestre tornou-se uma competição
de alto nível, onde os melhores corredores de rua paraolímpicos
do Brasil participam.
Esporte
no Estado de São Paulo
GE.Net - Quais são os planos da Secretaria
para incentivar o esporte em São Paulo em 2006?
Secretário - Vamos ter um calendário
extenso, amplo, organizado e planejado, com destaque para
a organização do Mundial de Basquete feminino,
que volta a São Paulo após quatro décadas,
e para o Campeonato Mundial de Bicicross. Além disso,
vamos celebrar os 70 anos dos Jogos Abertos do Interior, principal
competição multiesportiva nacional, no mês
de setembro em São Bernardo do Campo. Há também
os 50 anos dos Jogos Regionais, seletivos para os Jogos Abertos.
GE.Net - O que será feito em termos de infra-estrutura?
Secretário - Um volume grande de convênios
com prefeituras municipais foi assinado este ano e muitas
obras serão entregues à sociedade, com mais
núcleos do programa 'Esporte Social' funcionando. Nós
temos mais de 130 obras de infra-estrutura de esporte e lazer
em todo o interior de São Paulo, tais como construção
de pista de skate, quadras poliesportivas, cobertura de quadras,
ginásios e piscinas. O Estado também vai terminar
a terceira fase do Parque da Juventude e avançará
no processo de concessão de uso parcial do Conjunto
Desportivo Constâncio Vaz Guimarães.
GE.Net - Uma reclamação constante da
pessoas é a falta de espaços para lazer. Como
a Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer está agindo
para solucionar este problema?
Secretário - Um dos quatro programas do plano
plurianual da Secretaria é o programa de infra-estrutura
esporte e lazer. Através dele, celebramos convênios
com diversos municípios para a realização
deste tipo de obra. Fazer isso é bom, porém,
na minha opinião, mais importante que a construção
de novos espaços é que se garanta a manutenção
dos espaços já existentes, gerando uma ação
social ou algum projeto de esporte de alto rendimento dentro
dele. Nesses três anos que eu estou à frente
da Secretaria, defini, junto com o governador Geraldo Alckmin,
que deveríamos priorizar recursos para a recuperação
de espaços abandonados e o término de obras
inacabadas. Acho que deve haver uma responsabilidade com o
recurso público utilizados em obras que foram iniciadas
em todo o Estado e acabaram abandonadas.
GE.Net - Você vê uma relação
entre a existência de áreas esportivas e a diminuição
da violência?
Secretário - Diretamente. Isso hoje já
é medido, avaliado, além de ser um retorno que
nós recebemos muito claramente dos prefeitos, de entidades
esportivas e de ONGs que atuam conosco. O esporte é
um combate muito eficaz para a ociosidade e a falta de opção
de lazer. Desta forma, é oferecido um outro caminho
ao jovem, onde ele pode extravasar energia, através
de uma atividade produtiva, lúdica, participativa e
saudável. O esporte também traz uma bagagem
de informação como disciplina, respeito às
regras e respeito ao adversário, sendo um meio de extrema
eficácia no combate à violência.
|
Foto: Fernando Pilatos/Gazeta
Press
|
 |
| A ex-jogadora de basquete Marta, o governador
Geraldo Alckmin e o secretário Lars
Grael na inauguração do projeto
'Noite Esportiva' |
|
|
GE.Net - Esta é a função de
projetos como o 'Noite Esportiva'?
Secretário - Exatamente.
O projeto 'Noite Esportiva', assim como o 'Pintando a Liberdade',
o 'Navega São Paulo'e o 'Viva Vôlei' são
ações dentro do programa 'Esporte Social' da
Secretaria. Nesta gestão, a gente começou a
fazer uma coisa que não era feita antes: trazer a Secretaria
para a agenda do Comitê de Políticas Sociais
do Governo do Estado de São Paulo. Há também
de registrar-se a aprovação da Secretaria da
Juventude, Esporte e Lazer no Conselho Estadual da Criança
e do Adolescente (Condeca), que reconheceu o esporte como
o meio de ação social. Assim, criamos uma comissão
de chancela técnica para avaliar os projetos sociais
esportivos e, a partir disso, passamos a incentivar os projeto
sociais de ONGs vinculadas à iniciativa privada, que
através do abatimento do Imposto de Renda podem usufruir
deste mecanismo.
GE.Net - Como funciona o Projeto 'Navega São
Paulo'?
Secretário - O 'Navega São Paulo' é
conseqüência de uma ação que eu,
o Torben, o Axel e o Marcelo Ferreira desenvolvemos para tentar
democratizar o esporte da vela, o Projeto 'Grael'. A idéia
surgiu em Niterói com uma pequena ONG que nós
desenvolvemos a partir de 1996. O projeto entrou em funcionamento
em 1998. Um ano depois, eu já era como diretor de Programas
Especiais do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto
(Indesp), aproveitei o aprendizado do primeiro projeto, que
já tinha núcleos em Niterói, Rio de Janeiro
e Vitória, para implantar o Projeto 'Navegar' no Governo
Federal. Lá, consegui fazer 39 núcleos em 15
Estados, sendo dois em São Paulo, nos municípios
de Piraju e Ilhabela. Quando assumi a Secretaria da Juventude,
Esporte e Lazer, continuei com este conceito de aproveitar
estes espaços lacustres, ribeirinhos e marítimos
para o desenvolvimento de atividades náuticas, tão
vinculadas a um conceito de esporte de elite, em benefício
de uma população que vive na beira da água,
mas que nunca teve acesso à prática de esportes
náuticos. O 'Navega São Paulo' é um projeto
de inclusão social, que também possui uma preocupação
muito grande com o ambiente, formando jovens para serem fiscais
da natureza. Além disso, os participantes recebem uma
capacitação profissional ao fazerem curso para
a carteira de veleiro amador da Capitania dos Portos da sua
área. Em São Paulo, nós implantamos núcleos
em Presidente Epitácio (Rio Paraná), Praia Grande,
Cubatão, dois em Santos, São Vicente e São
Bernardo do Campo (Represa Billings). Estamos prestes a implantar
o projeto no município de Mairiporã no sistema
da Cantareira e temos em vista a implantação
de um núcleo em Barra Bonita (Rio Tietê). Infelizmente,
temos uma demanda muito grande ainda não atendida,
pois sofremos com restrições de ordem orçamentária.
GE.Net - Podemos esperar grandes atletas saindo deste
projeto?
Secretário - Podemos. Basta ver que hoje o
campeão brasileiro da classe Optimist sub-15, enfrentando
todos os filhos de campeões vindos de clubes de elite,
é um jovem chamado Ronyon Silva, de Ilhabela, cujo
pai é motorista da prefeitura. Ele teve acesso à
vela no Projeto 'Navegar', nasceu com um raro talento, tem
muita determinação e hoje é campeão
nacional. Ele inclusive superou o meu sobrinho, Marco Grael.
Este projeto tem um talento muito grande para revelar talentos,
embora este não seja o seu principal objetivo.
GE.Net - Como a Secretaria está agindo na
preparação de atletas para o futuro?
Secretário - Através do calendário
esportivo de São Paulo. O futebol, por exemplo: apesar
de a atividade profissional estar na jurisdição
da Federação Paulista de Futebol (FPF), o trabalho
de base é a Secretaria que promove, como a realização
dos Campeonatos Estaduais sub-12, sub-14 e sub-16. Também
promovemos o Campeonato Paulista de Futebol Feminino, que
ainda tem um caráter semi-amador, assim como a Copa
Metropolitana de Futebol Amador e Campeonato Amador de Futsal.
Além disso, há o financiamento do calendário
das Federações Estaduais, que muitas vezes estão
sediadas em propriedades da Secretaria. Nós também
bancamos boa parte do calendário destas entidades.
Enfim, há toda uma capilaridade junto às Secretarias
de Esporte Municipais e Federações Esportivas.
GE.Net - O que São Paulo faz pelo esporte
paraolímpico?
Secretário - São Paulo vem dando uma
contribuição grande neste sentido, pois nós
somos bons organizadores de eventos do Comitê Paraolímpico
Brasileiro (CPB). Basta ver que em 2003, nós fizemos
aqui o Campeonato Brasileiro de Atletismo e Natação
para Deficientes, em 2004 os 1º Jogos Paraolímpicos
do Brasil, em 2005 o Pan-americano de Cegos e vamos fazer
os Jogos Mundiais de Cegos em 2007. Ousamos também
inserir nos Jogos Abertos do Interior a participação
de modalidades paraolímpicas (atletismo e natação),
fato que trouxe um pouco de preconceito no início,
mas já foi absorvido. Existe também a perspectiva
de inserirmos o basquete em cadeiras de rodas e o judô
nos próximos Jogos Abertos.
Esporte olímpico
e paraolímpico
|
Foto: Fernando Pilatos/Gazeta
Press
|
 |
| Lars diz que o esporte olímpico brasileiro
passa por uma fase importante e demonstra todo seu
otimismo |
|
GE.Net - Como o senhor vê o esporte olímpico
no Brasil?
Secretário - O esporte olímpico no
Brasil passa por uma fase importante. Houve um desenvolvimento
notável a partir de 2001, com a implantação
da Lei Agnelo/Piva, quando eu era secretário Nacional
de Esportes. Em 2002, eu também consegui aprovar a
Lei que permite o não-pagamento de IPI para material
olímpico e paraolímpico sem similar nacional,
o que permitiu que nós déssemos novos equipamentos
de alta tecnologia com um custo mais baixo para diversas modalidades.
Eu vejo esta o esporte olímpico brasileiro com otimismo,
embora nós tenhamos sofrido um decréscimo no
número de medalhas conquistadas em Atenas, que eu acho
que tecnicamente é um número melhor para avaliar
o desempenho de um país que o número de ouros.
No esporte olímpico, não há imediatismo
e o retorno costuma vir 16, 20 anos depois dos investimentos.
O Brasil está começando este processo. Porém,
já espero que em Pequim nós tenhamos um desempenho
superior que em Atenas, mas eu acredito que somente em 2012
e 2016, devemos ocupar um papel de maior relevância.
O Pan de 2007 também vai ser importante neste processo.
GE.Net - Abrigar eventos de grande porte é
um caminho para incentivar a prática esportiva?
Secretário - É um dos caminhos. Não
basta organizar eventos se você não deixar um
forte legado para a formação esportiva do país.
A infra-estrutura que estes eventos deixam é importante
porque é definitiva: grande parte do acervo de equipamentos
esportivos da cidade de São Paulo ainda advém
do Pan de 63. A promoção do evento também
é importante, porque mexe com a motivação
nacional em um despertar cada vez maior para o esporte. Juntamente
a isso tem que haver um investimento em favor do atleta e
da capacitação de profissionais de Educação
Física e treinadores.
GE.Net - O que ainda precisa ser feito para o esporte
paraolímpico crescer no Brasil?
Secretário - Essa é uma área
que tem que investir muito na capacitação de
profissionais, seja na arbitragem, preparação
física, treinamento esportivo, que estejam motivados
para atuarem neste cenário. O paradesporto é
muito importante porque possui uma conotação
social, mexendo com a valorização da pessoa
com deficiência, parcela grande da população.
O esporte é uma forma de promover a auto-estima deles,
mostrando também que eles podem estar aptos ao trabalho
em um setor produtivo da sociedade.
GE.Net - Como o senhor vê a atual condução
do COB e do CPB?
Secretário - A condução do COB
é muito competente, pois há uma união
muito grande em torno da imagem do presidente Carlos Arthur
Nuzman. Já no CPB há um questionamento e um
desgaste junto à atual gestão. É importante
resolver o impasse gerado nesta briga autofágica pelo
poder no CPB, que eu lamento que exista e espero que venha
a ser solucionada.
GE.Net - A participação do Brasil 1
na Volvo Ocean Race é um passo no estabelecimento do
Brasil como potência do esporte?
Secretário - No caso da vela é um passo
histórico. Provavelmente, a vela brasileira vai dividir-se
em antes e depois da participação na Volvo Ocean
Race, dada a complexidade, o custo, a tecnologia necessária
e a preparação e a formação de
nossos velejadores para um tipo de regata que nós não
estamos acostumados. Acho que isso vai abrir todo um caminho
para o Brasil conquistar novos mares e desafios no campo da
navegação de grandes regatas internacionais.
Isso também vai ajudar a profissionalizar o nosso velejador,
que de certa forma sempre viveu no acostamento do sucesso,
porque acumulou medalhas no cenário olímpico,
mas com um reconhecimento não tão grande assim.
GE.Net - Como o senhor avalia a participação
nacional nesta primeira etapa?
Secretário - O Brasil foi muito bem. O Brasil
não teve uma preparação tão longa
quanto os times holandeses. O barco foi totalmente feito aqui
e não teve muito tempo para ser testado. Com isso,
os tripulantes estão aprendendo na prática,
mas a tendência é crescer. O Torben está
muito motivado com este projeto. Eu também fico acompanhando
toda hora, sempre estou no site oficial esperando a atualização
das posições. Se eu pudesse, com certeza estaria
com eles, mas como eu já tenho um compromisso assumido
com o governador de São Paulo, fiquei por aqui. |