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04/03/2006
Montagem sobre foto de Marcos Campos/Gazeta Press
Técnico comemora recomeço

Se o retorno às pistas deu um novo colorido à vida de Maurren, para o treinador Nélio Moura o momento também é especial. Acompanhando a atleta desde 94, ele lamentou muito seu afastamento e é um de seus maiores incentivadores na retomada da carreira.

Gazeta Esportiva.Net - A volta da Maurren provoca uma emoção especial em você, não?
Nélio Moura
- Sem dúvida. É uma atleta com quem a gente trabalha há muito tempo. Esta decisão foi a melhor que ela podia tomar para retomar a vida dela.

GE.Net - Você acha que tudo que aconteceu mudou a atleta Maurren?
NM -
Você sempre consegue tirar coisas boas de momentos difíceis. E só de ela estar aqui, treinando,já fica um ambiente diferente. A Maurren sempre mostrou uma característica muito positiva.

GE.Net - Ela pode voltar a ser uma atleta de ponta?
NM - Quando anunciaram a suspensão, ela estava chegando a número 1 do mundo. Foi muito duro. Ela ficou dois anos e meio parada, não fez nada regular. Claro que perdeu muito durante este tempo, mas com certeza tem como ela voltar a ser uma atleta de ponta.

GE.Net - Então, o Pan e os Jogos de Pequim são uma possibilidade?
NM - Eu acredito que ela pode fazer, no mínimo, mais dois ciclos olímpicos inteiros. Penso na Maurren até 2012, porque você vê atletas de 32 anos competindo com nível internacional.

GE.Net - Comparando com quando ela parou, em que nível Maurren estaria agora?
NM - É difícil quantificar isso, ainda mais sem testes. Ela fez uma avaliação de força e tem feito um trabalho físico de fortalecimento. Mas o que a gente nota é que ela está nitidamente melhor que no início do ano. A cada dia você percebe isso.

GE.Net - Mas ainda não está definida qual será sua primeira competição?
NM - Não. Vai ser apenas no segundo semestre. Mas até o ano que vem ela volta a fazer bons resultados em nível internacional.

Por Marta Teixeira

A saltadora Maurren Higa Maggi ainda não chegou aos 30 anos, mas já passou por muitas coisas em sua vida. De destaque internacional, tornou-se pivô em um caso de doping. Com o baque, optou pela vida de dona-de-casa, apostou na família, tornou-se mãe e, quando parecia ter definido seu futuro, sofreu mais uma reviravolta do destino que acabou por trazê-la novamente ao ponto de partida: o atletismo.

Desde o começo do ano, ela voltou a figurar nos treinos comandados pelos técnicos Nélio e Tania Moura no Ibirapuera e deu início a uma luta para retornar às competições. Mas Maurren sabe que, se o caminho até o estrelato foi difícil da primeira vez, agora vai ser muito mais, já que sua vida e responsabilidades são bem diferentes.

Quem assiste a um de seus treinos comprova isso. As passadas largas, as simulações de corrida, os saltos de impulsão são realizados com absoluta concentração, mas entre um exercício e outro não há como não perceber o olhar da atleta dirigindo-se para o fundo ou a lateral da pista em busca de um incentivo especial: a presença de Sophia.

Com 1 anos e dois meses, a filha da saltadora com o piloto Antonio Pizzonia acaba sendo um ímã, não apenas para os olhos da mãe, mas também dos outros atletas. Sempre que passam perto, param para fazer um carinho na menina, que acompanha os treinos na maior tranqüilidade, preocupada apenas em beber sua água de coco.

“Eu acho que ela foi feita para mim, porque ela entende tudo”, diz a mãe orgulhosa pelo apoio inconsciente da criança. “Se Deus quiser, vai dar tudo certo. Com toda a dificuldade que estou passando hoje, eu quero dar risada disso tudo no futuro”.

Incentivo não falta para sua recuperação, que alimenta projetos de longo prazo no técnico Nélio. Jogos Pan-americanos, Olimpíadas de Pequim-2008 e Londres-2012, tudo isso é possível à atleta nas projeções do treinador, seguro de seu potencial já para os Jogos do Rio. “Até o ano que vem, ela volta a fazer resultados bons em nível internacional”, garante.

Maureen começa com um discurso cauteloso, dizendo querer apenas voltar ao circuito. Mas depois não resiste e confessa que os sonhos estão mesmo no Pan-americano, do qual foi campeã de salto em distância em Winnipeg-99, e em novas tentativas olímpicas.

E o mundo do atletismo está cheio de histórias para corroborar esta possibilidade. Basta lembrar o caso de Francina ‘Fanny’ Blankers-Koen. Aos 30 anos e com dois filhos, essa holandesa conseguiu ser campeã olímpica em Londres-48 nos 100m, 200m, 80m com barreiras e no revezamento 4x100m.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Maurren fala do desafio de recomeçar a carreira, da luta para voltar a contar com um patrocínio e das expectativas para o futuro. O técnico Nélio declara sua absoluta confiança na atleta e ressalta que Maurren não poderia estar fazendo nada melhor para sua própria história.

Gazeta Esportiva.Net - Em setembro você disse: “Não queria tapete vermelho, mas a maneira que saí do atletismo foi horrível”. Este sentimento foi o que te fez voltar?
Maurren Maggi
- É a única coisa que eu sei fazer. Não tive outra opção porque é o que eu sei fazer de melhor. Vou batalhar para fazer o melhor possível e acho que, se é para eu voltar, é porque faltou alguma coisa para ser feito.

GE.Net - Mas esta volta exigiu uma mudança radical, de como era quando você se dedicava apenas ao esporte, e agora, com uma filha. Você teve que mudar toda sua vida...
MM -
É, tive que me reprogramar. Sem uma pessoa para me ajudar no caso da Sophia, totalmente no escuro, sem patrocinador nem nada. Mas estou batalhando para conseguir patrocínio agora e, se Deus quiser, vai dar tudo certo. Com toda a dificuldade que estou passando hoje, eu quero dar risada disso tudo no futuro.

GE.Net - Mas não é fácil com a nenê... Ela vem aos treinos com você todos os dias?
MM -
É muito cansativo porque ela está em uma fase que quer andar, quer bagunçar e eu preciso de descanso. Mas ela entende tudo: eu acho que ela foi feita para mim. Porque ela entende tudo. A gente chega, eu tô cansada, a gente almoça, tira um cochilo à tarde e ela acorda já bagunçando. Porque é só eu descansar um pouquinho ou saber que ela está dormindo e dá para fazer muita coisa. Eu fico mais tranqüila. A gente se dá muito bem. Está dando trabalho, mas está tranqüilo. Está sendo muito bom para mim ficar sozinha com ela e acho que está sendo para ela também. A gente sai, passeia faz muita coisa.

GE.Net - Ela é sua nova companheira agora...
MM - Não, é para agora epara sempre.

GE.Net - E ela se dá bem aqui, brinca com todo mundo...
MM - Se dá com todo mundo, se adapta a tudo. Isso para mim é o máximo. Não é sempre que vou poder dar um apoio, um auxílio, dependendo de onde a gente estiver. Ela é muito tranqüila. Para viajar também. Eu não tenho do que reclamar

GE.Net - Foi mais difícil começar a carreira ou voltar é mais difícil?
MM - Mais difícil é recomeçar. Porque você tinha uma posição e de repente tem que começar do zero e as pessoas esperam que você volte para aquela posição e algumas até cobram isso. Eu entendo a posição delas, e entendo que eu tenho um talento, mas que fiquei muito tempo parada. Hoje estou brigando para voltar, só para voltar a saltar. Não importa quanto. Eu quero ficar forte, não quero machucar e quero voltar.

GE.Net - Então sua meta agora é apenas saltar...
MM - Eu vou voltar a saltar e vou tentar o índice para o Pan-americano que é meu grande objetivo hoje.

GE.Net - O Nélio aposta em você para 2007, 2008 e até nas Olimpíadas de 2012. Para ele, você pode estar competitiva até lá. E você, tem isso como meta, sonha com mais duas olimpíadas?
MM - Sonho. Porque o Nélio é muito consciente no trabalho dele de fazer o atleta para durar bastante. Não é um atleta que vem, estoura, acaba e pronto, foi embora. A gente treina junto desde 1994, eu fui ter sucesso em 99. Tive essa pausa. De repente, esta pausa pode ter sido a melhor coisa para mim porque foi um descanso. Pode ser muito bom. Estou me sentindo bem, estou me sentindo forte, mas não estou me sentindo preparada. Falta preparação. O Nélio faz muito atleta a longo prazo. Penso que vou ser assim: não digo senhora, uma atleta da terceira idade, mas vou saltar muito tempo ainda.

GE.Net - Você diz que, talvez, esta parada pode ser até benéfica para sua carreira. Mas você pensava isso antes, durante o tempo em que ficou parada?
MM - Nunca pensei em voltar. Não pensava que fosse conseguir voltar pelo que aconteceu e também porque eu tinha minha filha. Estava querendo construir minha família mas, de repente, as coisas acontecem ao contrário. Aí, você tem que parar pensar, analisar, ver a melhor coisa para ser feita. E a melhor coisa hoje para ser feita na minha vida é estar aqui, dentro da pista. Fazendo atletismo ou não, vou estar aqui, dentro da pista.

GE.Net - Estar de volta com seus amigos é uma força a mais?
MM - Dá uma força. Porque eu ganhei minha vida aqui eu me fiz aqui, as pessoas me viram aqui. Estar aqui é tudo de bom. Estando bem ou estando mal, o importante é estar aqui pra mim.

GE.Net - O que tem sido mais difícil nesta volta?
MM - A cabeça responde, os movimentos estão todos gravados na minha cabeça e eu não estou com força suficiente (Maurren está três quilos mais magra e perdeu massa). Falta ganhar massa muscular e ganhar a consciência que eu posso fazer, mas que não posso fazer agora. Seria mais ou menos isso.

GE.Net - E tem a ansiedade...
MM - Controlar a ansiedade também. Está tudo aqui (aponta para a cabeça), mas tem que ir com calma. Foi muito tempo parada.

GE.Net - Qual foi o momento mais difícil até agora?
MM - A pior lembrança que tenho na minha carreira foi quando fiquei sabendo que havia dado problema no meu exame de doping. Tinha tanto cuidado com pomada, com tudo, então me pegou de surpresa. Eu que sempre falava em reuniões, que tinha que tomar cuidado, que era totalmente contra e acontece um negócio desses comigo. A gente fica meio de mãos atadas, sem saber o que fazer, o que falar. Eu tive muita sorte das coisas que aconteceram. Porque foi tudo muito claro, aconteceu tudo muito rápido, a dermatologista descobriu a pomada, sabia que tinha sido um erro dela. A gente tava tentando brigar para ficar tudo bem no atletismo, mas eu decidi parar: vou cuidar da minha família, vou ter filhos, isso e aquilo. Foi um momento difícil, mas que me deu a minha filha.

GE.Net - Você tem algum arrependimento?
MM - Nunca me arrependo do que eu faço. Eu sempre me arrependo do que eu não faço. De tudo o que aconteceu na minha vida, sendo coisa ruim ou boa eu vou tirar como lição de vida. A gente está aqui para aprender, todo dia a gente aprende. Mas me arrependi de não ter sido tão cautelosa, porque eu sempre fui muito cautelosa. Acho que foi um deslize.

GE.Net - Mas tem alguma coisa que você olhando hoje pensa: faria diferente?
MM - (a resposta começa em tom de brincadeira) Faria depilação diferente agora. (mas se torna mais reflexiva na reiteração da pergunta) Muitas, mas isso quero guardar para mim.

GE.Net - A Maurren atleta mudou muito com tudo que aconteceu?
MM - Não sei se mudou, mas acho que se mudou, mudou para melhor porque hoje se voltar, volto com muito mais garra. Mesmo se eu não saltar mais, vou estar com mais garra e com mais gana de estar lá, de estar participando, estar somando. Porque o que eu quero é somar no atletismo e na minha equipe.

GE.Net - E você já sabe quando volta a competir?
MM - Competição só depois de junho. Não esta definido porque quero estar bem. Vou entrar em uma competição pequena e depois ver o que dá para fazer.

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