| Técnico
comemora recomeço
Se o retorno às pistas deu um novo colorido
à vida de Maurren, para o treinador Nélio
Moura o momento também é especial.
Acompanhando a atleta desde 94, ele lamentou muito
seu afastamento e é um de seus maiores
incentivadores na retomada da carreira.
Gazeta Esportiva.Net - A volta da Maurren
provoca uma emoção especial em você,
não?
Nélio Moura - Sem dúvida. É
uma atleta com quem a gente trabalha há
muito tempo. Esta decisão foi a melhor
que ela podia tomar para retomar a vida dela.
GE.Net - Você acha que tudo que aconteceu
mudou a atleta Maurren?
NM - Você sempre consegue tirar coisas
boas de momentos difíceis. E só
de ela estar aqui, treinando,já fica um
ambiente diferente. A Maurren sempre mostrou uma
característica muito positiva.
GE.Net - Ela pode voltar a ser uma atleta
de ponta?
NM - Quando anunciaram a suspensão,
ela estava chegando a número 1 do mundo.
Foi muito duro. Ela ficou dois anos e meio parada,
não fez nada regular. Claro que perdeu
muito durante este tempo, mas com certeza tem
como ela voltar a ser uma atleta de ponta.
GE.Net - Então, o Pan e os Jogos de
Pequim são uma possibilidade?
NM - Eu acredito que ela pode fazer,
no mínimo, mais dois ciclos olímpicos
inteiros. Penso na Maurren até 2012, porque
você vê atletas de 32 anos competindo
com nível internacional.
GE.Net - Comparando com quando ela parou,
em que nível Maurren estaria agora?
NM - É difícil quantificar
isso, ainda mais sem testes. Ela fez uma avaliação
de força e tem feito um trabalho físico
de fortalecimento. Mas o que a gente nota é
que ela está nitidamente melhor que no
início do ano. A cada dia você percebe
isso.
GE.Net - Mas ainda não está
definida qual será sua primeira competição?
NM - Não. Vai ser apenas no
segundo semestre. Mas até o ano que vem
ela volta a fazer bons resultados em nível
internacional.
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Por Marta Teixeira
A saltadora Maurren Higa Maggi ainda não chegou aos
30 anos, mas já passou por muitas coisas em sua vida.
De destaque internacional, tornou-se pivô em um caso
de doping. Com o baque, optou pela vida de dona-de-casa, apostou
na família, tornou-se mãe e, quando parecia
ter definido seu futuro, sofreu mais uma reviravolta do destino
que acabou por trazê-la novamente ao ponto de partida:
o atletismo.
Desde o começo do ano, ela voltou a figurar nos treinos
comandados pelos técnicos Nélio e Tania Moura
no Ibirapuera e deu início a uma luta para retornar
às competições. Mas Maurren sabe que,
se o caminho até o estrelato foi difícil da
primeira vez, agora vai ser muito mais, já que sua
vida e responsabilidades são bem diferentes.
Quem assiste a um de seus treinos comprova isso. As passadas
largas, as simulações de corrida, os saltos
de impulsão são realizados com absoluta concentração,
mas entre um exercício e outro não há
como não perceber o olhar da atleta dirigindo-se para
o fundo ou a lateral da pista em busca de um incentivo especial:
a presença de Sophia.
Com 1 anos e dois meses, a filha da saltadora com o piloto
Antonio Pizzonia acaba sendo um ímã, não
apenas para os olhos da mãe, mas também dos
outros atletas. Sempre que passam perto, param para fazer
um carinho na menina, que acompanha os treinos na maior tranqüilidade,
preocupada apenas em beber sua água de coco.
Eu acho que ela foi feita para mim, porque ela entende
tudo, diz a mãe orgulhosa pelo apoio inconsciente
da criança. Se Deus quiser, vai dar tudo certo.
Com toda a dificuldade que estou passando hoje, eu quero dar
risada disso tudo no futuro.
Incentivo não falta para sua recuperação,
que alimenta projetos de longo prazo no técnico Nélio.
Jogos Pan-americanos, Olimpíadas de Pequim-2008 e Londres-2012,
tudo isso é possível à atleta nas projeções
do treinador, seguro de seu potencial já para os Jogos
do Rio. Até o ano que vem, ela volta a fazer
resultados bons em nível internacional, garante.
Maureen começa com um discurso cauteloso, dizendo
querer apenas voltar ao circuito. Mas depois não resiste
e confessa que os sonhos estão mesmo no Pan-americano,
do qual foi campeã de salto em distância em Winnipeg-99,
e em novas tentativas olímpicas.
E o mundo do atletismo está cheio de histórias
para corroborar esta possibilidade. Basta lembrar o caso de
Francina Fanny Blankers-Koen. Aos 30 anos e com
dois filhos, essa holandesa conseguiu ser campeã olímpica
em Londres-48 nos 100m, 200m, 80m com barreiras e no revezamento
4x100m.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, Maurren
fala do desafio de recomeçar a carreira, da luta para
voltar a contar com um patrocínio e das expectativas
para o futuro. O técnico Nélio declara sua absoluta
confiança na atleta e ressalta que Maurren não
poderia estar fazendo nada melhor para sua própria
história.
Gazeta Esportiva.Net - Em setembro você disse: Não
queria tapete vermelho, mas a maneira que saí do atletismo
foi horrível. Este sentimento foi o que te fez
voltar?
Maurren Maggi - É a única coisa que eu sei
fazer. Não tive outra opção porque é
o que eu sei fazer de melhor. Vou batalhar para fazer o melhor
possível e acho que, se é para eu voltar, é
porque faltou alguma coisa para ser feito.
GE.Net - Mas esta volta exigiu uma mudança radical,
de como era quando você se dedicava apenas ao esporte,
e agora, com uma filha. Você teve que mudar toda sua
vida...
MM - É, tive que me reprogramar. Sem uma pessoa
para me ajudar no caso da Sophia, totalmente no escuro, sem
patrocinador nem nada. Mas estou batalhando para conseguir
patrocínio agora e, se Deus quiser, vai dar tudo certo.
Com toda a dificuldade que estou passando hoje, eu quero dar
risada disso tudo no futuro.
GE.Net - Mas não é fácil com a nenê...
Ela vem aos treinos com você todos os dias?
MM - É muito cansativo porque ela está em
uma fase que quer andar, quer bagunçar e eu preciso
de descanso. Mas ela entende tudo: eu acho que ela foi feita
para mim. Porque ela entende tudo. A gente chega, eu tô
cansada, a gente almoça, tira um cochilo à tarde
e ela acorda já bagunçando. Porque é
só eu descansar um pouquinho ou saber que ela está
dormindo e dá para fazer muita coisa. Eu fico mais
tranqüila. A gente se dá muito bem. Está
dando trabalho, mas está tranqüilo. Está
sendo muito bom para mim ficar sozinha com ela e acho que
está sendo para ela também. A gente sai, passeia
faz muita coisa.
GE.Net - Ela é sua nova companheira agora...
MM - Não, é para agora epara sempre.
GE.Net - E ela se dá bem aqui, brinca com todo
mundo...
MM - Se dá com todo mundo, se adapta a tudo.
Isso para mim é o máximo. Não é
sempre que vou poder dar um apoio, um auxílio, dependendo
de onde a gente estiver. Ela é muito tranqüila.
Para viajar também. Eu não tenho do que reclamar
GE.Net - Foi mais difícil começar a carreira
ou voltar é mais difícil?
MM - Mais difícil é recomeçar.
Porque você tinha uma posição e de repente
tem que começar do zero e as pessoas esperam que você
volte para aquela posição e algumas até
cobram isso. Eu entendo a posição delas, e entendo
que eu tenho um talento, mas que fiquei muito tempo parada.
Hoje estou brigando para voltar, só para voltar a saltar.
Não importa quanto. Eu quero ficar forte, não
quero machucar e quero voltar.
GE.Net - Então sua meta agora é apenas saltar...
MM - Eu vou voltar a saltar e vou tentar o índice
para o Pan-americano que é meu grande objetivo hoje.
GE.Net - O Nélio aposta em você para 2007,
2008 e até nas Olimpíadas de 2012. Para ele,
você pode estar competitiva até lá. E
você, tem isso como meta, sonha com mais duas olimpíadas?
MM - Sonho. Porque o Nélio é muito
consciente no trabalho dele de fazer o atleta para durar bastante.
Não é um atleta que vem, estoura, acaba e pronto,
foi embora. A gente treina junto desde 1994, eu fui ter sucesso
em 99. Tive essa pausa. De repente, esta pausa pode ter sido
a melhor coisa para mim porque foi um descanso. Pode ser muito
bom. Estou me sentindo bem, estou me sentindo forte, mas não
estou me sentindo preparada. Falta preparação.
O Nélio faz muito atleta a longo prazo. Penso que vou
ser assim: não digo senhora, uma atleta da terceira
idade, mas vou saltar muito tempo ainda.
GE.Net - Você diz que, talvez, esta parada pode
ser até benéfica para sua carreira. Mas você
pensava isso antes, durante o tempo em que ficou parada?
MM - Nunca pensei em voltar. Não pensava
que fosse conseguir voltar pelo que aconteceu e também
porque eu tinha minha filha. Estava querendo construir minha
família mas, de repente, as coisas acontecem ao contrário.
Aí, você tem que parar pensar, analisar, ver
a melhor coisa para ser feita. E a melhor coisa hoje para
ser feita na minha vida é estar aqui, dentro da pista.
Fazendo atletismo ou não, vou estar aqui, dentro da
pista.
GE.Net - Estar de volta com seus amigos é uma força
a mais?
MM - Dá uma força. Porque eu ganhei
minha vida aqui eu me fiz aqui, as pessoas me viram aqui.
Estar aqui é tudo de bom. Estando bem ou estando mal,
o importante é estar aqui pra mim.
GE.Net - O que tem sido mais difícil nesta volta?
MM - A cabeça responde, os movimentos estão
todos gravados na minha cabeça e eu não estou
com força suficiente (Maurren está três
quilos mais magra e perdeu massa). Falta ganhar massa muscular
e ganhar a consciência que eu posso fazer, mas que não
posso fazer agora. Seria mais ou menos isso.
GE.Net - E tem a ansiedade...
MM - Controlar a ansiedade também. Está
tudo aqui (aponta para a cabeça), mas tem que ir com
calma. Foi muito tempo parada.
GE.Net - Qual foi o momento mais difícil até
agora?
MM - A pior lembrança que tenho na minha
carreira foi quando fiquei sabendo que havia dado problema
no meu exame de doping. Tinha tanto cuidado com pomada, com
tudo, então me pegou de surpresa. Eu que sempre falava
em reuniões, que tinha que tomar cuidado, que era totalmente
contra e acontece um negócio desses comigo. A gente
fica meio de mãos atadas, sem saber o que fazer, o
que falar. Eu tive muita sorte das coisas que aconteceram.
Porque foi tudo muito claro, aconteceu tudo muito rápido,
a dermatologista descobriu a pomada, sabia que tinha sido
um erro dela. A gente tava tentando brigar para ficar tudo
bem no atletismo, mas eu decidi parar: vou cuidar da minha
família, vou ter filhos, isso e aquilo. Foi um momento
difícil, mas que me deu a minha filha.
GE.Net - Você tem algum arrependimento?
MM - Nunca me arrependo do que eu faço.
Eu sempre me arrependo do que eu não faço. De
tudo o que aconteceu na minha vida, sendo coisa ruim ou boa
eu vou tirar como lição de vida. A gente está
aqui para aprender, todo dia a gente aprende. Mas me arrependi
de não ter sido tão cautelosa, porque eu sempre
fui muito cautelosa. Acho que foi um deslize.
GE.Net - Mas tem alguma coisa que você olhando hoje
pensa: faria diferente?
MM - (a resposta começa em tom de brincadeira)
Faria depilação diferente agora. (mas se torna
mais reflexiva na reiteração da pergunta) Muitas,
mas isso quero guardar para mim.
GE.Net - A Maurren atleta mudou muito com tudo que aconteceu?
MM - Não sei se mudou, mas acho que se mudou,
mudou para melhor porque hoje se voltar, volto com muito mais
garra. Mesmo se eu não saltar mais, vou estar com mais
garra e com mais gana de estar lá, de estar participando,
estar somando. Porque o que eu quero é somar no atletismo
e na minha equipe.
GE.Net - E você já sabe quando volta a competir?
MM - Competição só depois
de junho. Não esta definido porque quero estar bem.
Vou entrar em uma competição pequena e depois
ver o que dá para fazer.
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