| Por Marta Teixeira
O panamenho Irving Saladino já era o centro dos holofotes
esportivos em seu país, mas nesta semana acabou tornando-se
um dos personagens centrais nas competições de atletismo em
todo o mundo. Sábado passado, ele saltou 8,73m para conquistar
o ouro no Grand Prix de Hengelo, garantindo a sétima melhor
marca da história no salto em distância.
Neste domingo, ele volta a competir. O palco será o GP de
Berlim, primeira perna da Liga de Ouro da Associação das Federações
Internacionais de Atletismo (IAAF).
Apontado pelo atual recordista mundial da prova, o norte-americano
Mike Powel, como um dos principais candidatos a melhorar a
marca, Saladino garante que isto não é uma obsessão em sua
vida e foca o pódio olímpico como grande objetivo da temporada.
O recorde, 8,95m, persiste desde o Mundial de Tóquio-1991,
quando Powel travou uma disputa emocionante com o compatriota
Carl Lewis para conquistar o título.
Treinando em São Paulo desde 2004 sob a supervisão dos técnicos
Tânia e Nélio Moura, o saltador que quase desistiu de tudo
e voltou para seu país, colhe nas pistas os frutos da persistência.
No ano passado, tornou-se campeão mundial, batendo o atual
campeão olímpico, o norte-americano Dwight Philips.
Se continuar no ritmo que apresentou até agora, o ouro na
China é uma possibilidade concreta para o panamenho. Philips
foi campeão com 8,59m em Atenas-2004. Saladino já tem as duas
melhores marcas da prova no ano - além do salto em Hengelo
teve 8,39m no GP do Rio de Janeiro -, enquanto o norte-americano
possui apenas a sexta (8,25m). Já o italiano Andrew Howetta,
vice-campeão mundial no Japão e também lembrado por Powel
como possível próximo recordista, nem aparece na lista dos
melhores saltos da temporada.
Nélio confia nas chances de seu pupilo. “Ele tem potencial
para conseguir o recorde e talvez seja o atleta com as maiores
chances”, elogia o técnico Nélio Moura. “Mas ainda tem bastante
coisa para evoluir. Ele ainda é jovem (25 anos). Mais desenvolvimento
físico e técnico podem levá-lo a (saltar) mais 30 centímetros”.
Saladino encara a possibilidade do recorde com o mesmo equilíbrio
colocando-o como uma meta para longo prazo. Em entrevista
à Gazeta Esportiva.Net, ele fala sobre a boa fase e
a pressão de lidar com as expectativas olímpicas do Panamá,
país que vive uma espera de 60 anos e até hoje só tem duas
medalhas em Olimpíadas. Os bronzes conquistados por Lloyd
LaBeach nos 100m e 200m dos Jogos de Londres-48.
O panamenho entrou forte na disputa
pelo jackpot, premiação no valor de US$ 1 milhão destinada
ao vencedor de todas as provas de sua modalidade na Liga de
Ouro. O prêmio é dividido caso mais de um atleta conquiste
o feito em provas diferentes.
Falando ao site oficial da Liga, o panamenho lembrou que
em 2006 ficou próximo do prêmio máximo, perdido por uma etapa.
“Meu objetivo este ano é vencer as seis competições da Liga
de Ouro. Em 2006, só consegui cinco. Perdi na França com um
segundo lugar lá. Este ano, meu objetivo é vencer todas elas
porque este é realmente um bom treinamento para os Jogos Olímpicos”.
| Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press |
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Gazeta Esportiva.Net - Há algumas semanas,
Powel (Mike Powel, atual recordista mundial) citou seu nome
como um dos principais candidatos a bater o recorde mundial.
O que você pensou quando soube disso?
Irving Saladino - Quando li, fiquei muito emocionado.
Gostei muito por ele falar isso. Dá mais vontade para
continuar treinando e bater o recorde dele. Mas eu não
penso em conseguir isso agora. É como meu técnico
falou, não precisa procurar, ele vem sozinho. Na hora
certa. Eu estou preparado, só vou esperar o dia para
saltar para o recorde.
GE.Net - Além de você, ele também
falou sobre o italiano Andrew Howetta. O que você acha
dele, é realmente um adversário pelo recorde?
IS - Andrew é um bom atleta, tem capacidade
e acho que está treinando para bater o recorde do mundo.
Eu também estou treinando muito, mas acho que, como
eu, ele está focado na briga olímpica. Ele vai
brigar muito nas Olimpíadas e espero que seja uma boa
competição como foi no ano passado, no Mundial.
GE.Net - Você acredita que são os mais
cotados na briga em Pequim?
IS - No nosso ponto de vista é o que pensamos,
mas tem outros americanos que saltaram acima dos 8,40m este
ano e a gente não pode tirar eles da briga. (Brian
Johnson com 8,30 e Dwight com 8,25m).
GE.Net - E como está sua preparação
para as Olimpíadas?
IS - Muito bem. No Rio, saltei 8,39m e sinto-me muito
bem para chegar em Beijing e fazer um bom resultado. Estou
preparado para brigar por uma das três medalhas. Estou
me sentindo bem e acho que este ano, nestes Jogos Olímpicos
vão acontecer muitas coisas boas.
GE.Net - No Panamá, você é a
grande esperança de levar o país a um pódio
olímpico. Como é lidar com a pressão
de ser o destaque panamenho em Pequim?
IS - Realmente, eles estão colocando uma responsabilidade
muito grande em mim. Dizem que é uma medalha garantida,
coisa que ninguém sabe o que pode acontecer. A verdade
é que estou me sentindo bem, espero brigar (pelo pódio)
e estar em condição física muito boa
no dia. Se tudo isso acontecer, acho que o Panamá terá
uma medalha. Se Deus quiser.
GE.Net - Há muito tempo você trocou
seu país para treinar no Brasil, por quê?
IS - Estou treinando com o Nélio e a Tânia
desde 2004. O Centro de Alto Nível de Atletismo da
América do Sul está aqui, em São Paulo,
e o Panamá pertence à Confederação
Sul-americana de Atletismo. Por isso, vim para cá.
GE.Net - Como é trabalhar com o Nélio?
O que você sentiu de mudança em sua técnica?
IS - Aqui eu treino com muita gente. É bom,
dá mais vontade. O Nélio é uma pessoa
bastante detalhista, tem um ponto de vista que outros não
têm. Sinto-me muito bem trabalhando com ele e espero
continuar mais tempo para continuar melhorando.
GE.Net - Sua adaptação foi difícil?
IS - Muito difícil. No primeiro ano, às
vezes eu pensava em voltar para o Panamá porque não
estava me sentindo bem aqui. Vim com meu técnico e
ele foi embora pouco depois. Fiquei sozinho e foi muito difícil.
Mas com o tempo, o pessoal (Jefferson, Rogério, Thiago,
Márcio) foram ficando mais comigo e fiquei mais tranqüilo.
Agora, eles acham que eu sou um brasileiro.
GE.Net - E você, sente-se brasileiro?
IS - Eu sou panamenho, mas quando estou junto com
eles as pessoas não percebem, acham que sou brasileiro.
GE.Net - Antes das Olimpíadas você vai disputar
as provas do Circuito Europeu, quais são suas expectativas?
IS - Minha expectativa é ir bem, melhorar
muito e saltar muito. Porque vou chegar em bom nível
para as competições.
GE.Net - A Final Mundial de Atletismo está
nos seus planos?
IS - Isso depende de como vou nas competições,
mas acho que vou chegar lá porque vou dar tudo. Não
tudo..., mas vou competir em bom nível na Golden League,
alguns GPS e, depois das Olimpíadas, acho que dá
tempo de me qualificar para a Final Mundial.
GE.Net - E na carreira, quais são suas ambições?
IS - Já cumpri todas até aqui, agora
faltam apenas as Olimpíadas e, a longo prazo, quero
bater o recorde mundial. Mas vou esperar que ele saia sozinho.
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