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04/05/2004

Por Marta Teixeira

Foram três anos longe das quadras, mergulhado no mundo do futebol. Mas quando Edvar Simões decidiu voltar ao seu esporte de origem, fez isso em grande estilo. Em pouco mais de dois meses no comando do Corinthians/UMC/Mogi, conseguiu levar o grupo da incômoda situação de cinco vitórias em 12 jogos para a quarta colocação e, conseqüentemente, um lugar nas quartas-de-final. Mas esta ascensão chegou a estar ameaçada quando, mergulhado em uma crise no campo, o Corinthians decidiu tentar o treinador com a oferta de reassumir sua antiga função de gerente de futebol no clube.

Nesta entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, Edvar afasta o medo das quadras e garante que seu compromisso atual é com o basquete, mas também deixa claro que "do amanhã a gente não sabe".
Em 2003, depois de uma reviravolta administrativa no Timão, Edvar decidiu encerrar sua época como gerente de futebol da equipe. Assumiu o basquete mogiano em 5 de março e, logo na seqüência, o grupo conseguiu três vitórias consecutivas e deu início à virada.

Como foi voltar ao basquete depois de tanto tempo?
Fiquei três anos longe. No final do ano pedi a liberação porque entendi que o momento era de abrir espaço para outro na equipe. Esperava que viesse outro convite no próprio futebol, mas veio do basquete e tem um momento que é pegar ou largar. Se é começo de campeonato você pode pensar, pedir um tempo. Mas não era assim.

Você está satisfeito com a equipe?
Gostei da recuperação. A equipe venceu sete jogos consecutivos (nas últimas rodadas), sendo quatro fora. A equipe está em um momento bom, crescendo. Ano que vem, se for mantido 8-9 jogadores desse grupo, a tendência é uma evolução. Muitos desses jogadores têm 18-19 anos e pouca gente está atenta a isso.

Fotos Divulgação

Falando desses jogadores novos, quem tem se destacado na sua opinião?
São vários. Alguns até com experiência em seleções de base, outros no exterior. O Marquinhos jogou no Scavolini (Itália). Ele não está nem em uma diagonal. Está na vertical. Tem o Fúlvio, Paulinho, Murilo. Se jogam dois ou três anos juntos...

E como fica a possibilidade de trocar tudo isso para ajudar o Timão a sair da crise nos campos?
Houve o convite e fiquei lisonjeado pelo reconhecimento do trabalho que fiz. Mas quando chegou, tinha assumido um compromisso. Não fiquei confortável. Foi um momento inoportuno (15-20 dias depois de assumir o time). Se tivesse chegado na mesma época iria pensar.

Mas existe a possibilidade de voltar ao futebol?
Se tivesse aceitado era a perda de uma temporada. Não era apenas a equipe, tinha o compromisso com a cidade, os patrocinadores, teria reflexos na próxima (temporada). Mas a gente não sabe o amanhã.
Em Ribeirão fui eu quem montei a estrutura atual em dois anos. Não sei ficar sem produzir. Achava que ia continuar lá, claro que houve conversas, mas o convite veio do futebol. Profissionalmente, o convite do futebol foi de grande motivação.

Depois dessa passagem no futebol, mudou a forma de você ver o basquete?
A passagem pelo futebol foi muito boa e queria que tivesse acontecido há 15 anos. No gerenciamento, você está envolvido com tudo. Foram três anos em que descansei mesmo só no Ano Novo e Natal. Seis dias de descanso. Mas é assim para quem quer trabalhar sério. Vejo o basquete com tanta possibilidade de crescimento. Tantos espaços que não são ocupados.

E o que falta para isso mudar?
Falta aquilo... falta arrojo dentro e fora de quadra. O basquete tem que ter metas e não sonhos. É preciso profissionalizar de vez o basquete. Não só o atleta, a empresa. Criar proteção de multa, aí preserva o time, os clubes vão se entusiasmar nas categorias de base. Caso contrário, vamos ser os trouxas do lado de cá do oceano que formam os jogadores para atuar lá fora.
O intercâmbio é bom, mas se não for bem feito logo vamos estar trazendo de novo estrangeiros e dessa vez nem tão bons. Vai ficar como na Europa com times campeões sem jogadores do país e que não têm seleções campeãs. Esse é o preço da taça: ergue-se a taça e perde-se uma modalidade.
Precisa rever toda estrutura. Se os dirigentes não viram que o esporte mudou têm que ver. Tem que haver evolução.

E o que tem hoje, nada disso está acontecendo?
Hoje é a mesmice. As coisas estão sendo feitas, mas timidamente.

Você falou da situação do esporte e dos novos jogadores. A renovação é geral?
Levantei esse problema há 15 anos. Mas por culpa do jeitinho brasileiro ia se falando muito alto e com uma postura irresponsável se partiu para trazer estrangeiros para satisfazer o ego de patrocinadores e dirigentes. Os clubes que produziam jogadores pararam de produzir e dar oportunidade. Não houve nada no sentido de criar uma proteção para abrir espaço.
A seleção ficou a mesma 12-15 anos, então encerrou o ciclo e não houve renovação. É preciso o mesmo tempo para se recuperar.

Então, quando é possível começar a ver resultados?
Leva ainda três ou quatro anos para voltar os resultados internacionais. Mas está melhorando.

Você foi mais feliz no futebol ou no basquete?
Fui feliz nos dois. Tive grandes conquistas (no Corinthians foi campeão do Mundial da Fifa-2000, Paulista-2001, Copa do Brasil e vice do Brasileirão em 2002; no basquete disputou olimpíadas como jogador, tem cinco títulos brasileiros como técnico e um vice-campeonato Mundial). Fiquei oito anos no Monte Líbano e ainda hoje almoço com a diretoria quando vou a São Paulo. Não fecho portas onde trabalho.

Três anos no futebol do Corinthians e um convite para voltar à equipe. Impossível não falar sobre a crise que a equipe atravessa...
Falar sobre isso seria uma indelicadeza minha. As pessoas que estão lá certamente sabem o que devem fazer. Há 4 ou 5 anos, o Corinthians viveu uma situação semelhante. Precisava vencer o Goiás para se manter na primeira divisão do Brasileiro e depois acabou sendo campeão. É como diz o Dualibi: céu e inferno no Corinthians ficam muito perto. É uma linha que separa. Se você desvia um pouquinho cai no inferno, mais um pouco e está no céu. Corinthians é paixão.

Com uma declaração dessas no final da entrevista será que é possível dizer que Edvar é um legítimo corintiano? Apesar de ter sido ídolo nas quadras do time como jogador e ter construído parte de sua história no esporte no clube, ele prefere se isentar dessa responsabilidade.

No meu caixão não ia querer a bandeira de uma só equipe. Gostaria que colocassem a bandeira de todos os clubes pelos quais passei. Até porque, hoje em dia é difícil ficar 20 anos no mesmo lugar.

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