| Técnico da seleção
argentina avalia que, mais organizado, vizinho poderia ser
potência do basquete
Por Marta Teixeira
Foto:
Divulgação/CBB |
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Argentinos acabaram com o sonho brasileiro de assegurar vaga olímpica com vitória nas semifinais do Pré-olímpico de Las Vegas, mas Hernández espera encontrar rivais sul-americanos em Pequim-2008. |
Na lateral da quadra da ASCEB, durante a disputa do Campeonato
Sul-americano de Clubes masculino de basquete, o técnico Sérgio
Hernández que dirigiu o Peñarol de Mar del Plata era o mesmo
da seleção argentina no Torneio Pré-olímpico de Las Vegas.
Sentado no banco, caminhando pela lateral da quadra, gritava
orientações, levantava os braços, colocava as mãos na cintura
e mastigava seu inseparável chiclete. Mas não perdia o ar
tranqüilo e o olhar crítico para o jogo.
Uma tranqüilidade e uma confiança tática que fizeram com
que conquistasse um feito que, ele mesmo reconhece, mudou
sua situação frente à seleção argentina. Se antes era olhado
com desconfiança pela torcida, depois de garantir a classificação
para Pequim na primeira oportunidade, em setembro, passou
a gozar de respeito e admiração da torcida.
“Entendo as pessoas”, diz, referindo-se à dúvida que o perseguia
sobre a capacidade de um técnico da Liga Nacional assumir
um time cheio de atletas da NBA e manter a Argentina entre
os melhores do mundo, ainda mais depois da conquista do vice-campeonato
mundial e do título olímpico. “Não é fácil”, admite. Hernández
deu conta do recado e já tem garantido o posto até os Jogos
da China.
Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele fala
de sua experiência no comando da seleção nacional e da transformação
pela qual passou a modalidade em seu país. Critica a saída
precoce de talentos para o exterior e, apesar da tradicional
rivalidade Brasil-Argentina, afirma torcer para que o rival
sul-americano também esteja nas Olimpíadas de Pequim. Conhecedor
do passado e do presente do basquete brasileiro, reage com
arregalar de olhos e indisfarçável surpresa à notícia de que
o próximo técnico da seleção será um estrangeiro. “Não quero
faltar com o respeito, mas não gosto desta opção”.
Para ele, o basquete mundial vive uma nova Era e a única
diferença que separa o sucesso argentino da crise no vizinho
é a coordenação das estruturas. “O dia que o Brasil organizar-se
definitivamente e todos andarem na mesma direção haverá poucas
equipes no mundo que poderão vencê-lo”, profetiza.
Apesar do momento oposto que cada país atravessa, Hernández
identifica uma responsabilidade comum para ambos. Fazer com
que os jogadores que atuam nos torneios nacionais sejam tão
valorizados como os que estão lá fora. Só assim, acredita,
a modalidade conseguirá manter o interesse interno e não perder
espaço no coração da torcida.
Gazeta Esportiva.Net – Conseguir a classificação olímpica,
sem contar com os titulares, quando todos os adversários estavam
com a equipe completa deu um sabor especial à vaga em Pequim?
Sérgio Hernández - Esta equipe saiu da argentina com
muitas dúvidas. As pessoas não acreditavam que a Argentina poderia
se classificar direto para Pequim e isto, às vezes, colabora
para que a equipe seja mais forte. O argentino tem uma cabeça
forte, um espírito competitivo e o fato de ter jogadores como
(Luis) Scola, (Pablo) Prigione, que já têm uma experiência importante,
fez o grupo tomar muita coragem, assumir um compromisso forte
para atingir um objetivo importante e disputar o torneio com
toda a vontade de ganhar e sem medo de perder. Isso nos fez
suficientemente unidos e, obviamente, esta conquista teve um
sabor muito especial. Não é a mesma coisa você ganhar quando
é favorito e quando não é.
GE.Net – Ficou mais difícil escolher os 12 para
2008...
Hernández – É verdade. Muito mais difícil, mas é
sempre melhor que seja difícil assim que fácil.
GE.Net – O que mudou depois da experiência em Las
Vegas?
Hernández – Pessoalmente, foi um torneio muito importante
porque assumi a seleção depois do título olímpico. O que não
é fácil. É muito difícil, mas eu entendo as pessoas. Eles
pensavam: (Emanuel) Ginóbili, (Andrés) Nocioni jogam na NBA,
são campeões olímpicos, vice-campeões mundiais e vão treinar
com um técnico que trabalha na Liga Nacional? Não havia muita
confiança. Se eu fosse para uma equipe nacional qualquer,
teriam toda a confiança. Mas para a seleção, a história era
diferente. Assim, este torneio serviu para que eu conquistasse
respeito e também para saber que não existe
apenas Ginóbili e companhia, que há (Paolo) Quinteros, (Leonardo)
Gutiérrez, (Federico) Kammerichs, Roman González, (Alejandro)
Porta, Prigione que podem fazer coisas importantes internacionalmente.
E isto é muito bom para nós.
GE.Net – Vocês conseguiram a vaga e jogaram o Brasil
no Pré-olímpico Mundial, que será muito mais difícil...
Hernández – É, a repescagem será muito difícil, mas
o Brasil tem muito talento e possivelmente não terá tanta
pressão como tinha em Las Vegas. Pode ser que jogue mais tranqüilo
e consiga um resultado melhor. Eu desejo de todo coração que
o Brasil esteja lá. Não sei quem será o técnico...
GE.Net – Ninguém sabe o nome, mas está definido
que será um estrangeiro, um treinador europeu. É uma boa solução,
pensando na classificação, para o basquete brasileiro?
Hernández – Não quero me intrometer em decisões.
Não quero faltar com o respeito, mas não gosto desta opção.
Acho que nada melhor para uma seleção que ter um técnico de
seu próprio país. E um país com tanta história como o Brasil...
Se me diz isso para Paraguai ou Bolívia, pode vir gente
de fora para ajudar... Mas este é o país de Oscar Schmidt,
de Carioquinha, Ubiratan, Marcel, Marquinhos, Zé Boquinha,
Ary Vidal, Hélio Rubens. Não posso acreditar que um estrangeiro
dirigirá a seleção brasileira...
GE.Net - O Brasil enfrenta problemas envolvendo
os clubes e as instituições que comandam o esporte. Isso é
uma dificuldade a mais para a seleção?
Hernández – É uma dificuldade para todo basquete.
O dia que o Brasil organizar-se definitivamente e todos andarem
na mesma direção haverá poucas equipes no mundo que poderão
vencê-lo. Mas o Brasil tem muitos problemas de organização.
Tem seus motivos, é um país muito grande, é preciso atravessar
quatro mil quilômetros para disputar um jogo. Mas, a diferença
hoje entre Brasil e Argentina está na organização, não há
dúvida. O Brasil tem muitíssimo mais potencial que a Argentina.
Há maior número de jogadores, maior quantidade de clubes,
melhor biótipo com negros, brancos, mestiços. Mas o que percebemos
é que falta mais organização, que todos tenham o mesmo objetivo.
E isso não prejudica apenas a seleção, atrapalha a todos.
A seleção será sempre favorecida se os clubes estiverem organizados,
assim como as competições. Caso contrário, sempre haverá problemas.
GE.Net – A Argentina é uma das referências atuais
no mundo. O que foi fundamental para este salto de qualidade
e quando esta transformação começou?
Hernández - Tanto Argentina quanto Brasil têm, historicamente,
bons jogadores. Não no nível de potências mundiais, mas muito
bons jogadores. Não devemos esquecer que a Argentina foi campeã
mundial em 1950, em um torneio na Argentina vencendo os Estados
Unidos. Ou seja, jogadores sempre existiram. Mas o ponto de
início de toda esta mudança foi há 23-24 anos com a criação
da Liga Nacional. Porque antes, os melhores jogadores argentinos
jogavam entre si uma ou duas vezes no ano. Quando criamos
a liga, os melhores jogadores se juntaram nas melhores equipes,
começaram a jogar em um torneio muito mais forte e isto fez
o basquete evoluir muito. Além disso, 6, 7, 8 anos depois
começou o êxodo para a Europa dos melhores jogadores e eles
começaram a conhecer e jogar um basquete internacional que
para nós só chegava pela televisão. Eles levaram esta experiência
à seleção, que ficou melhor. Ninguém gosta que os jogadores
deixem seu país, mas a verdade é que quando vão jogar com
as melhores equipes do mundo, isso significa um salto de qualidade
significativo.
GE.Net – Mas hoje, este êxodo está muito maior e
começa muito mais cedo, com jogadores saindo ainda adolescentes.
Isto não preocupa?
Hernández – É verdade. O êxodo que acontece hoje
não é bom. Foi bom quando saíram jogadores como Ginóbili,
Scola, Nocioni, (Rubén) Wolkowski, (Fabrício) Oberto porque
primeiro jogaram a Liga argentina e depois foram jogar como
profissionais na Europa. Agora saem meninos com 16-17 anos.
E, na Argentina, posso assegurar porque já fui treinador na
Europa, se trabalha muito melhor com os jovens que lá. Assim,
este êxodo atual não é bom para nós. Temos hoje algo em torno
de 250 jogadores no exterior, é um exagero.
| Despedida
com lição de casa |
| Apesar de comandado pelo técnico da seleção argentina, o Peñarol
de Mar del Plata não conseguiu o título do torneio realizado
em Brasília (DF). A equipe terminou em terceiro lugar
com três vitórias e duas derrotas e terá muita lição
de casa em seu retorno à Argentina.
“Não estamos satisfeitos com nosso trabalho”, confessa
Hernández. “Não pelo resultado, porque é uma competição
muito equilibrada. Todos ganharam e perderam. Mas tivemos
alguns momentos muito ruins nos jogos”, avalia, crítico.
Mesmo frustrado pelo saldo final, a oportunidade de
participar do torneio deixou-o satisfeito. “Foi uma
experiência muito boa porque participamos de um torneio
forte e esperamos que esta experiência nos ajude a ser
uma equipe melhor”.
Pensar no que fazer para deixar o Peñarol da maneira
que deseja não é a única tarefa para Hernández em Mar
del Plata. Até o final do ano, ele e sua comissão técnica
vão definir a programação argentina para defender o
título olímpico em Pequim. A responsabilidade não o
assusta e, apesar dos compromissos de seus jogadores
com a NBA, o calendário promete não abrir mão de treinos
em casa e amistosos internacionais.
”A idéia é iniciar a preparação na Argentina, disputando
o Super 4, viajar para Estados Unidos, Europa e de lá
para Pequim. Em dezembro definiremos tudo. Há a possibilidade
de seguirmos direto dos Estados Unidos para a China
para disputar alguns amistosos, mas ainda vamos decidir”.
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GE.Net – Você fala sobre este trabalho com os mais
jovens e, para quem está de fora, parece que a situação da
modalidade na Argentina está muito boa. No Brasil há grandes
disparidades, como é a realidade dos clubes lá?
Hernández – Também há muita diferença. Você tem uma
equipe como Boca Juniors que é como um Vasco da Gama, Corinthians,
ou seja, uma equipe muito forte, um clube muito grande, que
não tem problema financeiro. Você tem equipe como Peñarol,
que gasta muito dinheiro, mas que tem mais dificuldades para
consegui-lo e há outras quatro ou cinco que investem muito.
Mas não são sempre os mesmos clubes, com exceção do Boca.
Mas, na Argentina, os clubes são clubes, não têm dono. No
resto do mundo, atualmente, são mais sociedades anônimas.
O clube leva o nome do patrocinador, por exemplo, Benetton
(Treviso), Tau Ceramica (Vitoria), Armani Jeans (Milano),
todos têm o nome de uma empresa. São sociedades anônimas,
então são administrados como empresas. Na Argentina, têm uma
comissão diretora, a televisão coloca dinheiro que é dividido
entre eles, os clubes buscam patrocinadores... A situação
está boa, mas poderia ser melhor.
GE.Net – O quê?
Hernández – Na Argentina trabalha-se bem em tudo
que diz respeito à organização, da base ao profissional. Você
tem Confederação, Federações estaduais e as Associações, que
são das cidades. Há torneios em todos estes níveis para todas
as categorias e todos os clubes têm todas as categorias. Isto
está muito bom. Mas a Liga tem os mesmos problemas que existem
no nosso país. A Argentina atravessa altos e baixos na economia
e isto reflete na Liga. Assim, acho que falta aperfeiçoar
um pouco o marketing, na venda do produto. Não temos muita
gente nos estádios porque acham que os melhores estão lá fora.
Como se dissessem aqui: Leandrinho e Nenê estão fora, o que
está aqui é fraco. Mas aqui estão Valtinho, Marcelinho, Alex
e estes têm de ser as referências vendidas para que as pessoas
queiram ver seus ídolos. Nisso nós temos muita responsabilidade
porque temos de fazer que valorizem os jogadores que atuam
em casa. Este é um assunto pendente.
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