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06/09/2007
Montagem sobre fotos Divulgação

Técnico da seleção argentina avalia que, mais organizado, vizinho poderia ser potência do basquete

Por Marta Teixeira

Foto: Divulgação/CBB

Argentinos acabaram com o sonho brasileiro de assegurar vaga olímpica com vitória nas semifinais do Pré-olímpico de Las Vegas, mas Hernández espera encontrar rivais sul-americanos em Pequim-2008.

Na lateral da quadra da ASCEB, durante a disputa do Campeonato Sul-americano de Clubes masculino de basquete, o técnico Sérgio Hernández que dirigiu o Peñarol de Mar del Plata era o mesmo da seleção argentina no Torneio Pré-olímpico de Las Vegas. Sentado no banco, caminhando pela lateral da quadra, gritava orientações, levantava os braços, colocava as mãos na cintura e mastigava seu inseparável chiclete. Mas não perdia o ar tranqüilo e o olhar crítico para o jogo.

Uma tranqüilidade e uma confiança tática que fizeram com que conquistasse um feito que, ele mesmo reconhece, mudou sua situação frente à seleção argentina. Se antes era olhado com desconfiança pela torcida, depois de garantir a classificação para Pequim na primeira oportunidade, em setembro, passou a gozar de respeito e admiração da torcida.

“Entendo as pessoas”, diz, referindo-se à dúvida que o perseguia sobre a capacidade de um técnico da Liga Nacional assumir um time cheio de atletas da NBA e manter a Argentina entre os melhores do mundo, ainda mais depois da conquista do vice-campeonato mundial e do título olímpico. “Não é fácil”, admite. Hernández deu conta do recado e já tem garantido o posto até os Jogos da China.

Nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, ele fala de sua experiência no comando da seleção nacional e da transformação pela qual passou a modalidade em seu país. Critica a saída precoce de talentos para o exterior e, apesar da tradicional rivalidade Brasil-Argentina, afirma torcer para que o rival sul-americano também esteja nas Olimpíadas de Pequim. Conhecedor do passado e do presente do basquete brasileiro, reage com arregalar de olhos e indisfarçável surpresa à notícia de que o próximo técnico da seleção será um estrangeiro. “Não quero faltar com o respeito, mas não gosto desta opção”.

Para ele, o basquete mundial vive uma nova Era e a única diferença que separa o sucesso argentino da crise no vizinho é a coordenação das estruturas. “O dia que o Brasil organizar-se definitivamente e todos andarem na mesma direção haverá poucas equipes no mundo que poderão vencê-lo”, profetiza.

Apesar do momento oposto que cada país atravessa, Hernández identifica uma responsabilidade comum para ambos. Fazer com que os jogadores que atuam nos torneios nacionais sejam tão valorizados como os que estão lá fora. Só assim, acredita, a modalidade conseguirá manter o interesse interno e não perder espaço no coração da torcida.

Gazeta Esportiva.Net – Conseguir a classificação olímpica, sem contar com os titulares, quando todos os adversários estavam com a equipe completa deu um sabor especial à vaga em Pequim?
Sérgio Hernández -
Esta equipe saiu da argentina com muitas dúvidas. As pessoas não acreditavam que a Argentina poderia se classificar direto para Pequim e isto, às vezes, colabora para que a equipe seja mais forte. O argentino tem uma cabeça forte, um espírito competitivo e o fato de ter jogadores como (Luis) Scola, (Pablo) Prigione, que já têm uma experiência importante, fez o grupo tomar muita coragem, assumir um compromisso forte para atingir um objetivo importante e disputar o torneio com toda a vontade de ganhar e sem medo de perder. Isso nos fez suficientemente unidos e, obviamente, esta conquista teve um sabor muito especial. Não é a mesma coisa você ganhar quando é favorito e quando não é.

GE.Net – Ficou mais difícil escolher os 12 para 2008...
Hernández –
É verdade. Muito mais difícil, mas é sempre melhor que seja difícil assim que fácil.

GE.Net – O que mudou depois da experiência em Las Vegas?
Hernández –
Pessoalmente, foi um torneio muito importante porque assumi a seleção depois do título olímpico. O que não é fácil. É muito difícil, mas eu entendo as pessoas. Eles pensavam: (Emanuel) Ginóbili, (Andrés) Nocioni jogam na NBA, são campeões olímpicos, vice-campeões mundiais e vão treinar com um técnico que trabalha na Liga Nacional? Não havia muita confiança. Se eu fosse para uma equipe nacional qualquer, teriam toda a confiança. Mas para a seleção, a história era diferente. Assim, este torneio serviu para que eu conquistasse respeito e também para saber que não existe apenas Ginóbili e companhia, que há (Paolo) Quinteros, (Leonardo) Gutiérrez, (Federico) Kammerichs, Roman González, (Alejandro) Porta, Prigione que podem fazer coisas importantes internacionalmente. E isto é muito bom para nós.

GE.Net – Vocês conseguiram a vaga e jogaram o Brasil no Pré-olímpico Mundial, que será muito mais difícil...
Hernández –
É, a repescagem será muito difícil, mas o Brasil tem muito talento e possivelmente não terá tanta pressão como tinha em Las Vegas. Pode ser que jogue mais tranqüilo e consiga um resultado melhor. Eu desejo de todo coração que o Brasil esteja lá. Não sei quem será o técnico...

GE.Net – Ninguém sabe o nome, mas está definido que será um estrangeiro, um treinador europeu. É uma boa solução, pensando na classificação, para o basquete brasileiro?
Hernández –
Não quero me intrometer em decisões. Não quero faltar com o respeito, mas não gosto desta opção. Acho que nada melhor para uma seleção que ter um técnico de seu próprio país. E um país com tanta história como o Brasil... Se me diz isso para Paraguai ou Bolívia, pode vir gente de fora para ajudar... Mas este é o país de Oscar Schmidt, de Carioquinha, Ubiratan, Marcel, Marquinhos, Zé Boquinha, Ary Vidal, Hélio Rubens. Não posso acreditar que um estrangeiro dirigirá a seleção brasileira...

GE.Net - O Brasil enfrenta problemas envolvendo os clubes e as instituições que comandam o esporte. Isso é uma dificuldade a mais para a seleção?
Hernández –
É uma dificuldade para todo basquete. O dia que o Brasil organizar-se definitivamente e todos andarem na mesma direção haverá poucas equipes no mundo que poderão vencê-lo. Mas o Brasil tem muitos problemas de organização. Tem seus motivos, é um país muito grande, é preciso atravessar quatro mil quilômetros para disputar um jogo. Mas, a diferença hoje entre Brasil e Argentina está na organização, não há dúvida. O Brasil tem muitíssimo mais potencial que a Argentina. Há maior número de jogadores, maior quantidade de clubes, melhor biótipo com negros, brancos, mestiços. Mas o que percebemos é que falta mais organização, que todos tenham o mesmo objetivo. E isso não prejudica apenas a seleção, atrapalha a todos. A seleção será sempre favorecida se os clubes estiverem organizados, assim como as competições. Caso contrário, sempre haverá problemas.

GE.Net – A Argentina é uma das referências atuais no mundo. O que foi fundamental para este salto de qualidade e quando esta transformação começou?
Hernández -
Tanto Argentina quanto Brasil têm, historicamente, bons jogadores. Não no nível de potências mundiais, mas muito bons jogadores. Não devemos esquecer que a Argentina foi campeã mundial em 1950, em um torneio na Argentina vencendo os Estados Unidos. Ou seja, jogadores sempre existiram. Mas o ponto de início de toda esta mudança foi há 23-24 anos com a criação da Liga Nacional. Porque antes, os melhores jogadores argentinos jogavam entre si uma ou duas vezes no ano. Quando criamos a liga, os melhores jogadores se juntaram nas melhores equipes, começaram a jogar em um torneio muito mais forte e isto fez o basquete evoluir muito. Além disso, 6, 7, 8 anos depois começou o êxodo para a Europa dos melhores jogadores e eles começaram a conhecer e jogar um basquete internacional que para nós só chegava pela televisão. Eles levaram esta experiência à seleção, que ficou melhor. Ninguém gosta que os jogadores deixem seu país, mas a verdade é que quando vão jogar com as melhores equipes do mundo, isso significa um salto de qualidade significativo.

GE.Net – Mas hoje, este êxodo está muito maior e começa muito mais cedo, com jogadores saindo ainda adolescentes. Isto não preocupa?
Hernández –
É verdade. O êxodo que acontece hoje não é bom. Foi bom quando saíram jogadores como Ginóbili, Scola, Nocioni, (Rubén) Wolkowski, (Fabrício) Oberto porque primeiro jogaram a Liga argentina e depois foram jogar como profissionais na Europa. Agora saem meninos com 16-17 anos. E, na Argentina, posso assegurar porque já fui treinador na Europa, se trabalha muito melhor com os jovens que lá. Assim, este êxodo atual não é bom para nós. Temos hoje algo em torno de 250 jogadores no exterior, é um exagero.

Despedida com lição de casa

Apesar de comandado pelo técnico da seleção argentina, o Peñarol de Mar del Plata não conseguiu o título do torneio realizado em Brasília (DF). A equipe terminou em terceiro lugar com três vitórias e duas derrotas e terá muita lição de casa em seu retorno à Argentina.

“Não estamos satisfeitos com nosso trabalho”, confessa Hernández. “Não pelo resultado, porque é uma competição muito equilibrada. Todos ganharam e perderam. Mas tivemos alguns momentos muito ruins nos jogos”, avalia, crítico.

Mesmo frustrado pelo saldo final, a oportunidade de participar do torneio deixou-o satisfeito. “Foi uma experiência muito boa porque participamos de um torneio forte e esperamos que esta experiência nos ajude a ser uma equipe melhor”.

Pensar no que fazer para deixar o Peñarol da maneira que deseja não é a única tarefa para Hernández em Mar del Plata. Até o final do ano, ele e sua comissão técnica vão definir a programação argentina para defender o título olímpico em Pequim. A responsabilidade não o assusta e, apesar dos compromissos de seus jogadores com a NBA, o calendário promete não abrir mão de treinos em casa e amistosos internacionais.

”A idéia é iniciar a preparação na Argentina, disputando o Super 4, viajar para Estados Unidos, Europa e de lá para Pequim. Em dezembro definiremos tudo. Há a possibilidade de seguirmos direto dos Estados Unidos para a China para disputar alguns amistosos, mas ainda vamos decidir”.

GE.Net – Você fala sobre este trabalho com os mais jovens e, para quem está de fora, parece que a situação da modalidade na Argentina está muito boa. No Brasil há grandes disparidades, como é a realidade dos clubes lá?
Hernández –
Também há muita diferença. Você tem uma equipe como Boca Juniors que é como um Vasco da Gama, Corinthians, ou seja, uma equipe muito forte, um clube muito grande, que não tem problema financeiro. Você tem equipe como Peñarol, que gasta muito dinheiro, mas que tem mais dificuldades para consegui-lo e há outras quatro ou cinco que investem muito. Mas não são sempre os mesmos clubes, com exceção do Boca. Mas, na Argentina, os clubes são clubes, não têm dono. No resto do mundo, atualmente, são mais sociedades anônimas. O clube leva o nome do patrocinador, por exemplo, Benetton (Treviso), Tau Ceramica (Vitoria), Armani Jeans (Milano), todos têm o nome de uma empresa. São sociedades anônimas, então são administrados como empresas. Na Argentina, têm uma comissão diretora, a televisão coloca dinheiro que é dividido entre eles, os clubes buscam patrocinadores... A situação está boa, mas poderia ser melhor.

GE.Net – O quê?
Hernández –
Na Argentina trabalha-se bem em tudo que diz respeito à organização, da base ao profissional. Você tem Confederação, Federações estaduais e as Associações, que são das cidades. Há torneios em todos estes níveis para todas as categorias e todos os clubes têm todas as categorias. Isto está muito bom. Mas a Liga tem os mesmos problemas que existem no nosso país. A Argentina atravessa altos e baixos na economia e isto reflete na Liga. Assim, acho que falta aperfeiçoar um pouco o marketing, na venda do produto. Não temos muita gente nos estádios porque acham que os melhores estão lá fora. Como se dissessem aqui: Leandrinho e Nenê estão fora, o que está aqui é fraco. Mas aqui estão Valtinho, Marcelinho, Alex e estes têm de ser as referências vendidas para que as pessoas queiram ver seus ídolos. Nisso nós temos muita responsabilidade porque temos de fazer que valorizem os jogadores que atuam em casa. Este é um assunto pendente.


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