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O camisa 10 do Kaiserslautern

O meia Lincoln vem mostrando na Alemanha o futebol que o fez brilhar no Galo, tanto que já despertou a atenção da Juventus de Turim.

Foto: Reuters
Foto: Reuters
Adaptado ao clima e à vida na Alemanha, Lincoln vem provando que valeu o investimento.

Paulo Fávero
Logo que o brasileiro Lincoln chegou na fria Alemanha, ele viveu dois momentos distintos com a receptividade no novo país. O desprezo estava estampado nos olhos de seus companheiros de clube, mas ele podia perceber a euforia dos dirigentes e torcedores do Kaiserslautern. Já imaginava que não teria calorosa festa, mas ficou preocupado. Pegou o telefone e ligou para o amigo Dedê, lateral-esquerdo do Borussia Dortmund e que conhecia desde os tempos do Atlético Mineiro. Mas o eterno companheiro lhe explicou ser normal este tipo de reação ao jogador estrangeiro.

Hoje está completamente adaptado ao clube e à vida na Alemanha e, mais do que isso, seu futebol interessa a outros clubes da Europa. O meia-direita Lincoln vem fazendo sucesso na equipe, foi inscrito com a camisa 10 e já chamou a a atenção de uma potência mundial, a Juventus de Turim (Itália). Ele vive na própria cidade do clube, Kaiserslautern, que tem 130 mil habitantes. Treina normalmente em dois períodos e, para ter uma adaptação mais fácil, foi para a Alemanha acompanhado dos primos Aristides e Hércules. Logo que chegou ao desconhecido país, sua primeira atitude foi comprar um notebook, um computador portátil, para ver notícias do Brasil.

Suas características encantaram os torcedores do Kaiserslautern, acostumados a ver jogar aqueles fortes jogadores de pernas duras. Lincoln tem malícia, habilidade, visão de jogo e costuma chegar na área para fazer gols. No Atlético-MG, marcou mais de 80. Na Alemanha já vem provando que valeu o investimento do clube. O jogador tem muita admiração por seus ex-treinadores, como Abel Braga, Carlos Alberto Silva, Márcio Araújo e Wanderley Luxemburgo. Mas ídolo mesmo é só um, que atua numa posição bem diferente da sua: o goleiro Taffarel, que o ajudou muito quando ele subiu para o time profissional do Galo. Nesta entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva Net, ele fala do interesse da Juventus, sobre a vida na Alemanha, as dificuldades e sobre seus sonhos.

Soube que você teve uma proposta para jogar no futebol italiano... Por que ainda não deu certo?
Foram duas tentativas de negociação, mas o presidente do clube (Kaiserslautern) me chamou e disse que não queria me liberar porque eles estavam gostando de mim. Era a Juventus e acabou não dando certo. Mas não fico sonhando, na minha vida as coisas sempre aconteceram naturalmente.

Você já é ídolo da torcida?
Estou procurando o meu espaço, tenho um carinho pelo clube e é recíproco, mas não tem nada de ídolo aqui. Tenho um contrato de quatro anos, até 2005.

Como está sua situação dentro do time?
Fiz seis gols no Campeonato Alemão, quatro na Copa da Alemanha e cinco em amistosos. Aqui se faz muito rodízio entre os jogadores, é uma coisa diferente. O cara faz gol numa partida, mas na outra não é nem relacionado. Eu estou conseguindo jogar.

Para um estrangeiro, atuar na Alemanha é complicado, pela dificuldade em aprender a língua, pelo frio e costumes diferentes. Como foi para você?
Aqui na Alemanha é preciso de um tempo muito grande para adaptação, mas eu consegui me encaixar bem no time. Cheguei há oito meses, estou tranqüilo e tenho alegria para jogar. Além disso, três primos meus estão aqui comigo e querem fazer especialização. Por isso, todos nós estamos estudando alemão com um professor.

Como você faz para se comunicar com seus companheiros?
É difícil aprender o alemão. Eu tinha estudado antes o inglês, mas apenas na escola, nada muito profundo. Só que o Ratinho (volante brasileiro) joga na minha equipe e me ajuda com a língua. Eu também tenho uma tradutora à minha disposição. Sinto saudade de tudo, mas não sinto falta de nada. Isso tem me ajudado. E tem o Taribo West, da Nigéria, que fala italiano e dá para a gente conversar.

E como você se virou com a alimentação?
A comida foi o que mais pegou no começo e eu costumava fazer minhas refeições em um restaurante português. Mas agora o clube contratou uma nutricionista e faço as refeições no clube. O presidente me ajuda pra caramba, fala das leis e conversa sempre comigo.

Qual foi o impacto na sua chegada ao clube?
Quando eu cheguei, senti que o povo era frio. Mas o Dedê já tinha falado isso para mim. Nós jogamos juntos no Atlético-MG de 89 a 98, quando ele foi para o Borussia. É um grande amigo e sempre conversamos. E aí percebi o que ele tinha avisado quando cheguei. Na minha apresentação, poucos vieram me cumprimentar.

Este é um ano de Copa do Mundo. O grupo já está praticamente formado e dificilmente você será chamado. Já passou pela sua cabeça de fazer algo como o Paulo Rink, que se naturalizou alemão e chegou até a ser convocado para a seleção da Alemanha?
Penso em Seleção Brasileira. Nunca passou pela minha cabeça me naturalizar alemão, tenho orgulho de ser brasileiro. Tenho 23 anos e quero ajudar meu clube primeiro, o resto será conseqüência.

Seu time está na briga pelas primeiras posições no Campeonato Alemão. Você acredita que o clube possa ficar com a taça?
Não é fácil conquistar o título alemão, é um campeonato muito competitivo. É preciso manter a regularidade e sempre conquistar pontos.

Ficha técnica:
Nome: Lincoln Cássio de Souza Soares.
Posição: Meia-direita.
Altura: 1,77 m.
Peso: 69 kg.
Data de nascimento: 22/1/1979.
Cidade de origem: Belo Horizonte, mas foi criado em São Brás do Suaçui, interior de Minas Gerais.
Clubes: Começou nas categorias de base do Atlético Mineiro, onde ficou por 12 anos. Depois foi para o Kaiserslautern (Alemanha), assinando contrato em 1º/7/2001.
Principais títulos: Copa Conmebol em 97, bicampeão Mineiro em 99/2000 (fez o gol da final em 99), campeão da Copa Centenário em 97 e vice-campeão brasileiro em 99.
Passagens pela Seleção: Jogou nas Seleções sub-17, sub-20 e sub-23, com os treinadores Toninho Barroso e Wanderley Luxemburgo.

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