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23/12/2004

Por Bruno Ceccon, especial para a GE.Net

Os nomes de Carlos Alberto Parreira e Mário Jorge Lobo Zagallo se confundem com as glórias e conquistas da seleção brasileira. A identificação com a amarelinha e o entrosamento da dupla, dona de cinco títulos mundiais, pode levar o Brasil ao hexacampeonato na Alemanha. Os dois participaram de um bate-papo descontraído com a reportagem da GE.Net e mostraram os rumos que o escrete verde-amarelo deve tomar até a próxima Copa do Mundo.

Parreira aproveitou para fazer um alerta e afastou o favoritismo de perto da seleção brasileira. “A qualidade técnica não é o fator primordial para ganhar a Copa. Para ganhar, tem que ter trabalho, entrosamento, estruturação e equilíbrio. O time precisa suar a camisa”, disse o treinador. Zagallo completa tomando a arqui-rival como exemplo. “Estamos fazendo uma campanha excepcional nas Eliminatórias e espero que seja excepcional também na Copa do Mundo, porque a Argentina liderou com tanta tranqüilidade as últimas Eliminatórias, mas chegou na hora H e o Brasil foi penta”, afirmou.

Foto Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
É possível perceber nas palavras do técnico que a equipe não deve passar por grandes modificações até o Mundial. “Neste formato que a seleção está jogando, estamos nos adequando ao talento que nós temos para aproveitar a qualidade dos jogadores. Por isso, a gente joga com praticamente três na frente. O 3-5-2 no mundo inteiro está caindo em desuso”, afirmou, descartando uma eventual mudança de esquema. Parreira espera adversários de peso no caminho do hexa. “A Argentina está com uma equipe muita boa. Na Europa, gosto muito da Holanda. Também não vou descartar a Alemanha e a República Tcheca”.

A dupla aprovou o Campeonato Brasileiro por pontos corridos. “Acho que como segundo ano foi um sucesso absoluto. É verdade que a qualidade técnica foi razoável, mas em termos de estrutura, de programação e de planejamento foi perfeito”, disse o comandante. O Velho Lobo acha que a tradição falou mais alto no momento decisivo. “A camisa pesou na hora H, e pesou para um time que foi bem orientado, onde os jogadores souberam sustentar a liderança”, declarou. Preocupado com o futuro de sua profissão, Parreira terminou com um recado. “Aqui falta uma escola de formação. Lá fora, você só pode trabalhar depois de fazer cursos e se adaptar. Aqui o cara acaba de jogar hoje e amanhã vira técnico”.

GE.Net – A Fifa elegeu o Ronaldinho Gaúcho como melhor jogador da temporada. Você concorda com essa escolha?
Zagallo -
Concordo plenamente. Ele conquistou a Europa em pouco tempo, assim como o Ronaldo, o Rivaldo e o Romário. Agora chegou a vez do Ronaldinho. Ele está dando show de bola. É um jogador que faz tabelas e marca gols, o que é muito importante dentro do futebol. Ele é muito qualificado, um atleta de alto nível. O Ronaldinho ainda é um garoto e ainda tem muito a dar pelo futebol brasileiro.

GE.Net - O Henry, do Arsenal, e o Shevchenko, do Milan, ficaram para trás na eleição. Se você pudesse convocar apenas um deles, qual escolheria?
Parreira –
Eu continuaria com o Ronaldinho. São três baitas jogadores. O Henry foi importantíssimo na conquista do título inglês pelo Arsenal, que ficou mais de 50 partidas invicto. O Shevchenko é o vice-artilheiro do italiano pelo segundo ano consecutivo, um jogador de área, de fazer gols. São estilos diferentes, por isso acho que o Ronaldinho interpreta melhor as características de qualidade e talento.

GE.Net – Esse foi o segundo ano do Brasileiro por pontos corridos. O que você achou da competição?
Parreira -
Acho que como segundo ano foi um sucesso absoluto. É verdade que a qualidade técnica foi razoável, porque os melhores seis ou sete jogadores foram para o exterior durante a disputa. Em termos de estrutura, de programação e de planejamento foi perfeito. Não houve uma rodada adiada e agora os clubes têm um calendário a ser cumprido de março a dezembro. Acho que a gente tem que brigar por isso. O campeonato foi emocionante até ultima rodada, não apenas para quem disputava o título, mas também para quem brigava pela Libertadores, Sul-americana e contra o rebaixamento. Quando chegarmos à fórmula de 20 equipes na Primeira Divisão, vai ficar sensacional.

GE.Net – Você acha que o título brasileiro ficou em boas mãos?
Zagallo -
O Santos mereceu pelo que realizou ao longo do torneio. O Atlético teve a taça nas mãos, mas um time que quer ser campeão não pode empatar dois jogos por 3 a 3 depois de estar vencendo por 3 gols, como aconteceu nas partidas contra Juventude e Grêmio. Eles perderam o título nesses jogos e não contra o Vasco. Mas isso não tira o valor do trabalho do Luxemburgo e dos jogadores. O Santos teve o problema do Robinho e o Atlético teve a contusão do Dagoberto, até nisso teve uma perda de cada lado. Mas a camisa pesou na hora H, e pesou para um time que foi bem orientado, onde os jogadores souberam sustentar a liderança.

GE.Net – Os clubes cariocas estiveram ameaçados pelo rebaixamento até a última rodada. O que acontece com os times do Rio de Janeiro?
Zagallo -
O futebol carioca tem que levantar as mãos para cima de não ter caído ninguém, já que parecia que pelo menos dois iriam descer com certeza. O Botafogo é um time que tem grande torcida, o Flamengo é um time de massa. A gente tem que lamentar e torcer para que isso sirva de exemplo para o futuro. Os cariocas precisam se fortalecer, o futebol carioca precisa melhorar muito, não me pergunte como. Os times do Rio estiveram sempre na parte de baixo da tabela. Não é todo momento que tem sorte para salvar. Uma hora cai e vai ser difícil de subir.

GE.Net – Atlético-PR, Palmeiras e São Paulo jogaram no 3-5-2 e chegaram nas primeiras colocações. Você não gosta deste sistema?
Parreira -
Gosto de todos os esquemas. Na verdade, quem faz o esquema é o jogador. Dizem que sou adepto do 4-4-2, que eu realmente gosto muito e nunca mais pude aplicar. Apliquei na Copa de 94 e nunca mais consegui usar esse esquema. Tenho que trabalhar não em função do que eu gosto ou do que eu quero, mas sim dos jogadores que eu tenho.

GE.Net- Então você pode, eventualmente, usar o 3-5-2 na seleção brasileira?
Parreira -
Neste formato que a seleção está jogando, estamos nos adequando ao talento que nós temos para aproveitar a qualidade dos jogadores. Por isso que a gente joga com praticamente três na frente. O 3-5-2 no mundo inteiro está caindo em desuso. Na última Eurocopa, nenhuma das 16 seleções classificadas jogou com três zagueiros. Nenhuma. O mundo todo está voltando linha de quatro com marcação por zona.

GE.Net – O Brasil parece num nível muito acima dos rivais. Você coloca a seleção como principal favorita para vencer a Copa de 2006?
Parreira -
A qualidade técnica não é o fator primordial para ganhar a Copa do Mundo. Para ganhar, tem que ter trabalho, entrosamento, estruturação e equilíbrio. O time precisa suar a camisa. Todas as Copas que o Brasil conquistou foram assim: com um time unido, compacto e equilibrado. Mas sem descaracterizar o que nós temos de melhor, que é a qualidade técnica.

GE.Net – Quem você acha que pode oferecer maior resistência no Mundial da Alemanha?
Parreira -
Acho que na América do Sul a Argentina está com uma equipe muita boa. Na Europa, gosto muito da Holanda. Também não vou descartar a Alemanha, que tem melhorado com o novo treinador e não perde há sete ou oito jogos (Na verdade, a Alemanha ficou cinco jogos sem perder com Klinsmann. Série já quebrada). Além disso, eles jogarão em casa e têm muita tradição e história. Gosto muito da República Tcheca, um time muito bom tecnicamente, que marca e joga com muita velocidade. A Itália também tem que ser considerada. É uma seleção que tem jogadores excepcionais, tem muita história, muita tradição e, jogando na Europa, não pode ser desprezada. A França perde muito sem o Zidane, o jogador mais importante. O futebol inglês melhorou tecnicamente e fez uma boa participação na Eurocopa. Vamos aguardar.

GE.Net – Você acha que o vacilo no final pode complicar a vida da seleção nas Eliminatórias?
Zagallo -
Estamos fazendo uma campanha excepcional nas Eliminatórias e espero que seja excepcional também na Copa do Mundo, porque a Argentina liderou com tanta tranqüilidade as últimas Eliminatórias, mas chegou na hora H e o Brasil foi penta. Espero que consigamos a classificação e tenho certeza que o Brasil vai se classificar. O mais importante é conquistar o hexa e já estamos caminhando para isso.

GE.Net – Existem cada vez mais jogadores brasileiros no exterior. Por que isso não acontece com os técnicos?
Parreira-
Porque eles ainda não aprenderam a dimensionar e valorizar o trabalho do técnico brasileiro. Falta uma escola de formação. De um modo geral, os europeus vêem o treinador brasileiro sem a formação ideal e na verdade a gente não tem formação. Lá fora, você só pode trabalhar depois de fazer cursos e se adaptar. Aqui o cara acaba de jogar hoje e amanhã vira técnico. Talvez o idioma também atrapalhe. Como terceiro fator, que a gente sabe que não é válido, eles pensam que o jogador brasileiro resolve tudo e não precisa de treinador. Mas na verdade não é assim. O treinador é muito importante na formação da equipe.

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