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Por Bruno Ceccon, especial para a GE.Net
O presidente Ricardo Teixeira se perpetua indefinidamente
no comando da CBF. Apesar da baderna que reina no futebol
brasileiro, a seleção continua forte e novos talentos brotam
com abundância nos surrados gramados do país. O panorama mantém
o cartola no poder e adia a resolução de sérios problemas
estruturais. O manda-chuva da bola nacional conversou com
os jornalistas após anunciar um novo acordo de parceria na
capital paulista e deu motivos para preocupação com o futuro
do esporte no Brasil.
"Acho que o Brasil tem de estar preparado para perder jogador
e treinador. Até vou falar para vocês uma coisa absurda. Mas
quem não poderia dizer que nós temos tantos grandes jogadores
justamente para suprir a vaga dos que saem para o exterior?",
questionou de forma insólita. Já que ele está tão satisfeito,
nem precisaria tentar resolver o problema. "Não vamos deixar
aos atletas saírem no meio do campeonato. Eles abrem o mercado
lá na Europa, mas nós continuamos em plena atividade", afirmou
Teixeira, contraditoriamente.
O cartola também revelou que está torcendo pelo sucesso
do técnico Wanderley Luxemburgo no Real Madrid. Ele fez um
mea culpa e disse que prejudicou o trabalho do treinador na
seleção. "Foi um erro da CBF quando colocamos o técnico da
seleção principal na Olimpíada. Isso sobrecarrega o técnico,
há um excesso de cobrança e expõe muito o treinador. Isso
tudo deixou O Wanderley um pouco vulnerável e começou aquela
pressão que todos acompanharam", declarou.
Teixeira pede uma reestruturação do governo no recolhimento
de impostos dos clubes, promete uma elite com apenas 20 clubes
em 2007 e anuncia mudanças na próxima edição do Campeonato
Brasileiro. De bom, apenas a possibilidade de ver um Mundial
de perto. "Tenho o sonho de trazer a Copa de 2014 para o Brasil
e tenho convicção absoluta de que ela será realizada aqui",
disse o presidente, que abordou durante a entrevista uma suposta
trapaça da Argentina em cima do Brasil no Mundial de 1990.
GE.Net - O último Campeonato Brasileiro foi um festival
de punições aos clubes. A próxima edição do torneio terá alguma
modificação?
Ricardo Teixeira - Estamos com a perspectiva de fazer
com que o campo que tenha problemas não possa receber torcedores
durante uma determinada partida. Isso já está previsto e pode
ser uma das modificações do nosso regulamento. Mas não teremos
nenhuma grande alteração que modifique substancialmente o
campeonato.
GE.Net - Os estaduais estão começando agora e o calendário
do futebol brasileiro ainda é caótico. Como administrar esse
problema?
Ricardo Teixeira - Há 3 anos, a CBF está reorganizando
o calendário do futebol brasileiro. Em 2006 ou 2007, vamos
nos adaptar ao calendário mundial, com 20 clubes na Primeira
Divisão. De 24 para 20 times, já é um grande passo. São mais
dois meses de datas livres para férias de jogadores, que ficariam
menos sobrecarregados.
GE.Net - Um Campeonato Brasileiro com apenas 16 clubes
não seria ideal?
Ricardo Teixeira - Como querem que o Brasil faça com
campeonato com 16 clubes se a Holanda, que não é nem profissional,
tem 20 equipes? Então acredito que cada um tem seu número
ideal. O problema é data e acho que nosso número de times
ideal é 20. Disse que era favorável a 16 times não por data,
mas para contar com 16 clubes em cada divisão. Desta forma,
ninguém mais vai reclamar e você vai ter, necessariamente,
uma segunda divisão muito forte.
GE.Net - Muitos jogadores abandonaram seus clubes durante
a disputa do último Brasileiro. A CBF vai tomar alguma providência
para impedir esse êxodo?
Ricardo Teixeira - Vai se tornar proibido e até já soltamos
uma resolução sobre isso. Não vamos deixar aos atletas saírem
no meio do campeonato. Eles abrem o mercado lá na Europa,
mas nós continuamos em plena atividade. Podemos abrir novamente
quando estivermos adaptados ao calendário mundial em 2007,
com 20 times na elite. Existem vários jogadores que nem passam
pela CBF antes de sair. Queremos evitar que jogadores com
menos de 18 anos deixem o país. Mas confesso que é difícil
impedir uma pessoa de buscar melhores condições de vida.
GE.Net - Os clubes brasileiros estão na pindaíba. Como
resolver os problemas financeiros dos grandes times do Brasil?
Ricardo Teixeira - Cada clube tem que ter noção do tamanho
do problema que administra. Não defendo o calote, mas o governo
tem que reestruturar o recolhimento de impostos dos clubes
no país. É impossível pagar hora-extra para os atletas que
jogam no domingo, assim como não existe pagar insalubridade
para quem joga no domingo. Isso não é uma peculiaridade do
Brasil. Na Espanha, por exemplo, o governo quitou as dívidas
dos clubes. É preciso propiciar aos clubes que eles tenham
condições de pagar as dívidas atrasadas. Penhorar rendas e
estádios não adianta nada.
GE.Net - O Wanderley Luxemburgo teve uma passagem atribulada
pela seleção. Você está acompanhando o trabalho dele no Real
Madrid?
Ricardo Teixeira - Eu torço muito pelo Wanderley. A gente
não pode falar apenas dele, mas também do Felipão, que está
brilhando em Portugal. Acho que isso é muito bom. Espero que
abra caminho para os técnicos brasileiros, pois para os jogadores,
já está aberto. O Luxemburgo não tem que provar nada para
ninguém. Ele conquistou títulos por onde passou e está fazendo
milagres na Espanha, como ganhar aquele jogo de seis minutos.
Ele é um grande amigo e torço muito por ele.
GE.Net - Ele assumiu o comando da seleção muito prematuramente?
Ricardo Teixeira - Foi um erro da CBF quando colocamos
o técnico da seleção principal na Olimpíada. Isso sobrecarrega
o técnico, há um excesso de cobrança, expõe muito o treinador.
Isso tudo deixou ele um pouco vulnerável e começou aquela
pressão que todos acompanharam. Mas agora isso vai acabar
com o novo sistema das Olimpíadas.
GE.Net - O Brasil já é um grande exportador de jogadores.
Você não teme que o sucesso do Luxemburgo provoque uma saída
também dos treinadores?
Ricardo Teixeira - Acho que o Brasil tem que estar preparado
para perder jogador e treinador. Até vou dizer para vocês
uma coisa absurda. O Rodrigo (Paiva, assessor de imprensa
da CBF) não vai gostar, porque vai ser polêmico. Mas quem
não poderia dizer que nós temos tantos grandes jogadores justamente
para suprir a vaga dos que saem para o exterior? Você pega
a seleção da Espanha, o lateral-esquerdo que jogou de titular
na Eurocopa não jogava há 4 meses, porque era reserva do Roberto
Carlos no Real Madrid. Aqui é exatamente o contrário. Por
que o Adriano explodiu na seleção brasileira? Jogador não
pôde ir à Copa América, convocamos e ele explodiu. Talvez,
financeiramente isso seja ruim para o futebol brasileiro e
para os campeonatos, mas tecnicamente dá chance de descobrir
novos valores.
GE.Net - O jornal "O Globo" divulgou que o lateral Branco
recebeu um copo d´água batizado da comissão técnica da Argentina
na Copa de 1990. A CBF pretende tomar alguma providência?
Ricardo Teixeira - Li isso hoje, no avião. Não sei, 14
anos depois... Acho que a Fifa deve, necessariamente, analisar
esse fato. Uma vez configurado a veracidade disso, é realmente
um absurdo. Se você dá água para o adversário beber e passar
mal, acho de um profundo mau gosto e de uma ilegalidade total.
GE.Net - Você já estava no comando da CBF. Acha que isso
foi decisivo na eliminação do Brasil?
Ricardo Teixeira - Aquela foi minha primeira Copa e, com
toda honestidade, acho um absurdo, uma barbaridade. Mas acredito
que isso não influenciou no resultado e no lance do gol especificamente.
O gol foi uma jogada linda do Maradona, a gente tem que reconhecer.
O Branco nem participou da jogada. Mas se o fato for verdadeiro,
é um grande absurdo. Que sirva de exemplo: agora ninguém bebe
água.
GE.Net - Você lutou para modificar o calendário das Eliminatórias
sul-americanas. Por que o Brasil ficou sozinho nessa briga?
Ricardo Teixeira - Você não pode determinar que não conseguimos,
até porque isso ainda não foi discutido. Ainda estamos no
meio das Eliminatórias. Eu volto a dizer: sou contra o atual
modelo. Acho sacrificante. Quando a competição foi feita dessa
forma, o Brasil não participou porque tinha sido campeão em
1994. Agora que estamos jogando, achei muito sacrificante,
pesa muito. Vou lutar por duas chaves de cinco.
GE.Net - Você tem uma boa relação com a Fifa. Tem o sonho
de assumir a presidência da entidade?
Ricardo Teixeira - Eu nunca disse que tinha o sonho de
presidir a Fifa. Eu tenho apenas um grande sonho, que é trazer
a Copa de 2014 para o Brasil e tenho convicção absoluta de
que ela será realizada aqui. Já está definido que será na
América do Sul. A última Copa no continente foi em 1978, na
Argentina, a última no Brasil foi em 1950, o que não condiz
com um país pentacampeão.
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