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02/06/2005
montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press


Por Fernando Narazaki

Milan x Liverpool. O recado escrito na lousa no vestiário dois do Mineirão foi escrito pelo auxiliar-técnico Wagner Lopes, mas foi o treinador Vágner Mancini que tratou de usar muito bem a lembrança da final da Copa dos Campeões, há uma semana, para recuperar o moral do Paulista, que perdia do Cruzeiro por 3 a 0, no final do primeiro tempo, do jogo de volta das semifinais da Copa do Brasil.

Bem-entendida, a mensagem foi executada em campo e, a exemplo do Liverpool, o time de Jundiaí marcou dois gols nos quatro minutos iniciais do segundo tempo, com Cristian, conseguiu calar o Mineirão e obter a histórica vaga na final da Copa do Brasil contra o Fluminense.

Entre os jogadores, nada de Cristian, Márcio Mossoró ou o goleiro Rafael, autor de belas defesas no final da partida, como o destaque do duelo. O nome apontado por jogadores, dirigentes e os poucos torcedores que foram a Belo Horizonte foi um só: Vágner Mancini.

Jogador profissional até o ano passado, o técnico está na função desde 17 de maio de 2004, quando foi chamado às pressas pelo presidente do clube, Eduardo Palhares, para assumir a vaga deixada por Zetti, que foi para o Guarani. Neste período, Mancini levou o Galo de Jundiaí ao nono lugar na Série B, à sexta posição no Campeonato Paulista deste ano e à inesquecível vaga na final da Copa do Brasil.

Em entrevista à GE Net, o próprio treinador afirmou que não esperava uma ascensão tão rápida na nova função. A classificação para a final foi o melhor resultado da história do clube de Jundiaí, fundado há 96 anos, e da carreira de Mancini, que como jogador obteve três títulos: Campeonato Gaúcho-1995 e Copa Libertadores-1995 (pelo Grêmio) e Campeonato Cearense-2002 (pelo Ceará).

Gazeta Esportiva Net: Você chegou ao Mineirão, viu o time tomar três gols no primeiro tempo e estar fora da final. Como foi o trabalho nos vestiários para recuperar a equipe e conseguir a ida para a decisão?
Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Vágner Mancini:
O mais importante era tirar o desânimo momentâneo dos jogadores. Eles chegaram muito mal e tivemos que trabalhar este lado psicológico. Em uma decisão emocional, como a semifinal, isso dificulta muito e tínhamos de recuperar

GE Net: Os jogadores revelaram que chegaram no vestiário e viram escrito Milan x Liverpool. Isso foi decisivo para este trabalho?
Mancini: Sim. O Wagner Lopes (ex-jogador, que defendeu o Japão na Copa de 1998) escreveu na lousa e usei como exemplo. Foi uma situação que tínhamos de lembrar para mostrar aos atletas que eles poderiam mudar aquela situação. Foi um exemplo que veio na nossa cabeça e trabalhamos. No segundo tempo, o time voltou bem diferente, com postura e atitude de quem queria vencer, de quem estava em uma semifinal. Foi um time com total confiança.

GE Net: Agora você enfrenta o Fluminense. O vice já contenta o Paulista?
Mancini: Não. Este sentimento não é bom e para mim tenho que o gosto de ser vice é o mesmo de quem caiu na primeira fase. Não adianta nada você ter eliminado cinco grandes times e ficar com o vice. O trabalho é esquecido e temos de buscar o título. O time tem capacidade para isso e sabe que pode ganhar.

GE Net: Para você, a classificação foi uma surpresa?
Mancini: Não. Nós estávamos no caminho certo desde a vitória contra o Inter. A ficha caiu naquele momento para o elenco. O time mostrou o que podia fazer, acreditou e foi um divisor de águas.

GE Net: Vocês haviam vencido Juventude e Botafogo antes. Por que o Inter foi este divisor para o elenco?
Mancini: O Inter é um time arrumado e que tem chance de ganhar, inclusive, a Série A do Brasileiro. É uma equipe que conquistou o título estadual, tem um nível forte e um esquema bem arrumado. Era o teste definitivo e foi uma mostra do que éramos capazes.

GE Net: O Fluminense está na mesma condição do Inter, foi campeão estadual e tem um time arrumado. Como você projeta esta final?
Mancini: Vai ser mais difícil que o Inter. Como você disse, o Fluminense vem bem no ano e temos o peso de ser uma final. Isso acaba sendo a diferença, pois uma decisão é sempre mais difícil de se lidar. Será um jogo muito difícil, mas temos chances de vencer.

GE Net: Você tem um elenco novo nas mãos e você também é um técnico estreante. Como pretende trabalhar estes dois aspectos na final. Isso pode pesar?
Mancini: Os jogadores se acostumaram à final, sabem que envolvem muitos detalhes e estão preparados. Tivemos cinco finais, pegamos alguns dos melhores do Brasileiro (Botafogo, Juventude, Figueirense, Inter e Cruzeiro), como o Juventude que não perdeu no Brasileiro, e vencemos. Sabemos do potencial e só temos de manter a nossa forma de trabalho.

GE Net: Você disse que o divisor de águas do time foi o Inter. E o seu? Foi este jogo contra o Cruzeiro?
Mancini: Sem dúvida. Nunca tinha passado por uma situação assim, tomar três gols no primeiro tempo, isso nunca aconteceu. Tive que me equilibrar e passar calma para todo elenco. Não foi nada fácil, foi a prova que precisava. O elenco acreditou em mim e conseguimos o resultado. Foi uma vitória pessoal e um momento muito especial.

GE Net: Mancini, você assumiu o Paulista na saída do Zetti há pouco mais de um ano. Quando aceitou este desafio, pensava chegar tão longe em um período tão curto?
Mancini: Nunca. Eu não tive fase de transição. Como você citou, eu assumi o time em uma situação de emergência. Diferente de outros técnicos, não fiz estágio, não fui auxiliar, não fiz nada e tive de aprender com o tempo. Precisei lidar com situações que não estava preparado, nunca havia passado como jogador e nem sabia que cabia ao técnico. Aos poucos, com a ajuda de algumas pessoas, amigos próximos, a luz foi se ampliando e fui aprendendo. O segredo é saber que você nunca pára de aprender, minha vida é um constante aprendizado. Mas eu achava que demoraria para me firmar, estou muito feliz e surpreso.

GE Net: Lógico que ainda é prematuro, mas você está entrando em uma lista de técnicos que estão renovando o futebol brasileiro, como o Gallo (do Santos) e o Márcio (do Corinthians). E coincidentemente vocês três atuaram no meio, há alguma ligação?
Mancini: Cara, é muito bom renovar o cenário dos técnicos. Vejo isso com muita alegria, pois uma renovação tem de sempre estar acontecendo na vida. Quanto a esta coincidência, eles eram volantes e eu atuava um pouco mais avançado, mas vejo uma explicação, sim. O fato é que o futebol mudou muito nos últimos dez anos. Antes atuar com dois volantes marcadores era normal, hoje o futebol não aceita isso. O atleta tem de sair jogando e os atacantes precisam auxiliar a marcação. As idéias mudaram e nós (Mancini, Márcio e Gallo) acompanhamos este processo e, por isso, entendemos esta mudança tática. Ficou mais fácil, mas isso não é regra. Nada impede que atletas de outras posições se destaquem no banco. O importante é ter esta visão.

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