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Por Fernando Narazaki
Milan x Liverpool. O recado escrito na lousa no vestiário
dois do Mineirão foi escrito pelo auxiliar-técnico Wagner
Lopes, mas foi o treinador Vágner Mancini que tratou de usar
muito bem a lembrança da final da Copa dos Campeões, há uma
semana, para recuperar o moral do Paulista, que perdia do
Cruzeiro por 3 a 0, no final do primeiro tempo, do jogo de
volta das semifinais da Copa do Brasil.
Bem-entendida, a mensagem foi executada em campo e, a exemplo
do Liverpool, o time de Jundiaí marcou dois gols nos quatro
minutos iniciais do segundo tempo, com Cristian, conseguiu
calar o Mineirão e obter a histórica vaga na final da Copa
do Brasil contra o Fluminense.
Entre os jogadores, nada de Cristian, Márcio Mossoró ou
o goleiro Rafael, autor de belas defesas no final da partida,
como o destaque do duelo. O nome apontado por jogadores, dirigentes
e os poucos torcedores que foram a Belo Horizonte foi um só:
Vágner Mancini.
Jogador profissional até o ano passado, o técnico está na
função desde 17 de maio de 2004, quando foi chamado às pressas
pelo presidente do clube, Eduardo Palhares, para assumir a
vaga deixada por Zetti, que foi para o Guarani. Neste período,
Mancini levou o Galo de Jundiaí ao nono lugar na Série B,
à sexta posição no Campeonato Paulista deste ano e à inesquecível
vaga na final da Copa do Brasil.
Em entrevista à GE Net, o próprio treinador afirmou
que não esperava uma ascensão tão rápida na nova função. A
classificação para a final foi o melhor resultado da história
do clube de Jundiaí, fundado há 96 anos, e da carreira de
Mancini, que como jogador obteve três títulos: Campeonato
Gaúcho-1995 e Copa Libertadores-1995 (pelo Grêmio) e Campeonato
Cearense-2002 (pelo Ceará).
Gazeta Esportiva Net: Você chegou ao Mineirão, viu o
time tomar três gols no primeiro tempo e estar fora da final.
Como foi o trabalho nos vestiários para recuperar a equipe
e conseguir a ida para a decisão?
| Fotos: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press |
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Vágner Mancini: O mais importante era tirar o desânimo
momentâneo dos jogadores. Eles chegaram muito mal e tivemos
que trabalhar este lado psicológico. Em uma decisão emocional,
como a semifinal, isso dificulta muito e tínhamos de recuperar
GE Net: Os jogadores revelaram que chegaram no vestiário
e viram escrito Milan x Liverpool. Isso foi decisivo para
este trabalho?
Mancini: Sim. O Wagner Lopes (ex-jogador, que defendeu
o Japão na Copa de 1998) escreveu na lousa e usei como exemplo.
Foi uma situação que tínhamos de lembrar para mostrar aos
atletas que eles poderiam mudar aquela situação. Foi um exemplo
que veio na nossa cabeça e trabalhamos. No segundo tempo,
o time voltou bem diferente, com postura e atitude de quem
queria vencer, de quem estava em uma semifinal. Foi um time
com total confiança.
GE Net: Agora você enfrenta o Fluminense. O vice já contenta
o Paulista?
Mancini: Não. Este sentimento não é bom e para mim
tenho que o gosto de ser vice é o mesmo de quem caiu na primeira
fase. Não adianta nada você ter eliminado cinco grandes times
e ficar com o vice. O trabalho é esquecido e temos de buscar
o título. O time tem capacidade para isso e sabe que pode
ganhar.
GE Net: Para você, a classificação foi uma surpresa?
Mancini: Não. Nós estávamos no caminho certo desde
a vitória contra o Inter. A ficha caiu naquele momento para
o elenco. O time mostrou o que podia fazer, acreditou e foi
um divisor de águas.
GE Net: Vocês haviam vencido Juventude e Botafogo antes.
Por que o Inter foi este divisor para o elenco?
Mancini: O Inter é um time arrumado e que tem chance
de ganhar, inclusive, a Série A do Brasileiro. É uma equipe
que conquistou o título estadual, tem um nível forte e um
esquema bem arrumado. Era o teste definitivo e foi uma mostra
do que éramos capazes.
GE Net: O Fluminense está na mesma condição do Inter,
foi campeão estadual e tem um time arrumado. Como você projeta
esta final?
Mancini: Vai ser mais difícil que o Inter. Como você
disse, o Fluminense vem bem no ano e temos o peso de ser uma
final. Isso acaba sendo a diferença, pois uma decisão é sempre
mais difícil de se lidar. Será um jogo muito difícil, mas
temos chances de vencer.
GE Net: Você tem um elenco novo nas mãos e você também
é um técnico estreante. Como pretende trabalhar estes dois
aspectos na final. Isso pode pesar?
Mancini: Os jogadores se acostumaram à final, sabem
que envolvem muitos detalhes e estão preparados. Tivemos cinco
finais, pegamos alguns dos melhores do Brasileiro (Botafogo,
Juventude, Figueirense, Inter e Cruzeiro), como o Juventude
que não perdeu no Brasileiro, e vencemos. Sabemos do potencial
e só temos de manter a nossa forma de trabalho.
GE Net: Você disse que o divisor de águas do time foi
o Inter. E o seu? Foi este jogo contra o Cruzeiro?
Mancini: Sem dúvida. Nunca tinha passado por uma situação
assim, tomar três gols no primeiro tempo, isso nunca aconteceu.
Tive que me equilibrar e passar calma para todo elenco. Não
foi nada fácil, foi a prova que precisava. O elenco acreditou
em mim e conseguimos o resultado. Foi uma vitória pessoal
e um momento muito especial.
GE Net: Mancini, você assumiu o Paulista na saída do
Zetti há pouco mais de um ano. Quando aceitou este desafio,
pensava chegar tão longe em um período tão curto?
Mancini: Nunca. Eu não tive fase de transição. Como
você citou, eu assumi o time em uma situação de emergência.
Diferente de outros técnicos, não fiz estágio, não fui auxiliar,
não fiz nada e tive de aprender com o tempo. Precisei lidar
com situações que não estava preparado, nunca havia passado
como jogador e nem sabia que cabia ao técnico. Aos poucos,
com a ajuda de algumas pessoas, amigos próximos, a luz foi
se ampliando e fui aprendendo. O segredo é saber que você
nunca pára de aprender, minha vida é um constante aprendizado.
Mas eu achava que demoraria para me firmar, estou muito feliz
e surpreso.
GE Net: Lógico que ainda é prematuro, mas você está entrando
em uma lista de técnicos que estão renovando o futebol brasileiro,
como o Gallo (do Santos) e o Márcio (do Corinthians). E coincidentemente
vocês três atuaram no meio, há alguma ligação?
Mancini: Cara, é muito bom renovar o cenário dos técnicos.
Vejo isso com muita alegria, pois uma renovação tem de sempre
estar acontecendo na vida. Quanto a esta coincidência, eles
eram volantes e eu atuava um pouco mais avançado, mas vejo
uma explicação, sim. O fato é que o futebol mudou muito nos
últimos dez anos. Antes atuar com dois volantes marcadores
era normal, hoje o futebol não aceita isso. O atleta tem de
sair jogando e os atacantes precisam auxiliar a marcação.
As idéias mudaram e nós (Mancini, Márcio e Gallo) acompanhamos
este processo e, por isso, entendemos esta mudança tática.
Ficou mais fácil, mas isso não é regra. Nada impede que atletas
de outras posições se destaquem no banco. O importante é ter
esta visão.
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