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03/06/2005
montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Por Bruno Ceccon, especial para GE.Net

Ao invés de prancheta, vídeos e apresentações em data-show. Alongamento antes dos treinamentos, só depois de algumas palavras do professor Paulo César Gusmão, devidamente acompanhadas por imagens dos jogadores em ação. No intervalo de cada partida, a ordem é descer rapidamente as escadas dos vestiários para uma nova sessão. Esse método de trabalho inovador levou o Botafogo à liderança isolada do Brasileirão.

Discípulo de Wanderley Luxemburgo, PC já caminha com as próprias pernas e faz questão de dividir os méritos pelo sucesso. “Eu não sou o principal responsável, pode esquecer isso. O mais importante é você conhecer as suas limitações e se doar ao máximo”. A missão do treinador é apenas administrar o bom momento. “Hoje o time está jogando com prazer, a equipe treina com felicidade. O ambiente está muito bom”.

No topo da tabela de classificação do Nacional, Gusmão alerta que o Botafogo não pode correr o risco de tropeçar nas próprias deficiências. “Obviamente, o atraso dos salários influencia como em qualquer outra empresa. Se você não paga os seus funcionários corretamente, eles podem não corresponder no cotidiano do trabalho. Inegavelmente, isso afeta o rendimento”, reconheceu o comandante alvinegro.

Com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro, Paulo César Gusmão fez uma confissão interessante durante a entrevista exclusiva concedida à GE.Net . “Eu já trabalhei no Vasco, Cruzeiro, Flamengo e o time que me ofereceu mais condições foi a Cabofriense. Aprendi muita coisa em Cabo Frio e uso isso no Botafogo hoje. Foi a minha melhor experiência como técnico”, revelou.

GE.Net – No momento em que você assumiu o comando do Botafogo, quais os objetivos traçados com a diretoria. Pensavam em brigar pelo título ou em fugir do rebaixamento?
PC –
O mais importante é você conhecer as suas limitações. Os jogadores precisam admitir suas limitações e, pensando nisso, se doarem ao máximo. Por outro lado, é claro que você tem que ter ambições. É verdade que existem adversários mais fortes, porém hoje nós estamos bem próximos daquilo que podemos render. Quando cheguei, a gente não esperava brigar pela primeira posição, mas o plano era estar lutando entre os cinco, seis no topo da tabela.

GE.Net – Você está sendo apontado como principal responsável pelo ressurgimento do Botafogo. Sem falsa modéstia, quanto disso é culpa sua?
PC –
Eu não sou o principal responsável, pode esquecer isso. O maior responsável é o grupo. Quando o grupo todo está comprometido, você pode alcançar os seus objetivos. O papel do técnico é chegar e conscientizar os atletas, fazer com que eles acreditem nas suas possibilidades. O treinador tem que tirar o melhor de cada um. Hoje o time está jogando com prazer, a equipe treina com felicidade. O ambiente está muito bom. Com essa sintonia, vamos progredindo juntos.

GE.Net – Você reconheceu que o Botafogo tem limitações. Até onde esse time pode chegar no Campeonato Brasileiro?
PC –
Isso depende muito da força interior de cada jogador, é impossível prever essas coisas. A capacidade de superação do elenco determina até onde o time pode chegar. Temos vários exemplos no futebol atual. O Paulista está na final da Copa do Brasil, o Liverpool conquistou o título europeu e ninguém confiava nessas equipes. Eu procuro citar esses exemplos com freqüência para os meus jogadores. Os modelos estão do nosso lado e devem ser observados.

GE.Net – A goleada diante do Goiás foi o momento mais delicado do Botafogo no torneio. Você ficou com medo do time despencar?
PC –
De forma alguma. Eu sempre mantive a confiança no trabalho. Essa derrota foi boa para mostrar que nosso time tem suas limitações. De uma certa forma, acredito que essa goleada contra o Goiás teve aspectos positivos. Sabe quando perder é necessário? Então, foi exatamente esse o caso.

GE.Net – O Botafogo tem jogado bem no estádio Luso-Brasileiro. Você acha que o campo pode virar um alçapão ao longo do Campeonato Brasileiro?
PC –
Com certeza. Assim como o Santos joga bem na Vila Belmiro e o Palmeiras não perde no Parque Antártica, tenho certeza que vai ser muito difícil ganhar do Botafogo lá dentro da Arena.

GE.Net – A diretoria está encontrando dificuldades para pagar os salários. Como isso repercute entre os atletas?
PC –
Eles estão tendo dificuldades, mas estão correndo atrás. Pelo que já atrasou nos últimos anos, agora está tranqüilo, pois estamos com apenas 11 dias de atraso. Mas obviamente, o atraso dos salários influencia como em qualquer outra empresa. Se você não paga os seus funcionários corretamente, eles podem não corresponder no cotidiano do trabalho. Inegavelmente, isso afeta o rendimento. O importante é que os salários já estão praticamente em dia.

GE.Net – Você sempre fala que o Botafogo precisa de contratações, mas a diretoria não consegue nem pagar os salários. Ainda tem esperança na chegada de algum reforço?
PC –
Se você tiver ambições dentro do campeonato, precisa mesmo de reforços. Eu confio na chegada de novas contratações. Você não precisa fazer nenhuma transferência milionária para montar uma equipe competitiva. O Botafogo é uma prova disso. Estamos na liderança isolada depois de seis rodadas com contratações modestas e negociações com clubes menores.

GE.Net – Você é a antítese dos técnicos de prancheta, já que tem métodos inovadores de trabalho. Queria que você explicasse como atua no cotidiano com seus atletas?
PC –
Eu tenho um auxiliar técnico que me ajuda dentro do gramado e outro que grava as imagens que eu utilizo para trabalhar. Além dos jogos, nós gravamos também os treinamentos. Eu mostro as imagens antes dos jogos, no intervalo das partidas e até mesmo antes dos treinamentos.

GE.Net – Os jogadores assimilam bem esse tipo de trabalho? Como foi a reação do elenco no começo?
PC –
No começo, sempre tem aquele impacto da novidade. Mas todas as surpresas boas deixam conseqüências positivas. Os jogadores têm entendido muito bem a minha estratégia. É muito mais eficaz corrigir as coisas baseado nas imagens, até facilita o entendimento do atleta. Uma prova de que funciona é quando mostro as imagens nos intervalos. O time melhora bastante do primeiro para o segundo tempo.

GE.Net – Você conhece bem o criticado futebol carioca. É surpreendente esse bom começo de Botafogo e Fluminense?
PC –
O futebol carioca tem que ser criticado mesmo. O esporte aqui no Rio de Janeiro simplesmente não evoluiu, parou no tempo. O pensamento dos dirigentes agora é estruturar os clubes. O Botafogo tem o básico. Temos um bom centro de treinamento, sala de musculação e fisiologia, alojamento, mas isso tudo é o básico. Já melhorou bastante, porém ainda continua bem abaixo dos outros centros do país. Não tem nem comparação com equipes como São Paulo e Cruzeiro, por exemplo.

GE.Net – Você trabalhou muito tempo com o Luxemburgo, um especialista em pontos corridos. Como encara as comparações com ele?
PC –
Eu tenho muito orgulho de ser comparado com ele, coloco o Wanderley como referência. Apesar de termos trabalhado juntos durante muito tempo, nossos estilos de comandar são bem diferentes. Mesmo ele estando dirigindo o Real Madrid, continuamos conversando bastante. Temos alguns amigos em comum e procuramos manter o contato. Ele realmente é muito bom nos pontos corridos e saberia que esse campeonato ainda vai mudar muito, só a partir de 16ª rodada vamos saber quem é quem.

GE.Net – Uma prova de seu estilo próprio foi abandonar o Flamengo na última temporada. Você reapareceu no modesto Cabofriense. Se arrepende de alguma decisão?
PC –
Às vezes, na vida você tem que dar alguns passos para trás para evoluir. Eu não me arrependo de nada. O período que passei na Cabofriense foi a minha melhor experiência como técnico. Participei de um projeto muito bonito de montagem e estruturação do clube. Eu aprendi muita coisa em Cabo Frio, coisas que têm sido bem importantes no próprio Botafogo.

GE.Net – Você voltou a experimentar o sucesso no comando de um time grande. Quais são suas pretensões para o futuro da carreira?
PC –
Eu já trabalhei no Vasco, Cruzeiro, Flamengo e o time que me ofereceu mais condições foi a Cabofriense. A gente sentou com a diretoria e traçou os objetivos, que foram cumpridos antes mesmo do final da competição. São trabalhos como esse que eu espero para a seqüência da minha carreira.

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