|
Por Bruno Ceccon, especial para GE.Net
Ao invés de prancheta, vídeos e apresentações em data-show.
Alongamento antes dos treinamentos, só depois de algumas palavras
do professor Paulo César Gusmão, devidamente acompanhadas
por imagens dos jogadores em ação. No intervalo de cada partida,
a ordem é descer rapidamente as escadas dos vestiários para
uma nova sessão. Esse método de trabalho inovador levou o
Botafogo à liderança isolada do Brasileirão.
Discípulo de Wanderley Luxemburgo, PC já caminha com as
próprias pernas e faz questão de dividir os méritos pelo sucesso.
“Eu não sou o principal responsável, pode esquecer isso. O
mais importante é você conhecer as suas limitações e se doar
ao máximo”. A missão do treinador é apenas administrar o bom
momento. “Hoje o time está jogando com prazer, a equipe treina
com felicidade. O ambiente está muito bom”.
No topo da tabela de classificação do Nacional, Gusmão alerta
que o Botafogo não pode correr o risco de tropeçar nas próprias
deficiências. “Obviamente, o atraso dos salários influencia
como em qualquer outra empresa. Se você não paga os seus funcionários
corretamente, eles podem não corresponder no cotidiano do
trabalho. Inegavelmente, isso afeta o rendimento”, reconheceu
o comandante alvinegro.
Com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro,
Paulo César Gusmão fez uma confissão interessante durante
a entrevista exclusiva concedida à GE.Net . “Eu já
trabalhei no Vasco, Cruzeiro, Flamengo e o time que me ofereceu
mais condições foi a Cabofriense. Aprendi muita coisa em Cabo
Frio e uso isso no Botafogo hoje. Foi a minha melhor experiência
como técnico”, revelou.
GE.Net – No momento em que você assumiu o comando do
Botafogo, quais os objetivos traçados com a diretoria. Pensavam
em brigar pelo título ou em fugir do rebaixamento?
PC – O mais importante é você conhecer as suas limitações.
Os jogadores precisam admitir suas limitações e, pensando
nisso, se doarem ao máximo. Por outro lado, é claro que você
tem que ter ambições. É verdade que existem adversários mais
fortes, porém hoje nós estamos bem próximos daquilo que podemos
render. Quando cheguei, a gente não esperava brigar pela primeira
posição, mas o plano era estar lutando entre os cinco, seis
no topo da tabela.
GE.Net – Você está sendo apontado como principal responsável
pelo ressurgimento do Botafogo. Sem falsa modéstia, quanto
disso é culpa sua?
PC – Eu não sou o principal responsável, pode esquecer
isso. O maior responsável é o grupo. Quando o grupo todo está
comprometido, você pode alcançar os seus objetivos. O papel
do técnico é chegar e conscientizar os atletas, fazer com
que eles acreditem nas suas possibilidades. O treinador tem
que tirar o melhor de cada um. Hoje o time está jogando com
prazer, a equipe treina com felicidade. O ambiente está muito
bom. Com essa sintonia, vamos progredindo juntos.
GE.Net – Você reconheceu que o Botafogo tem limitações.
Até onde esse time pode chegar no Campeonato Brasileiro?
PC – Isso depende muito da força interior de cada jogador,
é impossível prever essas coisas. A capacidade de superação
do elenco determina até onde o time pode chegar. Temos vários
exemplos no futebol atual. O Paulista está na final da Copa
do Brasil, o Liverpool conquistou o título europeu e ninguém
confiava nessas equipes. Eu procuro citar esses exemplos com
freqüência para os meus jogadores. Os modelos estão do nosso
lado e devem ser observados.
GE.Net – A goleada diante do Goiás foi o momento mais
delicado do Botafogo no torneio. Você ficou com medo do time
despencar?
PC – De forma alguma. Eu sempre mantive a confiança no
trabalho. Essa derrota foi boa para mostrar que nosso time
tem suas limitações. De uma certa forma, acredito que essa
goleada contra o Goiás teve aspectos positivos. Sabe quando
perder é necessário? Então, foi exatamente esse o caso.
GE.Net – O Botafogo tem jogado bem no estádio Luso-Brasileiro.
Você acha que o campo pode virar um alçapão ao longo do Campeonato
Brasileiro?
PC – Com certeza. Assim como o Santos joga bem na Vila
Belmiro e o Palmeiras não perde no Parque Antártica, tenho
certeza que vai ser muito difícil ganhar do Botafogo lá dentro
da Arena.
GE.Net – A diretoria está encontrando dificuldades para
pagar os salários. Como isso repercute entre os atletas?
PC – Eles estão tendo dificuldades, mas estão correndo
atrás. Pelo que já atrasou nos últimos anos, agora está tranqüilo,
pois estamos com apenas 11 dias de atraso. Mas obviamente,
o atraso dos salários influencia como em qualquer outra empresa.
Se você não paga os seus funcionários corretamente, eles podem
não corresponder no cotidiano do trabalho. Inegavelmente,
isso afeta o rendimento. O importante é que os salários já
estão praticamente em dia.
GE.Net – Você sempre fala que o Botafogo precisa de contratações,
mas a diretoria não consegue nem pagar os salários. Ainda
tem esperança na chegada de algum reforço?
PC – Se você tiver ambições dentro do campeonato, precisa
mesmo de reforços. Eu confio na chegada de novas contratações.
Você não precisa fazer nenhuma transferência milionária para
montar uma equipe competitiva. O Botafogo é uma prova disso.
Estamos na liderança isolada depois de seis rodadas com contratações
modestas e negociações com clubes menores.
GE.Net – Você é a antítese dos técnicos de prancheta,
já que tem métodos inovadores de trabalho. Queria que você
explicasse como atua no cotidiano com seus atletas?
PC – Eu tenho um auxiliar técnico que me ajuda dentro
do gramado e outro que grava as imagens que eu utilizo para
trabalhar. Além dos jogos, nós gravamos também os treinamentos.
Eu mostro as imagens antes dos jogos, no intervalo das partidas
e até mesmo antes dos treinamentos.
GE.Net – Os jogadores assimilam bem esse tipo de trabalho?
Como foi a reação do elenco no começo?
PC – No começo, sempre tem aquele impacto da novidade.
Mas todas as surpresas boas deixam conseqüências positivas.
Os jogadores têm entendido muito bem a minha estratégia. É
muito mais eficaz corrigir as coisas baseado nas imagens,
até facilita o entendimento do atleta. Uma prova de que funciona
é quando mostro as imagens nos intervalos. O time melhora
bastante do primeiro para o segundo tempo.
GE.Net – Você conhece bem o criticado futebol carioca.
É surpreendente esse bom começo de Botafogo e Fluminense?
PC – O futebol carioca tem que ser criticado mesmo. O
esporte aqui no Rio de Janeiro simplesmente não evoluiu, parou
no tempo. O pensamento dos dirigentes agora é estruturar os
clubes. O Botafogo tem o básico. Temos um bom centro de treinamento,
sala de musculação e fisiologia, alojamento, mas isso tudo
é o básico. Já melhorou bastante, porém ainda continua bem
abaixo dos outros centros do país. Não tem nem comparação
com equipes como São Paulo e Cruzeiro, por exemplo.
GE.Net – Você trabalhou muito tempo com o Luxemburgo,
um especialista em pontos corridos. Como encara as comparações
com ele?
PC – Eu tenho muito orgulho de ser comparado com ele,
coloco o Wanderley como referência. Apesar de termos trabalhado
juntos durante muito tempo, nossos estilos de comandar são
bem diferentes. Mesmo ele estando dirigindo o Real Madrid,
continuamos conversando bastante. Temos alguns amigos em comum
e procuramos manter o contato. Ele realmente é muito bom nos
pontos corridos e saberia que esse campeonato ainda vai mudar
muito, só a partir de 16ª rodada vamos saber quem é quem.
GE.Net – Uma prova de seu estilo próprio foi abandonar
o Flamengo na última temporada. Você reapareceu no modesto
Cabofriense. Se arrepende de alguma decisão?
PC – Às vezes, na vida você tem que dar alguns passos
para trás para evoluir. Eu não me arrependo de nada. O período
que passei na Cabofriense foi a minha melhor experiência como
técnico. Participei de um projeto muito bonito de montagem
e estruturação do clube. Eu aprendi muita coisa em Cabo Frio,
coisas que têm sido bem importantes no próprio Botafogo.
GE.Net – Você voltou a experimentar o sucesso no comando
de um time grande. Quais são suas pretensões para o futuro
da carreira?
PC – Eu já trabalhei no Vasco, Cruzeiro, Flamengo e o
time que me ofereceu mais condições foi a Cabofriense. A gente
sentou com a diretoria e traçou os objetivos, que foram cumpridos
antes mesmo do final da competição. São trabalhos como esse
que eu espero para a seqüência da minha carreira.
|