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29/07/2005
montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Bruno Ceccon, especial para o GE.Net

O vermelho vibrante das camisetas ainda é o mesmo, mas muita coisa mudou dentro do Beira-Rio desde o histórico tricampeonato de Ênio Andrade na década de 70. A alma castelhana de ícones como Falcão, Tesourinha e Valdomiro perdeu um pouco de seu espaço e, desde 2001, na gestão do presidente Fernando Miranda, o clube aposta nos "forasteiros". Prova disso é a solidão de Rafael Sóbis, um dos únicos jogadores do time atual formado nas categorias de base, na equipe que jogou contra o Paraná Clube, pela 15ª rodada do Brasileirão.

Paulista de Santos, o jovem Élder Granja é um símbolo da nova filosofia do Internacional. Com passagens pelo Corinthians de Alagoas e Portuguesa, o garoto precisou suar muito para exterminar a desconfiança da torcida colorada. “A torcida é muito preconceituosa em relação aos jogadores que vêm de fora. No começo, eu tive problemas com essas coisas. Sofri bastante com as vaias no início, mas hoje consegui conquistar a confiança de todos”.

Versátil, Granja abandonou a meia direita e achou seu lugar na lateral para cair nas graças do exigente Muricy Ramalho. A boa fase do Inter no Campeonato Brasileiro anima o jogador, que já pensa em vôos mais altos. “A torcida colorada é muito carente de títulos de expressão internacional. Até pelo fato de o Grêmio já ter conquistado a Libertadores, a torcida do Inter também tem muita vontade de ver o time campeão”.

Aos 23 anos, Granja mostra personalidade no momento de falar sobre o futuro. “Não tenho receio de sair e não dar certo. Muitas vezes, o brasileiro percebe que está crescendo e assume uma postura acomodada. Isso atrapalha e desvaloriza o jogador nacional no exterior”, diz o atleta, que tem contrato até 2007 com o time gaúcho. No final, um recado para o arqui-rival. “O Grêmio tem que seguir o caminho dele. Quem sabe assim, poderemos ter um Gre-Nal ano que vem”.

Fotos: Djalma Vassao/Gazeta Press

GE.Net – Mesmo sendo um jogador de fora, você acumula mais de 100 partidas pelo Inter e participou do tricampeonato gaúcho. Como foi sua adaptação ao clube?
Élder Granja -
Eu tive uma adaptação muito rápida no Sul. Contei com o apoio de todo mundo desde o início, especialmente da diretoria e do Muricy. A torcida é muito preconceituosa em relação aos jogadores que vêm de fora. No começo, eu tive problemas com essas coisas. Sofri bastante com as vaias no início, mas hoje consegui conquistar a confiança dos colorados.

GE.Net – Você tem se destacado como um jogador eficiente nas assistências. Só neste ano, já foram oito. Você procura trabalhar este fundamento?
Élder Granja -
Eu comecei jogando na meia e depois passei para a lateral com o professor Muricy Ramalho. Atuando nessa função, tenho a oportunidade de cair pelo meio e chegar mais perto do gol para deixar meus companheiros em condições de marcar. Eu tenho essa facilidade. Treino bastante durante os trabalhos diários e tem dado certo durante os jogos.

GE.Net – Como foi essa troca de posição? Onde você se sente mais a vontade para jogar?
Élder Granja -
Troquei de posição com o Muricy em 2003. Ele não tinha ninguém para escalar na ala direita e resolveu me improvisar nesse setor. Hoje eu não considero mais a possibilidade de jogar na meia, sou um lateral-direito. No esquema 3-5-2, você acaba ficando mais a vontade para atacar, porque sabe que sempre tem a segurança da cobertura para evitar o contra-ataque.

GE.Net – Mesmo com o assédio de clubes de todo o Brasil, o Muricy continua no Inter. Como é a relação dele com os jogadores?
Élder Granja -
A gente chegou ao Internacional mais ou menos na mesma época, em 2003. O professor Muricy é um grande treinador. Ele é um técnico daqueles bem chatos, que cobra muito de cada jogador. Para ele, nada nunca está bom. Mas fora de campo, ele é muito amigo de todos os atletas. Se o time está vivendo essa boa fase hoje, pode ter certeza que ele tem uma boa parcela nisso.

GE.Net – O Inter vem fazendo uma boa temporada. Depois do título estadual, o time estava bem na Copa do Brasil. Já deu para engolir aquela eliminação contra o Paulista nos pênaltis?*
Élder Granja
- É claro que é impossível engolir uma eliminação como aquela. Mas a gente tem que tentar esquecer tudo aquilo que aconteceu e pensar no Campeonato Brasileiro, onde temos boas possibilidades de vencer. No momento, ficamos com muita raiva e não conseguíamos aceitar a decisão do juiz de forma alguma. Enfim, são coisas que acontecem no futebol.
* Na decisão de uma vaga nas quartas-de-final da Copa do Brasil, o árbitro Djalma Beltrami anulou um gol legal de Perdigão nas cobranças de pênalti e deu a vaga ao Paulista, futuro campeão.

GE.Net – Pelo bom começo no Brasileiro, muitos apontam o Inter como favorito. Até onde você acha que a equipe pode chegar?
Élder Granja -
Acredito que temos todas as condições de brigar pelo título. Contamos com um elenco muito bem qualificado. Se mantivermos esse ritmo, podemos chegar longe. Mas não podemos falar em favoritismo. O Campeonato Brasileiro é muito nivelado. Ninguém esperava que a gente fosse perder de 2 a 0 para o Paraná, por exemplo. Num torneio como esse, é complicado falar em favoritismo.

GE.Net – Na Sul-americana do ano passado, deu para ver como a torcida gosta de competições deste nível...
Élder Granja -
A torcida colorada é muito carente de títulos de expressão internacional. No ano passado, fizemos uma grande campanha na Sul-americana. Levamos quase cinco mil torcedores à Bombonera na final contra o Boca e o Beira-Rio tinha mais de 60 mil pessoas no primeiro jogo. Até pelo fato de o Grêmio já ter conquistado a Libertadores, a torcida do Inter também tem muita vontade de ver o time campeão.

GE.Net – Como está sendo disputar o Brasileiro com o Grêmio na Segunda Divisão. Mudou alguma coisa para vocês?
Élder Granja -
O clássico Gre-Nal é uma partida muito especial, que pára o Rio Grande do Sul. O jogo entre os dois rivais é como se fosse uma competição à parte. Mas agora, a gente tem que seguir nosso caminho na Série A e eles têm que correr atrás na Segunda Divisão. Quem sabe assim, poderemos disputar um Gre-Nal na próxima temporada. Cada um tem que lutar pelos seus objetivos.

GE.Net – De alguma maneira, a cobrança em cima do Internacional aumentou com essa situação?
Élder Granja -
É complicado ter um campeão do mundo disputando a Segunda Divisão. Acho que a cobrança fica mais em cima deles mesmo. Se eu disser que estou torcendo para eles voltarem, é claro que vão querer me matar depois. Mas jogar um Gre-Nal é realmente uma coisa muito especial. O Grêmio tem que seguir o caminho dele. Tenho visto alguns jogos e acho que eles conseguem a classificação entre os oito. Mas a nossa torcida está adorando, principalmente se eles não conseguirem subir.

GE.Net – Seu nome foi vinculado ao Sporting de Lisboa no começo do mês. Teve alguma coisa de verdade nesse suposto interesse?
Élder Granja -
Tudo não passou de mera especulação. Para mim, ninguém falou nada. Vontade de sair, todo mundo tem. Mas o Inter está vivendo um momento bom e eu também atravesso uma boa fase no clube, acho que não é a hora de sair. Minha cabeça está totalmente voltada para o Inter. Se aparecer alguma coisa, vou deixar a cargo do meu empresário e do presidente.

GE.Net – Muitos jovens como você deixam o Brasil e fracassam no exterior. Você tem esse tipo de receio?
Élder Granja -
Muitas vezes, o brasileiro acaba fazendo as coisas erradas. O atleta percebe que está crescendo e assume uma postura acomodada. Isso atrapalha e desvaloriza o jogador nacional no exterior. Os argentinos, por exemplo, não costumam fazer esse tipo de coisa. Eu não tenho esse receio de sair e não dar certo. Se acontecer uma eventual negociação, vou continuar dando o meu máximo.

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