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25/08/05

 

Fábio Matos, especial para a GE.Net

A trajetória de Kaká no futebol europeu foi iniciada, para muitos, de forma prematura. Em 2003, o então meia do São Paulo se despediu do clube do Morumbi – seu “time de coração”, como costuma citar – para tentar a sorte no poderoso Milan. A negociação foi facilitada pelo ex-jogador Leonardo, então dirigente do clube italiano, atento ao despertar de um craque fadado a se dar bem na Europa.

Embora a desconfiança não fosse desprezível – muitos entendiam que Kaká, aos 21 anos, não estivesse “preparado” para emplacar no disputado Cálcio –, o meia deixou o Tricolor apenas com o título do Torneio Rio-São Paulo no currículo e sob protestos isolados de parte da torcida são-paulina. Pois a escolha se mostrou, logo no primeiro ano, acertada.

Na temporada 2003/2004, ao contrário do que a própria cúpula do Milan esperava, Kaká ‘explodiu’: desbancou o pentacampeão Rivaldo na equipe titular, se firmou como xodó dos torcedores, fez gols decisivos, conquistou o grupo e a confiança do técnico Carlo Ancelotti e, de quebra, faturou o scudetto. O Milan terminou o Campeonato Italiano com 82 pontos em 24 partidas, nove a mais que a vice-campeã Roma.

No ano seguinte, o segundo de Kaká na Europa, o desempenho individual talvez não tenha sido tão avassalador quanto na primeira temporada fora do Brasil, mas a participação tática do jogador foi fundamental para o Milan novamente brigar por títulos.

Kaká fechou o ano sem taças, perdendo o Italiano para a rival Juventus e a Copa dos Campeões para o Liverpool, mas não desapontou: na decisão européia, por exemplo, apesar da derrota nos pênaltis para o Liverpool por 3 a 2 (no tempo normal, houve empate por 3 a 3, após o Milan ter aberto uma vantagem de 3 a 0), o jogador teve uma das melhores atuações de sua vida.

Tanto esforço foi recompensado pela Uefa, em cerimônia realizada nesta quinta-feira: Kaká foi eleito o melhor meia da temporada européia. “Estou muito feliz por mais esse reconhecimento. É um grande orgulho para mim ser apontado como o melhor meio-campista da Europa”, disse, após a premiação. “Quero dividir esse momento com todos os companheiros de Milan”.

Nesta entrevista exclusiva à GE.Net, realizada às vésperas da cerimônia da Uefa, o milanista que conquistou os italianos por seu futebol e pelo carisma fala sobre suas expectativas para a temporada 2005/2006 e ainda dá seus pitacos a respeito de Robinho, seleção brasileira e do ex-clube, o São Paulo. Aliás, Kaká manda um recado: pretende permanecer no Milan por um longo período e, se possível, encerrar a carreira no Tricolor.

Alguns jogadores brasileiros que tentam a sorte na Europa fracassam por não agradarem aos treinadores taticamente. Além de sua qualidade técnica, você é muito elogiado exatamente por conta da inteligência tática no esquema do Milan. O atleta brasileiro precisa mudar seu estilo se quiser fazer sucesso na Europa?
O jogador brasileiro já está mudando e, por isso, estamos conseguindo mais espaço por aqui. O brasileiro, em geral, está acompanhando mais o futebol europeu. Todos os principais torneios são transmitidos pela televisão aberta e fechada no Brasil, e isso capacita ainda mais o jogador para não enfrentar surpresas quando desembarcar por aqui. Acho também que muitos aprenderam com os exemplos fracassados do passado e não cometem os mesmos erros.

O mercado italiano era considerado, há alguns anos, o mais forte do Velho Continente. Depois, a badalação se voltou à Espanha e, agora, muito se fala sobre a Inglaterra. Afinal, o que fortalece um campeonato?
Acho que esses três são realmente os mais fortes da Europa. O que fortalece um campeonato são os craques, as grandes contratações e as trocas, o que faz com que os jogadores da liga toda elevem o nível.

Muito se fala que, na Itália, os grandes clubes estão cada vez mais fortes e os pequenos, cada vez mais fracos. O título desta temporada só será mesmo disputado novamente entre Milan, Juventus e Internazionale ou pode surgir uma outra força?
Há outras forças. Em 2004, por exemplo, fomos campeões disputando contra a Roma, que recentemente ganhou o título. Podem surgir outros times fortes também.

Mais uma vez, houve grande demora na divulgação da tabela do Campeonato Italiano por conta da polêmica envolvendo o Genoa (promovido à Série A, o clube se envolveu em manipulação de um resultado e foi expulso do campeonato pela Federação). Você acha que esse tipo de confusão é algo que atrapalha o futebol italiano ou é importante para que todas as denúncias sejam apuradas?
Acho que houve erros e que esses erros foram, de alguma, forma punidos. É sempre ruim uma crise como essa, mas seria pior se tudo tivesse acabado em ‘pizza’, como dizemos no Brasil.

No decorrer das negociações entre Robinho, Santos e Real Madrid, muito se falou sobre o jogador abrir mão de sua parte na transferência. Você fez isso quando deixou o São Paulo para o Milan. Valeu a pena, pelo reconhecimento que veio depois? Aconselha mais jogadores a terem a mesma atitude?
A minha negociação foi muito boa para mim, para o Milan e para o São Paulo. Disso, eu tenho certeza absoluta. E isso deve ser um parâmetro a ser usado. Uma negociação deve ser vista como um todo, e não só por um aspecto específico como esse.

Robinho será o melhor do mundo vestindo a camisa do Real?
Futebol para isso ele tem, mas há vários fatores que podem influenciar positiva e negativamente. Não se pode cobrar isso dele e não acredito que isso deve nortear a carreira de um jogador. Conquistando títulos, acontecerá naturalmente.

Em sua primeira temporada no Milan, você despontou como um dos protagonistas do scudetto 2003/2004. No segundo ano, se firmou como ídolo da torcida, mas perdeu o Italiano para a Juventus e a Copa dos Campeões para o Liverpool. O que foi determinante para a perda dos dois títulos?
Não vejo um motivo determinante para isso, são coisas do futebol. Fizemos nosso melhor nos dois casos, mas não deu. No futebol, são muitos detalhes que contam em uma decisão.

Qual seu plano em relação ao Milan? Pretende se firmar como um dos maiores nomes da história do clube e permanecer por um longo período, ou não descarta uma transferência para outro grande europeu?
Eu estou bem aqui e espero ficar bastante tempo no Milan. Me adaptei muito bem, fui bem recebido e estou feliz. O Milan é um dos maiores clubes da Europa, e não vejo motivo pra mudar.

Você pretende encerrar a carreira no São Paulo?
É um desejo que tenho. Não posso negar, pois é meu clube de coração e também é o clube que me projetou. Não dá para prever o futuro, vamos ver se terei essa oportunidade.

Após a saída de jogadores como você e Júlio Baptista do São Paulo, formou-se um grupo que ganhou fama de mais "guerreiro" e menos técnico – que acabou se consagrando na conquista da Libertadores de 2005. Você acompanhou o tricampeonato? Como encara o título e a mudança no perfil da equipe?

Acompanhei a Libertadores, sim, mas acabei não vendo a final pois estava voando para o Brasil na mesma noite. Muita coisa deve ter mudado por lá (no São Paulo) desde que eu saí, e não posso julgar o que, de fato, foi determinante para essa conquista.

Você tem acompanhado a má fase atual do Tricolor, que terminou o 1º turno do Brasileiro na zona de rebaixamento? O que pode explicar essa queda após um título tão importante? O São Paulo pode ir para a Série B?
Tenho acompanhado e torço muito para essa situação melhorar. O São Paulo tem time para reverter o quadro e, com o tempo, eu acredito que eles melhorarão a situação na tabela.

Após o título da Copa das Confederações e a quase garantida vaga no Mundial, qual sua expectativa em relação à seleção brasileira na Copa? Quais serão os principais adversários do Brasil?
O Brasil será sempre um dos favoritos ao título mundial. Sempre foi assim. Será uma Copa do Mundo muito difícil para nós, pois todos querem ganhar da seleção pentacampeã. Vejo Alemanha, Argentina, Portugal, Itália e Inglaterra como outros fortes candidatos. Espero estar lá com o Brasil e fazer um grande Mundial.

Você, Ronaldinho, Ronaldo, Robinho e Adriano. Os cinco podem jogar juntos? Se não, quem sai?
Esse é um "problema" que o professor (Carlos Alberto) Parreira, que é muito capacitado para isso, deve resolver. A possibilidade de jogarmos junto é uma escolha tática do treinador.

*Veja mais detalhes do imbróglio envolvendo o Genoa no texto sobre o Campeonato Italiano (Turbulento, Italiano deve manter disputa restrita ao ‘trio de ferro’).

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