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Fábio Matos, especial para a GE.Net
A trajetória de Kaká no futebol europeu foi iniciada, para
muitos, de forma prematura. Em 2003, o então meia do São Paulo
se despediu do clube do Morumbi – seu “time de coração”, como
costuma citar – para tentar a sorte no poderoso Milan. A negociação
foi facilitada pelo ex-jogador Leonardo, então dirigente do
clube italiano, atento ao despertar de um craque fadado a
se dar bem na Europa.
Embora a desconfiança não fosse desprezível – muitos entendiam
que Kaká, aos 21 anos, não estivesse “preparado” para emplacar
no disputado Cálcio –, o meia deixou o Tricolor apenas
com o título do Torneio Rio-São Paulo no currículo e sob protestos
isolados de parte da torcida são-paulina. Pois a escolha se
mostrou, logo no primeiro ano, acertada.
Na temporada 2003/2004, ao contrário do que a própria cúpula
do Milan esperava, Kaká ‘explodiu’: desbancou o pentacampeão
Rivaldo na equipe titular, se firmou como xodó dos torcedores,
fez gols decisivos, conquistou o grupo e a confiança do técnico
Carlo Ancelotti e, de quebra, faturou o scudetto. O Milan
terminou o Campeonato Italiano com 82 pontos em 24 partidas,
nove a mais que a vice-campeã Roma.
No ano seguinte, o segundo de Kaká na Europa, o desempenho
individual talvez não tenha sido tão avassalador quanto na
primeira temporada fora do Brasil, mas a participação tática
do jogador foi fundamental para o Milan novamente brigar por
títulos.
Kaká fechou o ano sem taças, perdendo o Italiano para a
rival Juventus e a Copa dos Campeões para o Liverpool, mas
não desapontou: na decisão européia, por exemplo, apesar da
derrota nos pênaltis para o Liverpool por 3 a 2 (no tempo
normal, houve empate por 3 a 3, após o Milan ter aberto uma
vantagem de 3 a 0), o jogador teve uma das melhores atuações
de sua vida.
Tanto esforço foi recompensado pela Uefa, em cerimônia realizada
nesta quinta-feira: Kaká foi eleito o melhor meia da temporada
européia. “Estou muito feliz por mais esse reconhecimento.
É um grande orgulho para mim ser apontado como o melhor meio-campista
da Europa”, disse, após a premiação. “Quero dividir esse momento
com todos os companheiros de Milan”.
Nesta entrevista exclusiva à GE.Net, realizada
às vésperas da cerimônia da Uefa, o milanista que conquistou
os italianos por seu futebol e pelo carisma fala sobre suas
expectativas para a temporada 2005/2006 e ainda dá seus pitacos
a respeito de Robinho, seleção brasileira e do ex-clube, o
São Paulo. Aliás, Kaká manda um recado: pretende permanecer
no Milan por um longo período e, se possível, encerrar a carreira
no Tricolor.
Alguns jogadores brasileiros que tentam a sorte na Europa
fracassam por não agradarem aos treinadores taticamente. Além
de sua qualidade técnica, você é muito elogiado exatamente
por conta da inteligência tática no esquema do Milan. O atleta
brasileiro precisa mudar seu estilo se quiser fazer sucesso
na Europa?
O jogador brasileiro já está mudando e, por isso, estamos
conseguindo mais espaço por aqui. O brasileiro, em geral,
está acompanhando mais o futebol europeu. Todos os principais
torneios são transmitidos pela televisão aberta e fechada
no Brasil, e isso capacita ainda mais o jogador para não enfrentar
surpresas quando desembarcar por aqui. Acho também que muitos
aprenderam com os exemplos fracassados do passado e não cometem
os mesmos erros.
O mercado italiano era considerado, há alguns anos, o
mais forte do Velho Continente. Depois, a badalação se voltou
à Espanha e, agora, muito se fala sobre a Inglaterra. Afinal,
o que fortalece um campeonato?
Acho que esses três são realmente os mais fortes da Europa.
O que fortalece um campeonato são os craques, as grandes contratações
e as trocas, o que faz com que os jogadores da liga toda elevem
o nível.
Muito se fala que, na Itália, os grandes clubes estão cada vez mais fortes
e os pequenos, cada vez mais fracos. O título desta temporada
só será mesmo disputado novamente entre Milan, Juventus e
Internazionale ou pode surgir uma outra força?
Há outras forças. Em 2004, por exemplo, fomos campeões disputando
contra a Roma, que recentemente ganhou o título. Podem surgir
outros times fortes também.
Mais uma vez, houve grande demora na divulgação da tabela
do Campeonato Italiano por conta da polêmica envolvendo o
Genoa (promovido à Série A, o clube se envolveu em manipulação
de um resultado e foi expulso do campeonato pela Federação).
Você acha que esse tipo de confusão é algo que atrapalha o
futebol italiano ou é importante para que todas as denúncias
sejam apuradas?
Acho que houve erros e que esses erros foram, de alguma, forma
punidos. É sempre ruim uma crise como essa, mas seria pior
se tudo tivesse acabado em ‘pizza’, como dizemos no Brasil.
No decorrer das negociações entre Robinho, Santos e Real
Madrid, muito se falou sobre o jogador abrir mão de sua parte
na transferência. Você fez isso quando deixou o São Paulo
para o Milan. Valeu a pena, pelo reconhecimento que veio depois?
Aconselha mais jogadores a terem a mesma atitude?
A minha negociação foi muito boa para mim, para o Milan e
para o São Paulo. Disso, eu tenho certeza absoluta. E isso
deve ser um parâmetro a ser usado. Uma negociação deve ser
vista como um todo, e não só por um aspecto específico como
esse.
Robinho será o melhor do mundo vestindo a camisa do Real?
Futebol para isso ele tem, mas há vários fatores que podem
influenciar positiva e negativamente. Não se pode cobrar isso
dele e não acredito que isso deve nortear a carreira de um
jogador. Conquistando títulos, acontecerá naturalmente.
Em sua primeira temporada no Milan, você despontou como
um dos protagonistas do scudetto 2003/2004. No segundo ano,
se firmou como ídolo da torcida, mas perdeu o Italiano para
a Juventus e a Copa dos Campeões para o Liverpool. O que foi
determinante para a perda dos dois títulos?
Não vejo um motivo determinante para isso, são coisas do futebol.
Fizemos nosso melhor nos dois casos, mas não deu. No futebol,
são muitos detalhes que contam em uma decisão.
Qual seu plano em relação ao Milan? Pretende se firmar
como um dos maiores nomes da história do clube e permanecer
por um longo período, ou não descarta uma transferência para
outro grande europeu?
Eu estou bem aqui e espero ficar bastante tempo no Milan.
Me adaptei muito bem, fui bem recebido e estou feliz. O Milan
é um dos maiores clubes da Europa, e não vejo motivo pra mudar.
Você pretende encerrar a carreira no São Paulo?
É um desejo que tenho. Não posso negar, pois é meu clube de
coração e também é o clube que me projetou. Não dá para prever
o futuro, vamos ver se terei essa oportunidade.
Após a saída de jogadores como você e Júlio Baptista
do São Paulo, formou-se um grupo que ganhou fama de mais "guerreiro"
e menos técnico – que acabou se consagrando na conquista da
Libertadores de 2005. Você acompanhou o tricampeonato? Como
encara o título e a mudança no perfil da equipe?
Acompanhei a Libertadores, sim, mas acabei não vendo a final
pois estava voando para o Brasil na mesma noite. Muita coisa
deve ter mudado por lá (no São Paulo) desde que eu saí, e
não posso julgar o que, de fato, foi determinante para essa
conquista.
Você tem acompanhado a má fase atual do Tricolor, que
terminou o 1º turno do Brasileiro na zona de rebaixamento?
O que pode explicar essa queda após um título tão importante?
O São Paulo pode ir para a Série B?
Tenho acompanhado e torço muito para essa situação melhorar.
O São Paulo tem time para reverter o quadro e, com o tempo,
eu acredito que eles melhorarão a situação na tabela.
Após o título da Copa das Confederações e a quase garantida
vaga no Mundial, qual sua expectativa em relação à seleção
brasileira na Copa? Quais serão os principais adversários
do Brasil?
O Brasil será sempre um dos favoritos ao título mundial. Sempre
foi assim. Será uma Copa do Mundo muito difícil para nós,
pois todos querem ganhar da seleção pentacampeã. Vejo Alemanha,
Argentina, Portugal, Itália e Inglaterra como outros fortes
candidatos. Espero estar lá com o Brasil e fazer um grande
Mundial.
Você, Ronaldinho, Ronaldo, Robinho e Adriano. Os cinco
podem jogar juntos? Se não, quem sai?
Esse é um "problema" que o professor (Carlos Alberto) Parreira,
que é muito capacitado para isso, deve resolver. A possibilidade
de jogarmos junto é uma escolha tática do treinador.
*Veja mais detalhes
do imbróglio envolvendo o Genoa no texto sobre o Campeonato
Italiano (Turbulento, Italiano deve manter disputa restrita
ao ‘trio de ferro’). |