Voltar para a home Terça, 02 de Dezembro de 2008 Home Fale conosco. Receba o boletim   Ir para a Gazeta Press
 
13/09/05
Foto : Gazeta Press
FRASES
"Está tudo dando certo,
mas precisamos calçar as
sandálias da humildade".

Sobre o futuro do Guarani na Série B.
"Eles precisam de mais incentivo e apoio espiritual. Dependem mais
de uma palavra".
Comentando o perfil dos atletas das Série B e C.
"Na elite, os jogadores
são mais dengosos".

Opinando sobre os jogadores da Série A.
"Quando o treinador tem
aquela sintonia com os atletas, aquele casamento de pele
e cheiro, a coisa vai embora".

Sobre dirigir um time grande
"Uma hora, a mídia vai me levar
no colo para um clube maior."

Seus planos depois do Guarani.

Por Bruno Ceccon, especial para a GE.Net

Ao contrário de figurões como Wanderley Luxemburgo e Emerson Leão, Luiz Carlos Ferreira não tem problemas com a imprensa. Muito pelo contrário. Uma câmera de televisão na beira do gramado é suficiente para chamar a atenção do treinador e fazer com que ele esqueça um pouco o trabalho dentro das quatro linhas para conversar com os jornalistas. No entanto, a simpatia do atual técnico do Guarani com os microfones não é gratuita. O “Rei do Acesso” conta com a mídia para finalmente triunfar na elite.

“Se você for ver todos os treinadores que trabalham no Brasil, eu não acredito que tenha algum com mais títulos que eu. Mas você sabe que hoje em dia, quem decide tudo isso é a mídia. Nesses próximos anos, os técnicos e jogadores vão viver da imagem”, disse o treinador, que também não prima pela modéstia. “Boa parte da mídia conhece o Luiz Carlos Ferreira e a outra parte já está conhecendo. Uma hora, a mídia vai me levar no colo para um clube maior”, planejou.

Com mais de 10 acessos, ele conhece como ninguém as divisões inferiores do futebol brasileiro e todas as suas peculiaridades. “Os jogadores da Série B estão sempre lutando, às vezes até para receber um salário no final do mês. Pode ver que nessas divisões, dificilmente um atleta fica de fora de fora por qualquer dorzinha”, afirmou, antes de comparar. “Na elite, os jogadores são mais dengosos, recebem um tratamento diferenciado. Muitas vezes, o próprio clube acoberta certos comportamentos”.

Depois de levar o Guarani da lanterna até a classificação para a segunda fase da Série B, Luiz Carlos Ferreira comemora a boa fase e fala com cautela sobre as chances do time de Campinas. “O Guarani pode chegar até a subir, tudo depende de nós, mas precisamos calçar as sandálias da humildade. Na minha opinião, o Guarani é um time igual ou inferior aos outros classificados”. O Bugre estréia diante da Portuguesa na tarde deste sábado, no Canindé.

GE.Net – Você já conseguiu mais de 10 acessos ao longo da carreira. A que atribui esse grande sucesso nas divisões inferiores? Existe alguma fórmula especial para trabalhar neste tipo de competição?
Ferreira -
Em todos os lugares que eu trabalho, procuro sempre ter um bom relacionamento com o elenco. Tento estabelecer uma relação de afinidade, disciplina e comprometimento com o clube para criar uma empatia especial, como se fosse um casamento perfeito. A partir do momento que você ganha a credibilidade dos jogadores, tudo aquilo que você lança eles acreditam e compram até os seus sonhos. Essa lealdade, esse olho no olho, vai passando de um atleta para o outro dentro do grupo e você começa a ter sucesso.

GE.Net – A classificação para a segunda fase da Série B no Brinco de Ouro lotado ainda mexe com um treinador como você?
Ferreira -
Essa classificação foi algo diferente na minha carreira. Quando chegamos, o grupo era cheio de problemas, o clube tinha pendências financeiras e estava em crise política. Na oitava rodada, o Guarani tinha cinco pontos e ocupava a última colocação. Hoje, reconquistamos a torcida e terminamos a primeira fase no terceiro lugar. O Guarani é um clube grande. Tudo aquilo que eu já fiz no interior, agora quero fazer num time do porte do Guarani. Estou tendo a chance de comandar um time grande e acredito que já fui além das expectativas.

GE.Net – A atmosfera entre o elenco antes do início da segunda fase parece muito boa. Tudo está dando certo para o Guarani...
Ferreira -
Realmente, está tudo dando certo, mas precisamos calçar as sandálias da humildade. Na minha opinião, o Guarani é um time igual ou inferior aos outros classificados, até porque a equipe foi formada durante a competição. Alguns atletas ainda estão buscando uma melhor leitura de jogo, mas todos eles já estão com uma auto-estima diferente, com amor e felicidade de estarem aqui. Eles saem, olham para funcionários, dirigentes e torcedores, e sentem a gratidão e credibilidade de todos.

GE.Net – Com toda a experiência adquirida nas divisões inferiores, até onde você acha que esse Guarani pode chegar?
Ferreira -
O Guarani pode chegar até a subir, tudo depende de nós. Essa primeira partida é fundamental. A Portuguesa tem uma grande equipe, com uma torcida fervorosa. Temos que estar preparados para podermos chegar. Acho que nossa chave é a mais complicada. O Náutico é difícil dentro e fora de casa e o Marília é um dos melhores times do grupo, isso sem falar da Portuguesa. O Guarani vai precisar se superar para conseguir a classificação.

GE.Net – Você também já trabalhou na elite do futebol brasileiro. Qual é a principal diferença em relação às divisões inferiores?
Ferreira -
São duas situações bem antagônicas. O jogador do interior, que disputa as séries B e C, é mais carente. Eles precisam de mais incentivo e apoio espiritual, dependem mais de uma palavra. Os atletas da Série A já tiveram mais oportunidades, vestiram várias camisas e trabalharam com muitos técnicos diferentes. Eles têm uma personalidade mais definida e contam com um mercado mais aberto.

GE.Net – De alguma forma, você acha que os jogadores da Primeira Divisão são essencialmente protegidos?
Ferreira -
Os jogadores da Série B estão sempre lutando, às vezes até para receber um salário no final do mês, eles sabem que têm que matar um leão por dia. Pode ver que nessas divisões, dificilmente um atleta fica de fora por qualquer dorzinha. Na elite, os jogadores são mais dengosos, recebem um tratamento diferenciado. Muitas vezes, o próprio clube acoberta certos comportamentos e restringe a autonomia da comissão técnica. O treinador precisa ter jogo de cintura.

REI DO ACESSO
Luiz Carlos Ferreira é conhecido como 'Rei do Acesso' no interior paulista. Entre as equipes que ele conquistou este objetivo, estão São Caetano, Matonense, Santo André e Corinthians de Presidente Prudente.

Por três anos seguidos, ele conseguiu o acesso para a Primeira Divisão do Campeonato Paulista com três equipes diferentes: Rio Branco (1991), Araçatuba (1992) e Comercial (1993).

Em 1995, foi campeão da Terceira Divisão com a Matonense, fazendo o mesmo com o Corinthians-PP no ano seguinte. Em 1997, colocou a Matonense na Série A-1. No ano de 1998, brilhou no São Caetano, conquistando o título da Série A-3 e o vice do Brasileiro da Série C. Em 2000, foi vice-campeão da Série A-2 com o Jundiaí.

Pelo Santo André, em 2001, levou a equipe de volta à Primeira Divisão do Paulistão, depois de sete anos. Ferreira teve um grande ano em 2002, quando, dirigindo o Santo André, foi campeão do Primeiro Turno do Paulistão e depois levou o União São João ao vice-campeonato da mesma competição. No mesmo ano, ascendeu o MAC no Paulistão com o título da A-2 e à Série B do Brasileirão com o vice na Série C.

Em 2003, retornou ao Santo André, classificando a equipe às quartas-de-final do Campeonato Paulista. Para completar seu ano, salvou o Jundiaí do rebaixamento no chamado Torneio da Morte, mantendo seu status de ídolo na cidade de Jundiaí. Na mesma tempoarada, mais um feito pelo Ramalhão. Luiz Carlos Ferreira foi o responsável pela ascensão da equipe à Série B do Brasileiro.

GE.Net – Por outro lado, você nunca conseguiu o mesmo sucesso com as equipes da Primeira Divisão...
Ferreira -
A minha carreira, modéstia parte, é muito bonita. Como preparador, auxiliar ou treinador, já conquistei mais de 20 títulos em toda minha vida. Revelei muitos jogadores e participei da vida de muitos clubes. Eu nem penso muito no futuro, acho que as coisas acontecem na hora certa. Hoje eu estou visando apenas o Guarani. Quem sabe, um dia poderei fazer a mesma coisa num time maior. Deve ser até melhor as condições de trabalho e a qualidade dos jogadores. Quando o treinador tem aquela sintonia com os atletas, aquele casamento de pele e cheiro, a coisa vai embora.

GE.Net – Não existe algum tipo de frustração ou ansiedade para finalmente triunfar num time da elite?
Ferreira -
Se você for ver todos os treinadores que trabalham no Brasil, eu não acredito que tenha algum com mais títulos que eu, seja num time do interior, médio ou pequeno. Não acredito que tenha uma pessoa mais dedicada do que eu, pode ter igual, melhor não. Não acredito que exista uma pessoa mais séria, estou no bolo dos profissionais competentes. Mas você sabe que hoje em dia, quem decide tudo isso é a mídia. Nesses próximos anos, os técnicos e jogadores vão viver da imagem.

GE.Net – Até por isso, você costuma ser sempre muito solícito com a imprensa...
Ferreira -
Eu sou um profissional que convive bem e sempre tive um relacionamento muito correto e gostoso com o pessoal da imprensa. Independente das críticas, tenho uma amizade sólida com os jornalistas. Boa parte da mídia conhece o Luiz Carlos Ferreira e a outra parte já está conhecendo. Uma hora, a mídia vai me levar no colo para um clube maior. Em Campinas, estamos jogando diante de uma mídia forte, a mercê de uma crítica de imprensa de capital.

GE.Net – Você deve ter uma preocupação especial com sua imagem fora de campo...
Ferreira -
Me preocupo com meu comportamento fora de campo. Tenho uma participação forte em termos de relacionamento com o pessoal da imprensa e muito respeito pelos torcedores e funcionários. Construí uma carreira de mais de 30 anos e por tudo aquilo que já passei, hoje sou um profissional muito mais equilibrado. A mentalidade do jogador também mudou muito. Ele observa mais e cuida mais da sua imagem. Na semana passada, eu trouxe o Careca e o Silas para conversar com os atletas. Sempre procuro oferecer palestras desse tipo para mostrar a realidade.

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