|
Por Luiz Ricardo Fini, especial para a GE.Net
O volante Magrão foi um dos líderes dentro e fora de campo
do Palmeiras durante a campanha vitoriosa do clube na Série
B do Campeonato Brasileiro, em 2003, que resultou na volta
do Verdão à elite do futebol nacional. O desempenho com a
camisa do clube rendeu ao atleta até convocações para a seleção
brasileira.
Agora, três meses depois de deixar o Palmeiras para defender
o Yokohama Marinos, o jogador tenta se adaptar ao estilo de
vida no Japão e às diferenças dentro de campo. Apesar de reconhecer
que ainda não se ajustou aos novos hábitos, Magrão garante
estar disposto a cumprir seus três anos de contrato no atual
clube e não esconde que, mesmo de longe, ainda sonha em voltar
a defender a seleção brasileira. “Se eu não sonhasse, seria
maluco”, explica, mantendo ainda os pés no chão.
Em conversa por telefone com a reportagem da GE.Net,
o volante comentou sobre a boa fase do Palmeiras apontando
Émerson Leão como “o diferencial” e ainda revelou que não
se ofereceu para jogar no Santos.
Em agosto, surgiu aqui no Brasil a informação
de que você estaria perto de jogar no Santos. Como foi
a negociação?
Me ligou uma pessoa que não era nem meu empresário
e perguntou se eu tinha interesse em jogar no Santos. Eu falei
para ele procurar o Marinos, mas nem falei com o Santos. Eu
sabia que meu clube não iria me liberar, pois tinha
acabado de me contratar. Além disso, seu eu não
estivesse satisfeito aqui, o que não é o caso,
eu mesmo ou meu empresário (Juan Figger) procuraria
o Marinos, e não terceiros. Aqui, eu não fiquei
sabendo muito do que falaram aí. Não adiantaria
nada falar com o Santos e não comunicar o Marinos.
Na época, dirigentes do Peixe disseram que você
foi oferecido. Quem te procurou para levá-lo ao Santos?
Esse negócio de aparecer gente querendo te levar
para outro clube acontece direto. Quando eu estava no Palmeiras,
vivia aparecendo pessoas dizendo que já tinha acertado
um clube para mim na Europa. Mas eu fiquei bem tranqüilo
porque eu não tinha assinado nada e ninguém,
fora o Figger, poderia falar em meu nome. A única coisa
que teve foi essa ligação. Seria antiético
eu negociar com alguém sem falar com o Marinos. Era
impossível acontecer a negociação. Quem
me ligou foi o Ranieri e ele me perguntou se eu tinha interesse,
só isso. Eu não preciso ser oferecido. Eu trabalho
bastante pelo meu futebol.
Falando agora de outro clube brasileiro, você tem
acompanhado a fase do Palmeiras desde a chegada do técnico
Leão? No ano passado, você estava no time que
chegou em quarto no Brasileirão. Mas, em 2005, o Palmeiras
está mais badalado.
No ano passado, a gente também não tinha
começado bem o Brasileiro e o grupo era tecnicamente
muito inferior ao atual. Foi mais no empenho e na vontade
do que na qualidade. O elenco de hoje é muito bom,
mas grande parte do que acontece se deve ao Leão. Além
disso, teve a chegada de mais jogadores, como o Gamarra, que
é um zagueiro espetacular. Não estou falando
que defendia a troca de técnico, mas alguns jogadores
de qualidade que não estavam conseguindo render, agora
estão indo bem. O Leão resgata a confiança
do jogador. Às vezes, tem um cara que não está
bem. Ao invés de tirar, ele dá confiança
ao cara. Não tive o prazer de trabalhar com o Leão,
mas tem treinador que faz a diferença mesmo. Vendo
de fora, acho que o diferencial do Palmeiras é o Leão.
Enquanto o Palmeiras está em ascensão, outro
clube em que você jogou passa por uma fase difícil.
Você está de olho no desempenho do São
Caetano no Brasileirão?
Acho difícil de falar, mas eu já esperava
por isso. Muita gente que fazia parte do comando acabou saindo.
O pessoal que formou aquela base não está mais.
O São Caetano não nasceu para ser um time de
estrelas, e sim para ser um clube com jogadores formados na
própria casa. Além disso, o clube nunca foi
de trocar tanto de técnico. Agora, trouxeram de volta,
acertadamente, o Jair Picerni. Acho que ele pode colocar o
São Caetano onde estava. O caso do Serginho e o afastamento
do presidente (Nairo Ferreira) abalaram demais o clube, mas,
com o Picerni, acho que o time pode voltar aos bons tempos.
Na minha época, não tínhamos jogadores
estrelas, todos eram conhecidos da cidade. A gente se reunia
e tomava café da manhã na padaria. Iam todos:
eu, Adhemar, César, Dininho... O time perdeu um pouco
a identidade, mas acertou ao contratar o Picerni novamente.
E o escândalo da manipulação de resultados
no Campeonato Brasileiro? Como está repercutindo no
Japão?
É mais uma situação difícil
de comentar. Foi feio demais e até os japoneses estão
tirando um sarro dos brasileiros aqui. Eles perguntam para
a gente: O que está havendo no Brasil?
Tem aqui uns dois ou três que jogaram no Brasil quando
eram garotos e perguntam se o campeonato vai acabar. Eu lembro
que vi um treinador cair por causa de um desses jogos (contaminados
pelo ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho).
Ninguém está falando isso, mas foi contra o
América (SP) que o Candinho começou a cair (no
Paulistão). Eu e o Marcos estávamos na seleção,
assistindo ao jogo na concentração, e vimos
no intervalo o Candinho reclamando do árbitro (Edílson
Pereira de Carvalho). Ele começou a cair nesse jogo,
e ninguém fala nada sobre isso. O jogador treina a
semana inteira, o treinador trabalha, vocês (jornalistas)
também deixam suas famílias para trabalhar,
o torcedor briga com a mulher para ver o jogo e pegar o ônibus...
Quando você vê que o jogo foi armado, que tudo
o que você fizesse para ganhar não seria suficiente
porque não venceria de jeito nenhum, se sente mesmo
traído. Não sei qual é o caso, se é
para cadeia, mas sei que ficou feio para nós. As informações
chegam aqui um pouco distorcidas e não dá para
ter noção direito de como está, mas dá
para perceber que manchou nosso futebol. No Brasil, a torcida
sente e vibra com o clube. Até os árbitros honestos
que erram, por serem humanos, também sofrem pressão.
Jogar de novo depois de ganhar é chato...
Falando agora sobre sua vida no Japão, como você
está se adaptando?
A vida fora de campo aqui não é fácil.
Eu nunca tinha jogado fora do país e estou sentindo
a diferença. Uma coisa é jogar na Espanha e
outra é aqui no Japão. Mas o que eu mais me
queixo é a falta de cobrança. A torcida não
vibra. O pessoal vai para o jogo como se estivesse indo para
o teatro. Eles jantam vendo o jogo e, depois, aplaudem e vão
embora, independente se o time ganhou ou perdeu. Você
não vai acreditar, mas eu sinto falta da cobrança.
Não é fácil jogar fora, ainda mais no
Japão. É um desafio em minha vida, é
tudo diferente aqui. A sorte que eu tenho é que aqui
em Yokohama tem bastante restaurante de comida italiana. Na
concentração, não tem feijão,
ovo... Os brasileiros aqui já acostumaram, mas eu tenho
que levar marmita para mim.
Quem são os brasileiros que jogam com você
no Yokohama Marinos?
No meu time tem mais dois brasileiros: o Rodrigo Gral
e o Dutra, que jogou no Santos e está aqui há
cinco anos. Além deles, têm mais dois japoneses
que falam português. O zagueiro Nakazawa jogou quando
era jovem no América (SP). E o Oko jogou muito tempo
com o Dunga no Jubilo e acabou aprendendo a falar. Se você
xingar em português aqui, todos entendem (risos).
Você está no futebol japonês há
cerca de três meses. Esse tempo já foi suficiente
para adaptar-se totalmente ao novo país?
O período de adaptação não
é tão fácil. Esse início está
sendo difícil, vamos ver o que vai dar. O bom é
que não existe violência e tem muitas coisas
válidas aqui. Eu vivo de casa para o treino e do treino
para casa. Não tem diálogo. Quando eu chego
em casa, a TV não tem nada que preste. Dentro de campo,
é uma correria total. Não dá tempo de
parar e pensar antes de tocar. É um grande desafio
para mim e sei que vou superar.
Você se arrepende de ter trocado o Brasil pelo Japão?
Não me arrependo de ter vindo. Sou muito bem tratado
aqui e estou em um dos melhores clubes do Japão. Estou
mais distante da seleção, mas eu sabia que era
difícil para mim. Eu estava com um pensamento bem realista
quando saí, não tenho o que lamentar. Ganhei
uma oportunidade nova vindo para cá e tenho que aproveitar.
Eu nunca me arrependo.
Falando em seleção brasileira, você
acha que tem chances de jogar a Copa do Mundo de 2006?
Jogando aqui, fica muito difícil de ser chamado,
eu já sabia. Mas isso acontece também por causa
da concorrência, que está muito grande. O treinador
já sabe com quem pode contar. Fui convocado e não
tenho mais o que mostrar além do que já apresentei.
Se fosse para ser convocado, eu seria jogando tanto no Japão
como no Brasil. O Parreira deixa claro seu pensamento. O Alex
está na Turquia e é sempre convocado. O sonho
de jogar na seleção continua, apesar de estar
distante. Se eu não sonhasse, seria um maluco.
Quando você estava para sair do Palmeiras, teve
também boatos de propostas da Alemanha, que acabaram
não se confirmando. Você ainda sonha em jogar
na Europa?
Meu empresário, o Juan Figger, é muito conhecido
na Europa. Ele me disse que, independente de eu estar no Japão,
pode aparecer algo na Europa. Eu estou com 26 anos e não
tinha como ficar escolhendo muito. Tenho certeza que escolhi
a melhor proposta para o meu futuro. Ir para a Europa para
jogar em um time que não brigasse por título
e fosse saco de pancadas não seria vantagem. Eu iria
sumir mais ainda. Aqui, eu estou em um clube que sempre briga
na ponta, que foi campeão nos dois últimos anos
e, agora, está passando por uma reformulação.
A proposta de trabalho aqui é muito boa. Na época,
existia um monte de especulações sobre meu futuro,
mas o único time que chegou mesmo com dinheiro foi
o Marinos. Teve aquela proposta da Rússia também
(do F.C Moscou, no início do ano), mas eu achei melhor
vir para o Japão. Lá é muito frio.
Para encerrar, você tem planos de voltar a jogar
no Brasil?
Se eu falasse que não tenho vontade, estaria mentindo.
Aqui, eu tenho uma tranqüilidade profissional, minha
família tem segurança, estou conseguindo minha
independência financeira... Mas quem não tem
o sonho de voltar para sua raiz? Pretendo cumprir meus três
anos de contrato da melhor maneira possível e voltar
ao Brasil, com 29 anos.
|