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29/10/2005

Por Luiz Ricardo Fini, especial para a GE.Net

O volante Magrão foi um dos líderes dentro e fora de campo do Palmeiras durante a campanha vitoriosa do clube na Série B do Campeonato Brasileiro, em 2003, que resultou na volta do Verdão à elite do futebol nacional. O desempenho com a camisa do clube rendeu ao atleta até convocações para a seleção brasileira.

Agora, três meses depois de deixar o Palmeiras para defender o Yokohama Marinos, o jogador tenta se adaptar ao estilo de vida no Japão e às diferenças dentro de campo. Apesar de reconhecer que ainda não se ajustou aos novos hábitos, Magrão garante estar disposto a cumprir seus três anos de contrato no atual clube e não esconde que, mesmo de longe, ainda sonha em voltar a defender a seleção brasileira. “Se eu não sonhasse, seria maluco”, explica, mantendo ainda os pés no chão.

Em conversa por telefone com a reportagem da GE.Net, o volante comentou sobre a boa fase do Palmeiras apontando Émerson Leão como “o diferencial” e ainda revelou que não se ofereceu para jogar no Santos.

Em agosto, surgiu aqui no Brasil a informação de que você estaria perto de jogar no Santos. Como foi a negociação?
Me ligou uma pessoa que não era nem meu empresário e perguntou se eu tinha interesse em jogar no Santos. Eu falei para ele procurar o Marinos, mas nem falei com o Santos. Eu sabia que meu clube não iria me liberar, pois tinha acabado de me contratar. Além disso, seu eu não estivesse satisfeito aqui, o que não é o caso, eu mesmo ou meu empresário (Juan Figger) procuraria o Marinos, e não terceiros. Aqui, eu não fiquei sabendo muito do que falaram aí. Não adiantaria nada falar com o Santos e não comunicar o Marinos.

Na época, dirigentes do Peixe disseram que você foi oferecido. Quem te procurou para levá-lo ao Santos?
Esse negócio de aparecer gente querendo te levar para outro clube acontece direto. Quando eu estava no Palmeiras, vivia aparecendo pessoas dizendo que já tinha acertado um clube para mim na Europa. Mas eu fiquei bem tranqüilo porque eu não tinha assinado nada e ninguém, fora o Figger, poderia falar em meu nome. A única coisa que teve foi essa ligação. Seria antiético eu negociar com alguém sem falar com o Marinos. Era impossível acontecer a negociação. Quem me ligou foi o Ranieri e ele me perguntou se eu tinha interesse, só isso. Eu não preciso ser oferecido. Eu trabalho bastante pelo meu futebol.

Falando agora de outro clube brasileiro, você tem acompanhado a fase do Palmeiras desde a chegada do técnico Leão? No ano passado, você estava no time que chegou em quarto no Brasileirão. Mas, em 2005, o Palmeiras está mais badalado.
No ano passado, a gente também não tinha começado bem o Brasileiro e o grupo era tecnicamente muito inferior ao atual. Foi mais no empenho e na vontade do que na qualidade. O elenco de hoje é muito bom, mas grande parte do que acontece se deve ao Leão. Além disso, teve a chegada de mais jogadores, como o Gamarra, que é um zagueiro espetacular. Não estou falando que defendia a troca de técnico, mas alguns jogadores de qualidade que não estavam conseguindo render, agora estão indo bem. O Leão resgata a confiança do jogador. Às vezes, tem um cara que não está bem. Ao invés de tirar, ele dá confiança ao cara. Não tive o prazer de trabalhar com o Leão, mas tem treinador que faz a diferença mesmo. Vendo de fora, acho que o diferencial do Palmeiras é o Leão.

Enquanto o Palmeiras está em ascensão, outro clube em que você jogou passa por uma fase difícil. Você está de olho no desempenho do São Caetano no Brasileirão?
Acho difícil de falar, mas eu já esperava por isso. Muita gente que fazia parte do comando acabou saindo. O pessoal que formou aquela base não está mais. O São Caetano não nasceu para ser um time de estrelas, e sim para ser um clube com jogadores formados na própria casa. Além disso, o clube nunca foi de trocar tanto de técnico. Agora, trouxeram de volta, acertadamente, o Jair Picerni. Acho que ele pode colocar o São Caetano onde estava. O caso do Serginho e o afastamento do presidente (Nairo Ferreira) abalaram demais o clube, mas, com o Picerni, acho que o time pode voltar aos bons tempos. Na minha época, não tínhamos jogadores estrelas, todos eram conhecidos da cidade. A gente se reunia e tomava café da manhã na padaria. Iam todos: eu, Adhemar, César, Dininho... O time perdeu um pouco a identidade, mas acertou ao contratar o Picerni novamente.

E o escândalo da manipulação de resultados no Campeonato Brasileiro? Como está repercutindo no Japão?
É mais uma situação difícil de comentar. Foi feio demais e até os japoneses estão tirando um sarro dos brasileiros aqui. Eles perguntam para a gente: “O que está havendo no Brasil?” Tem aqui uns dois ou três que jogaram no Brasil quando eram garotos e perguntam se o campeonato vai acabar. Eu lembro que vi um treinador cair por causa de um desses jogos (contaminados pelo ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho). Ninguém está falando isso, mas foi contra o América (SP) que o Candinho começou a cair (no Paulistão). Eu e o Marcos estávamos na seleção, assistindo ao jogo na concentração, e vimos no intervalo o Candinho reclamando do árbitro (Edílson Pereira de Carvalho). Ele começou a cair nesse jogo, e ninguém fala nada sobre isso. O jogador treina a semana inteira, o treinador trabalha, vocês (jornalistas) também deixam suas famílias para trabalhar, o torcedor briga com a mulher para ver o jogo e pegar o ônibus... Quando você vê que o jogo foi armado, que tudo o que você fizesse para ganhar não seria suficiente porque não venceria de jeito nenhum, se sente mesmo traído. Não sei qual é o caso, se é para cadeia, mas sei que ficou feio para nós. As informações chegam aqui um pouco distorcidas e não dá para ter noção direito de como está, mas dá para perceber que manchou nosso futebol. No Brasil, a torcida sente e vibra com o clube. Até os árbitros honestos que erram, por serem humanos, também sofrem pressão. Jogar de novo depois de ganhar é chato...

Falando agora sobre sua vida no Japão, como você está se adaptando?
A vida fora de campo aqui não é fácil. Eu nunca tinha jogado fora do país e estou sentindo a diferença. Uma coisa é jogar na Espanha e outra é aqui no Japão. Mas o que eu mais me queixo é a falta de cobrança. A torcida não vibra. O pessoal vai para o jogo como se estivesse indo para o teatro. Eles jantam vendo o jogo e, depois, aplaudem e vão embora, independente se o time ganhou ou perdeu. Você não vai acreditar, mas eu sinto falta da cobrança. Não é fácil jogar fora, ainda mais no Japão. É um desafio em minha vida, é tudo diferente aqui. A sorte que eu tenho é que aqui em Yokohama tem bastante restaurante de comida italiana. Na concentração, não tem feijão, ovo... Os brasileiros aqui já acostumaram, mas eu tenho que levar marmita para mim.

Quem são os brasileiros que jogam com você no Yokohama Marinos?
No meu time tem mais dois brasileiros: o Rodrigo Gral e o Dutra, que jogou no Santos e está aqui há cinco anos. Além deles, têm mais dois japoneses que falam português. O zagueiro Nakazawa jogou quando era jovem no América (SP). E o Oko jogou muito tempo com o Dunga no Jubilo e acabou aprendendo a falar. Se você xingar em português aqui, todos entendem (risos).

Você está no futebol japonês há cerca de três meses. Esse tempo já foi suficiente para adaptar-se totalmente ao novo país?
O período de adaptação não é tão fácil. Esse início está sendo difícil, vamos ver o que vai dar. O bom é que não existe violência e tem muitas coisas válidas aqui. Eu vivo de casa para o treino e do treino para casa. Não tem diálogo. Quando eu chego em casa, a TV não tem nada que preste. Dentro de campo, é uma correria total. Não dá tempo de parar e pensar antes de tocar. É um grande desafio para mim e sei que vou superar.

Você se arrepende de ter trocado o Brasil pelo Japão?
Não me arrependo de ter vindo. Sou muito bem tratado aqui e estou em um dos melhores clubes do Japão. Estou mais distante da seleção, mas eu sabia que era difícil para mim. Eu estava com um pensamento bem realista quando saí, não tenho o que lamentar. Ganhei uma oportunidade nova vindo para cá e tenho que aproveitar. Eu nunca me arrependo.

Falando em seleção brasileira, você acha que tem chances de jogar a Copa do Mundo de 2006?
Jogando aqui, fica muito difícil de ser chamado, eu já sabia. Mas isso acontece também por causa da concorrência, que está muito grande. O treinador já sabe com quem pode contar. Fui convocado e não tenho mais o que mostrar além do que já apresentei. Se fosse para ser convocado, eu seria jogando tanto no Japão como no Brasil. O Parreira deixa claro seu pensamento. O Alex está na Turquia e é sempre convocado. O sonho de jogar na seleção continua, apesar de estar distante. Se eu não sonhasse, seria um maluco.

Quando você estava para sair do Palmeiras, teve também boatos de propostas da Alemanha, que acabaram não se confirmando. Você ainda sonha em jogar na Europa?
Meu empresário, o Juan Figger, é muito conhecido na Europa. Ele me disse que, independente de eu estar no Japão, pode aparecer algo na Europa. Eu estou com 26 anos e não tinha como ficar escolhendo muito. Tenho certeza que escolhi a melhor proposta para o meu futuro. Ir para a Europa para jogar em um time que não brigasse por título e fosse saco de pancadas não seria vantagem. Eu iria sumir mais ainda. Aqui, eu estou em um clube que sempre briga na ponta, que foi campeão nos dois últimos anos e, agora, está passando por uma reformulação. A proposta de trabalho aqui é muito boa. Na época, existia um monte de especulações sobre meu futuro, mas o único time que chegou mesmo com dinheiro foi o Marinos. Teve aquela proposta da Rússia também (do F.C Moscou, no início do ano), mas eu achei melhor vir para o Japão. Lá é muito frio.

Para encerrar, você tem planos de voltar a jogar no Brasil?
Se eu falasse que não tenho vontade, estaria mentindo. Aqui, eu tenho uma tranqüilidade profissional, minha família tem segurança, estou conseguindo minha independência financeira... Mas quem não tem o sonho de voltar para sua raiz? Pretendo cumprir meus três anos de contrato da melhor maneira possível e voltar ao Brasil, com 29 anos.

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