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09/12/2005
O TÉCNICO
O TIME
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O PATROCÍNIO
Técnicos brasileiros campeões da Libertadores
1962 – Luiz Alonso “Lula” (Santos)
1963 – Luiz Alonso “Lula” (Santos)
1976 – Zezé Moreira (Cruzeiro)
1981 – Paulo César Carpegiani (Flamengo)
1983 – Valdyr Espinosa (Grêmio)
1992 – Telê Santana (São Paulo)
1993 – Telê Santana (São Paulo)
1995 – Luiz Felipe Scolari (Grêmio)
1997 – Paulo Autuori (Cruzeiro) *
1998 – Antônio Lopes (Vasco)
1999 – Luiz Felipe Scolari (Palmeiras)
2005 – Paulo Autuori (São Paulo)
* De todos os campeões , Paulo Autuori, em 97, foi o único que não disputou a Copa Intercontinental após à conquista da Libertadores

De malas prontas, Autuori recupera o Mundial perdido

Por Raul Flávio Drewnick

Paulo Autuori é uma exceção. Cuidadoso e educado em um meio que estreita as desigualdades sociais e transforma ex-favelados em milionários, o treinador é referência mesmo nadando contra a corrente, evitando frases polêmicas e fazendo aparições públicas com elegantes blusas de crochê enroladas em volta do pescoço. Seja qual for a performance do São Paulo no Mundial de Clubes, o técnico terá uma conversa com a diretoria após a competição para decidir se cumprirá o contrato até dezembro de 2006.

Seu desapego ao cargo que ocupa é notório. Nesta entrevista à GE.Net, por exemplo, ele lembra não ter multa rescisória prevista com o Tricolor. Portanto, da mesma forma que os dirigentes se reservam o direito de demiti-lo, ele poderia pegar o boné, acessório que dificilmente costuma usar, e ir embora.

Avesso às táticas de marketing típicas de seus colegas de profissão, ele segue colecionando títulos e contrariando dogmas futebolísticos. É, por exemplo, o único técnico brasileiro da história a ter levado sua equipe (o Cruzeiro de 1997) à conquista da Libertadores e se negado a disputar o Mundial que lhe era de direito. Neste bate-papo, Autuori também explica por que tomou, na época, a surpreendente decisão.

Nascido no Rio de Janeiro há 49 anos, o treinador passou 16 deles fora do Brasil. Flexível, pode ser considerado um cidadão do mundo e, como tal, não estranha o ritmo acelerado da maior metrópole da América do Sul. Se vai permanecer morando nela em 2006, no entanto, ele ainda não tem certeza. Por via das dúvidas, deixa no ar uma das máximas de sua profissão: “a mala de todos os treinadores está sempre meio pronta”, lembra.

Gazeta Esportiva.Net - Você costuma ser bastante racional e realista. Qual a importância da disputa deste Mundial na sua carreira?
Paulo Autuori -
É uma competição valorizada, principalmente nos moldes atuais. Os clubes que chegaram foram campeões em seus continentes. Para mim, será muito legal ter no currículo um título desses.

GE.Net - No Cruzeiro, em 97, você venceu a Libertadores e não foi ao Mundial Interclubes. Imaginava voltar a uma competição tão difícil de ser disputada?
Autuori -
Um mês antes do término daquela Libertadores eu já havia comunicado o presidente de que não permaneceria no clube. Houve um conflito entre mim e o gerente de futebol da época. Para ficar, eu teria de abrir mão de valores morais. Não existe título no mundo que valha mais do que a lealdade que tenho aos meus valores. Por isso, não fiquei frustrado e não vacilei em momento algum na hora de tomar a minha posição.

GE.Net - O que realmente aconteceu?
Autuori -
Um conflito com o antigo gerente de futebol, o Morais, que Deus o tenha. Era um dirigente profissional, um ex-jogador. Tínhamos antagonismos graves de caráter e de prioridades. Praticamente não nos falávamos. Depois do título, no vestiário, tentaram mudar a minha opinião, mas não voltei atrás.

GE.Net - Oito anos depois, esta nova chance de disputar o Mundial pode ser vista como uma espécie de compensação por tudo que ocorreu no Cruzeiro?
Autuori -
Quando você trabalha, as coisas acontecem com naturalidade. Se daquela vez eu não pude disputar o Mundial, me fortaleci por não ter aberto mão daquilo em que acredito na vida. Não quero ser campeão de títulos. Quero ser campeão da vida e isso é muito mais difícil. Jamais terei uma atitude profissional que se choque com minhas crenças pessoais.

GE.Net - No passado, o São Paulo já foi citado por alguns treinadores como um clube em que a diretoria interferia muito no trabalho de campo. Você encontrou problemas deste tipo aqui ou em outros lugares?
Autuori -
Interferência comigo não existe. Como já disse, tenho princípios e valores que são inegociáveis. Se isso ocorresse novamente, deixaria o clube, como fiz no Cruzeiro.

GE.Net - Com tantas propostas do Exterior (clubes japoneses e seleções), vai ser possível cumprir o contrato com o São Paulo até o final de 2006?
Autuori -
Nosso contrato não tem multa. O futuro é complicado de prever. Realmente chegaram convites, graças a Deus. Quando eu estava no Peru, também recebi propostas de fora e também daqui do Brasil. Eu trabalho para isso, em busca de prestígio e não de sucesso. O sucesso é efêmero. O telefone de quem tem prestígio sempre toca. De qualquer forma, estou muito feliz aqui e com a estrutura que o São Paulo oferece.

GE.Net - Após comandar o Peru nas eliminatórias, dirigir uma seleção na Copa do Mundo ainda é um objetivo?
Autuori -
Todo profissional trabalha pensando em ser top. E a seleção brasileira é o máximo para quem trabalha no futebol. Estaria mentindo se dissesse que não penso nisso, mas esta não é uma obsessão minha. Também posso voltar a pensar em dirigir seleções de outros países. Não vou fechar as portas para isso.

GE.Net - Quais as chances reais do São Paulo neste Mundial?
Autuori -
Estamos chegando no momento inverso ao deles, que usam os moldes do calendário europeu. Vamos chegar em final de temporada. Apesar do descanso que demos aos titulares, os adversários levarão algumas vantagens físicas sobre nós por estarem em meio de temporada.

GE.Net - Sua opção foi pelo 3-5-2. A única dúvida é no ataque. O Aloísio pode fazer dupla com o Amoroso no Mundial?
Autuori -
Estamos procurando o companheiro para o Amoroso. Já praticamente defini, mas não vou revelar. Temos o Christian também. O Thiago está bem e agora contamos com o Aloísio, que é um jogador que sempre quisemos ter no elenco. Qualquer um que entrar vai me dar garantias de trabalhar bem para a equipe.

GE.Net - Você é um treinador que não costuma se importar muito com fatores externos. Sua opinião é de que os jogos são ganhos sempre dentro de campo. No caso de um torneio como este, houve preocupação no sentido de evitar a badalação exagerada de conselheiros, artistas convidados e torcedores?
Autuori -
Privacidade é importante. O jogador tem de ficar longe do oba-oba. Nós temos que estar pensando no adversário o tempo todo. Já o torcedor só vai sofrer no dia do jogo.

GE.Net - Sua postura não é usual no futebol. Atualmente, mais do que nunca, os técnicos disciplinadores e que seguem uma linha dura têm sido apontados como essenciais para o bom desempenho das equipes. Como você consegue sobreviver no ramo, sem ter que levantar o tom de voz?
Autuori -
A falta de convicções das pessoas hoje em dia é tão grande que elas pensam que gritando, dando esporro e fazendo estardalhaço, estão convencendo os outros de que estão certas. É o princípio da autoridade e não do poder. Só se tem autoridade quando as pessoas te respeitam e sabem do teu valor como profissional e como homem. O dia que eu tiver que mudar este meu jeito para ser ganhador, eu me aposento no futebol. Hoje em dia, se vive muito de marketing e de criar imagens que não são as verdadeiras. Eu sou isso que todo mundo vê, seja aqui, na China, no Peru, em Portugal ou no Japão.

GE.Net - Para ser campeão da Libertadores, o São Paulo não seguiu aquela receita que costuma ser citada como ideal. Você chegou durante a competição, o time perdeu muitos jogadores para a seleção sub-20, para a seleção principal e o Grafite contundiu-se. Quando você foi contratado, imaginava ter chances reais de conquista?
Autuori -
Não é fácil vencer a Libertadores e os times brasileiros costumam ter dificuldade na competição. Eu não trabalho muito com percentual no futebol porque a emoção deturpa totalmente as proporções das coisas. Eu aceitei o convite porque confio naquilo que eu faço.

GE.Net - Nos últimos seis meses, não se viu o verdadeiro São Paulo jogar no Brasileirão. Nas poucas vezes em que o time anunciou que entraria em campo para se preparar para o Mundial, aconteceram os tropeços contra o Brasiliense e o Fortaleza. Você acha que a boa vitória sobre o Atlético-PR acalmou a torcida na última rodada?
Autuori -
Para vencer, como o São Paulo fez no primeiro semestre, os níveis de atenção dos jogadores devem estar no topo. Depois que são atingidos os objetivos, há uma descompressão normal. A equipe voltou contra o Brasiliense e fez um tremendo jogo. Tomamos gol no final por desatenção. Com o Fortaleza, a equipe entrou em campo em busca de estabilizar o condicionamento físico. Nesta parte, fiquei muito satisfeito com o desempenho de Josué, Mineiro, Danilo e Cicinho. Esses são jogadores que precisam estar em forma para fazer bem este vaivém. Tenho certeza de que todos darão tudo o que têm para conquistar este título.

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