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Raul Flávio Drewnick, enviado especial
Águas de Lindóia (SP) - Quarenta e oito
meses em seis. Javier Alejandro Mascherano tem até
a metade do ano para atingir seus objetivos: mostrar que valeu
os US$ 15 milhões investidos em sua contratação,
conquistar a Libertadores e defender seu país na Copa
do Mundo pela primeira vez. Qualquer falha ou falta de sorte,
pode atrasar seu sonho em quatro anos.
Campeão olímpico em 2004 e ídolo precoce
no River, ‘El Jefecito (O Chefinho)’, como era
chamado pela torcida, corre contra o tempo para mostrar quem
manda no meio-campo. Com o título da América,
ele carimbaria seu passaporte para a Alemanha e o do Corinthians
para o Japão, satisfazendo o desejo de Kia Joorabchian.
Apesar das brigas com Dualib, o iraniano segue sonhando
ser number one para reviver intensamente o grito
de “Todo Poderoso Timão”, lançado
no dia 14 de janeiro de 2000, naquele Maracanã lotado
que a Fiel jamais vai esquecer.
Sem medo de perder sua vaga na Copa e aguardando o retorno
aos trabalhos com bola nos próximos dias, Mascherano
quer entrar para a história do Corinthians. Por este
motivo, jamais cogitou aceitar a proposta do Atlético
de Madri. Amigo de Carlitos Tevez desde a adolescência,
o volante se sente em casa no Timão. Só não
apóia o compatriota no gosto musical.
Em vez de Piola Vago, banda de cumbia patrocinada pelo camisa
10, ‘Masche’ prefere o rock argentino de grupos
como Ataque 77 e Los Piojos. Neste bate-papo exclusivo com
a GE.Net, ele declara seu amor ao futebol e à
namorada Fernanda, que virá morar no Brasil logo após
a pré-temporada corintiana em Águas de Lindóia
e Atibaia.
Para o argentino, é claro, Maradona é melhor
do que Pelé. Dono de opiniões bem-fundamentadas,
o menino de Santa Fé cresceu e mantém a tranqüilidade
de quem realizou o sonho futebolístico do pai. Para
tanto, foi morar muito pequeno em Buenos Aires, onde aprendeu
com a vida e o futebol.
Largou os estudos no quarto ano e tornou-se uma prova viva
de que “não é preciso nível universitário
para ser esclarecido”. Ponderado, respeita até
o técnico Daniel Passarella, a quem classifica como
um grande ex-jogador e um grande técnico que “tem
todo direito de não gostar dele”.
GE.Net: O que achou de São Paulo até
agora?
Mascherano: Morei muito tempo em Buenos Aires, que
também é uma cidade grande. Notei que há
muito trânsito. Não sou de sair muito, portanto,
espero não sofrer demais com isso. Gosto de ficar em
casa tranqüilo.
GE.Net: Antes de surgir o interesse do Corinthians,
o que conhecia do Brasil?
Mascherano: Não muito. Vim jogar apenas duas
vezes aqui. Uma delas contra o Brasil, em Belo Horizonte,
pelas eliminatórias. Teve também aquele jogo
contra o São Paulo, no Morumbi, pela semifinal da Libertadores.
GE.Net: Na Argentina e no Brasil, o futebol dá
chance para pessoas humildes, aproximando momentaneamente
as desigualdades sociais. Este é o caso do Carlitos,
por exemplo. Vindo de uma família de classe média,
como vê tudo isso?
Mascherano: Minha família não era pobre,
mas também jamais fomos ricos. Meu pai sempre trabalhou
muito para que não faltasse nada em casa. Ele jogou
futebol, mas não em nível profissional. Foi
aí que surgiu meu interesse. Fui jogando até
chegar ao River e seguir carreira.
GE.Net: Você é um jogador bastante esclarecido.
Era bom nos estudos?
Mascherano: Fui até o quarto ano apenas, mas
acho que não é preciso uma carreira universitária
para falar bem, por exemplo. Cada um tem a sua personalidade.
GE.Net: Aos 21 anos e com uma carreira promissora
pela frente, já dá para pensar no que fazer
depois dela?
Mascherano: Ainda falta muito para o fim da minha
carreira. Só sou feliz dentro do campo e não
me imagino fazendo outra coisa ainda.
GE.Net: Você vem dizendo que não se
sente campeão do Campeonato Brasileiro, mas os corintianos
mais fanáticos não se esquecem da sua estréia
contra o Palmeiras. Você foi o nome daquele jogo, roubou
uma bola do Gamarra e ainda iniciou a jogada do terceiro gol
(3 a 1).
Mascherano: Não vim ao Brasil para atuar em
apenas oito jogos ou atuar bem em um clássico e nada
mais. Sou muito exigente comigo mesmo e sei que posso dar
muito mais ao Corinthians. Estou com muita vontade de voltar
a jogar e demonstrar a todo mundo que eles não erraram
em me contratar.
GE.Net: O hotel (em Águas de Lindóia-SP)
está cheio de fãs seus, um dos meninos vestia
até camisa da seleção argentina com seu
nome atrás. Como conquistou a torcida, mesmo contundido?
Mascherano: Não sei explicar. É um
fenômeno raro. A conquista do Brasileirão deve
ter ajudado porque todos estão contentes. Isso deve
ter feito eles esquecerem rapidamente tudo o que ocorreu com
o meu pé.
GE.Net: Antes de ser eleito o melhor jogador do Brasileirão,
o Carlitos sofreu aqui. O Sebá reclamou de preconceito.
É mesmo tão difícil um argentino atuar
no Brasil?
Mascherano: Sempre que se chega a um país
novo, é diferente. Há outros costumes. Fui muito
bem tratado aqui e estou muito contente no Brasil. Acho que
o Carlitos sofreu porque ele vinha com problemas com a imprensa
argentina. Hoje sei que ele está feliz novamente.
GE.Net: O Carlitos aconselhou a sua contratação
e ligava muito para você, falando sobre esta possibilidade.
Como vocês conseguiram manter esta amizade jogando em
times rivais como o Boca e o River. Nunca houve uma discussão?
Mascherano: Somos amigos desde muito pequenos. Nunca
falávamos da rivalidade. Em um ou outro momento, brincávamos.
Ele ganhava um jogo, eu outro. Logo em seguida partíamos
para outro assunto. Não posso romper uma amizade apenas
por estar jogando em um time diferente.
GE.Net: Você teme perder a vaga na Copa?
Mascherano: Não temo, não. O mais importante
é que eu volte bem. O tempo curto que terei para mostrar
se posso voltar à seleção não
é o que me preocupa. Quero fazer o melhor pelo Corinthians.
Com uma boa Libertadores sei que estarei no Mundial da Alemanha.
GE.Net: O Carlitos lançou a moda da cumbia
(ritmo nascido na Colômbia) por aqui. Alguns torcedores
já baixam na internet músicas do Piola Vago,
conjunto que ele patrocina. Que estilo você gosta?
Mascherano: Eu não curto muito a cumbia. Gosto
bastante de rock nacional (argentino) e de reggae. Minhas
bandas preferidas são Los Piojos e Ataque 77, por exemplo.
GE.Net: Existe a chance de você enfrentar o
River Plate na Libertadores. O que não esquece de lá?
Mascherano: Duas coisas: ter sido campeão
e o meu jogo de despedida. Nunca achei que a torcida poderia
fazer aquilo e me dar todo aquele carinho.
GE.Net: A sua contusão causou polêmica
na época. Muita gente chegou a achar que você
tivesse chegado contundido ao Corinthians.
Mascherano: Senti após o jogo com o Paraná.
Era uma dor pequena. Não falei nada porque achei que
não era importante. Com o passar dos jogos, passei
a mancar muito. Fiz o jogo contra o Internacional (em Porto
Alegre) e machuquei a coxa. Só então falei para
os médicos que também estava sentindo dores
no pé. Os exames mostraram a lesão.
GE.Net: Quando esteve no Corinthians, o Passarella
não aprovou sua contratação. Por que
isso aconteceu na sua opinião?
Mascherano: Não conheço o Passarella
pessoalmente. Ele foi um jogador e um treinador muito importante
na Argentina. Os técnicos têm seus gostos pessoais.
Aceito que ele não goste de mim, tudo bem. No futebol,
todos podem falar o que pensam. Acho que um clube não
deve contratar um jogador que o técnico não
aprova. Não tenho nenhum problema com ele. Muitos outros
treinadores não gostam de mim.
GE.Net: Agora, uma pergunta nova para argentinos
no Brasil: Pelé ou Maradona?
Mascherano: [risos] Eu não vi o Pelé
jogar. Dizem que ele foi um grande jogador. Porém,
sendo eu argentino e tendo visto o Maradona, é normal
que eu o eleja. Assisti a jogos e a vídeos dele. Do
Pelé, nada. Não posso falar muito sobre ele.
GE.Net: E na sua posição, quem foi
o maior?
Mascherano: Da atualidade, gosto muito do Makelele
(do Chelsea). Temos um estilo parecido, na minha opinião.
Na Argentina, acho o Redondo um dos maiores jogadores que
atuaram neste setor do campo.
GE.Net: O Kia brigou desde o início pela sua
contratação. Qual o contato que você teve
com ele e o que sabe sobre a crise entre o clube e a parceria?
Mascherano: Tive contato com ele apenas quando conversamos
sobre o contrato. Vim para o Corinthians para ganhar títulos.
O que acontece na política entre a MSI e o clube é
problema deles.
GE.Net: Você já disputou duas copas
libertadores. O que pode falar sobre a competição,
que é a grande obsessão alvinegra?
Mascherano: É muito difícil. Há
muitos jogadores experientes atuando nela. As viagens são
duras, você joga em outro país e com a torcida
contra. Por isso, é preciso um grupo bem compacto.
Temos bons jogadores e vamos brigar pelo título.
GE.Net: A juventude do Corinthians pode atrapalhar?
Mascherano: Somos muito jovens realmente, mas todos
com 60, 70, 100 jogos na carreira pelo menos. Todos já
ganharam o Campeonato Brasileiro, temos o Carlitos que foi
campeão da Libertadores, o Nery que é da seleção.
Roger e Carlos Alberto já jogaram na Europa. Isso faz
diferença. Somos jovens, mas experientes.
GE.Net: Existirão outros seis meses tão
decisivos na sua carreira no futuro?
Mascherano: São seis meses importantes realmente.
Tenho que mostrar por que fui contratado, tenho uma Libertadores
a disputar. Todos podemos entrar para a história do
Corinthians com este título. Tenho também a
Copa. Passei três anos jogando na seleção
principal e ficaria muito frustrado se não fechasse
este ciclo na Alemanha.
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