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09/01/2006
Fernado Piatos/Gazeta Press

Raul Flávio Drewnick, enviado especial

Águas de Lindóia (SP) - Quarenta e oito meses em seis. Javier Alejandro Mascherano tem até a metade do ano para atingir seus objetivos: mostrar que valeu os US$ 15 milhões investidos em sua contratação, conquistar a Libertadores e defender seu país na Copa do Mundo pela primeira vez. Qualquer falha ou falta de sorte, pode atrasar seu sonho em quatro anos.

Campeão olímpico em 2004 e ídolo precoce no River, ‘El Jefecito (O Chefinho)’, como era chamado pela torcida, corre contra o tempo para mostrar quem manda no meio-campo. Com o título da América, ele carimbaria seu passaporte para a Alemanha e o do Corinthians para o Japão, satisfazendo o desejo de Kia Joorabchian.

Apesar das brigas com Dualib, o iraniano segue sonhando ser number one para reviver intensamente o grito de “Todo Poderoso Timão”, lançado no dia 14 de janeiro de 2000, naquele Maracanã lotado que a Fiel jamais vai esquecer.

Sem medo de perder sua vaga na Copa e aguardando o retorno aos trabalhos com bola nos próximos dias, Mascherano quer entrar para a história do Corinthians. Por este motivo, jamais cogitou aceitar a proposta do Atlético de Madri. Amigo de Carlitos Tevez desde a adolescência, o volante se sente em casa no Timão. Só não apóia o compatriota no gosto musical.

Em vez de Piola Vago, banda de cumbia patrocinada pelo camisa 10, ‘Masche’ prefere o rock argentino de grupos como Ataque 77 e Los Piojos. Neste bate-papo exclusivo com a GE.Net, ele declara seu amor ao futebol e à namorada Fernanda, que virá morar no Brasil logo após a pré-temporada corintiana em Águas de Lindóia e Atibaia.

Para o argentino, é claro, Maradona é melhor do que Pelé. Dono de opiniões bem-fundamentadas, o menino de Santa Fé cresceu e mantém a tranqüilidade de quem realizou o sonho futebolístico do pai. Para tanto, foi morar muito pequeno em Buenos Aires, onde aprendeu com a vida e o futebol.

Largou os estudos no quarto ano e tornou-se uma prova viva de que “não é preciso nível universitário para ser esclarecido”. Ponderado, respeita até o técnico Daniel Passarella, a quem classifica como um grande ex-jogador e um grande técnico que “tem todo direito de não gostar dele”.

GE.Net: O que achou de São Paulo até agora?
Mascherano:
Morei muito tempo em Buenos Aires, que também é uma cidade grande. Notei que há muito trânsito. Não sou de sair muito, portanto, espero não sofrer demais com isso. Gosto de ficar em casa tranqüilo.

GE.Net: Antes de surgir o interesse do Corinthians, o que conhecia do Brasil?
Mascherano:
Não muito. Vim jogar apenas duas vezes aqui. Uma delas contra o Brasil, em Belo Horizonte, pelas eliminatórias. Teve também aquele jogo contra o São Paulo, no Morumbi, pela semifinal da Libertadores.

GE.Net: Na Argentina e no Brasil, o futebol dá chance para pessoas humildes, aproximando momentaneamente as desigualdades sociais. Este é o caso do Carlitos, por exemplo. Vindo de uma família de classe média, como vê tudo isso?
Mascherano:
Minha família não era pobre, mas também jamais fomos ricos. Meu pai sempre trabalhou muito para que não faltasse nada em casa. Ele jogou futebol, mas não em nível profissional. Foi aí que surgiu meu interesse. Fui jogando até chegar ao River e seguir carreira.

GE.Net: Você é um jogador bastante esclarecido. Era bom nos estudos?
Mascherano:
Fui até o quarto ano apenas, mas acho que não é preciso uma carreira universitária para falar bem, por exemplo. Cada um tem a sua personalidade.

GE.Net: Aos 21 anos e com uma carreira promissora pela frente, já dá para pensar no que fazer depois dela?
Mascherano:
Ainda falta muito para o fim da minha carreira. Só sou feliz dentro do campo e não me imagino fazendo outra coisa ainda.

GE.Net: Você vem dizendo que não se sente campeão do Campeonato Brasileiro, mas os corintianos mais fanáticos não se esquecem da sua estréia contra o Palmeiras. Você foi o nome daquele jogo, roubou uma bola do Gamarra e ainda iniciou a jogada do terceiro gol (3 a 1).
Mascherano:
Não vim ao Brasil para atuar em apenas oito jogos ou atuar bem em um clássico e nada mais. Sou muito exigente comigo mesmo e sei que posso dar muito mais ao Corinthians. Estou com muita vontade de voltar a jogar e demonstrar a todo mundo que eles não erraram em me contratar.

GE.Net: O hotel (em Águas de Lindóia-SP) está cheio de fãs seus, um dos meninos vestia até camisa da seleção argentina com seu nome atrás. Como conquistou a torcida, mesmo contundido?
Mascherano:
Não sei explicar. É um fenômeno raro. A conquista do Brasileirão deve ter ajudado porque todos estão contentes. Isso deve ter feito eles esquecerem rapidamente tudo o que ocorreu com o meu pé.

GE.Net: Antes de ser eleito o melhor jogador do Brasileirão, o Carlitos sofreu aqui. O Sebá reclamou de preconceito. É mesmo tão difícil um argentino atuar no Brasil?
Mascherano:
Sempre que se chega a um país novo, é diferente. Há outros costumes. Fui muito bem tratado aqui e estou muito contente no Brasil. Acho que o Carlitos sofreu porque ele vinha com problemas com a imprensa argentina. Hoje sei que ele está feliz novamente.

GE.Net: O Carlitos aconselhou a sua contratação e ligava muito para você, falando sobre esta possibilidade. Como vocês conseguiram manter esta amizade jogando em times rivais como o Boca e o River. Nunca houve uma discussão?
Mascherano:
Somos amigos desde muito pequenos. Nunca falávamos da rivalidade. Em um ou outro momento, brincávamos. Ele ganhava um jogo, eu outro. Logo em seguida partíamos para outro assunto. Não posso romper uma amizade apenas por estar jogando em um time diferente.

GE.Net: Você teme perder a vaga na Copa?
Mascherano:
Não temo, não. O mais importante é que eu volte bem. O tempo curto que terei para mostrar se posso voltar à seleção não é o que me preocupa. Quero fazer o melhor pelo Corinthians. Com uma boa Libertadores sei que estarei no Mundial da Alemanha.

GE.Net: O Carlitos lançou a moda da cumbia (ritmo nascido na Colômbia) por aqui. Alguns torcedores já baixam na internet músicas do Piola Vago, conjunto que ele patrocina. Que estilo você gosta?
Mascherano:
Eu não curto muito a cumbia. Gosto bastante de rock nacional (argentino) e de reggae. Minhas bandas preferidas são Los Piojos e Ataque 77, por exemplo.

GE.Net: Existe a chance de você enfrentar o River Plate na Libertadores. O que não esquece de lá?
Mascherano:
Duas coisas: ter sido campeão e o meu jogo de despedida. Nunca achei que a torcida poderia fazer aquilo e me dar todo aquele carinho.

GE.Net: A sua contusão causou polêmica na época. Muita gente chegou a achar que você tivesse chegado contundido ao Corinthians.
Mascherano:
Senti após o jogo com o Paraná. Era uma dor pequena. Não falei nada porque achei que não era importante. Com o passar dos jogos, passei a mancar muito. Fiz o jogo contra o Internacional (em Porto Alegre) e machuquei a coxa. Só então falei para os médicos que também estava sentindo dores no pé. Os exames mostraram a lesão.

GE.Net: Quando esteve no Corinthians, o Passarella não aprovou sua contratação. Por que isso aconteceu na sua opinião?
Mascherano:
Não conheço o Passarella pessoalmente. Ele foi um jogador e um treinador muito importante na Argentina. Os técnicos têm seus gostos pessoais. Aceito que ele não goste de mim, tudo bem. No futebol, todos podem falar o que pensam. Acho que um clube não deve contratar um jogador que o técnico não aprova. Não tenho nenhum problema com ele. Muitos outros treinadores não gostam de mim.

GE.Net: Agora, uma pergunta nova para argentinos no Brasil: Pelé ou Maradona?
Mascherano:
[risos] Eu não vi o Pelé jogar. Dizem que ele foi um grande jogador. Porém, sendo eu argentino e tendo visto o Maradona, é normal que eu o eleja. Assisti a jogos e a vídeos dele. Do Pelé, nada. Não posso falar muito sobre ele.

GE.Net: E na sua posição, quem foi o maior?
Mascherano:
Da atualidade, gosto muito do Makelele (do Chelsea). Temos um estilo parecido, na minha opinião. Na Argentina, acho o Redondo um dos maiores jogadores que atuaram neste setor do campo.

GE.Net: O Kia brigou desde o início pela sua contratação. Qual o contato que você teve com ele e o que sabe sobre a crise entre o clube e a parceria?
Mascherano:
Tive contato com ele apenas quando conversamos sobre o contrato. Vim para o Corinthians para ganhar títulos. O que acontece na política entre a MSI e o clube é problema deles.

GE.Net: Você já disputou duas copas libertadores. O que pode falar sobre a competição, que é a grande obsessão alvinegra?
Mascherano:
É muito difícil. Há muitos jogadores experientes atuando nela. As viagens são duras, você joga em outro país e com a torcida contra. Por isso, é preciso um grupo bem compacto. Temos bons jogadores e vamos brigar pelo título.

GE.Net: A juventude do Corinthians pode atrapalhar?
Mascherano:
Somos muito jovens realmente, mas todos com 60, 70, 100 jogos na carreira pelo menos. Todos já ganharam o Campeonato Brasileiro, temos o Carlitos que foi campeão da Libertadores, o Nery que é da seleção. Roger e Carlos Alberto já jogaram na Europa. Isso faz diferença. Somos jovens, mas experientes.

GE.Net: Existirão outros seis meses tão decisivos na sua carreira no futuro?
Mascherano:
São seis meses importantes realmente. Tenho que mostrar por que fui contratado, tenho uma Libertadores a disputar. Todos podemos entrar para a história do Corinthians com este título. Tenho também a Copa. Passei três anos jogando na seleção principal e ficaria muito frustrado se não fechasse este ciclo na Alemanha.

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