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26/02/2006
Montagem sobre foto de Marcos Campos/Gazeta Press

Por Paulo Amaral

Considerado um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro, há quase 20 anos Emerson Leão trocou as arrojadas defesas embaixo das traves por uma tarefa tão ou mais árdua do que a de evitar gols: a de treinador de futebol. Campeão brasileiro do Módulo Amarelo no comando do Sport em 1987, Leão demorou para se firmar no novo posto, mas gravou seu nome entre os treinadores de ponta do futebol brasileiro ao levar o desacreditado Santos ao inédito título de campeão brasileiro em 2002, comandando uma nova geração de craques, hoje toda na Europa, com talentos como Alex, Diego, Robinho e Elano.

Vice-campeão da América no ano seguinte, o treinador deixou a Vila para ser campeão paulista no comando do São Paulo em 2004. Depois de uma passagem rápida pelo Japão, voltou para o clube onde fez história como goleiro e, no comando do Palmeiras, vem levando a equipe do Parque Antártica aos lugares mais altos nas tabelas de classificação.

Convidado para assumir o comando da seleção brasileira em 2000, Leão chegou ao posto prometendo um “futebol bailarino”, mas, no final, foi ele quem dançou. Sem poder contar com os maiores nomes em atividade no país, levou uma equipe remendada para disputar a Copa das Confederações, e foi demitido antes mesmo de retornar ao Brasil.

Em entrevista exclusiva para a GE.Net, o treinador reiterou sua promessa de nunca mais trabalhar com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, garantiu nunca ter sonhado em dirigir a seleção brasileira, descartou trabalhar na Europa, anunciou sua aposentadoria para 2010 e, claro, falou sobre os planos futuros para o Palmeiras. Apesar de almejar três titulos em 2006, Leão revela que não tem mais ambições para seu futuro.

GE.Net: Depois de ser campeão pelo Santos, parecia ser difícil vê-lo conseguir identificação em outro clube, mas você conquistou a torcida do São Paulo em 2005 e, agora, a do Palmeiras. Qual o segredo para se dar bem em três clubes de tanta rivalidade?
Leão:
Não sei se é segredo, acho que é realidade. Vestir a camisa do clube, defender o clube, vibrar com as vitórias e passar essa química para o torcedor, para ele saber que lá tem alguém cuidando do seu time, transpirando o dia todo e acordando cedo para criar alternativas em busca da melhora. Eu me considero um bom empregado, em qualquer lugar, qualquer time.

GE.Net: Com qual dos quatro times você se identifica ou se identificou mais?
Leão: Não trabalhei no Corinthians ainda como treinador. Como jogador, fiquei um ano lá e tive a felicidade de ser campeão. Não tenho identificação própria. Tenho, logicamente, mais tempo de serviço pelo Palmeiras, pois trabalho aqui (quarta vez) há quase 15 anos. É muita coisa. Trabalhei uma vez no São Paulo, duas na Lusa, duas no Santos

GE.Net: Em todos os clubes que você passa, fica caracterizado que tem plenos poderes. É isso mesmo que acontece? E no São Paulo, você saiu por conta das influências dos diretores nas contratações e na escalação do time?
Leão: Todo treinador é abaixo do presidente porque é um cargo de confiança. É isso que os outros não entendem. Como temos uma linha direta, parece que só somos comandados por ele, mas não é nada disso. Sou comandado por todos aqueles que gostam do time que eu trabalho, só que, às vezes, temos mais proximidade com um do que com outro. Se gera ciúmes, infelizmente isso é coisa que acontece.
Essa história de que os diretores do São Paulo se metiam na escalação é mentira. Nunca o Juvenal (Juvêncio, diretor de futebol) tentou influenciar e nem comentou nada comigo, nem o presidente ou o Marco Aurélio (Cunha, supervisor). O presidente apenas me pediu um pouco de paciência com relação à contratação do Falcão, pois era interessante como marketing para o clube.

GE.Net: O que você tem a dizer sobre dirigentes que se metem no trabalho do treinador?
Leão: Não é o ideal, mesmo porque não são treinadores, né? Acho que aqueles que têm vontade de escalar devem fazer curso de Educação Física, se tornar atletas, para depois merecerem ser treinadores ou consultores técnicos. Aí não precisariam gastar muito com treinador, pois teriam a solução dentro do próprio clube. Emoção, coração, vestir a camisa, todo diretor tem, e, às vezes, o treinador tem que ter o bom senso de ouvi-los. Nada mais do que isso.

GE.Net: É fato que você chegou a pensar em ser presidente do Santos?
Leão:
Nunca foi verdade isso. Nunca tive pretensão, e nem tenho pretensão. Quero, no futuro, trabalhar dentro do esporte, mas não sei ainda em que área. Como consultor, montar um escritório ou administrar uma entidade. Nada mais do que isso.

GE.Net: Você ganhou fama de ser um bom treinador sem comandar estrelas, e carrega este estigma no Palmeiras, sofrendo com falta de reforços. Esse rótulo é bom ou ruim?
Leão:
Isso aí é motivo de orgulho para mim, mas é uma realidade. Não investimos nada aqui e conseguimos a Libertadores tirando o time do 16º lugar. Todo mundo dava risada quando eu dizia que o Palmeiras brigaria para chegar e chegou. Lembro que a chance era 0,2%, mas batemos a matemática e nos classificamos.

GE.Net: O que é mais fácil, dirigir um time cheio de estrelas ou um só com operários?
Leão:
Nunca vi tanta estrela junta como no Santos, só que as estrelas foram feitas lá e tinham um amor pela camisa muito grande. Dificilmente eu trabalhei com grandes estrelas, sempre fui para os clubes necessitando de alguma coisa. Mesmo na seleção eu quase não trabalhei com estrelas.

GE.Net: Já que você tocou no assunto, na seleção você tentou uma renovação, levando o Mineiro, que até hoje prova seu valor, e o Leomar, que acabou sumindo. Hoje você faria a mesma coisa ou convocaria somente as estrelas?
Leão:
Eu não tentei, eu ia fazer renovação, mas não deixaram e nem levaram os jogadores que eu queria. Leomar foi convocado porque os grandes clubes do Brasil não podiam ter atletas convocados, pois estavam disputando campeonatos. Me disseram também que a seleção não tinha compromisso de ganhar. Tudo mentira, né?

GE.Net: Se você fosse convidado para substituir o Parreira, aceitaria?
Leão:
Hoje não. Primeiro porque não quero que o Parreira saia, pois ele é um amigo e torço por ele. Além disso, nunca mais trabalho com o Ricardo Teixeira.

GE.Net: Você acha que o que fizeram com você foi trairagem?
Leão:
Use a palavra que você quiser, você tem todo direito.

GE.Net: Como você avalia a atual fase do Cafu, Roberto Carlos e Dida?
Leão:
Cafu não está mais em má fase. Está operado e o Parreira já disse que quando sarar será convocado, pois ele espera contar com o Cafu na seleção. Acho que tem jogadores definidos, peças de confiança do treinador, e cada treinador pensa de um jeito. Às vezes, quem é de confiança de um treinador, não é do outro. Temos de respeitar a individualidade.

GE.Net: Como especialista na posição, você acha que o Dida está em um bom momento?
Leão:
Eu não tenho visto todas as partidas do Dida, mas ele é uma pessoa que já demonstrou capacidade para estar na seleção brasileira. O Marcos está jogando em uma exuberância total e o Rogério, se recuperando também rapidamente. Acho que esses três são os goleiros que poderiam estar na Copa. O titular, quem tem que resolver é o treinador.

GE.Net: Disciplinador como você é, Leão, o que faria com Edmundo se toda a confusão ocorrida com aquele repórter de Campinas tivesse acontecido com ele e não com você?
Leão:
Se ele fosse vítima, como eu, não haveria problema algum. Se o episódio foi visto por mais gente, é fácil identificação. Além de tudo, foi extra-campo. Vítima sempre é vítima.

GE.Net: Você daria tempo para o Animal se explicar ou ele estaria fora do Palmeiras?
Leão:
Como eu disse: Vítima é sempre vítima.

GE.Net: Os jogadores do Palmeiras têm medo de sua linha dura e se aplicam mais por isso?
Leão:
Não é por medo. Eles devem lembrar: "Pô, o professor faz tanto pela gente. Vamos trabalhar também por ele um pouco". Cumplicidade.

GE.Net: Vamos falar mais sobre o Palmeiras. O Fabrício Carvalho ainda interessa?
Leão:
Todo grande atleta interessa. Acho que, se ele for liberado e autorizado pelos médicos, eu terei o prazer de tentar recuperá-lo. Como outros se recuperaram em outros lugares, ele poderia se recuperar aqui.

GE.Net: E a atual forma física dele? Não é um problema a mais para resolver?
Leão:
Ouvi dizer que tentou jogar uma partida e estava enorme. Primeiro, antes de se preocupar em voltar a jogar e vir para o Palmeiras, tem que ir para um spa, pois com 14 quilos a mais você não pode correr, porque vai dar trauma no joelho, tornozelo. Ele tem que pegar uma nutricionista, pois, se quiser, se recupera, pois até viciados em droga se recuperam.

GE.Net: Sobre o futuro, Leão. Você tem alguma ambição a mais na carreira, como voltar à seleção ou trabalhar na Europa?
Leão:
Nunca sonhei em treinar seleção brasileira. Aconteceu e, na verdade, eu nem treinei. Eu passei a 100 por hora por lá. Não tenho ambição de fazer nada não. Europa? Não. Gostaria de morar dois anos fora, mas para lazer. Mais nada.

GE.Net: Quanto tempo mais a torcida brasileira contará com seu talento como treinador?
Leão:
Até depois da outra Copa. Acabou 2010, estou encerrando. Dentro do campo, a não ser que um fato novo aconteça.

GE.Net: O que seria esse fato novo?
Leão:
Não sei ainda. Tem que aparecer, né?

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