| Por Paulo Amaral
Considerado um dos maiores goleiros da história do
futebol brasileiro, há quase 20 anos Emerson Leão
trocou as arrojadas defesas embaixo das traves por uma tarefa
tão ou mais árdua do que a de evitar gols: a
de treinador de futebol. Campeão brasileiro do Módulo
Amarelo no comando do Sport em 1987, Leão demorou para
se firmar no novo posto, mas gravou seu nome entre os treinadores
de ponta do futebol brasileiro ao levar o desacreditado Santos
ao inédito título de campeão brasileiro
em 2002, comandando uma nova geração de craques,
hoje toda na Europa, com talentos como Alex, Diego, Robinho
e Elano.
Vice-campeão da América no ano seguinte, o
treinador deixou a Vila para ser campeão paulista no
comando do São Paulo em 2004. Depois de uma passagem
rápida pelo Japão, voltou para o clube onde
fez história como goleiro e, no comando do Palmeiras,
vem levando a equipe do Parque Antártica aos lugares
mais altos nas tabelas de classificação.
Convidado para assumir o comando da seleção
brasileira em 2000, Leão chegou ao posto prometendo
um “futebol bailarino”, mas, no final, foi ele
quem dançou. Sem poder contar com os maiores nomes
em atividade no país, levou uma equipe remendada para
disputar a Copa das Confederações, e foi demitido
antes mesmo de retornar ao Brasil.
Em entrevista exclusiva para a GE.Net, o treinador
reiterou sua promessa de nunca mais trabalhar com Ricardo
Teixeira, presidente da CBF, garantiu nunca ter sonhado em
dirigir a seleção brasileira, descartou trabalhar
na Europa, anunciou sua aposentadoria para 2010 e, claro,
falou sobre os planos futuros para o Palmeiras. Apesar de
almejar três titulos em 2006, Leão revela que
não tem mais ambições para seu futuro.
GE.Net: Depois de ser campeão pelo Santos,
parecia ser difícil vê-lo conseguir identificação
em outro clube, mas você conquistou a torcida do São
Paulo em 2005 e, agora, a do Palmeiras. Qual o segredo para
se dar bem em três clubes de tanta rivalidade?
Leão: Não sei se é segredo,
acho que é realidade. Vestir a camisa do clube, defender
o clube, vibrar com as vitórias e passar essa química
para o torcedor, para ele saber que lá tem alguém
cuidando do seu time, transpirando o dia todo e acordando
cedo para criar alternativas em busca da melhora. Eu me considero
um bom empregado, em qualquer lugar, qualquer time.
GE.Net: Com qual dos quatro times você se identifica
ou se identificou mais?
Leão: Não trabalhei no Corinthians
ainda como treinador. Como jogador, fiquei um ano lá
e tive a felicidade de ser campeão. Não tenho
identificação própria. Tenho, logicamente,
mais tempo de serviço pelo Palmeiras, pois trabalho
aqui (quarta vez) há quase 15 anos. É muita
coisa. Trabalhei uma vez no São Paulo, duas na Lusa,
duas no Santos
GE.Net: Em todos os clubes que você passa,
fica caracterizado que tem plenos poderes. É isso mesmo
que acontece? E no São Paulo, você saiu por conta
das influências dos diretores nas contratações
e na escalação do time?
Leão: Todo treinador é abaixo
do presidente porque é um cargo de confiança.
É isso que os outros não entendem. Como temos
uma linha direta, parece que só somos comandados por
ele, mas não é nada disso. Sou comandado por
todos aqueles que gostam do time que eu trabalho, só
que, às vezes, temos mais proximidade com um do que
com outro. Se gera ciúmes, infelizmente isso é
coisa que acontece.
Essa história de que os diretores do São Paulo
se metiam na escalação é mentira. Nunca
o Juvenal (Juvêncio, diretor de futebol) tentou influenciar
e nem comentou nada comigo, nem o presidente ou o Marco Aurélio
(Cunha, supervisor). O presidente apenas me pediu um pouco
de paciência com relação à contratação
do Falcão, pois era interessante como marketing para
o clube.
GE.Net: O que você tem a dizer sobre dirigentes
que se metem no trabalho do treinador?
Leão: Não é
o ideal, mesmo porque não são treinadores, né?
Acho que aqueles que têm vontade de escalar devem fazer
curso de Educação Física, se tornar atletas,
para depois merecerem ser treinadores ou consultores técnicos.
Aí não precisariam gastar muito com treinador,
pois teriam a solução dentro do próprio
clube. Emoção, coração, vestir
a camisa, todo diretor tem, e, às vezes, o treinador
tem que ter o bom senso de ouvi-los. Nada mais do que isso.
GE.Net: É fato que você chegou a pensar
em ser presidente do Santos?
Leão: Nunca foi verdade isso. Nunca tive pretensão,
e nem tenho pretensão. Quero, no futuro, trabalhar
dentro do esporte, mas não sei ainda em que área.
Como consultor, montar um escritório ou administrar
uma entidade. Nada mais do que isso.
GE.Net: Você ganhou fama de ser um bom treinador
sem comandar estrelas, e carrega este estigma no Palmeiras,
sofrendo com falta de reforços. Esse rótulo
é bom ou ruim?
Leão: Isso aí é motivo de orgulho
para mim, mas é uma realidade. Não investimos
nada aqui e conseguimos a Libertadores tirando o time do 16º
lugar. Todo mundo dava risada quando eu dizia que o Palmeiras
brigaria para chegar e chegou. Lembro que a chance era 0,2%,
mas batemos a matemática e nos classificamos.
GE.Net: O que é mais fácil, dirigir
um time cheio de estrelas ou um só com operários?
Leão: Nunca vi tanta estrela junta como no
Santos, só que as estrelas foram feitas lá e
tinham um amor pela camisa muito grande. Dificilmente eu trabalhei
com grandes estrelas, sempre fui para os clubes necessitando
de alguma coisa. Mesmo na seleção eu quase não
trabalhei com estrelas.
GE.Net: Já que você tocou no assunto,
na seleção você tentou uma renovação,
levando o Mineiro, que até hoje prova seu valor, e
o Leomar, que acabou sumindo. Hoje você faria a mesma
coisa ou convocaria somente as estrelas?
Leão: Eu não tentei, eu ia fazer renovação,
mas não deixaram e nem levaram os jogadores que eu
queria. Leomar foi convocado porque os grandes clubes do Brasil
não podiam ter atletas convocados, pois estavam disputando
campeonatos. Me disseram também que a seleção
não tinha compromisso de ganhar. Tudo mentira, né?
GE.Net: Se você fosse convidado para substituir
o Parreira, aceitaria?
Leão: Hoje não. Primeiro porque não
quero que o Parreira saia, pois ele é um amigo e torço
por ele. Além disso, nunca mais trabalho com o Ricardo
Teixeira.
GE.Net: Você acha que o que fizeram com você
foi trairagem?
Leão: Use a palavra que você quiser,
você tem todo direito.
GE.Net: Como você avalia a atual fase do Cafu,
Roberto Carlos e Dida?
Leão: Cafu não está mais em
má fase. Está operado e o Parreira já
disse que quando sarar será convocado, pois ele espera
contar com o Cafu na seleção. Acho que tem jogadores
definidos, peças de confiança do treinador,
e cada treinador pensa de um jeito. Às vezes, quem
é de confiança de um treinador, não é
do outro. Temos de respeitar a individualidade.
GE.Net: Como especialista na posição,
você acha que o Dida está em um bom momento?
Leão: Eu não tenho visto todas as partidas
do Dida, mas ele é uma pessoa que já demonstrou
capacidade para estar na seleção brasileira.
O Marcos está jogando em uma exuberância total
e o Rogério, se recuperando também rapidamente.
Acho que esses três são os goleiros que poderiam
estar na Copa. O titular, quem tem que resolver é o
treinador.
GE.Net: Disciplinador como você é, Leão,
o que faria com Edmundo se toda a confusão ocorrida
com aquele repórter de Campinas tivesse acontecido
com ele e não com você?
Leão: Se ele fosse vítima, como eu,
não haveria problema algum. Se o episódio foi
visto por mais gente, é fácil identificação.
Além de tudo, foi extra-campo. Vítima sempre
é vítima.
GE.Net: Você daria tempo para o Animal se explicar
ou ele estaria fora do Palmeiras?
Leão: Como eu disse: Vítima é
sempre vítima.
GE.Net: Os jogadores do Palmeiras têm medo
de sua linha dura e se aplicam mais por isso?
Leão: Não é por medo. Eles devem
lembrar: "Pô, o professor faz tanto pela gente.
Vamos trabalhar também por ele um pouco". Cumplicidade.
GE.Net: Vamos falar mais sobre o Palmeiras. O Fabrício
Carvalho ainda interessa?
Leão: Todo grande atleta interessa. Acho que,
se ele for liberado e autorizado pelos médicos, eu
terei o prazer de tentar recuperá-lo. Como outros se
recuperaram em outros lugares, ele poderia se recuperar aqui.
GE.Net: E a atual forma física dele? Não
é um problema a mais para resolver?
Leão: Ouvi dizer que tentou jogar uma partida
e estava enorme. Primeiro, antes de se preocupar em voltar
a jogar e vir para o Palmeiras, tem que ir para um spa, pois
com 14 quilos a mais você não pode correr, porque
vai dar trauma no joelho, tornozelo. Ele tem que pegar uma
nutricionista, pois, se quiser, se recupera, pois até
viciados em droga se recuperam.
GE.Net: Sobre o futuro, Leão. Você tem
alguma ambição a mais na carreira, como voltar
à seleção ou trabalhar na Europa?
Leão: Nunca sonhei em treinar seleção
brasileira. Aconteceu e, na verdade, eu nem treinei. Eu passei
a 100 por hora por lá. Não tenho ambição
de fazer nada não. Europa? Não. Gostaria de
morar dois anos fora, mas para lazer. Mais nada.
GE.Net: Quanto tempo mais a torcida brasileira contará
com seu talento como treinador?
Leão: Até depois da outra Copa. Acabou
2010, estou encerrando. Dentro do campo, a não ser
que um fato novo aconteça.
GE.Net: O que seria esse fato novo?
Leão: Não sei ainda. Tem que aparecer,
né?
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