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27/03/2006
Montagem sobre foto de Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
FICHA TÉCNICA

Nome: Anderson Luis de Souza
Nascimento: 27/08/1977, em São Bernardo do Campo (SP)
Altura e peso: 1,74m e 73 kg
Posição: meia

Principais conquistas:
. Copa dos Campeões da Europa: 2003-04 (Porto)
. Copa da Uefa: 2002-03 (Porto)
. Campeonato Português: 1998-99, 2002-03 e 2003-04 (Porto)
. Campeonato Espanhol: 2004-05 (Barcelona)
. Copa de Portugal: 1999-00, 2000-01 e 2002-03 (Porto)
. Vice-campeão da Eurocopa: 2004 (seleção portuguesa)

Equipes
Temporada
Time
Jogos
Gols
1997
Corinthians
1
0
1997
CSA
*
*
1997-98
Alverca
32
13
1998-99 (janeiro)
Salgueiros
9
2
1998-99
Porto
6
0
1999-00
Porto
34
4
2000-01
Porto
41
6
2001-02
Porto
45
19
2002-03
Porto
42
11
2003-04
Porto
40
4
2004-05
Barcelona
42
10
2005-06
Barcelona em andamento
* informações não encontradas

Por Marcelo Cazavia

Anderson Luis de Souza deixou o Brasil em 1997 quase como um desconhecido. Apareceu na Copa São Paulo de Juniores daquele ano atuando pelo Corinthians, defendeu o CSA de Alagoas por cerca de cinco meses e desembarcou em Portugal para jogar no pequeno Alverca, uma filial do Benfica. Em pouco tempo, porém, tornou-se ídolo em terras lusitanas, liderando o Porto na conquista de três títulos nacionais, de uma Copa da Uefa e de uma Copa dos Campeões da Europa, em cuja final foi eleito o melhor jogador.

Hoje, aos 28 anos, Deco é um dos principais nomes do futebol mundial. Titular absoluto do Barcelona e de Portugal, o meia é um dos trunfos do técnico Luiz Felipe Scolari para brigar pelo título da Copa do Mundo. “Tirando a seleção brasileira, acho que Portugal não fica devendo a nenhuma outra”, afirma o jogador, que estreou na seleção justamente contra o Brasil, em amistoso disputado no dia 29 de março de 2003.

Com um gol do luso-brasileiro, a equipe portuguesa derrubou um tabu 37 anos sem vitória contra o rival - a última havia sido em 1966, quando Portugal, liderado por outro estrangeiro (o atacante moçambicano Eusébio), eliminou o Brasil da Copa. Naquele ano, os portugueses também tinham como treinador um brasileiro, Otto Glória.

Um bom retrospecto no Mundial da Alemanha poderá apagar a decepção de ter perdido o título da Eurocopa-2004, disputada em Portugal, ao cair na decisão diante da modesta seleção da Grécia por 1 a 0. “Foi tão difícil chegar àquela final, passar por grandes seleções, que esquecemos que tinha a final”, conta, citando a derrota por 2 a 1 na estréia da competição.

Contratado pelo Barcelona até 2010, Deco não tem dúvida em afirmar que o time catalão é melhor que o Real Madrid, nega em entrevista exclusiva à GE.Net maginar se poderia estar na seleção brasileira e não esconde a vontade de voltar a defender seu time do coração. “Sempre fui corintiano e continuo sendo”, afirma o jogador, que vê com bons olhos a volta de Ronaldo para o futebol brasileiro depois da Copa.

Gazeta Esportiva.Net: Como está a ansiedade às vésperas de disputar sua primeira Copa do Mundo?
Deco:
Não existe muita ansiedade porque tem muita coisa importante aqui ainda, já que estamos disputando o Campeonato Espanhol e a Liga dos Campeões. Lógico que estou um pouco ansioso, mas ainda não deu para ficar pensando na Copa.

GE.Net: Portugal tem time para brigar pelo título?
Deco:
O Brasil é o favorito, está um nível acima, e depois vêm as demais equipes. Tirando a seleção brasileira, acho que Portugal não fica devendo a nenhuma outra como, por exemplo, França, Espanha, Argentina, Inglaterra.

GE.Net: O grupo de Portugal é apontado como o mais fraco tecnicamente (tem ainda México, Irã e Angola). Em compensação, o confronto das oitavas-de-final será contra uma seleção vinda do chamado grupo da morte, que tem Argentina, Holanda, Sérvia e Montenegro e Costa do Marfim. Como vê essa situação?
Deco:
No nosso grupo, em princípio, Portugal e México têm de se classificar. Depois vem o grande problema, que é pegar Holanda ou Argentina, teoricamente os favoritos do grupo deles. Existe o risco de chegarmos menos preparados que um desses times na segunda fase por, provavelmente, ter uma primeira fase tranqüila. Mas a partir das oitavas-de-final tudo pode acontecer. É como eu disse, tirando o Brasil, Portugal tem condições de jogar de igual para igual com qualquer seleção.

GE.Net: Até que ponto a contusão do zagueiro Jorge Andrade vai atrapalhar?
Deco:
Atrapalha muito. Para mim, ele e o Ricardo Carvalho são os dois melhores zagueiros do mundo e estão acostumados a jogarem juntos. É sempre complicado quando aparece uma lesão dessas, mas vamos ter que encontrar uma solução.

GE.Net: É bem provável que, do meio-campo para frente, a equipe seja formada por Costinha, Maniche, Deco, Figo, Pauleta e Cristiano Ronaldo, em um esquema parecido com o do Barcelona. Isso facilita para você ou seria melhor jogar com o Tiago e ter mais liberdade para chegar ao ataque, como nos tempos de Porto?
Deco:
Não muda muito entre o Tiago e o Maniche. Para mim não tem problema porque com o Maniche fica o meio-campo que atuou junto pelo Porto: eu, o Maniche e o Costinha. E o fato de o esquema ser praticamente o mesmo do Barcelona também me favorece. Pelas características do Maniche e do Costinha, porém, eu podia chegar mais ao ataque na época do Porto e isso acontece na seleção também. Já no Barcelona eu tenho que ajudar um pouco mais na defesa. Mas eu gosto e estou me sentindo bem jogando assim.

GE.Net: Como é lidar com a responsabilidade de substituir um ídolo nacional como o Rui Costa?
Deco:
Tranqüilo. Desde a Eurocopa venho jogando como titular e jogando bem. Sem dúvida o Rui foi um ídolo, um cara que marcou jogando na seleção, mas não sinto responsabilidade alguma. E como já faz quase três anos que estou nessa condição, o povo português não fica mais nos comparando.

GE.Net: Falando nisso, você se sente português?
Deco:
Não... Eu me sinto muito bem em Portugal e na seleção portuguesa. Esse negócio de se sentir mais ou menos português é besteira, até porque não deixei de ser brasileiro. Eu me sinto tão bem em Portugal quanto no Brasil.

GE.Net: Conhece o hino? Canta antes das partidas?
Deco:
Conheço porque é um hino fácil de pegar, não é tão grande quanto o brasileiro, e canto sim.

GE.Net: Qual a sensação de ter feito um gol contra o Brasil logo em sua estréia na seleção e ter quebrado um tabu de 37 anos sem vitória de Portugal sobre o Brasil?
Deco:
Aquele foi um jogo mais importante para Portugal do que para o Brasil, pela história, por ter esse tabu, mas o jogo em si acabou sendo normal. Lógico que a sensação de jogar contra o Brasil nunca é simples, mas entendo que foi um momento especial não por jogar contra o Brasil, e sim por tudo o que envolveu, pela história, acho que é isso que vale.

GE.Net: E a sensação de ter sido derrotado em casa na final da Eurocopa diante de um time que nem vai à Copa do Mundo?
Deco:
O problema foi a dificuldade para chegar àquela final, passar por grandes seleções. Ninguém acreditou que fôssemos perder duas vezes para a Grécia. A realidade é essa. Esquecemos que tinha a final. Estávamos certos da vitória, sabíamos que o nosso time era melhor e que seria quase impossível outra zebra acontecer, perder para eles de novo na mesma competição.
(Antes da decisão, Portugal eliminou a Espanha na primeira fase, a Inglaterra nas quartas-de-final e a Holanda na semifinal)

GE.Net: Você se naturalizou quando ainda atuava em Portugal e, pouco depois, foi para a Espanha. Em algum momento se arrependeu da decisão?
Deco:
Não, porque era a situação daquele momento e acho que faria aquilo de novo. E também me sinto muito bem lá, sou muito respeitado e muito bem tratado.

GE.Net: Atuando no Barcelona ao lado de outros brasileiros e com a mídia acompanhando de perto seu futebol, acha que poderia ter chances na seleção brasileira? Por exemplo, o Julio Baptista era muito criticado pelos próprios torcedores do São Paulo e depois de aparecer bem na Espanha ganhou oportunidades na seleção...
Deco:
Não penso muito nisso. Como disse, estou jogando na seleção de Portugal e estou bem, então nem me preocupo com isso. Não adianta ficar imaginando se eu poderia estar na seleção brasileira, como seria, porque não posso estar.

GE.Net: Antes de você ter a primeira chance na seleção portuguesa, o Figo declarou que não achava correto que estrangeiros naturalizados fossem convocados. Quase três anos depois, como está sua relação com ele?
Deco:
Normal, sem problema algum. Nunca tivemos problemas, foi mais uma questão da imprensa. Aquela foi uma opinião dele, era o que ele pensava, mas a nossa relação continua igual.

GE.Net: O Luiz Felipe Scolari pode ser determinante para o sucesso de Portugal no Mundial?
Deco:
Acho que sim, pois ele tem muita experiência, sabemos que por onde ele passou ele ganhou, já tem a experiência da Eurocopa, foi campeão da última Copa com o Brasil, então não se pode pedir mais de um treinador. Ele é fundamental e vai ser muito importante para Portugal chegar longe nessa Copa.

GE.Net: E o José Mourinho, que muitos consideram o melhor técnico do mundo, é tudo isso mesmo?
Deco:
Ele é um grande treinador, mas também existem outros por aí que são muito bons. Ele está entre os melhores, como está o Scolari, o (Fabio) Capello (da Juventus), o próprio (Frank) Rijkaard (do Barcelona). Os treinadores que ganham mais dinheiro são os melhores, mas o Mourinho está sendo muito falado porque apareceu há pouco tempo e sempre vencendo. Só que agora ele está experimentando perder um pouco, porque ser eliminado da Liga dos Campeões duas vezes seguidas com uma equipe que foi formada para ganhar esse título é complicado. Mas é um grande treinador, sem dúvida.
(O Chelsea, do milionário russo Roman Abramovich, apostou no treinador português para chegar ao título inédito da Liga, mas, na temporada passada, caiu na semifinal contra o Liverpool, e, nesta temporada, foi eliminado nas oitavas pelo Barcelona)

GE.Net: O Mourinho contribuiu muito para o seu futebol, uma vez que a melhor ou uma das melhores fases da sua carreira foi com ele?
Deco:
Quando se está em um time bom, é tudo mais fácil. Se você está em um que não ganha, que está jogando mal, que não tem jogadores de qualidade, fica mais difícil aparecer. Isso é para qualquer um, não só para mim. Então, o que ele fez (para mim) não foi nada, a única coisa que fez foi conseguir construir uma equipe forte no Porto e isso me ajudou.

GE.Net: Essa é uma pergunta que talvez não tenha resposta, mas vamos lá: quem é o melhor entre Scolari, Mourinho e Rijkaard?
Deco:
É difícil. São três pessoas com personalidades completamente diferentes, mas aprendi muito com os três, aliás, ainda venho aprendendo com o Rijkaard e o Scolari. Não sei dizer qual é melhor. Sei que se juntassem a qualidade dos três daria o melhor, com certeza (risos).

GE.Net: Quais as diferenças entre eles?
Deco:
O Rijkaard, para uma equipe competitiva como o Barcelona, se adaptou muito bem. Ele consegue apagar os problemas, consegue levar muito bem os jogadores. O Mourinho é aquele que trabalha muito, que é detalhista, que é supertático. E o Scolari é o paizão, que todo mundo gosta dele.

GE.Net: Mesmo tendo como rival local o Real Madrid, o Barcelona quase não tem tido dificuldade para dominar o futebol espanhol. Qual o segredo desse time? Existe uma disposição extra para provar que vocês são melhores que os chamados galácticos?
Deco:
Ah, melhor a gente é. Estamos ganhando, e o time que está na frente, que está ganhando, é o melhor. No ano passado fomos campeões e provamos que somos os melhores, e esse ano estamos na frente de novo, então se ganharmos o campeonato novamente vamos provar outra vez que somos melhores. Mas nós não jogamos para isso, na nossa cabeça não passa o pensamento de jogar para provar que somos melhores que o Madrid. Queremos é ganhar o título.

GE.Net: A legião brasileira no Barcelona só é menor que a espanhola. Em anos anteriores, o fato de o elenco estar inchado de jogadores holandeses causou alguns problemas de relacionamento. Como os demais atletas vêem essa invasão de brasileiros no clube?
Deco:
Aqui não tem problemas e acho até que o nosso relacionamento seja um dos segredos do sucesso do Barcelona. O ambiente é bom pra caramba e isso tem ajudado, até porque os brasileiros que estão aqui são tranqüilos e acabam trazendo um pouco de alegria, principalmente o Ronaldo. Então acho que eles vêem com bons olhos a vinda de brasileiros para equipe, ou pelo menos desses que estão aqui.

GE.Net: Voltando ao passado, após disputar a Copa São Paulo de Juniores em 1997 pelo Corinthians você foi parar no futebol alagoano. Imaginava que um dia se tornaria um astro mundial e que atuaria em uma equipe do porte do Barcelona?
Deco:
Na realidade, fui para Alagoas porque já sabia que iria para Portugal. Foi mais para não ficar parado enquanto não abria a janela de transferência na Europa. Mas não imaginava que conseguiria chegar à situação de hoje. Claro, sempre sonhei e tal, mas no futebol não é tão simples assim como você estudar e seguir a sua profissão. Não existe uma lógica nesse sentido.

GE.Net: E por que você acha que não emplacou no time profissional do Corinthians?
Deco:
O que aconteceu é que meu passe não era do Corinthians, era de uns empresários, e talvez para eles, na época, era mais vantajoso eu ir para fora do que ficar no Corinthians. Então foi meio por pressão deles, porque por vontade minha eu teria ficado no Corinthians.

GE.Net: Você já se declarou corintiano. Pretende um dia voltar a vestir a camisa alvinegra?
Deco:
É complicado porque tenho contrato com o Barcelona até 2010, mas vontade eu tenho, sem dúvida, sempre fui corintiano e continuo sendo.

GE.Net: Poderia ir para o Corinthians após 2010, para encerrar a carreira.
Deco:
Ainda não parei para pensar em parar, mas quero encerrar a carreira bem. Graças a Deus tive a oportunidade de ter sucesso, as coisas ocorreram bem financeiramente, então não vou precisar encerrar a carreira num país distante, vou poder escolher a hora e onde. Eu gostaria de voltar ao Corinthians, mas podendo fazer alguma coisa, não só para encerrar a carreira.

GE.Net: E vai morar no Brasil quando parar?
Deco:
Vou morar no Brasil, claro, mas minha vida vai estar ligada a Portugal também, não tem jeito. Vou ficar nessa rota aí, Brasil-Portugal.

GE.Net: O Ronaldo está insatisfeito no Real Madrid e já declarou ser flamenguista e ter o sonho de defender o Flamengo. Você não acha que depois da Copa seria o momento ideal para ele voltar para o Brasil, já que tem uma estabilidade financeira e já conquistou muito profissionalmente?
Deco:
Acho que o Ronaldo continua sendo o melhor centroavante do mundo, mas é sempre complicado passar por uma fase em que todo mundo cai para cima de você como está acontecendo com ele no Madrid. É difícil falar pelos outros, mas ele está há muitos anos fora do Brasil e deve sentir falta da família, dos amigos, assim como eu, que já estou na Europa há dez anos. Chega um momento que isso pesa. Claro que você não está aqui só pela questão financeira, está pelo prazer de jogar em grandes clubes, mas talvez seja uma boa ele voltar. É aquilo que eu falei: voltar para fazer alguma coisa, não só para encerrar a carreira. É uma pena ele estar sendo contestado depois de uma carreira tão bonita.

GE.Net: Apesar de revelar grandes jogadores para a Europa, o futebol brasileiro quase não tem repercussão de mídia em outros países. A vinda do Ronaldo e de outros jogadores que já têm uma vida financeira estável não poderia ajudar a vender o futebol brasileiro no exterior?
Deco:
Tanto a volta de jogadores veteranos como a de alguns jogadores que não tiveram chance de brilhar na Europa - como o caso do Roger, do Corinthians, que tinha muita moral quando saiu do Brasil e não conseguiu vencer no Benfica -, além da ida de jogadores como Tevez para o Brasil são iniciativas válidas, que atraem o público de fora a ver o Campeonato Brasileiro. Dão mais qualidade, sem dúvida. É ruim porque os jogadores no Brasil saem cada vez mais cedo e em mais quantidade, pois abriram muitos mercados ultimamente, então vai gente com qualidade jogar na Rússia, na Ucrânia, é complicado.

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