| Bruno Ceccon, especial para a GE.Net
Família de agricultores do interior do Paraná, os Pelentier
sempre acalentaram o sonho de ver um filho triunfar no futebol
para melhorar as condições de vida do clã. Douglas foi o primeiro
a tentar a sorte com a bola nos pés e abandonou os pais com
destino ao PSTC, pequeno clube de Londrina. Em um dia de folga,
ele voltou ao sítio e viu o pequeno Dagoberto em ação durante
a disputa de uma inocente pelada. O irmão mais velho não teve
dúvidas e levou o garoto para ser testado.
A partir deste momento, a rotina de plantar milho e feijão
acabou para Daboberto, que impressionou os membros da comissão
técnica do PSTC com seu futebol hábil e objetivo. Os dois
irmãos chegaram a disputar algumas partidas juntos, até uma
grave lesão no joelho abreviar a carreira de Douglas. Sem
a estrutura necessária para se recuperar, ele acabou abandonando
o futebol e voltou para o mesmo sítio onde tudo começou.
Os dois irmãos percorreram caminhos diametralmente opostos.
Enquanto o caçula passou a ganhar a vida fazendo gols, o mais
velho lutava para se acostumar com a antiga rotina. De longe,
a família Pelentier acompanhou a ascensão meteórica de Dagoberto.
O conto de fadas foi interrompido apenas no final do Campeonato
Brasileiro de 2004. O atacante do Atlético-PR sofreu a mesma
ruptura de ligamentos do irmão, foi operado e ainda viu o
Furacão entregar o título para o Santos.
“Com certeza, a história do meu irmão acabou voltando na
minha cabeça. Ele foi muito importante no meu período de recuperação.
Sempre conversamos muito, o Douglas me ajudou ao máximo”,
lembrou Dagoberto. Após operar no joelho, ele passou a conviver
com um novo fantasma, as seguidas lesões musculares. Poucos
dias antes de realizar uma nova cirurgia no joelho, desta
vez no menisco, o atacante conversou com a GE.Net em entrevista
exclusiva. Confira!
GE.Net – O seu irmão é um dos maiores responsáveis
pelo seu início no futebol. Como foi esse começo?
Dagoberto - Ele tentou a carreira de jogador de futebol
antes que eu e sempre falava sobre um irmão mais novo para
o pessoal do PSTC. Fui depois e até chegamos a atuar juntos
em algumas partidas. Mas ele teve uma lesão grave no joelho
e o clube era pequeno, não tinha toda a estrutura necessária
nesses casos. Como não teve o apoio que precisava para voltar,
ele resolveu terminar a carreira.
GE.Net – No momento em que você sofreu a lesão no
ligamento do joelho, lembrou do drama que encerrou a carreira
do seu irmão?
Dagoberto - Com certeza, a história do meu irmão
acabou voltando na minha cabeça. Ele foi muito importante
no meu período de recuperação. Sempre conversamos muito, o
Douglas me ajudou ao máximo. São coisas que acontecem na vida.
Temos que levantar a cabeça e seguir com a bola para frente.
Eu me dediquei muito na reabilitação e jamais tive qualquer
novo problema de ligamento no joelho.
GE.Net - De quem partiu a decisão de realizar a
operação nos Estados Unidos? O atendimento do departamento
médico do Atlético-PR vem sendo satisfatório?
Dagoberto - A decisão de fazer a operação no exterior
partiu do próprio clube. O pessoal aqui do Atlético-PR sempre
me ofereceu uma atenção legal. É claro que todas essas lesões
são coisas que a gente não queria que acontecesse. Mas não
adianta nada ficar lamentando agora. Tem que fazer o tratamento
com seriedade e procurar voltar às atividades normais.
GE.Net - Depois de se recuperar da lesão no joelho,
você passou a conviver com seguidas contusões musculares.
Era algo previsto ou isso já te preocupa?
Dagoberto - Lesões musculares com essa freqüência
que eu venho sofrendo, não são normais. A carreira de jogador
de futebol já não é muito longa e diminui ainda mais quando
você fica muito tempo parado. Eu tive esse problema no menisco
e vou passar por uma nova cirurgia, mas agora é uma situação
bem mais simples. Espero que eu possa voltar definitivamente
e afastar essa “nhaca” de uma vez por todas.
GE.Net - Até pelo seu estilo de jogo, você tem sido
muito perseguido durante os jogos. A truculência dos marcadores
deve complicar ainda mais a sua vida...
Dagoberto - O futebol paranaense já não é grande
coisa, principalmente porque a Federação prima pela desorganização.
E piorou ainda mais com toda essa pancadaria durante os jogos.
Mesmo assim, ninguém nunca é punido. É complicado, você entra
para jogar bola e a marcação chega sempre na maldade. O nível
técnico do campeonato abaixou muito, só tem chutão e balão
para cima.
GE.Net – A passagem do técnico Lothar Matthaus pela
Arena foi muito polêmica. Como você avalia o trabalho do treinador
alemão?
Dagoberto - Na minha opinião, acho que foi uma ótima
passagem. Todo mundo duvidava que ele viria e ele não apenas
veio, como também fez coisas que ninguém acreditava. Todos
ficamos felizes com a presença dele e ainda ganhamos todos
os jogos enquanto o Matthaus esteve conosco. Acho que essa
saída foi uma coisa normal. Ele foi buscar os objetivos dele
e nós continuamos perseguindo os nossos.
GE.Net – Muitos questionaram a postura do técnico,
que viajou para Europa e deixou o cargo repentinamente. O
que você achou dessa atitude?
Dagoberto - Isso é uma coisa normal dentro do futebol.
(Silêncio). Ele trouxe muitas coisas boas, que todos os jogadores
podem usar no decorrer de suas carreiras, principalmente a
disciplina, que é o mínimo que nós devemos ter, e o profissionalismo,
que ele também nos pedia muito. O Matthaus quis mesclar a
qualidade do futebol brasileiro com a marcação alemã e também
nos ensinou a jogar com paixão e amor.
GE.Net – Depois de conquistar o título brasileiro
de 2001, o Atlético-PR se manteve entre os melhores com o
vice de 2004 e o sucesso na última Libertadores. O fracasso
no Estadual e a saída dos principais talentos sinalizam uma
nova era?
Dagoberto - É difícil tirar alguma conclusão sobre
isso. É claro que nós queríamos ter chegado às fases finas
do Campeonato Estadual, mas não foi possível. De alguma forma,
isso acontecer logo no começo da temporada pode ser positivo.
As derrotas servem para mostrar nossos erros, devemos aprender
com eles para deixar tudo pronto para o Brasileiro, que é
onde o bicho pega mesmo.
GE.Net – O seu futuro tem sido motivo de discórdia.
Você pretende se transferir para o exterior ou permanecer
no Atlético-PR? Como está a sua relação com a diretoria?
Dagoberto - Eu sempre deixei claro que o maior objetivo
da minha carreira é jogar num grande clube do futebol europeu.
Espero voltar ao esporte e conseguir embalar numa seqüência
sem lesões para conseguir este objetivo. O presidente foi
muito infeliz nas declarações dele, mas isso já é um assunto
completamente superado. Eu nunca pedi salário ao Atlético-PR.
Estou tranqüilo e agora tenho que pensar em cuidar do meu
joelho. |