| Por Fernando Narazaki
"Eu ainda acredito em um milagre". Assim o
volante Mineiro resumiu as suas esperanças de ir à
Copa do Mundo com a seleção brasileira. Em 15
de maio, ele não viu seu nome entre os 23 convocados
para a Copa. Duas semanas depois, porém, o corte de
Edmílson com uma lesão no menisco do joelho
direito leva o gaúcho nascido em Porto Alegre para
a seleção brasileira.
O milagre esperado pelo jogador do São Paulo enfim
aconteceu e ele deve embarcar já nesta quinta-feira
para Weggis, onde a seleção está concentrada.
O volante ainda participa do jogo contra o Fluminense, nesta
quarta-feira, pela nona rodada do Campeonato Brasileiro, e
depois concederá uma entrevista coletiva.
Antes da convocação, o volante recebeu a reportagem
da GE.Net para uma entrevista exclusiva, na qual lembrou
do início da carreira, mostrou ser uma pessoa centrada e garantiu
que nunca deixará o jeito “Mineiro” de ser, a maneira que
deixou Carlos Luciano da Silva, seu nome registrado em um
cartório de Porto Alegre, como a identidade real do jogador.
De jeito simples, introvertido e avesso a entrevistas fora
de campo, este gaúcho de 30 anos se transforma radicalmente
dentro das quatro linhas.
Marcador implacável, Mineiro tem como virtude a boa colocação
em campo e um fôlego de fazer inveja mesmo aos recém-promovidos
das categorias de base. Após ser revelado no Inter, ele deixou
o Rio Grande do Sul e atuou apenas em clubes de São Paulo
(Rio Branco, Guarani, Ponte Preta e São Caetano), antes de
chegar ao Tricolor do Morumbi no início de 2005.
Em pouco tempo, Mineiro e Josué ganharam a torcida e formaram
um meio-campo implacável. Mas os holofotes só viriam para
o camisa sete em 18 de dezembro, quando recebeu passe de Aloísio,
invadiu a área e tocou na saída de Reina para marcar o gol
da vitória são-paulina sobre o Liverpool por 1 a 0, na final
do Mundial de Clubes.
Depois disso, teve gol de bicicleta contra o São Caetano
(em 26 de janeiro de 2006, pelo Paulista) e uma pintura contra
o Cienciano (em 12 de abril de 2006, pela Libertadores), quando
o time trocou passes até o gol do volante. Nada disso, porém,
foi capaz de fazer mudar o jeito “mineiro” do são-paulino.
Apesar de não revelar publicamente, Mineiro sabe que esta
postura já o atrapalhou bastante. E, mesmo assim, o volante
mantém o seu jeito reservado. Aliás, simples como sempre,
só busca corrigir as “limitações” que julga ter. Foi assim
que recebeu a reportagem para esta entrevista.
GE Net: No começo do ano, você falou muito em tentar
mudar sua imagem, buscar melhorar o marketing pessoal e a
gente percebe que você continua do mesmo jeito. O que você
mudou?
Mineiro: É verdade (risos). Eu tentei no início, mas
vi que não combina. Não é realmente minha área, mas estou
tentando, na medida do possível, estar mais presente e atendendo
algumas solicitações. Mas o fato de estar na mídia, estar
sempre assim, não se enquadra no meu perfil.
GE Net: Você foi pouco convocado pelo Parreira
(uma vez contra Guatemala, em 2005) e acaba não tendo
essas ações do marketing ao seu lado. Você
acha que ainda pode ir à Copa do Mundo? O quanto este
jeito pode ter prejudicado?
Mineiro: Apesar das possibilidades humanas serem pequenas,
olhando do ponto de vista do histórico das últimas
convocações, eu ainda acredito ainda no milagre.
Tenho uma esperança, estou batalhando para isso e,
quem sabe, aí pode aparecer uma surpresa. Sei que realmente
este meu jeito afetou muitas possibilidades da minha carreira,
mas não vou mudar, não adianta.
GE Net: A Copa do Mundo seria o melhor desfecho para
sua carreira?
Mineiro: Sim. É para todo mundo, todo jogador
que começa sua carreira. A Copa, mesmo que você
não atue, é uma realização profissional
para qualquer um. Espero que seja a minha chance também
e estou trabalhando muito para isso.
GE Net: Você admitiu que sua postura afetou sua carreira.
Qual a razão disso? Você acha que fica muito
exposto? A gente vê que o assédio às vezes não é só em cima
do jogador, mas também na vida pessoal. Isso te incomoda?
Mineiro: É exatamente isso. Às vezes extrapola um pouco
e atinge áreas que seria melhor ser preservada. No meu caso,
não foi assim. Já é uma coisa que tenho comigo desde o início
da carreira, sei que (a distância da mídia) em alguns momentos
não foi benéfico para minha carreira, mas também não tenho
ficado frustrado com isso. Sou assim e não vou mudar.
GE Net: Agora gostaria que você respondesse uma curiosidade:
alguém te chama de Carlos Luciano, seu nome verdadeiro?
Mineiro: O pessoal fala brincando, mas dificilmente
alguém me chama assim. Nem na família. Em Porto Alegre, alguns
conhecidos me chamam de Luciano, mas não são muitas pessoas.
GE Net: Nunca te chateou o fato de as pessoas te conhecerem
mais pelo apelido do que pelo nome?
Mineiro: Tenho orgulho de ter este apelido. É uma coisa
carinhosa, até algo que tem a ver com minha personalidade
de ser reservado e quieto. Muitas pessoas até confundem, mas
é um apelido que tenho desde 6, 7 anos e que levo com muito
carinho.
GE Net: Você começou no Rio Grande do Sul. Quando você
percebeu que poderia ser jogador profissional?
Mineiro: Na verdade, sou grato a Deus e ao meu irmão
do meio (André, lateral-esquerdo que não chegou a ser profissional),
que deu origem ao apelido que tenho hoje. Quando ele ia treinar,
para não ficar sozinho em casa, meu pai me levava junto e
eu ficava assistindo. Jogava bola e acabei gostando, seguindo
isso. Na verdade, foi uma aposta, pois a gente não sabe onde
pode chegar. Apesar de ter não estrutura muito boa, sempre
tive chance de estudar em escolas particulares e fazer este
paralelo para chegar onde cheguei.
GE Net: A história é semelhante a do Ronaldinho, que
também começou indo aos treinos com o irmão (Assis, ex-meia
do Grêmio). É mera coincidência?
Mineiro: Acredito que seja uma grande coincidência.
Não é um hábito levar os filhos aos treinos. É que realmente
meu pai não queria que eu ficasse sozinho.
GE Net: Você ainda encontra muitas pessoas dessa época?
Mineiro: Tem muita gente. O Christian, inclusive, a
gente jogou junto nas categorias de base do Inter. Tivemos
esta felicidade de atuar junto depois, ser campeões mundiais
juntos aqui no São Paulo. Foi uma experiência legal para minha
carreira. Tem outros, que não viraram profissionais, que também
encontro.
GE Net: Por todas as dificuldades que encontrou, qual
vitória você considera a maior: a pessoal ou a profissional?
Mineiro: Poderia te descrever de duas maneiras. A primeira
é na minha vida espiritual, saber que em Deus posso todas
as coisas e não tenho limites. E profissional depois, que
foi realizar um sonho de ajudar a família profissionalmente,
ter um bom trabalho e emprego. Sou feliz de alcançar mais
do que imaginava. Não sabia onde podia chegar e nem sei até
onde posso chegar. Tenho mais a agradecer do que reclamar.
Posso me considerar vencedor e feliz.
GE Net: Você já tem 30 anos. Está chegando em uma idade
que muitos jogadores já começam a ser questionados e planejar
a saída dos campos. Você já iniciou isso?
Mineiro: Não tenho em mente até quando vou jogar e
o que vou fazer posteriormente, mas já tenho me preparado.
No lado familiar, a gente já tem conversado sobre isso. Sei
que um dia vou sair de cena, mas quero sair de uma forma legal
e dar seqüência na minha vida. Não sei se no futebol ou fora
dele, mas o importante é parar de uma maneira que considere
bastante adequada.
GE Net: Você já disse que Europa não é uma meta sua.
Qual o grande objetivo da sua carreira?
Mineiro: Minha grande meta é tentar sempre manter uma
regularidade e, se possível, melhorar as minhas limitações.
Na minha vida profissional, as coisas sempre aconteceram de
uma forma natural, nunca usei muito a mídia para me projetar
ou me promover e as coisas sempre aconteceram da melhor forma
possível até a minha chegada na seleção. Não sei se vai pintar
Europa ou proposta melhor daqui para a frente, mas acima de
tudo quero estar sempre dando o meu melhor, independente de
onde estiver.
GE Net: O Leão foi o primeiro técnico que te deu uma
oportunidade na seleção, quando você ainda estava na Ponte?
Qual a importância dele na sua carreira?
Mineiro: Não conhecia ele pessoalmente antes de ser
convocado. Fiquei sendo um fã dele pela atitude, pela personalidade
de assumir uma situação que poucos treinadores assumiriam
naquele momento. Tinha a seleção querendo fazer renovação,
mudar um momento difícil nas eliminatórias e ele me convocou,
chamou o Adriano, que estava surgindo no Flamengo, e teve
o perfil de assumir. Na imprensa, muitos ficaram contrariados,
questionaram isso e fico feliz de ter lembrado e apostado.
Eu acabei me tornando um fã dele neste sentido.
GE Net: Você está em uma idade que costuma ficar muito
exposto a lesões. E você dificilmente tem problemas musculares,
apesar de participar demais de uma partida. Como manter esta
regularidade tão grande?
Mineiro: Eu canso pra caramba, mas em campo isso pode
não aparecer. Acho que é um dom, um talento que Deus tem me
dado. Esta disposição, saúde para dar sempre meu melhor. Às
vezes nem tanto tecnicamente, mas na vontade isso tem feito
diferença. É uma das características que as pessoas vêem em
mim, mas a gente sabe que está todo mundo exposto à ação do
tempo. É continuar trabalhando sempre dentro dos meus limites
e torcer para que nada de errado aconteça e prorrogar o máximo
a minha carreira.
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