Por Raul Flávio
Drewnick
Grosso, sério e trabalhador. Essas são
as características que fizeram de Diego Lugano
Moreno, 25 anos, um fenômeno no futebol brasileiro.
Desde 2003 no Morumbi, o uruguaio foi expulso apenas
três vezes (todas nesta temporada), mas trouxe
de volta o conceito romântico de que zagueiro
bom é aquele que não brinca em serviço
e não está interessado em conquistar o
troféu fair play.
O estilo perseverante, raçudo e eficiente conquistou
rapidamente a torcida são-paulina, cansada do
estigma de ‘time pipoqueiro’ adquirido no
começo da década. No processo de mudança
de perfil do Tricolor, Lugano foi o personagem central.
Antes de acertar sua transferência para o Fenerbahce,
da Turquia, o zagueiro admitiu, nesta sua última
entrevista exclusiva, concedida à GE.Net
na véspera da decisão da Libertadores,
ter “dado uma identidade” para o elenco
campeão do Mundial de Clubes da Fifa de 2005.
Apesar de reconhecer que o São Paulo perde bastante
com a ausência de Josué na partida decisiva,
o zagueiro não tem qualquer dúvida da
vitória no Beira-Rio. Ciente de que esta deve
mesmo ser sua última final com a camisa tricolor,
ele imagina uma virada inesquecível em Porto
Alegre, onde segundo ele “a história será
escrita nesta quarta-feira”. Para Lugano, no entanto,
nem mais este título será capaz de retribuir
todo o carinho que recebeu em sua passagem pelo Morumbi.
Gazeta Esportiva Net: Como foi possível
chegar ao Brasil como um completo desconhecido e criar
toda esta identidade com o São Paulo?
Lugano: Acho que comecei a criá-la desde
o primeiro dia. Recebi muitas críticas, mas sempre
mantive minha postura, minha convicção
e minha vontade de triunfar. Respeitei esta camisa,
meus companheiros, o futebol e também a imprensa.
Desde os momentos mais difíceis até o
atual, acho que a explicação é
essa.
GE.Net: Em 2003, você era apenas o “zagueiro
do presidente” e o São Paulo tinha uma
imagem de um time bonzinho demais com jogadores técnicos,
mas pouco brigadores. Você tem a consciência
de que personifica o novo estilo do time?
Lugano: Já ouvi isso de algumas pessoas.
Cheguei ao Brasil em um momento em que o São
Paulo não vencia títulos há muito
tempo. A pressão era muito grande. De certa forma,
sinto que fui responsável por passar minha identidade
ao elenco dentro e fora do campo. Nos últimos
anos, formamos um time que ganha todos os clássicos,
que chega sempre e decide. Podemos ser ou não
campeões, mas estamos, pelo menos, em segundo
lugar. Estamos sempre brigando.
GE.Net: Não é comum um jogador
de defesa se tornar recordista de vendas de camisas
em um clube. Além de ter conseguido esta proeza,
você foi escolhido também como garoto-propaganda
da LG (uma das patrocinadoras do clube). Quando você
sentiu pela primeira vez que tinha deixado de ser apenas
mais um jogador do elenco e se tornado um ídolo?
Lugano: São coisas diferentes. Sinto
que sou respeitado dentro do São Paulo. As pessoas
vêem em mim o que eu sou: um cara que procura
sempre dar o melhor. Às vezes, as coisas não
saem bem dentro do campo, mas sigo sempre concentrado
e trabalhando. Esta identificação do torcedor
comigo e também o momento vitorioso deste elenco
me ajudaram a criar esta boa imagem no São Paulo
e no futebol brasileiro.
GE.Net: De 2003 pra cá, qual o momento
mais difícil?
Lugano: No começo, sabia que ia ser
complicado. Ninguém me conhecia e eu estava chegando
no melhor time do melhor futebol do mundo. Porém,
foi na época do Cuca que me preocupei mais. Naquele
momento, voltei a ser reserva e o time se reforçou
muito. Eu já tinha passado pela fase de adaptação,
tinha feito uma série de mais de 30 jogos e estava
muito bem. Voltar para a estaca zero foi complicado.
Mais uma vez, foi trabalhando que dei a volta por cima.
GE.Net: Na véspera de um jogo tão
importante, é natural você avisar que não
aceita falar sobre sua iminente saída do São
Paulo. Porém, mesmo que esta não seja
sua última final de campeonato no clube, o que
terá significado esta passagem pelo Morumbi em
sua vida?
Lugano: Este foi o time que me projetou para
o futebol mundial. Vim ao São Paulo como um desconhecido
e hoje sou valorizado em todas as partes do mundo. Fui
convocado para ser titular do Uruguai em uma partida
de vida ou morte nas eliminatórias sem ter jogado
nenhum outro jogo anteriormente, sem conhecer o técnico
ou qualquer outro jogador. Com certeza, eles pensaram:
“se ele joga no São Paulo, está
preparado para esta pressão”. Não
há título no mundo que eu possa dar para
retribuir tanto carinho e tanto respeito que eu recebi
da torcida são-paulina.
GE.Net: A caminhada do São Paulo em
2005 foi muito mais tranqüila até o título
mundial do que a atual. Esta Libertadores está
bem mais sofrida e, até a véspera da final,
Ricardo Oliveira e André Dias ainda são
dúvidas para o jogo.
Lugano: O São Paulo foi disparado o
melhor time da Libertadores no ano passado. Perdemos
só um jogo porque antes já tínhamos
conseguido uma vantagem de quatro gols contra o Tigres,
no Morumbi. Fora de campo, a diretoria segue sua postura
de fazer as coisas certas na hora certa. Este ano, os
jogos estão muito mais equilibrados e disputados.
Mesmo assim, a história a gente vai escrever
nesta quarta. Se trouxermos a taça, como é
nossa convicção, será uma das maiores
vitórias da história do São Paulo.
Temos de ir atrás desta glória.
GE.Net: Nesta quarta-feira, quanta falta vai
fazer o Josué?
Lugano: No Morumbi, após a expulsão,
vimos como ele é importante para o nosso sistema
de jogo. Ele equilibra o time. Todo nosso meio-campo
joga solto por causa dele. Ele é respaldo para
os alas, para o Mineiro e o Danilo. É um jogador
imprescindível taticamente. Ao menos tivemos
tempo para trabalhar e nos acertar sem ele esta semana.
Quem entrar nesta vaga com certeza vai fazer bem esta
função.
GE.Net: Depois da sua primeira convocação,
a seleção uruguaia reagiu bem na reta
final das eliminatórias da Copa deste ano. Houve
uma grande recuperação na campanha de
vocês até a eliminação na
repescagem, contra a Austrália. Qual foi o momento
mais marcante desses jogos?
Lugano: Contra a Argentina, precisávamos
daquela vitória, com 80 mil pessoas no estádio
Centenário, em Montevidéu. Como é
o costume, cantamos o hino apenas até o refrão
e então começamos a fazer o aquecimento
no gramado. Era feriado no Uruguai (dia do Descobrimento
da América) e, por lei, o hino teve de ir até
o final. Nós não sabíamos disso
e só percebemos quando todo o estádio
seguiu cantando. Nós olhamos para cima, no meio
daquela fumaça dos fogos de artifício,
e, puta merda, foi de arrepiar. Fomos até o meio
do campo e batemos palmas para o público.
GE.Net: E com o São Paulo, qual o momento
inesquecível?
Lugano: A volta do Japão em 2005 foi
especial demais. Por sorte, gravei aquela passagem nossa
pelas ruas da cidade. É o tipo de coisa que ninguém
acredita se você contar. Foi algo de outro mundo.
Quem viveu, viveu. Não tem replay. Foi
muito espontâneo e fantástico.
GE.Net: Como podemos definir seu estilo de
jogo? Fale também um pouco dos outros zagueiros
que terão de manter o alto nível no São
Paulo caso sua transferência seja mesmo oficializada
após a Libertadores.
Lugano: Eu procuro sempre ser sério
e concentrado. Acho que esses são os aspectos
fundamentais quando entro em campo. O São Paulo
está muito bem servido tecnicamente neste setor.
O Edcarlos não é mais um garoto. Ele é
campeão do mundo e tem uma maturidade muito grande,
aparece muito bem nos momentos decisivos. Se o André
Dias for liberado pelo Goiás e permanecer no
São Paulo, tenho certeza de que chegará
à seleção brasileira. O Fabão
tem muita experiência também e o Alex Silva
tem estatura e rapidez. Enfim, o São Paulo tem
zagueirada para muitos anos aqui.
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