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Publicada em 15/08/2006

Por Raul Flávio Drewnick

Grosso, sério e trabalhador. Essas são as características que fizeram de Diego Lugano Moreno, 25 anos, um fenômeno no futebol brasileiro. Desde 2003 no Morumbi, o uruguaio foi expulso apenas três vezes (todas nesta temporada), mas trouxe de volta o conceito romântico de que zagueiro bom é aquele que não brinca em serviço e não está interessado em conquistar o troféu fair play.

O estilo perseverante, raçudo e eficiente conquistou rapidamente a torcida são-paulina, cansada do estigma de ‘time pipoqueiro’ adquirido no começo da década. No processo de mudança de perfil do Tricolor, Lugano foi o personagem central. Antes de acertar sua transferência para o Fenerbahce, da Turquia, o zagueiro admitiu, nesta sua última entrevista exclusiva, concedida à GE.Net na véspera da decisão da Libertadores, ter “dado uma identidade” para o elenco campeão do Mundial de Clubes da Fifa de 2005.

Apesar de reconhecer que o São Paulo perde bastante com a ausência de Josué na partida decisiva, o zagueiro não tem qualquer dúvida da vitória no Beira-Rio. Ciente de que esta deve mesmo ser sua última final com a camisa tricolor, ele imagina uma virada inesquecível em Porto Alegre, onde segundo ele “a história será escrita nesta quarta-feira”. Para Lugano, no entanto, nem mais este título será capaz de retribuir todo o carinho que recebeu em sua passagem pelo Morumbi.

Gazeta Esportiva Net: Como foi possível chegar ao Brasil como um completo desconhecido e criar toda esta identidade com o São Paulo?
Lugano:
Acho que comecei a criá-la desde o primeiro dia. Recebi muitas críticas, mas sempre mantive minha postura, minha convicção e minha vontade de triunfar. Respeitei esta camisa, meus companheiros, o futebol e também a imprensa. Desde os momentos mais difíceis até o atual, acho que a explicação é essa.

GE.Net: Em 2003, você era apenas o “zagueiro do presidente” e o São Paulo tinha uma imagem de um time bonzinho demais com jogadores técnicos, mas pouco brigadores. Você tem a consciência de que personifica o novo estilo do time?
Lugano:
Já ouvi isso de algumas pessoas. Cheguei ao Brasil em um momento em que o São Paulo não vencia títulos há muito tempo. A pressão era muito grande. De certa forma, sinto que fui responsável por passar minha identidade ao elenco dentro e fora do campo. Nos últimos anos, formamos um time que ganha todos os clássicos, que chega sempre e decide. Podemos ser ou não campeões, mas estamos, pelo menos, em segundo lugar. Estamos sempre brigando.

GE.Net: Não é comum um jogador de defesa se tornar recordista de vendas de camisas em um clube. Além de ter conseguido esta proeza, você foi escolhido também como garoto-propaganda da LG (uma das patrocinadoras do clube). Quando você sentiu pela primeira vez que tinha deixado de ser apenas mais um jogador do elenco e se tornado um ídolo?
Lugano:
São coisas diferentes. Sinto que sou respeitado dentro do São Paulo. As pessoas vêem em mim o que eu sou: um cara que procura sempre dar o melhor. Às vezes, as coisas não saem bem dentro do campo, mas sigo sempre concentrado e trabalhando. Esta identificação do torcedor comigo e também o momento vitorioso deste elenco me ajudaram a criar esta boa imagem no São Paulo e no futebol brasileiro.

GE.Net: De 2003 pra cá, qual o momento mais difícil?
Lugano:
No começo, sabia que ia ser complicado. Ninguém me conhecia e eu estava chegando no melhor time do melhor futebol do mundo. Porém, foi na época do Cuca que me preocupei mais. Naquele momento, voltei a ser reserva e o time se reforçou muito. Eu já tinha passado pela fase de adaptação, tinha feito uma série de mais de 30 jogos e estava muito bem. Voltar para a estaca zero foi complicado. Mais uma vez, foi trabalhando que dei a volta por cima.

GE.Net: Na véspera de um jogo tão importante, é natural você avisar que não aceita falar sobre sua iminente saída do São Paulo. Porém, mesmo que esta não seja sua última final de campeonato no clube, o que terá significado esta passagem pelo Morumbi em sua vida?
Lugano:
Este foi o time que me projetou para o futebol mundial. Vim ao São Paulo como um desconhecido e hoje sou valorizado em todas as partes do mundo. Fui convocado para ser titular do Uruguai em uma partida de vida ou morte nas eliminatórias sem ter jogado nenhum outro jogo anteriormente, sem conhecer o técnico ou qualquer outro jogador. Com certeza, eles pensaram: “se ele joga no São Paulo, está preparado para esta pressão”. Não há título no mundo que eu possa dar para retribuir tanto carinho e tanto respeito que eu recebi da torcida são-paulina.

GE.Net: A caminhada do São Paulo em 2005 foi muito mais tranqüila até o título mundial do que a atual. Esta Libertadores está bem mais sofrida e, até a véspera da final, Ricardo Oliveira e André Dias ainda são dúvidas para o jogo.
Lugano:
O São Paulo foi disparado o melhor time da Libertadores no ano passado. Perdemos só um jogo porque antes já tínhamos conseguido uma vantagem de quatro gols contra o Tigres, no Morumbi. Fora de campo, a diretoria segue sua postura de fazer as coisas certas na hora certa. Este ano, os jogos estão muito mais equilibrados e disputados. Mesmo assim, a história a gente vai escrever nesta quarta. Se trouxermos a taça, como é nossa convicção, será uma das maiores vitórias da história do São Paulo. Temos de ir atrás desta glória.

GE.Net: Nesta quarta-feira, quanta falta vai fazer o Josué?
Lugano:
No Morumbi, após a expulsão, vimos como ele é importante para o nosso sistema de jogo. Ele equilibra o time. Todo nosso meio-campo joga solto por causa dele. Ele é respaldo para os alas, para o Mineiro e o Danilo. É um jogador imprescindível taticamente. Ao menos tivemos tempo para trabalhar e nos acertar sem ele esta semana. Quem entrar nesta vaga com certeza vai fazer bem esta função.

GE.Net: Depois da sua primeira convocação, a seleção uruguaia reagiu bem na reta final das eliminatórias da Copa deste ano. Houve uma grande recuperação na campanha de vocês até a eliminação na repescagem, contra a Austrália. Qual foi o momento mais marcante desses jogos?
Lugano:
Contra a Argentina, precisávamos daquela vitória, com 80 mil pessoas no estádio Centenário, em Montevidéu. Como é o costume, cantamos o hino apenas até o refrão e então começamos a fazer o aquecimento no gramado. Era feriado no Uruguai (dia do Descobrimento da América) e, por lei, o hino teve de ir até o final. Nós não sabíamos disso e só percebemos quando todo o estádio seguiu cantando. Nós olhamos para cima, no meio daquela fumaça dos fogos de artifício, e, puta merda, foi de arrepiar. Fomos até o meio do campo e batemos palmas para o público.

GE.Net: E com o São Paulo, qual o momento inesquecível?
Lugano:
A volta do Japão em 2005 foi especial demais. Por sorte, gravei aquela passagem nossa pelas ruas da cidade. É o tipo de coisa que ninguém acredita se você contar. Foi algo de outro mundo. Quem viveu, viveu. Não tem replay. Foi muito espontâneo e fantástico.

GE.Net: Como podemos definir seu estilo de jogo? Fale também um pouco dos outros zagueiros que terão de manter o alto nível no São Paulo caso sua transferência seja mesmo oficializada após a Libertadores.
Lugano:
Eu procuro sempre ser sério e concentrado. Acho que esses são os aspectos fundamentais quando entro em campo. O São Paulo está muito bem servido tecnicamente neste setor. O Edcarlos não é mais um garoto. Ele é campeão do mundo e tem uma maturidade muito grande, aparece muito bem nos momentos decisivos. Se o André Dias for liberado pelo Goiás e permanecer no São Paulo, tenho certeza de que chegará à seleção brasileira. O Fabão tem muita experiência também e o Alex Silva tem estatura e rapidez. Enfim, o São Paulo tem zagueirada para muitos anos aqui.

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