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28/08/2006

Por Paulo Amaral

Fernado Pilatos/Gazeta Press
 

Salários astronômicos, fama, mulheres, carrões importados. Se você é jogador de futebol e dos bons, pode ter tudo isso em um estalar de dedos desde que seja reconhecido rapidamente. Se não é, passará a vida toda trabalhando para tentar conquistar o que um bom contrato rende para qualquer atleta do esporte mais popular do Brasil.

A fama e a fortuna conquistadas com o futebol, no entanto, não trazem apenas coisas boas. Muitas vezes despreparados para lidar com a pressão que o jogador de futebol recebe, o atleta encerra a carreira de forma prematura e joga pelo ralo tudo o que conquistou ao longo de sua carreira.

Para diminuir esse risco e aumentar a vida útil do atleta dentro de campo, os clubes, de algum tempo para cá, resolveram estender os cuidados com os jogadores também para o campo psicológico, e contratam profissionais especializados para dar esse suporte às suas jóias raras.

Nesse perfil encaixa-se Regina Brandão, formada em Psicologia, com mestrado realizado em Cuba, no mundo do futebol desde 1995 e trabalhando com psicologia no esporte desde 1989. Convidada pelo técnico Tite para fazer parte da comissão técnica palmeirense, a profissional já está colhendo os frutos que plantou, e parece orgulhosa do trabalho que vem realizando junto ao elenco do Verdão.

Em uma entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net, Regina falou sobre sua experiência na seleção brasileira pentacampeã em 2002, comentou os problemas que enfrenta ao lidar com os egos, quase sempre inflados, dos jogadores de futebol, sobre a preparação do Palmeiras para eventuais tropeços e também da confiança que tem no Alviverde, que, para ela, não tem limites e pode chegar muito longe dentro do Campeonato Brasileiro.

GE.Net – Qual foi a importância do seu trabalho junto à seleção brasileira campeã do mundo em 2002?
Regina Brandão –
Na Copa de 2002 eu não trabalhei diretamente com os jogadores, pois já tinha avaliado em outras ocasiões 70% do grupo que foi para a Ásia. O que eu fiz foi dar uma assessoria, orientar o Felipão como agir com aqueles jogadores que ele colocaria em campo, dando a ele um perfil psicológico individualizado dos atletas.

GE.Net – Esse foi seu único trabalho com o técnico Luiz Felipe Scolari?
Regina –
Não. Fui também auxiliá-lo na seleção portuguesa, mas aí o trabalho foi diferente. Fui para Portugal, tracei o perfil de cada jogador, acompanhei mais de perto.

GE.Net – O Marcos elogiou bastante seu trabalho e revelou que você faz alguns testes para dar ao Tite respostas sobre o elenco. Como são esses testes?
Regina -
O objetivo não é podar ninguém. Queremos é fazer com que o jogador se conheça melhor para poder render melhor dentro de campo, pois, quando está jogando, os pés e os braços não se viram sozinhos. A cabeça é que comanda tudo. Fizemos vários testes e traçamos o perfil psicológico. Através deles, mostramos o que já está bom e o que cada jogador pode melhorar. Isso dá ao Tite dados sobre a característica psicológica de cada um e como tratar com cada atleta em determinada situação, tirando o melhor proveito de cada um.

GE.Net – Qual a sua porcentagem de ajuda para o Palmeiras estar fazendo uma campanha tão brilhante depois da parada para a Copa do Mudo?
Regina –
Esse é um trabalho complementar ao trabalho do treinador. É um algo a mais para ajudá-lo a desenvolver o seu trabalho. Gosto de trabalhar através do treinador.

GE.Net – Como você analisa a situação do Corinthians, que começou o campeonato tão mal contra o Palmeiras, tem um elenco com qualidade melhor, mas não consegue se recuperar?
Regina –
Não posso falar do Corinthians, pois não estou lá. Com relação ao elenco cheio de egos, depende muito do treinador e de como ele consegue criar uma coesão no grupo, a colinha para deixar todo mundo unido. Os objetivos individuais não podem, de maneira alguma, ultrapassar os coletivos. Se em um elenco com muitas estrelas o objetivo pessoal ficar acima do coletivo, a coisa não anda. Depende da liderança para que a estrutura possa funcionar como equipe.

GE.Net – Gostaria de falar um pouco mais sobre três atletas do Palmeiras. O Marcos, que sofre com contusões e ameaçou parar de jogar, o Edmundo, que mudou da água para o vinho, e o Paulo Baier, que admitiu ter sofrido com a ansiedade quando chegou ao clube, mas que agora é peça fundamental no esquema do Tite.
Regina Brandão –
Eu não posso te falar de jogadores em particular, pois coloca em risco o trabalho. O que posso te dizer é que temos uma preocupação em fazer com que o jogador se sinta bem jogando bem, e ele só consegue jogar bem se estiver feliz. Tem que estar se sentindo bem dentro do grupo, bem aceito pelo grupo, e esse é um trabalho que é feito através do Tite. Ele tem um lado psicólogo e estou gostando muito de trabalhar com ele, pois não tem sentido trazer uma pessoa de fora para motivar o grupo de atletas. Quem tem que fazer isso é o próprio treinador. A idéia com esses atletas e com todo o grupo foi bem simples: olhar para dentro do grupo, pois, se eu olho para fora, eu sonho. Se olho para dentro, eu descubro. Não adianta ficar lamentando os pontos perdidos. Tem que olhar para dentro do grupo, descobrir o que está acontecendo e trabalhar em cima disso. É isso que vem sendo feito, repito, através do Tite.

GE.Net – Desculpe insistir no caso do Marcos, mas preocupa o fato dele falar que pensa em encerrar a carreira se sofrer novas contusões?
Regina –
Todo atleta que sofre contusões seguidas acaba mexendo com sua motivação, seu emocional. O jogador tem que lembrar, no entanto, que conviver com dor e lesão faz parte do dia-a-dia do esporte. Quando chega em uma certa idade, o futebol começa a pesar, mas quando o Marcos sentir que as dores diminuíram e que está conseguindo jogar, a motivação irá voltar.

GE.Net – Você falou muito em “sentir-se bem” para jogar bem. É por isso que o Edmundo está jogando tanta bola sem dar nenhum tipo de problema? Ou é por causa do Tite?
Regina –
A postura dele em campo mostra isso, né. O Tite tem uma personalidade muito interessante, pois respeita os jogadores com os quais trabalha. Eu costumo dizer que os jogadores são os ossos do ofício e os olhos do ofício, pois ao mesmo tempo que dão alguns problemas para resolvermos, são nossos olhos, pois é através deles que tiramos o melhor proveito e vemos a equipe dar retorno em campo.

GE.Net – Como manter jogadores renomados como Marcos, Edmundo e outras estrelas interessados em assuntos relativos à psicologia?
Regina –
Todos esses jogadores que você citou já tem fama, dinheiro, tudo. O que precisamos fazer é motivá-los através do coração, do prazer de jogar futebol, que é o que mais gostam e sabem fazer. Temos que trabalhar os jogadores em cima deste prazer, pois quando o prazer acabar, eles acabam desistindo.

GE.Net – Como lidar com um jogador-problema dentro de um grupo?
Regina –
Não é uma situação fácil, não, pois qualquer conflito de relacionamento influi no rendimento da equipe. Não temos que ir lá e apontar esse jogador-problema, e sim fazer o contrário. Conhecer o jogador para poder lidar com ele da melhor maneira e fazê-lo render o máximo possível, pois isso ajuda tanto ao próprio atleta como também o grupo. Não trabalhamos amizade, e sim companheirismo. Dentro de campo, tenho que ajudar meu companheiro, e é isso que tentamos colocar.

GE.Net – Isso pode ter atrapalhado a seleção brasileira?
Regina –
Ainda não consegui identificar muito bem o que aconteceu com a seleção, pois era para ter ganho a Copa. Acredito que os fatores externos tenham sido mais adversários do que os que o Brasil enfrentou em campo.

GE.Net – Você também trabalhou com a seleção que está no Mundial de Basquete. É mais fácil trabalhar com esportes que não mexem tanto com a paixão quanto o futebol?
Regina –
Trabalhamos sempre com busca de metas e superação de desafios. Trabalho apenas com equipes de altíssimo rendimento, como foi com a seleção feminina de voleibol, que passou por momentos difíceis na Olimpíada (perdeu a semifinal para a Rússia após ter seis chances para vencer o jogo), mas depois se superou e ganhou todos os torneios que disputou.

GE.Net – Até onde esse time do Palmeiras pode chegar? Ele está preparado para eventuais derrotas?
Regina –
Acredito que o Palmeiras pode chegar até onde quiser, pois tem capacidade para isso e jogadores para isso, além de um treinador competente. O grupo está preparado para absorver derrotas, pois da mesma forma que os quatro pontinhos do início eram irreais, essa campanha também é. O time tem que entender e aprender com a derrota, para que ela não ocorra mais no decorrer da competição.

GE.Net – Há um prazo de validade para o trabalho de um psicólogo, uma hora em que o time não precisa mais de seu apoio?
Regina –
Na verdade, o processo de preparação psicológica é um processo que não termina nunca, pois a cada dia surgem novos desafios, novos obstáculos. A preparação psicológica dentro da psicologia do esporte não é emocional, é algo que se desenvolve ao longo do tempo, por isso temos que trabalhar com jogadores e treinadores ao longo da temporada.

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