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Por Paulo Amaral
| Fernado Pilatos/Gazeta Press |
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Salários astronômicos, fama, mulheres,
carrões importados. Se você é jogador
de futebol e dos bons, pode ter tudo isso em um estalar
de dedos desde que seja reconhecido rapidamente. Se
não é, passará a vida toda trabalhando
para tentar conquistar o que um bom contrato rende para
qualquer atleta do esporte mais popular do Brasil.
A fama e a fortuna conquistadas com o futebol, no entanto,
não trazem apenas coisas boas. Muitas vezes despreparados
para lidar com a pressão que o jogador de futebol
recebe, o atleta encerra a carreira de forma prematura
e joga pelo ralo tudo o que conquistou ao longo de sua
carreira.
Para diminuir esse risco e aumentar a vida útil
do atleta dentro de campo, os clubes, de algum tempo
para cá, resolveram estender os cuidados com
os jogadores também para o campo psicológico,
e contratam profissionais especializados para dar esse
suporte às suas jóias raras.
Nesse perfil encaixa-se Regina Brandão, formada
em Psicologia, com mestrado realizado em Cuba, no mundo
do futebol desde 1995 e trabalhando com psicologia no
esporte desde 1989. Convidada pelo técnico Tite
para fazer parte da comissão técnica palmeirense,
a profissional já está colhendo os frutos
que plantou, e parece orgulhosa do trabalho que vem
realizando junto ao elenco do Verdão.
Em uma entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.Net,
Regina falou sobre sua experiência na seleção
brasileira pentacampeã em 2002, comentou os problemas
que enfrenta ao lidar com os egos, quase sempre inflados,
dos jogadores de futebol, sobre a preparação
do Palmeiras para eventuais tropeços e também
da confiança que tem no Alviverde, que, para
ela, não tem limites e pode chegar muito longe
dentro do Campeonato Brasileiro.
GE.Net – Qual foi a importância
do seu trabalho junto à seleção
brasileira campeã do mundo em 2002?
Regina Brandão – Na Copa de 2002
eu não trabalhei diretamente com os jogadores,
pois já tinha avaliado em outras ocasiões
70% do grupo que foi para a Ásia. O que eu fiz
foi dar uma assessoria, orientar o Felipão como
agir com aqueles jogadores que ele colocaria em campo,
dando a ele um perfil psicológico individualizado
dos atletas.
GE.Net – Esse foi seu único trabalho
com o técnico Luiz Felipe Scolari?
Regina – Não. Fui também
auxiliá-lo na seleção portuguesa,
mas aí o trabalho foi diferente. Fui para Portugal,
tracei o perfil de cada jogador, acompanhei mais de
perto.
GE.Net – O Marcos elogiou bastante seu
trabalho e revelou que você faz alguns testes
para dar ao Tite respostas sobre o elenco. Como são
esses testes?
Regina - O objetivo não é podar
ninguém. Queremos é fazer com que o jogador
se conheça melhor para poder render melhor dentro
de campo, pois, quando está jogando, os pés
e os braços não se viram sozinhos. A cabeça
é que comanda tudo. Fizemos vários testes
e traçamos o perfil psicológico. Através
deles, mostramos o que já está bom e o
que cada jogador pode melhorar. Isso dá ao Tite
dados sobre a característica psicológica
de cada um e como tratar com cada atleta em determinada
situação, tirando o melhor proveito de
cada um.
GE.Net – Qual a sua porcentagem de ajuda
para o Palmeiras estar fazendo uma campanha tão
brilhante depois da parada para a Copa do Mudo?
Regina – Esse é um trabalho complementar
ao trabalho do treinador. É um algo a mais para
ajudá-lo a desenvolver o seu trabalho. Gosto
de trabalhar através do treinador.
GE.Net – Como você analisa a situação
do Corinthians, que começou o campeonato tão
mal contra o Palmeiras, tem um elenco com qualidade
melhor, mas não consegue se recuperar?
Regina – Não posso falar do Corinthians,
pois não estou lá. Com relação
ao elenco cheio de egos, depende muito do treinador
e de como ele consegue criar uma coesão no grupo,
a colinha para deixar todo mundo unido. Os objetivos
individuais não podem, de maneira alguma, ultrapassar
os coletivos. Se em um elenco com muitas estrelas o
objetivo pessoal ficar acima do coletivo, a coisa não
anda. Depende da liderança para que a estrutura
possa funcionar como equipe.
GE.Net – Gostaria de falar um pouco mais
sobre três atletas do Palmeiras. O Marcos, que
sofre com contusões e ameaçou parar de
jogar, o Edmundo, que mudou da água para o vinho,
e o Paulo Baier, que admitiu ter sofrido com a ansiedade
quando chegou ao clube, mas que agora é peça
fundamental no esquema do Tite.
Regina Brandão – Eu não
posso te falar de jogadores em particular, pois coloca
em risco o trabalho. O que posso te dizer é que
temos uma preocupação em fazer com que
o jogador se sinta bem jogando bem, e ele só
consegue jogar bem se estiver feliz. Tem que estar se
sentindo bem dentro do grupo, bem aceito pelo grupo,
e esse é um trabalho que é feito através
do Tite. Ele tem um lado psicólogo e estou gostando
muito de trabalhar com ele, pois não tem sentido
trazer uma pessoa de fora para motivar o grupo de atletas.
Quem tem que fazer isso é o próprio treinador.
A idéia com esses atletas e com todo o grupo
foi bem simples: olhar para dentro do grupo, pois, se
eu olho para fora, eu sonho. Se olho para dentro, eu
descubro. Não adianta ficar lamentando os pontos
perdidos. Tem que olhar para dentro do grupo, descobrir
o que está acontecendo e trabalhar em cima disso.
É isso que vem sendo feito, repito, através
do Tite.
GE.Net – Desculpe insistir no caso do
Marcos, mas preocupa o fato dele falar que pensa em
encerrar a carreira se sofrer novas contusões?
Regina – Todo atleta que sofre contusões
seguidas acaba mexendo com sua motivação,
seu emocional. O jogador tem que lembrar, no entanto,
que conviver com dor e lesão faz parte do dia-a-dia
do esporte. Quando chega em uma certa idade, o futebol
começa a pesar, mas quando o Marcos sentir que
as dores diminuíram e que está conseguindo
jogar, a motivação irá voltar.
GE.Net – Você falou muito em “sentir-se
bem” para jogar bem. É por isso que o Edmundo
está jogando tanta bola sem dar nenhum tipo de
problema? Ou é por causa do Tite?
Regina – A postura dele em campo mostra
isso, né. O Tite tem uma personalidade muito
interessante, pois respeita os jogadores com os quais
trabalha. Eu costumo dizer que os jogadores são
os ossos do ofício e os olhos do ofício,
pois ao mesmo tempo que dão alguns problemas
para resolvermos, são nossos olhos, pois é
através deles que tiramos o melhor proveito e
vemos a equipe dar retorno em campo.
GE.Net – Como manter jogadores renomados
como Marcos, Edmundo e outras estrelas interessados
em assuntos relativos à psicologia?
Regina – Todos esses jogadores que você
citou já tem fama, dinheiro, tudo. O que precisamos
fazer é motivá-los através do coração,
do prazer de jogar futebol, que é o que mais
gostam e sabem fazer. Temos que trabalhar os jogadores
em cima deste prazer, pois quando o prazer acabar, eles
acabam desistindo.
GE.Net – Como lidar com um jogador-problema
dentro de um grupo?
Regina – Não é uma situação
fácil, não, pois qualquer conflito de
relacionamento influi no rendimento da equipe. Não
temos que ir lá e apontar esse jogador-problema,
e sim fazer o contrário. Conhecer o jogador para
poder lidar com ele da melhor maneira e fazê-lo
render o máximo possível, pois isso ajuda
tanto ao próprio atleta como também o
grupo. Não trabalhamos amizade, e sim companheirismo.
Dentro de campo, tenho que ajudar meu companheiro, e
é isso que tentamos colocar.
GE.Net – Isso pode ter atrapalhado a
seleção brasileira?
Regina – Ainda não consegui identificar
muito bem o que aconteceu com a seleção,
pois era para ter ganho a Copa. Acredito que os fatores
externos tenham sido mais adversários do que
os que o Brasil enfrentou em campo.
GE.Net – Você também trabalhou
com a seleção que está no Mundial
de Basquete. É mais fácil trabalhar com
esportes que não mexem tanto com a paixão
quanto o futebol?
Regina – Trabalhamos sempre com busca
de metas e superação de desafios. Trabalho
apenas com equipes de altíssimo rendimento, como
foi com a seleção feminina de voleibol,
que passou por momentos difíceis na Olimpíada
(perdeu a semifinal para a Rússia após
ter seis chances para vencer o jogo), mas depois se
superou e ganhou todos os torneios que disputou.
GE.Net – Até onde esse time do
Palmeiras pode chegar? Ele está preparado para
eventuais derrotas?
Regina – Acredito que o Palmeiras pode
chegar até onde quiser, pois tem capacidade para
isso e jogadores para isso, além de um treinador
competente. O grupo está preparado para absorver
derrotas, pois da mesma forma que os quatro pontinhos
do início eram irreais, essa campanha também
é. O time tem que entender e aprender com a derrota,
para que ela não ocorra mais no decorrer da competição.
GE.Net – Há um prazo de validade
para o trabalho de um psicólogo, uma hora em
que o time não precisa mais de seu apoio?
Regina – Na verdade, o processo de preparação
psicológica é um processo que não
termina nunca, pois a cada dia surgem novos desafios,
novos obstáculos. A preparação
psicológica dentro da psicologia do esporte não
é emocional, é algo que se desenvolve
ao longo do tempo, por isso temos que trabalhar com
jogadores e treinadores ao longo da temporada.
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