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17/11/2006
Montagem sobre foto de Fernando Pilatos/Gazeta Press
Por Marcelo Belpiede

Paciência. Essa foi a maior virtude do São Paulo no caso do meio-campista Souza. Contratado em 2003, como revelação da Portuguesa Santista, o jogador só foi dar frutos neste ano. Atualmente, com habilidade e astúcia, comanda o setor de criação do time que está a um passo de conquistar o Campeonato Brasileiro.

Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net, Souza falou das dificuldades do início no futebol. Começou como todo garoto com a ajuda do pai Dorgival, ganhou sua primeira chuteira da mãe e passou a acreditar na realização do sonho. Passou pelo CSA, Grêmio-AL, Botafogo e Guarani, antes de se destacar na Portuguesa Santista. Nesta trajetória, amargou uma experiência frustrada no Botafogo, em que chegou a ser acusado de jogador-problema. Porém, culpa a desorganização do time na época para seu fracasso no Rio de Janeiro.

Com o bom desempenho em 2006, Souza admite que já foi alvo de sondagens do exterior. Desta forma, acredita que será chamado pela direção do São Paulo para receber um reconhecimento neste final de ano do presidente Juvenal Juvêncio, de quem já ganhou até cavalo de presente. Seu atual contrato vale até a temporada de 2009.

Polêmico, Souza espera uma oportunidade em breve na seleção brasileira. Medo da disputa com os badalados Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona, e Kaká, do Milan, está longe da cabeça do atleta, que é muito querido no Morumbi por seu excelente humor. Para completar, ele sonha em superar Rogério Ceni e Mineiro na disputa do prêmio de melhor do Brasileirão.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
Gazeta Esportiva.Net: No Brasileiro, você chamou a atenção pela versatilidade e por fazer cruzamentos levando a chances reais de gol. Como explica esta facilidade que tem em bater na bola?
Souza:
É coisa de Deus. Fui para o CSA, em Maceió, com 17, 18 anos e quase não tive trabalho de base. O que me fez chutar bem foi jogar descalço. Você sente mais a bola, sabe o que precisa para a bola sair na direção certa. Também joguei em campo de pelada que não tinha grama. Então, você chutava toda hora o chão, saia o tampão do dedo, a unha. Foram muitas dificuldades na adolescência. Hoje eu jogo no Morumbi, que é um tapete. Não imagina como é mais fácil.

GE.Net: Quando chegou ao São Paulo, lembro de alguns comentários ruins sobre sua passagem no Botafogo. Diziam que você ficou deslumbrado no Rio de Janeiro. É verdade?
Souza:
Isso é mentira. O pessoal briga no aeroporto, a torcida vaia, agride, o jogador vai se defender e é mandado embora. O cara vai apanhar? No Rio foi a mesma coisa. Fui para lá com o salário de R$ 800 do CSA para ganhar dez vezes mais. Só que tinha o principal. Em Maceió, eu recebia. No Rio, eu fiquei oito meses sem receber. Nunca tive negócio de deslumbrar. Eu até queria ajudar minha família. Quando as coisas não dão certo, a culpa sempre é do jogador. Ninguém sabe a verdade. No Rio, me chamaram até de “candidato a 171” (artigo no Código Penal do crime de estelionato) em uma matéria. Pensei em processar. Puxa, foi a primeira vez que abri conta, tive cartão de crédito. Eu passava cheque, só que o dinheiro não caía. Aqui no São Paulo eu fecho o olho. Sei que não vou ter problema e cai o salário.

GE.Net: Você ainda não recebeu do Botafogo?
Souza:
Não recebi. Para você ter idéia, o processo estava rolando fazia três anos, mas tive que desistir porque me dava muitos gastos. Estava tendo prejuízo. Vou falar com meu empresário para resolver em uma conversa com o Bebeto de Freitas (presidente do Botafogo). Eles são amigos. Você vê tudo isso e falaram que fiquei deslumbrado. O Rio é igual a minha cidade, tem praia, mulher bonita, tem tudo.

GE.Net: No São Paulo, você demorou para dar certo. Qual o motivo?
Souza:
Joguei sete ou oito jogos quando cheguei ao São Paulo e me machuquei. Tive uma cirurgia de ligamento cruzado, fiquei três meses parado. Mas eu voltei bem, marcando gols no Morumbi em partidas importantes. Só que tem o processo de readaptação do joelho, de posicionamento, de mobilidade no local da contusão. Esse foi o motivo para demorar. Ainda também precisava de um cara que apostasse em mim. Eu jogava e voltava para a reserva. Fazia uma partida brilhante e sabia que ia para a reserva. Hoje com o Muricy, a gente sabe que quem estiver melhor vai jogar.

GE.Net: Até por isso você teve aquele desabafo que não jogaria mais no São Paulo após a final do Mundial?
Souza:
Sim. Uma coisa é você esperar, se preparar. Outra coisa é o cara te prometer. É a mesma coisa quando você promete algo para o filho. Se falar que vai comprar um carrinho, ele ficará o dia inteiro esperando, te enchendo, vai chorar. Foi o que aconteceu comigo. O Paulo (Autuori) me prometeu e não fez. No intervalo contra o Liverpool, ele me chamou e falou que se o jogo continuasse daquele jeito, eu teria que entrar.

GE.Net: Se o Autuori não tivesse saído, você acha que não estaria nessa boa fase hoje? Ficou com mágoa dele?
Souza:
Não tenho nada contra o Paulo. Hoje eu entendo o posicionamento dele. Na hora que falei, estava de cabeça quente e não entendia porque não tinha me colocado. Eu o ajudei muito aqui, como ele também me ajudou. Eu sempre fui honesto e sempre falo o que me dá na telha.

GE.Net: A sua declaração em Goiânia ao dizer que já se sentia campeão mostrou que você é 100% emocional.
Souza:
Falo o que penso, o que acho. Não penso nos outros. O que vale é minha opinião. Respeito, é claro, a dos outros. Mas até me provarem o contrário, minha opinião será sempre a mesma.

GE.Net: Com todo esse sucesso, recebeu muitas propostas?
Souza:
Tem bastante sondagem, meu empresário me fala bastante, das propostas que existem. Mas o presidente Juvenal disse que, enquanto ele for o presidente, eu não sairia. Fico feliz, mas também conto com a colaboração da diretoria. Meu pensamento é ficar no São Paulo.

GE.Net: Você acredita que terá uma valorização por parte da diretoria neste final de ano?
Souza:
Eu espero que sim. A gente sabe do peso de uma proposta do exterior. O clube se mantém com isso. Já falei ao seu Juvenal que não quero sair, espero que façam alguma coisa para eu ficar.

GE.Net: Se pudesse escolher um país, para onde iria? E se não desse certo e tivesse que voltar, aceitaria jogar no Palmeiras ou Corinthians?
Souza:
Olha, Itália e Espanha, até para a família, é mais legal, mais fácil o idioma. Qualquer um dos dois seria legal. Particularmente, gostaria de voltar para o São Paulo. O cara que conquista algo em um clube e volta para outro acaba apagando o que ele deixou. A gente batalha tanto para conquistar algo em clube grande. Daqui a dez anos, a torcida do São Paulo nem iria me cumprimentar. Corinthians e Palmeiras estão fora dos meus planos.

GE.Net: Você já demonstrou grande vontade em jogar pela seleção. Mas e a concorrência com o Ronaldinho Gaúcho e o Kaká?
Souza:
Já encarei fome, que é pior. São grandes jogadores, fenômenos no futebol. Mas para saber se consigo encarar, preciso de uma oportunidade. Quando for dada, a gente vai procurar agarrar. Todo mundo dentro do futebol tem o sonho de estar na seleção, independente de quem seja titular. Qualquer um, com força de vontade, pode atingir o que eles atingiram.

GE.Net: Com a saída do Danilo, a badalada camisa dez do São Paulo pode ficar vaga. Você fez até um brinco S21, mas assumiria a dez?
Souza:
No começo do ano, queriam trocar pela camisa dois, preferi ficar com a 21. Foi um número que me trouxe coisas boas desde o ano passado. Por incrível que pareça foi o Leão que escolheu para mim. Eu já joguei com a dez, vamos ver. Por enquanto, prefiro a atual. Hoje nem tem tanto essa badalação pela dez. Vemos tanto cara com a dez no banco. Eu quero é jogar.

GE.Net: Você falou no Leão, um técnico que não te deixou saudades, e houve a polêmica com o Carlos Alberto. Quem teve a razão?
Souza:
O Carlos Alberto perdeu a razão. A melhor resposta para um treinador é mostrar sua qualidade dentro de campo. Não adianta bater boca. O técnico é a maior autoridade e precisa ser respeitado. Eu nunca tive problema assim com o Leão, embora não jogasse com ele.

GE.Net: Três jogadores estão cotados para craque do Brasileiro, Rogério, Mineiro e você. Qual seria o seu voto?
Souza:
Eu votaria no Mineiro. É falta de ética votar em mim mesmo.

GE.Net: Mas na última eleição no Brasil, o presidente Lula pôde votar em si próprio.
Souza:
Então eu votaria em mim, sim. Mas será uma briga boa. O Rogério também é um ídolo do Brasil, um espelho. Mas eu votaria em mim para coroar essa temporada perfeita que eu tive, ainda mais se for escolhido o melhor do Brasileirão.

GE.Net: Você teve uma infância difícil, já falou várias vezes que passou fome. Qual foi o segredo para o Souza chegar ao sucesso?
Souza:
Devo tudo a Deus, não tem outra coisa a falar. Foi ele que me capacitou. Estava até falando com o Bosco, em uma conversa particular, que foi duro para eu chegar aqui. Todos podem falar que temos carro bom, somos chamados de playboy. Foi dureza, cheguei a passar fome, fugi de casa.

GE.Net: Como foi essa história de sair de casa?
Souza:
Eu tinha hora para chegar em casa. Era às 10 da noite. Se chegasse 10h05 da noite, ficava fora. Mas dos filhos da minha mãe, eu era o que menos dava trabalho. Tinha arrumado minha primeira namorada, então acabava excedendo um pouco, ainda mais sendo adolescente. E a minha família não entendia. Tinha leis e eu pagava com isso. Dormia na rua ou pedia para dormir na casa de alguém, mas tudo contribuiu para que eu pudesse ter boa educação, poder passar algo ao meu filho. Nada na vida é por acaso.

GE.Net: Todas essas dificuldades foram responsáveis por te deixar uma pessoa descontraída?
Souza:
Com certeza, também nunca fui um cara de chorar com essas coisas. Ficava magoado, guardava para mim. A única maneira de extravasar ou transparecer o que eu passava era fazendo palhaçada, contando piada, botando apelido nos outros. Puxa, você se vê na situação de dez anos atrás e agora está estável, poder dar tudo aos filhos. Estou muito feliz.

GE.Net: Por sua simplicidade, eu acharia curioso te ver no elenco como do Real Madrid, cheio de estrelas e com a frieza tradicional do europeu. O que você falaria ao Beckham, por exemplo, que já foi manchete por usar a calcinha da mulher?
Souza:
No primeiro dia, eu chegava quieto. Mas, em pouco tempo, eu colocaria um apelidinho nele. Comigo não tem esse negócio de ambiente frio. Tem cara aqui no São Paulo que é fechado e brinca comigo. Quando eu chego, o pessoal se empolga e entra na brincadeira. De cara, precisaria pensar em um apelido para ele. Mas eu iria lembrar da história, sim. Para mim, um alagoano, não pode essa coisa de vestir calcinha (risos).

GE.Net: Toda essa badalação trouxe um assédio maior nos últimos meses?
Souza:
As pessoas tentam se aproximar, mas sou muito família, caseiro. Vou de casa para o treino, do treino para a casa. Vou ao cinema. Tenho uma coisa, meus amigos são meus irmãos. Tenho muita amizade aqui no São Paulo, mais dois ou três fora que considero. Mas a gente conhece o futebol, pensam que sou milionário. Sou cabeça, tranqüilo e sei quem é aproveitador.

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