Por Marcelo Belpiede
Paciência. Essa foi a maior virtude do São Paulo no caso
do meio-campista Souza. Contratado em 2003, como revelação
da Portuguesa Santista, o jogador só foi dar frutos neste
ano. Atualmente, com habilidade e astúcia, comanda o setor
de criação do time que está a um passo de conquistar o
Campeonato Brasileiro.
Em entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva.Net,
Souza falou das dificuldades do início no futebol. Começou
como todo garoto com a ajuda do pai Dorgival, ganhou
sua primeira chuteira da mãe e passou a acreditar na
realização do sonho. Passou pelo CSA, Grêmio-AL, Botafogo
e Guarani, antes de se destacar na Portuguesa Santista.
Nesta trajetória, amargou uma experiência frustrada
no Botafogo, em que chegou a ser acusado de jogador-problema.
Porém, culpa a desorganização do time na época para
seu fracasso no Rio de Janeiro.
Com o bom desempenho em 2006, Souza admite que já
foi alvo de sondagens do exterior. Desta forma, acredita
que será chamado pela direção do São Paulo para receber
um reconhecimento neste final de ano do presidente Juvenal
Juvêncio, de quem já ganhou até cavalo de presente.
Seu atual contrato vale até a temporada de 2009.
Polêmico, Souza espera uma oportunidade em breve na
seleção brasileira. Medo da disputa com os badalados
Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona, e Kaká, do Milan, está
longe da cabeça do atleta, que é muito querido no Morumbi
por seu excelente humor. Para completar, ele sonha em
superar Rogério Ceni e Mineiro na disputa do prêmio
de melhor do Brasileirão.
| Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press |
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Gazeta Esportiva.Net: No Brasileiro, você chamou
a atenção pela versatilidade e por fazer cruzamentos
levando a chances reais de gol. Como explica esta facilidade
que tem em bater na bola?
Souza: É coisa de Deus. Fui para o CSA, em
Maceió, com 17, 18 anos e quase não tive trabalho de
base. O que me fez chutar bem foi jogar descalço. Você
sente mais a bola, sabe o que precisa para a bola sair
na direção certa. Também joguei em campo de pelada que
não tinha grama. Então, você chutava toda hora o chão,
saia o tampão do dedo, a unha. Foram muitas dificuldades
na adolescência. Hoje eu jogo no Morumbi, que é um tapete.
Não imagina como é mais fácil.
GE.Net: Quando chegou ao São Paulo, lembro
de alguns comentários ruins sobre sua passagem no Botafogo.
Diziam que você ficou deslumbrado no Rio de Janeiro.
É verdade?
Souza: Isso é mentira. O pessoal briga no aeroporto,
a torcida vaia, agride, o jogador vai se defender e
é mandado embora. O cara vai apanhar? No Rio foi a mesma
coisa. Fui para lá com o salário de R$ 800 do CSA para
ganhar dez vezes mais. Só que tinha o principal. Em
Maceió, eu recebia. No Rio, eu fiquei oito meses sem
receber. Nunca tive negócio de deslumbrar. Eu até queria
ajudar minha família. Quando as coisas não dão certo,
a culpa sempre é do jogador. Ninguém sabe a verdade.
No Rio, me chamaram até de “candidato a 171” (artigo
no Código Penal do crime de estelionato) em uma matéria.
Pensei em processar. Puxa, foi a primeira vez que abri
conta, tive cartão de crédito. Eu passava cheque, só
que o dinheiro não caía. Aqui no São Paulo eu fecho
o olho. Sei que não vou ter problema e cai o salário.
GE.Net: Você ainda não recebeu do Botafogo?
Souza: Não recebi. Para você ter idéia, o processo
estava rolando fazia três anos, mas tive que desistir
porque me dava muitos gastos. Estava tendo prejuízo.
Vou falar com meu empresário para resolver em uma conversa
com o Bebeto de Freitas (presidente do Botafogo). Eles
são amigos. Você vê tudo isso e falaram que fiquei deslumbrado.
O Rio é igual a minha cidade, tem praia, mulher bonita,
tem tudo.
GE.Net: No São Paulo, você demorou para dar
certo. Qual o motivo?
Souza: Joguei sete ou oito jogos quando cheguei
ao São Paulo e me machuquei. Tive uma cirurgia de ligamento
cruzado, fiquei três meses parado. Mas eu voltei bem,
marcando gols no Morumbi em partidas importantes. Só
que tem o processo de readaptação do joelho, de posicionamento,
de mobilidade no local da contusão. Esse foi o motivo
para demorar. Ainda também precisava de um cara que
apostasse em mim. Eu jogava e voltava para a reserva.
Fazia uma partida brilhante e sabia que ia para a reserva.
Hoje com o Muricy, a gente sabe que quem estiver melhor
vai jogar.
GE.Net: Até por isso você teve aquele desabafo
que não jogaria mais no São Paulo após a final do Mundial?
Souza: Sim. Uma coisa é você esperar, se preparar.
Outra coisa é o cara te prometer. É a mesma coisa quando
você promete algo para o filho. Se falar que vai comprar
um carrinho, ele ficará o dia inteiro esperando, te
enchendo, vai chorar. Foi o que aconteceu comigo. O
Paulo (Autuori) me prometeu e não fez. No intervalo
contra o Liverpool, ele me chamou e falou que se o jogo
continuasse daquele jeito, eu teria que entrar.
GE.Net: Se o Autuori não tivesse saído, você
acha que não estaria nessa boa fase hoje? Ficou com
mágoa dele?
Souza: Não tenho nada contra o Paulo. Hoje
eu entendo o posicionamento dele. Na hora que falei,
estava de cabeça quente e não entendia porque não tinha
me colocado. Eu o ajudei muito aqui, como ele também
me ajudou. Eu sempre fui honesto e sempre falo o que
me dá na telha.
GE.Net: A sua declaração em Goiânia ao dizer
que já se sentia campeão mostrou que você é 100% emocional.
Souza: Falo o que penso, o que acho. Não penso
nos outros. O que vale é minha opinião. Respeito, é
claro, a dos outros. Mas até me provarem o contrário,
minha opinião será sempre a mesma.
GE.Net: Com todo esse sucesso, recebeu muitas
propostas?
Souza: Tem bastante sondagem, meu empresário
me fala bastante, das propostas que existem. Mas o presidente
Juvenal disse que, enquanto ele for o presidente, eu
não sairia. Fico feliz, mas também conto com a colaboração
da diretoria. Meu pensamento é ficar no São Paulo.
GE.Net: Você acredita que terá uma valorização
por parte da diretoria neste final de ano?
Souza: Eu espero que sim. A gente sabe do peso
de uma proposta do exterior. O clube se mantém com isso.
Já falei ao seu Juvenal que não quero sair, espero que
façam alguma coisa para eu ficar.
GE.Net: Se pudesse escolher um país, para onde
iria? E se não desse certo e tivesse que voltar, aceitaria
jogar no Palmeiras ou Corinthians?
Souza: Olha, Itália e Espanha, até para a família,
é mais legal, mais fácil o idioma. Qualquer um dos dois
seria legal. Particularmente, gostaria de voltar para
o São Paulo. O cara que conquista algo em um clube e
volta para outro acaba apagando o que ele deixou. A
gente batalha tanto para conquistar algo em clube grande.
Daqui a dez anos, a torcida do São Paulo nem iria me
cumprimentar. Corinthians e Palmeiras estão fora dos
meus planos.
GE.Net: Você já demonstrou grande vontade em
jogar pela seleção. Mas e a concorrência com o Ronaldinho
Gaúcho e o Kaká?
Souza: Já encarei fome, que é pior. São grandes
jogadores, fenômenos no futebol. Mas para saber se consigo
encarar, preciso de uma oportunidade. Quando for dada,
a gente vai procurar agarrar. Todo mundo dentro do futebol
tem o sonho de estar na seleção, independente de quem
seja titular. Qualquer um, com força de vontade, pode
atingir o que eles atingiram.
GE.Net: Com a saída do Danilo, a badalada camisa
dez do São Paulo pode ficar vaga. Você fez até um brinco
S21, mas assumiria a dez?
Souza: No começo do ano, queriam trocar pela
camisa dois, preferi ficar com a 21. Foi um número que
me trouxe coisas boas desde o ano passado. Por incrível
que pareça foi o Leão que escolheu para mim. Eu já joguei
com a dez, vamos ver. Por enquanto, prefiro a atual.
Hoje nem tem tanto essa badalação pela dez. Vemos tanto
cara com a dez no banco. Eu quero é jogar.
GE.Net: Você falou no Leão, um técnico que
não te deixou saudades, e houve a polêmica com o Carlos
Alberto. Quem teve a razão?
Souza: O Carlos Alberto perdeu a razão. A melhor
resposta para um treinador é mostrar sua qualidade dentro
de campo. Não adianta bater boca. O técnico é a maior
autoridade e precisa ser respeitado. Eu nunca tive problema
assim com o Leão, embora não jogasse com ele.
GE.Net: Três jogadores estão cotados para craque
do Brasileiro, Rogério, Mineiro e você. Qual seria o
seu voto?
Souza: Eu votaria no Mineiro. É falta de ética
votar em mim mesmo.
GE.Net: Mas na última eleição no Brasil, o
presidente Lula pôde votar em si próprio.
Souza: Então eu votaria em mim, sim. Mas será
uma briga boa. O Rogério também é um ídolo do Brasil,
um espelho. Mas eu votaria em mim para coroar essa temporada
perfeita que eu tive, ainda mais se for escolhido o
melhor do Brasileirão.
GE.Net: Você teve uma infância difícil, já
falou várias vezes que passou fome. Qual foi o segredo
para o Souza chegar ao sucesso?
Souza: Devo tudo a Deus, não tem outra coisa
a falar. Foi ele que me capacitou. Estava até falando
com o Bosco, em uma conversa particular, que foi duro
para eu chegar aqui. Todos podem falar que temos carro
bom, somos chamados de playboy. Foi dureza, cheguei
a passar fome, fugi de casa.
GE.Net: Como foi essa história de sair de casa?
Souza: Eu tinha hora para chegar em casa. Era
às 10 da noite. Se chegasse 10h05 da noite, ficava fora.
Mas dos filhos da minha mãe, eu era o que menos dava
trabalho. Tinha arrumado minha primeira namorada, então
acabava excedendo um pouco, ainda mais sendo adolescente.
E a minha família não entendia. Tinha leis e eu pagava
com isso. Dormia na rua ou pedia para dormir na casa
de alguém, mas tudo contribuiu para que eu pudesse ter
boa educação, poder passar algo ao meu filho. Nada na
vida é por acaso.
GE.Net: Todas essas dificuldades foram responsáveis
por te deixar uma pessoa descontraída?
Souza: Com certeza, também nunca fui um cara
de chorar com essas coisas. Ficava magoado, guardava
para mim. A única maneira de extravasar ou transparecer
o que eu passava era fazendo palhaçada, contando piada,
botando apelido nos outros. Puxa, você se vê na situação
de dez anos atrás e agora está estável, poder dar tudo
aos filhos. Estou muito feliz.
GE.Net: Por sua simplicidade, eu acharia curioso
te ver no elenco como do Real Madrid, cheio de estrelas
e com a frieza tradicional do europeu. O que você falaria
ao Beckham, por exemplo, que já foi manchete por usar
a calcinha da mulher?
Souza: No primeiro dia, eu chegava quieto.
Mas, em pouco tempo, eu colocaria um apelidinho nele.
Comigo não tem esse negócio de ambiente frio. Tem cara
aqui no São Paulo que é fechado e brinca comigo. Quando
eu chego, o pessoal se empolga e entra na brincadeira.
De cara, precisaria pensar em um apelido para ele. Mas
eu iria lembrar da história, sim. Para mim, um alagoano,
não pode essa coisa de vestir calcinha (risos).
GE.Net: Toda essa badalação trouxe um assédio
maior nos últimos meses?
Souza: As pessoas tentam se aproximar, mas
sou muito família, caseiro. Vou de casa para o treino,
do treino para a casa. Vou ao cinema. Tenho uma coisa,
meus amigos são meus irmãos. Tenho muita amizade aqui
no São Paulo, mais dois ou três fora que considero.
Mas a gente conhece o futebol, pensam que sou milionário.
Sou cabeça, tranqüilo e sei quem é aproveitador. |